Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Maceió (9 de dezembro)

Ah… Maceió! Mário de Andrade escreve uma celebração sensorial desta especial capital. Sua tão aguardada chegada é quase uma suspensão do tempo. Já não suportava mais o marasmo do navio. Agora ele é levado, não guia; vê tudo em movimento, tudo à flor do corpo: o verde do mar, o nadador, a arquitetura mansa. A cidade ainda é quase desconhecida, sim, mas já o atravessa em ritmo de festa. E nesse estopim, Mário mostra como se faz para deixar um lugar se aconchegar no espírito, de peito aberto.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não deixe de conferir novo texto de Lilia Schwarcz para a série! Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Maceió (9 de dezembro)

Café Colombo, Rua do Comercio, Maceió, início do século XX. Fotografia: Arquivo Acervo Público Municipal

No longe estão os trapiches compridos chamando, são apenas cinco horas e Maceió já está inteirinha acordada de Sol. O mar tem uma riqueza de verde, maior que Copacabana. E então quando vistos de terra os verdes seccionam-se retos com essa liberdade plastica da natureza que os pintores della têm vergonha de imitar por quê… não é natural.

Um nadador aproveita o domingo, vem lá da práia longe bordejar o navio. O corpo dele é um jacarandá claro movendo por debaixo dagua com a volupia cinematica dum rallenti. Como é bonita a raça humana!

Depois do ajuntamento dos trapiches impertinentes, chamando que mais chamando, Maceió se estende prá esquerda numa fila de casas praieiras. Uma procissão de casas que a velhice já tornou boas. No meio delas o mal chama a atenção, como sempre… É uma creio que Associação Comercial em grego, absolutamente intraduzivel. Mais pra diante surge outra boniteza, uma especie de casa enfeitada, com ar de rica, onde mora naturalmente algum senhor, a familia dele e um zimborio. É uma pena.

Não tive tempo no passeio pra examinar a arquitetura da cidade. Me pareceu comum porêm sincera. Distingue-se muito, no meio dela, pela graça discreta, a ausencia de empetecamento e um corpo manso, bem equilibrado, a casa nova de Jorge de Lima, poeta da “Negra Fulô”. “Negra Fulô”, Jorge de Lima, a casa dele, o amigo nosso Lins do Rego, ponche de maracujá, o sururú das alagoas, são tezouros de Maceió.

No fim da viagem inda passarei uns dias aqui, hei de contar milhor como é Maceió por dentro. Hoje quasi que não vi nada. Fui levado no embalanço dos amigos, por praias, no gradeado dos coqueiros, por morretes colhendo sururú na aba das alagoas, por estradas de rodagem mansas, que não chamam atenção… Fui levado num ritmo dançado de lembranças, de conversas, de olhar feliz deslisando pela boniteza dominical daqueles lugares sem nome inda pra mim…

– Como se chama aqui?

– É Fernão velho.

Tem feira de domingo em Fernão Velho. O pessoal se espraia na areia clara vendendo coisinhas mansas, cornimboques, ceramicas recemnascidas, frutas, e os guaiamuns do azul mais lindo que jamais não vi. Um azul sem céu, feito de varios azuis, azuis humanos, natureza-morta, aliás viva, pra desgraçar o milhor colorista. Em de mais longe, pessoal que veio talvez da banda de lá da alagoas, desce dos cavalinhos de presepe, vai comprar. Maceió é terra de moça bonita. Passam algumas dum sabor popular que sai fôgo, alargando o criterio da feira até o amor.

E está chegando o tempo de festar. Junto de arvores negros de sol, com paus e barro estão esculpindo uma barraça de altomar. Aí dançarão cantando o fado eterno da Nau Catarineta, é a Chegança… – Sobe, sobe, meu gageiro… E a caboclada brasileira ha-de repisar mais uma feita sem consciencia de heranças, brasileira como alagoana, aqueles portugas do fastigio que pra voltar das aventuras passa ano e mais ano buscando terra de Espanha, areias de Portugal…

Tudo isso enche meu peito que nem posso respirar.

MÁRIO DE ANDRADE