Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Natal (22 de dezembro)

Mario de Andrade declara que manifestações de arte popular não são seu único interesse de viagem, e assim escreve uma crônica sobre religiões de matriz afro-indígena. Passeia pelas diferenças da macumba, pagelança e catimbó; descreve santos, mestres e as distintas influências de origem religiosa, que variam de estado para estado no Norte e Nordeste; e, como de costume, ainda encontra espaço para a já conhecida ironia crítica do turista aprendiz.  

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Natal (22 de dezembro)

Cerimônia do catimbó. Fotografia: Luis Saia, 19/5/1938.

Agora vou fazendo algumas communicações sobre a feitiçaria daqui. Estes meus dias estão vendo pouca novidade e tenho trabucado bastante, colhendo melodias, versos e outras assim eles passam. Vim pro nordeste não foi só passear não e manifestações de arte popular. Vivo numa sala com os meus homens. 

A feitiçaria brasileira não é uniforme não. Até o nome das manifestações dela muda bem dum lugar pra outro. Do Rio de Janeiro prá Bahia impera a designação “macumba”. As sessões são chamadas de macumbas e os feiticeiros e demais assistentes, ás vezes, são os “macumbeiros”. Os feiticeiros, “pais de terreiro”, realisam as macumbas e invocam os santos, etc.  

Já no norte as sessões são “pagelanças” e é frequentíssima a palavra “pagé” designando o pai-de-terreiro, assim como o santo invocado.  

Se vê logo as zonas onde actuaram as influências dominantes dos africanos e dos amerindios. Do Rio até a Bahia, negros; no norte os amerindios. Os deuses, os santos das macumbas são todos quasi de proveniencia africana. No Pará quase todos saidos da religiosidade amerindia. 

O nordeste, de Pernambuco ao Rio Grande do Norte pelo menos, é a zona em que essas influências raciais misturam. Palavras, deuses, práticas se trançam. Em Pernambuco inda a influência negra é fortissima. Aqui no Rio Grande do Norte quasi nula.  

A feitiçaria, o feitiço, o feiticeiro, as sessões, aceitam o designativo generico de “catimbó”. Tambem o chefe das sessões ou “mestre” é chamado de “catimboseiro”. Em Pernambuco os deuses africanos aparecem: Xangô, Ochosse, Exú etc. Aqui no Rio Grande do Norte eram totalmente ignorados pelo menos por dois catimboseiros que consultei. E ambos eram “mestres” sarados no assunto, absolutamente concordantes nas informações. A reminiscencia africana na catimbosice dêstes era pobrissima, se resumindo ao culto de poucos feiticeiros negros já “desmaterialisados”. “Desmaterialisar” está claro, é morrer. Cultuam, por exemplo, o mestre Pai Joaquim, negro velho “da India”, que aparece nos catimbós sempre dançando. É um mestre muito alegre, feiticeiro danado, gostando de fazer o que não presta. Trabalha com uma agulha enfeitiçada nos olhos do morcego. Pai Joaquim é autor da famosa “Oração da Cabra Preta”, que meus dois catimboseiros se recusaram absolutamente a me dar. Espero no tempo e no…“bordó” (dinheiro) que a conseguirei. Nos catimbós norte-rio-grandenses, dinheiro é sempre chamado de “​​boró”, delicadeza que encobre religiosamente as ganancias.  

Outro santo, africano tambem, é Mestre Malunguinho, malevolo, porêm muito util pros mestres de sessão pois quando desce gosta muito de beber. A bebida usual nos catimbós do norte é o “cauím” porêm como não existe por aqui, é substituido pela aguardente. Malunguinho é tão cuera que chega a tomar mais duma garrafa de aguardente. E então fica que fica feiticeirissimo. Trabalha arrastando a cabeça no chão e só pratica o mal. Serviço dele outro espirito não desmancha não. Manda enterrar sapos-cururús na porta de quem a gente quer desgraçar e outras coisas temiveis. Espirito atrasado, vive nos mundos inferiores e no​​geral não é invocado. 

MÁRIO DE ANDRADE