Resenha | Um intelectual em constante transformação, por Henrique Braga

Celso Furtado: trajetória, pensamento e método, livro de Alexandre de Freitas Barbosa (IEB/USP) e Alexandre Macchione Saes (FEA/USP), recém-lançado pela Editora Autêntica, é resenhado por Henrique Braga (UFRRJ) para a BVPS. Em uma abordagem que articula biografia, obra e contexto histórico, os autores traçam o retrato de um intelectual que parte da economia para se debruçar sobre a sociedade e a política, ampliando seu campo de visão para abarcar a cultura, a ecologia e as transformações do sistema internacional, com o objetivo de compreender os dilemas do subdesenvolvimento.

Segundo Braga, o livro propõe uma leitura renovada dos “vários Furtados”, um dos poucos economistas que, diante das transformações do capitalismo global, manteve-se fiel à ideia de que o processo econômico deve estar subordinado à vida social, e não o contrário.

Boa leitura!


Um intelectual em constante transformação

Por Henrique Braga (UFRRJ)

Neste primeiro quarto do século XXI, assistimos, assombrados, a mais um desenvolvimento vertiginoso das forças produtivas do trabalho por meio das tecnologias de “inteligência artificial”, que têm automatizado tanto tarefas propriamente humanas – como a escrita, a leitura e a interpretação – quanto procedimentos industriais complexos. Esse avanço tem conduzido a mais uma perda substantiva de postos de trabalho, estimada em um para cada quatro atualmente existentes (Sakamoto, 2025), sem que haja, no horizonte, a criação de novos empregos em volume equivalente às perdas e no tempo necessário à recolocação da força de trabalho no mercado. Esse processo, contudo, não é novo. A chamada “terceira revolução tecnológica”, iniciada nos anos 1970, já havia produzido efeito semelhante, embora em menor intensidade.

A incorporação das “tecnologias de informação e comunicação” (TIC) aos processos produtivos e financeiros permitiu a interligação de plantas industriais em “rede” ao redor do globo, ao mesmo tempo em que títulos e proteções de crédito relativos a essas operações passaram a circular ininterruptamente durante 24 horas, cinco dias por semana, nos mercados bursáteis. Nesse cenário, os recentes parques industriais erigidos nos países do chamado “terceiro mundo” até o final da década de 1990 tornaram-se obsoletos. O caso brasileiro é exemplar. Enquanto alguns ramos industriais lograram integrar-se à nova ordem global – como o agronegócio, a extração de minério e petróleo, ou ainda a produção de aviões comerciais de pequeno porte –, outros tantos definharam (como o design e a fabricação de computadores, centrais telefônicas, automóveis nacionais, fábricas de cerâmica, têxteis e motores, para ficarmos em alguns exemplos), levando consigo empregos e deixando bolsões de miséria nas principais metrópoles brasileiras, hoje marcadas pela concentração da massa de “seres humanos não rentáveis” (Schwarz, 1992), segundo os critérios da acumulação de capital.

Celso Furtado: trajetória, pensamento e método, livro dos pesquisadores Alexandre de Freitas Barbosa e Alexandre Macchione Saes, publicado pela editora Autêntica como décimo volume da coleção Ensaios, reconstrói a trajetória de um dos poucos economistas brasileiros que, vivendo num período de intensas transformações do capitalismo, preocupou-se com a possibilidade de produzir uma vida social em que as pessoas não fossem tornadas supérfluas pelo processo econômico, mas, ao contrário, em que este estivesse subordinado à vida social. Com uma abordagem renovada da trajetória e da vasta obra de Celso Furtado, resultado de uma ampla pesquisa que abrange mais de cinquenta anos de sua produção intelectual e atuação pública, os autores apostam numa chave interpretativa em que biografia, textos e contextos se articulam de modo a revelar tanto o papel desempenhado pelo economista em momentos centrais da história econômica brasileira quanto a impossibilidade de reduzir esses momentos à sua intervenção individual.

Mais especificamente, o livro oferece uma visão panorâmica dos caminhos trilhados pelo paraibano, que teorizou os impasses da economia brasileira entre as décadas de 1930 e 1950, participou ativamente de seu processo de modernização nos anos 1950 e, mais tarde, criticou esse mesmo processo, intensificado pela ditadura civil-militar (1964-1985). Além disso, os autores destacam, com riqueza de detalhes e rigor analítico, as mudanças nas posições teóricas e políticas do próprio Furtado, sobretudo sua defesa da imposição de limites ao desenvolvimento econômico por meio da discussão sobre as finalidades a que se destinam os recursos – debate sistematicamente evitado nas “ciências econômicas”. Não por acaso, suas intervenções públicas, a partir dos anos 1980, tanto atacaram as políticas econômicas de combate à inflação – que ignoravam a restrição externa e, por conseguinte, promoviam a drenagem de recursos da economia nacional para o exterior, asfixiando o sistema econômico – quanto investigaram a relação entre cultura e desenvolvimento.

Dividido em oito capítulos, o livro inicia com uma apresentação dos anos de formação de Celso Furtado, destacando-se seu ingresso no recém-criado Departamento de Administração do Serviço Público (DASP), onde trabalhou até engajar-se como oficial da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Após a Segunda Guerra Mundial, decidiu realizar um doutorado em Economia na Sorbonne, onde defendeu a tese intitulada “Economia Colonial no Brasil dos Séculos XVI e XVII”, já sinalizando sua predileção pelas discussões posteriores sobre a formação da economia brasileira.

No capítulo seguinte, os autores apresentam o período de trabalho de Furtado junto à Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), que, sob a liderança de Raúl Prebisch, produziu, a partir de 1949, o diagnóstico de que os impasses latino-americanos decorriam das trocas desiguais no comércio internacional entre países periféricos e centrais. Do ponto de vista de sua trajetória intelectual, os autores destacam que esse é o período em que Furtado “se tornou efetivamente um economista”. Mas não qualquer economista: “um economista peculiar que logra trazer para os conceitos dessa ciência a dimensão do tempo e a multiplicidade do real” (Barbosa & Saes, 2025: 53).

Após a experiência na CEPAL, Barbosa e Saes traçam o percurso de Celso Furtado até a publicação de sua obra mais conhecida, Formação Econômica do Brasil (1959), na qual analisa, a partir de uma combinação sui generis entre teoria econômica heterodoxa e dados históricos, o processo de complexificação das relações de produção, distribuição, troca e consumo no espaço econômico brasileiro, bem como os impasses dessas relações. Seu objetivo é oferecer tanto “uma ideia de Brasil em construção” quanto “as bases históricas e teóricas para a defesa do desenvolvimento nacional”. Com isso, Furtado inaugura, como argumentam os autores, uma nova maneira de pensar a economia brasileira, na qual “sua história não é construída a partir da aplicação direta das teorias existentes, cujas premissas reducionistas dificultam o acesso à realidade objetiva que precisa vir à luz”. Na verdade, ao utilizar a ciência econômica como um acervo de perguntas e hipóteses, surge um raciocínio por contraste que, atento à dinâmica local e ao processo histórico, permite a construção de uma “nova variante teórica” (Barbosa & Saes, 2025: 95).

No ano anterior à publicação do livro, Furtado foi convidado a integrar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), de modo que, entre 1958 e 1964, deixa a posição de técnico da CEPAL e assume a de “intelectual estadista”, formulador de políticas públicas. No quarto capítulo, os autores destacam sua luta pela criação e implementação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), no governo Juscelino Kubitschek, e, depois, sua atuação como ministro do Planejamento no governo João Goulart, quando procurou contornar a inflação, implementar as reformas de base e dar continuidade ao esforço de industrialização da economia brasileira.

No caso da Sudene, convém lembrar que Furtado propôs uma abordagem inovadora sobre o Nordeste. Já não se tratava apenas de combater as secas, mas, como mostram os biógrafos, de “criar uma atividade agropecuária adequada às condições ecológicas do semiárido, transformando as políticas públicas e as estruturas sociais. E, em paralelo, de erguer as bases para um projeto de industrialização capaz de aproveitar o excedente de mão de obra e alterar a composição das elites dirigentes, neutralizando assim os grupos oligárquicos” (Barbosa & Saes, 2025: 118). Com isso, Furtado modifica sua posição inicial sobre a questão regional, pois, conforme apontam os autores, já não se trata apenas de integrar a região de forma distinta à economia nacional, mas de constituir o seu próprio desenvolvimento.

Nesse intenso e curto período, Furtado publica A pré-revolução brasileira (1962), livro no qual defende que “o problema central não reside propriamente na economia, que dispõe dos recursos reais ou em potencial para o desenvolvimento, mas nas estruturas sociais e políticas rígidas” (Barbosa & Saes, 2025: 132); e Dialética do desenvolvimento (1964), obra que contrasta com as possibilidades de mudança aventadas no escrito anterior, mostrando que o horizonte para a transformação social estava se fechando – fato que se concretiza em 1º de abril de 1964.

Os dois capítulos seguintes (quinto e sexto) tratam do exílio de Celso Furtado, entre 1964 e 1980, sendo divididos, de forma acertada, pela obra que marca sua crítica à modernização e ao desenvolvimento: O mito do desenvolvimento econômico (1974). Antes desse livro, Furtado já manifestava preocupação com os rumos da economia brasileira, especialmente diante do chamado “milagre econômico”, que proporcionou um rápido crescimento industrial à custa do achatamento salarial durante os primeiros anos da ditadura.

Ao contrário do que esperava o autor, a economia subdesenvolvida não estava fadada à estagnação, mas poderia caminhar para uma situação ainda pior: o desenvolvimento do subdesenvolvimento. Os biógrafos sintetizam o argumento de Furtado nos seguintes termos:

A economia subdesenvolvida… ao fomentar o processo de modernização, produzia uma rápida assimilação do progresso tecnológico no padrão de consumo, mas que somente podia ser disponibilizado para uma parcela restrita da sociedade. O ‘milagre’ brasileiro, para Furtado, era a materialização desse processo: uma rápida industrialização, alicerçada na instalação de empresas transnacionais com elevada intensidade tecnológica, garantindo a uma reduzida parcela da população o acesso aos bens de consumo mais ‘modernos’ do capitalismo (Barbosa & Saes, 2025: 170-171).

E, podemos acrescentar: essa parcela da população será aquela que defenderá com tenacidade, nos decênios seguintes, a mimetização do padrão de consumo dos países centrais, agravando a cisão social presente na sociedade brasileira e interditando a reversão das estruturas do subdesenvolvimento.

Em O mito do desenvolvimento econômico (1974), Furtado reformula suas ideias a partir das reconfigurações do capitalismo global e abre um novo horizonte para a compreensão do problema do desenvolvimento econômico. Impactado pelos prognósticos do relatório do Clube de Roma sobre as mudanças climáticas, o economista aponta que a mimetização do padrão de consumo dos países centrais – em particular dos Estados Unidos – conduziria a um uso de recursos naturais que o planeta não comportaria. Nesse sentido, Furtado propõe que a própria ciência econômica deixe de se pensar como uma doutrina sobre a organização dos meios e passe a questionar os valores que definem as finalidades para as quais os meios estão sendo mobilizados, colocando no centro do debate econômico as estruturas políticas e sociais. A partir desse diagnóstico preciso, o estudo da cultura e seu lugar no desenvolvimento ganha proeminência, como abordam os autores no sétimo capítulo.

Sua volta à cena nacional, na década de 1980, marca seu distanciamento em relação aos pares economistas, pois, como destacam Barbosa e Saes, os economistas continuavam (e continuam, acrescento eu) restritos aos debates próprios e ensimesmados das ciências econômicas. Nesse contexto, a aproximação de Furtado com outros campos das ciências humanas, na busca por uma “formulação teórica” capaz de “conter uma tensão criativa entre o real e os conceitos”, era (e continua a ser) incognoscível para os economistas. Isso o conduziu à produção de uma ciência econômica que articulava “objetividade e imaginação criativa”, constituindo-o, nos termos dos autores, como um “intelectual pós-economista”.

Não por acaso, no governo Sarney (1986-1989), seu nome foi vetado para ocupar qualquer área econômica, sendo-lhe oferecido o recém-criado Ministério da Cultura. Fiel à sua trajetória de “intelectual estadista”, Furtado abraça a tarefa com afinco, procurando organizar órgãos que operavam de forma separada e formular uma política cultural de modo que o poder público pudesse oferecer os meios para liberar as “forças criativas da sociedade” (Furtado apud Barbosa & Saes, 2025: 247). Entretanto, as adversidades da política palaciana fizeram com que ele se desligasse do Ministério da Cultura em 1988.

O último capítulo do livro trata desse período final, no qual Furtado procede à síntese de suas teses e ao balanço de sua trajetória, até seu falecimento em 2004, observando com atenção tanto o processo de globalização, que reduz a autonomia dos Estados nacionais, quanto o avanço tecnológico, que provoca o aumento da exclusão social, com a generalização do desemprego permanente. A partir dessas observações, Furtado se pergunta, na síntese dos autores:

Como caminhar na direção da homogeneização social? Isto é, como erguer um projeto que não deveria prever a uniformização dos padrões de vida, mas a garantia de que os indivíduos pudessem ‘satisfazer suas necessidades de alimentação, vestuário, moradia, acesso à educação, ao lazer e a um mínimo de bens culturais’. Urgia-se resgatar o papel do Estado e do planejamento como instrumentos técnicos e políticos para a formulação dos projetos nacionais adaptados ao novo contexto (Barbosa & Saes, 2025: 262–263).

Entretanto, as condições já se mostravam outras, e os projetos de modernização inclusiva, por assim dizer, estavam fora de moda. O que não significa dizer que não se deva pensar outros modos de organização da vida social, política e econômica que deem conta das necessidades básicas da população brasileira – sendo imperativo “estilhaçar as fronteiras estabelecidas entre as ciências sociais” (Barbosa & Saes, 2025: 9), como fez Furtado que, ao contrário de seus pares economistas, “por meio de duas matrizes de sua formação – a história social dos Annales e o estruturalismo latino-americano – nunca deixou de mediar os aspectos universais da teoria com as especificidades da sociedade brasileira e dos países subdesenvolvidos” (Barbosa & Saes, 2025: 288).

Reconstruindo os “vários Furtados” que se forjaram ao longo do breve século XX, Celso Furtado: trajetória, pensamento e método é um convite a conhecer o pensamento e as transformações de um intelectual que foi um dos nomes mais influentes do pensamento econômico brasileiro e latino-americano e que, apesar do crescimento das pesquisas acadêmicas a seu respeito, tem sido pouco lembrado – mesmo (ou sobretudo) entre os economistas. Recordo, em particular, que os estudantes brasileiros de Economia pouco ou nada estudam sobre e de Celso Furtado, cuja leitura do Brasil continua tendo muito a nos dizer. Há um longo caminho a ser percorrido na reconstrução do próprio saber sobre a dimensão “econômica” da vida social, especialmente diante da sistemática redução desse pensamento às técnicas de gerenciamento do existente (Braga, 2023). Esse movimento tem interditado a formação de economistas e cientistas sociais capazes de intervir na política com “teoria e história”, oferecendo uma “interpretação com proposta de ação” (Barbosa & Saes, 2025: 9) que, quem sabe, nos anime à construção de outra vida social.

Referências

BARBOSA, Alexandre de Freitas & SAES, Alexandre Macchione. (2025). Celso Furtado: trajetória, pensamento e método. Belo Horizonte: Editora Autêntica.

BRAGA, Henrique P. (2023). Conhecimento Prático-Operatório. A terra é redonda. 23 abr. 2023.

SAKAMOTO, Leonardo. (2025). Um em cada 4 empregos corre risco por causa da IA. Veja como está o seu. UOL, 20 maio 2025.

SCHWARZ, Roberto. (1992). Um livro audacioso. In: KURZ, Robert. O colapso da modernização. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 7-12.