
Revisão do pensamento conservador II: Ideias e política no Brasil é o novo lançamento da Coleção Pensamento Político e Social da Hucitec. Quinze anos depois da publicação do primeiro volume – que ganha agora uma reedição –, o segundo volume amplia e aprofunda o debate sobre as permanências, atualizações e metamorfoses do conservadorismo no Brasil.
Organizado por Gabriela Nunes Ferreira (Unifesp) e André Botelho (UFRJ), a coletânea reúne 14 textos de pesquisadores de diferentes gerações que exploram a vitalidade reativa e criativa do pensamento conservador, examinando suas múltiplas expressões políticas, culturais e institucionais.
O lançamento ocorrerá na próxima semana, durante a programação do 49º Encontro Anual da Anpocs.
Confira abaixo um booktrailer especial para o lançamento, feito por João Mello, o sumário e a apresentação dos organizadores.
Booktrailer de Revisão do pensamento conservador II: Ideias e política no Brasil
Sumário
Apresentação
Primeira parte: Passado que não passa, passa?
1. Autores brasileiros e o pensamento conservador – Elide Rugai Bastos
2. Uma teoria contra a teoria: o conservadorismo – Bernardo Ricupero
3. Problemas no paraíso: Joaquim Nabuco e o catolicismo – Lucas van Hombeeck
4. Com que elites? Há 100 anos os anos 1920 brasileiros – André Botelho
5. Caminhos para uma revolução reacionária: o fascismo e a direita católica nos anos 1930 – Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro
6. O conceito do político em Raízes do Brasil – Luiz Feldman
7. Por uma crítica não reacionária da modernidade: Guerreiro Ramos, leitor de Eric Voegelin – Christian Edward Cyril Lynch
Segunda Parte: Conservadorismo, conservadorismos
8. A ética violenta e o “espírito” do personalismo – Maurício Hoelz
9. Golbery e a Escola Superior de Guerra: a criação da Doutrina de Segurança Nacional no Brasil – Maria Fernanda Lombardi Fernandes
10. Uma obra entre o reacionarismo e o conservadorismo: o pensamento de Olavo de Carvalho – Jorge Chaloub
11. Cruzadas Morais na Esfera Pública Digital – Richard Miskolci
12. Conservadorismo e semântica social: intérpretes e temas do pensamento social como seletores de sentido – Antonio Brasil Jr. e Lucas Carvalho
13. Três estilos de dominação – Alcida Rita Ramos
14. A moda como metáfora do contemporâneo – Silviano Santiago
Apresentação
Quando lançamos Revisão do pensamento conservador, em 2010, parecíamos um grupo de especialistas obstinados com o passado da sociedade brasileira, remexendo numa vertente residual do seu pensamento social e político. Afinal, vivíamos anos de crença, primeiro, em que a democracia estaria consolidada como um valor universal, segundo, que a nossa frente se abria um tempo prometido apenas de aperfeiçoamento contínuo e progressista da própria democracia, ampliando, incluindo, reconhecendo diversidades etc. A crença nesse futuro se evanesceu, mesmo entre os mais otimistas. As espirais da democracia no Brasil e no mundo desvelam a autocracia estruturada e estruturante que vivia à sombra. Há mesmo quem considere que a polarização ideológica e eleitoral que passou a ser regra nos últimos anos seja uma cortina de fumaça, disfarçando a quebra definitiva com a ordem liberal pós-guerra: o conflito que nos divide, já não nos junta em torno da democracia. Correntes de opinião, pronunciamentos de políticos e estadistas e políticas públicas romperam o até então aparente consenso em torno da democracia.
O conservadorismo, difícil, criativo, problemático e muitas vezes acompanhado também de desfaçatez, reemergiu e ganhou a cena pública brasileira novamente e cada vez mais mundialmente. Retrocessos efetivos e ameaças às conquistas de minorias, por exemplo, estão sob ataque em nome de princípios morais e sociais velhos conhecidos do pensamento brasileiro, como a família, a ordem, a religião. Cientistas sociais vivemos essa contradição permanentemente: o que, do ponto de vista social e político, pode ser até mesmo uma tragédia, guarda sempre segredos potencialmente fascinantes e desafiadores do ponto de vista sociológico. O fato, porém, é que a crise da democracia, o avanço do autoritarismo e o retorno do conservadorismo recalcado como espécie de cimento a rejuntar cacos na montagem de um novo monstro que esvazia a esfera pública representou um susto para todos nós, dado o otimismo em que vivíamos até recentemente. É claro que o impacto dos fatos foi sentido diferentemente.
Para quem, como nós, cientistas sociais especialistas no pensamento conservador, pensamos a longevidade de certas proposições políticas e sociais, seu cultivo no âmbito da sociedade e do Estado e, principalmente, seus efeitos de média e longa duração o susto houve, mas não foi tão surpreendente. Fica a lição sobre a importância de lidar com as interpretações do Brasil como uma espécie de comunicação entre temporalidades diferentes, passado, futuro, presente da sociedade brasileira. O que nos permite avaliar continuidades, mudanças e inovações institucionais que, na verdade, nunca ocorrem num vazio de relações sociais.
Queremos, com o segundo volume de Revisão do pensamento conservador, oferecer ao público leitor uma ampliação e aprofundamento em termos de temas, de temporalidades e de questões da agenda do pensamento social e político brasileiro. Como pessoas civis, talvez, até preferíssemos, quem sabe, discutir outros assuntos, mas o conservadorismo brasileiro teima, de tão presente na nossa formação social, está sempre à espreita, e em alguns momentos dá o bote e ganha vigência aberta na sociedade e na política. Se já o perscrutávamos antes, quando o então presente parecia rumar noutra direção, o que poderíamos fazer no presente atual, quando ele pauta a cultura política e a instrumentalização das instituições políticas? Ganham leitoras e leitores com ensaios afiados que buscam deslindar fios que embaralham nossa temporalidade social e desvendar os segredos do pensamento conservador. Ganhamos todos com os repertórios temáticos e analíticos precisos que autoras e autores aqui reunidos nos oferecem. A elas e eles nossos melhores agradecimentos.
– Gabriela Nunes Ferreira & André Botelho
