Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Natal (21 de dezembro, 16 horas)

Mário de Andrade faz do caju um objeto de reflexão. Pseudofruto saboroso, de se comer aos bocados e, quando melhor, acompanhado de um golpe de aguardente, que o rebate e o diviniza. Mário observa, entretanto, que a alimentação do caju não se restringe ao universo dos prazeres, e bem por isso, o modernista sugere uma singular “conceitualidade marxista do caju”, no qual comê-lo é participar de uma troca. Não deixe de conferir.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não perca novo texto de Lilia Schwarcz para a série! Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Natal (21 de dezembro, 16 horas)

Como, ou si quizerem, chupo cajús. Devoro dunas e dunas de cajús. Outras feitas são taboleiros que venço, taboleiros de talhadas de abacaxis, vindos do municipio de Penha, e tão sublimes como os pernambucanos.  

As mangas não achei milhores que as paulistas não. A unica diferença é que são mais uniformes na gostosura, sempre boas e maduram não enfeiando. Principalmente as mangas-rosas, a fruta mais bonita dêste mundo. Depois de comer duas pela manhã, um pedaço do queijo-manteiga assado e a chicara de café mais uma fatia de pão embebido em leite-de-côco, o dia começa tão satisfeito que nem um pitiguarí cantando. É a hora em que esqueço as saudades do sul, vindas com o vagar da noite. Depois, está claro: é o dia, tempo não dá prá que o sul da minha personalidade se impregne de tristura. Desaparece. Isto é, desaparece não: fica na frente do viajante, trampolim pros saltos e fraturas da surpreza.  

Mas agora de tardinha o cajú se prefere por si mesmo. Não só de tarde aliás… Até a hora classica do cajú é no banho do rio onde a nodoa não é possível. Porêm o que me parece imprescindivel mesmo é o golpe de caninha para rebater. Rebate e divinisa o… passado cajú, classificando-o, dando, me desculpem, uma concepção marxista da historia do cajú. Porquê a alimentação cajú é conceitualmente um processo de Economia. Fisicamente é um comercio, oferta e procura, compra, venda. O cajú é doce, é alimenticio, medicinal e possui o gôsto cajú, coisa indescritivel e unicamente compreendida por quem conhece o cajú de vias-de-fato. E é justamente na sensação de vias-de-fato do cajú  que está a conceitualidade marxista dele. Abacaxi, manga, abricô, pinha, maracujá, sapota, grumixama, etc. no geral todas as frutas são muito dadas. Se entregam por demais. Cajú não. O prazer singular dele está na especie de interfagia, me desculpem, de entrecomilança, especifico do gôsto dele. Ele morde a boca da gente, vai nos devorando por dentro, diminui a suficiencia indualista do ser. Se dá uma verdadeira troca de posses pessoais. O caju’ é bom, não tem dúvida mas a bondade dele porêm não é caridosa não: exige pelo que oferece não apenas um “muito obrigado” não, é a caridade comercial: compre o chapeu e pague. E até a inhapa, a gorgeta, a gente é que dá pro cajú: nodoa de cajú. 

E ainda, insistindo na conceitualidade marxista do cajú, está claro que as tendencias de meu tempo me levam a desimportar-me cada vez mais com a inutilidade individual. Mesmo depois de comprado o chapeu, franqueza: a consciencia da posse dele a meu ver não passa duma auto-sugestão. Destrui-lo, por exemplo, seria um acto setecentista, monarquico e até republicano, isto é, inaceitavel. Do mesmo geito me parece medonho matutar que alguem seja capaz de chupar um cajú, imaginando que está recebendo sem pagar. Isso era uma especie de autoantropofagia que repugna á minha sensibilidade, exacerbada e fortalecida pelos feitos gloriosos do nosso tempo.  

Pois o golpe de aguardente é o sêlo que sossega, evitando exigencias futuras, as tranzações entre o cajú e o ser humano.

MÁRIO DE ANDRADE