Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Great Western (13 de dezembro)

De trem, Mário de Andrade percorre terras nordestinas como quem atravessa o tempo. A viagem de Recife a Guarabira (PB) leva onze horas. A cada parada, o Brasil se transforma um pouco: a fala, a vegetação, a poeira. Comparações com São Paulo são inevitáveis. Mas há também algo de singular no que, para ele, toma agora a forma de novidade. Atento ao que escasseia e ao que transborda, Mário compõe a imagem de um Brasil vasto demais para caber em qualquer lugar que não em sua escrita. E mesmo cansado, suado, coberto de estrada, anota: há beleza no desgaste.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não deixe de conferir novo texto de Lilia Schwarcz para a série! Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Great Western (13 de dezembro)

A estação de Guarabira. Fotografia: Acervo da Prefeitura de Guarabira

Podem falar o que quiserem desta Great Western of Brasil (com s) Railway Company Limited, porêm o certo é que ela anda no horario. Fiz hoje de Recife a Guarabira, viagem de 11 horas quentes, no principio divertido, depois vendo sem pensar, depois interessado outra vez quando a fresca da tardinha me renovou.

Parte-se na hora, já falei, e logo o trem cai nessa especie de acampamento de cigano que são as zonas dos mucambos. E quando Recife se acaba principia uma terra neutra. Os proprios coqueiros afinal, rareados por aqui, não caracterisam a vista passando. Isolados assim êles perdem a fisionomia mais eficiente deles que é o alarme faceiro do conjunto. A paisagem chega a ficar paulista por completo. Quasi… Matinhos episodicos como a virtude, trepando em morretes e coxilhas domesticas, algumas culturas pequenas de cana e macaxeira… Mesmo quando se esparrama o primeiro canavial: é São Paulo, a gente inda fala. Porêm a associação-de-ideias torna a paisagem incompatível com S. Paulo no sufragante. Canaviais… Engenhos… A idea do engenho apaga S. Paulo duma vez. S. Paulo tambem possui um ou outro engenho, como dois cochin-chineses, porêm tudo isso em nossa fisionomia é que nem um corte leve de gillette, não caracterisa nada.

E de fato a imagem aiva dum engenho substitui a idea do mesmo, e estamos no nordeste. Poeira. Toneladas de poeira clara, menos feroz por isso que a da rodovia de Itú.

O trem para mais uma feita. As paradas são numerosissimas, toda a viagem. Gente que sai, gente que entra, uma gritaria! Nordestino, em geral, não só fala cantado, como dá concêrto. Estudo as conversas, sem interesse, com paciencia, porquê elas não falam nada. Pau d’Alho surge revertida á Colonia por causa das muitas igrejas Na rua principal avança lento um boi puxando um carro de agua. A ideia da sêca ensscena a minha impressão a principio vendo tudo sêco. De fato ha muita pouca presença de agua, as vistas passam desprovidas de gado, só canaviais amarelentos e, nem bem Timbau’ba passa, algodoais, algodoais sem imponencia. Si por aqui a sêca não é forte, ela existe porêm… Depois de Pilar, junto duma aguinha no fundo, descubro afinal uma ponta de gado. Minha alegria foi tamanha! Mas falta gado mesmo por aqui… Que poeira! Os passageiros, é raro nordestino sossegado, se movem, quasi todos bancando fantasmas, com enormes guardapós, justificaveis e coloniais, com perdão do exagêro.

Estamos para chegar na baldeação de Entroncamento. Bordeja-se, e me alarma, a carcassa dum rio, em cujos ossos no fundo, junto do gole de agua os verdinhos, cavalos, uma vaca, se assanham feito urubú.

Me esqueci de contar que já estamos na Paraíba. O xique-xique frequenta abundantemente a panelinha do vagão e aumenta a impressão de sêca, arrogante, brigando com ela. E os marmeleiros. Morros e morros eriçados de aranhas desfolhadas, desgalhadas, só ramos fininhos espetados, duma cor branca cinzada, quasi branca… Caatinga!… Um dos maiores prazeres da fadiga rodoviaria é mesmo êsse estado associativo em que a gente fica.

A estrada piora visivelmente por causa da fadiga. Este trem-de-terro é insuportavel! Se tem aziais de polvadeira. O habitante, é certo que na Paraiba ficou mais feioso. Os homens, é extraordinario, desde madrugada, todos sentados, encostados no galpão das casinholas de taipa: os homens agora são mais magros, sem aqueles muques bronzeados de pernambucano…

Agora estou em Guarabira, depois do banho, jantado, esperando Richard Diz, ás vinte e 30 no “Caixeiro Viajante”.

MÁRIO DE ANDRADE