
Agraciada com o Prêmio Florestan Fernandes da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) em 2025, Elide Rugai Bastos (Unicamp) publica um livro sobre a sociologia crítica do mestre e inaugura uma nova compreensão sobre a produção e a reprodução das desigualdades sociais no Brasil.
Confira abaixo a saudação ao livro feita por André Botelho (UFRJ).
A máquina das desigualdades. Florestan Fernandes interpreta o Brasil está em pré-venda no site da Editora Vozes, acesse clicando aqui.
A convivência humana por longos anos traz uma novidade à leitura que é feita na idade madura. A máquina das desigualdades. Florestan Fernandes interpreta o Brasil, que acaba de ser publicado pela Editora Vozes, tem essa originalidade. Elide Rugai Bastos, sua autora, Professora Emérita da Unicamp, tem analisado há décadas a obra do grande sociólogo, com quem também teve a oportunidade de conviver pessoalmente, como colega de trabalho na PUC-SP, instituição que o abrigou após sua cassação da Universidade de São Paulo (USP) em 1968.
Nos 50 anos de A revolução burguesa no Brasil, Florestan Fernandes ganha uma interpretação de conjunto de sua obra que faz justiça à sua grandeza. A perspectiva sociológica empregada pela autora – contextualizando as ideias de Florestan de modo complexo em seu tempo para perscrutar sua dimensão teórica original – dá ao livro uma atualidade instigante. Certamente, para isso, terá concorrido também a formação de gerações de sociólogos e sociólogas a que Elide tem se dedicado e o diálogo criativo cultivado por ela em torno de Florestan em todos esses anos. Colocando Florestan Fernandes em cena dessa maneira dialogada, o livro oferece igualmente uma visão de conjunto e integrada de uma das sociedades simultaneamente mais dinâmicas e excludentes, profundamente marcada por desigualdades duradouras sempre reproduzidas nas condutas de atores, grupos, classes e instituições sociais.
Um enigma sociológico e uma tragédia social que exigiram muita coragem – de Florestan Fernandes, para construir seu pensamento crítico, e de Elide Rugai Bastos, para nos apresentá-lo e discuti-lo em suas características mais importantes e também atuais. Uma compreensão de uma sociedade periférica e dependente, sem dúvida, mas, mais do que isso, a compreensão da reprodução social sob o capitalismo global e da crítica sociológica mais avançada que dela se tem feito.
O livro reúne textos publicados originalmente em diferentes momentos, que foram bastante retrabalhados agora, além de outros inéditos. Assim, o conjunto que formam é novo e não se reduz às partes; antes, são estas que ganham sentido no todo – ainda que os capítulos possam ser lidos em diferentes roteiros, de acordo com a curiosidade e o interesse imediato do leitor e da leitora. A máquina das desigualdades e as tramas finas de sua reprodução na vida social brasileira, trabalhadas na obra de Florestan Fernandes, são examinadas em três partes intimamente intrincadas: “Teoria e metodologia”, em que Elide evidencia a construção da sociologia de Florestan; “Questão racial e modernização”, em que os temas substantivos da interpretação da sociedade brasileira dele são discutidos; e “Uma tradição sociológica”, na qual a autora mostra onde e como os princípios da sociologia de Florestan estão vivos, fomentando direta e indiretamente o debate sociológico contemporâneo – e não meramente como parte de uma história longínqua das ciências sociais.
“Brasil, mostra tua cara / Quero ver quem paga / Pra gente ficar assim” cantava o brado mais afiado dos anos 1980. Brasileiros e brasileiras voltam a entoar a canção de Cazuza na terceira década do século XXI, quando a democracia já não parece um consenso público e político nem aos mais otimistas. Leitores e leitoras de A máquina das desigualdades ganhamos perspectiva, repertório e fôlego intelectual para compreender o processo sinuoso que esconde a abjeta desigualdade social do presente.
Agraciada com o Prêmio Florestan Fernandes da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) neste ano de 2025, Elide Rugai Bastos nos devolve a homenagem entregando um livro que torna maior a sociologia brasileira. Muito obrigado, Elide!
André Botelho, professor titular de Sociologia da UFRJ e vice-coordenador do INCT/CNPq Instituto Igualdade e Aprendizado Social.
