
Beatriz Bracher é a grande vencedora do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional 2025, pelo romance Guerra – I. Ofensiva paraguaia e reação aliada – novembro de 1864 a março de 1866, publicado pela Editora 34. Um conto escrito pela autora enquanto realizava a pesquisa para o livro foi publicado na Ocupação Mulheres em 2024 e o romance foi resenhado, no início deste ano, por Wander Melo Miranda – texto que reproduzimos a seguir.
Silviano Santiago recebeu o segundo lugar no Prêmio Mário de Andrade de Ensaio Literário com O grande relógio: a que hora o mundo recomeça – Caderno em andamento 1, da Editora Nós. A continuidade do ensaio de Silviano vem sendo publicada em folhetins aqui no blog ao longo do ano.
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A guerra em nós
Por Wander Melo Miranda (UFMG)
Literatura não é documento, mesmo ou sobretudo se faz dele sua razão de existir enquanto objeto artístico de excepcional nível de realização. É o caso do romance Guerra – I, de Beatriz Bracher, primeiro volume de uma trilogia que será finalizada nos próximos dois anos e que cobre o período de 1866 a 1870. Desde o subtítulo inaugural (Ofensiva paraguaia e reação aliada – novembro de 1864 a março de 1866), que demarca a duração dos fatos narrados, a narrativa dá um sentido mais rigoroso, e por isso mais abrangente, a uma forma peculiar de romance histórico. Essa abordagem adquire uma força de persuasão literária que parecia ter desaparecido em textos do gênero, e se mostra, então, plena de atualidade: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes”, diz a epígrafe de Drummond.
Pesquisa exaustiva, abrangência na escolha do material pesquisado, acerto na seleção dos trechos a serem utilizados e apuro no seu encadeamento narrativo por meio da colagem impedem que a grande massa de informações mobilizadas reduza o texto a um amontoado de citações aleatórias e inverossímeis. Realiza, assim, sua inserção num novo regime de escrita e leitura que convoca essas informações e com as quais firma um pacto de leitura específico. Trata-se de um pacto no qual a verossimilhança está a serviço da verdade, “que apenas a ficção é capaz de revelar”, como esclarece a autora ao final das “Notas” que abrem o livro, a respeito de sua (im)propriedade autoral: “São minhas as palavras das dedicatórias, dos agradecimentos, destas notas e resumos dos capítulos e subcapítulos. / Nenhuma outra palavra é minha.”
A articulação dos textos apropriados simula a forma narrativa fragmentada dos meios digitais contemporâneos sem autoria, ou os que afirmam a sua múltipla identidade. É como se zapeasse um catálogo de imagens textuais disponíveis para o leitor. Este se torna, por meio desse movimento – não sem alta carga de ironia – um “espectador emancipado” (Jacques Rancière) do “teatro de operações”, do qual passa a fazer parte como combatentes que, ao mesmo tempo, atuam e refletem sobre o que estão vivenciando: “Guerra é um livro de romancista e, acima de tudo, de leitora” dos mais diversos registros textuais a que teve acesso. Mas, “como todo romance, não é confiável”, alerta, chamando a atenção para a especificidade das verdades de que são feitas as obras de arte – ou para a verdade apreendida pelo leitor, “qualquer que seja ela”.
Um resumo do que trata cada capítulo, à maneira de romances antigos de aventura, orienta o leitor para o que está por vir. Ou seja, desvela uma descoberta paulatina do Brasil “até então desconhecido”, que deu aos brasileiros, pela primeira vez, uma ideia mais nítida de nação: “O sentimento de estar perdido, ou não completamente achado, faz parte da história” de uma guerra – “começada sem plano e feita na maior desordem”, na opinião do engenheiro André Rebouças, presente no front. Segundo Wilhelm Hoffmann, correspondente de um jornal da Colônia Dona Francisca, hoje Joinville: “Isso não é uma guerra, mas um teatro de comédia”; ou, ainda, em carta de Canabarro a Caldwell: “Tínhamos cavalaria, sem instrução, indisciplinada, armada em parte, e montada em maus cavalos”. Em meio a pontos de vista dessa natureza, às vezes um comentário ligeiro reveste a narrativa de uma graça imprevista, como na observação do Cônego Gay na retirada de São Borja, quando alcança “duas índias que carregavam cada uma um gato no regaço com tanto carinho como se esses bichos fossem seus filhos”.
O uso de relatos pessoais, muitas vezes na forma de diário, faz do dado mais íntimo parte decisiva da guerra, num movimento de introspecção que confere à palavra escrita distintas perspectivas de pertencimento, compartilhado por combatentes das diferentes regiões do país. Como exemplo, ressalte-se a 1ª Companhia de Zuavos Baianos, na opinião do Conde d’Eu “a mais linda tropa” do exército brasileiro, composta “unicamente de negros”. Nas palavras do cadete Dionísio Cerqueira, a “Bahia foi, entre as irmãs, a que deu para guerra maior número de voluntários”, opinião que o general Osório por certo não compartilhava, pois dissolveu o grupo “só de negros” e esqueceu os feitos heroicos de um afrodescendente do nível de Henrique Dias, mestre de campo na luta contra os holandeses no século XVII. Por sinal, o Conde d’Eu parece ter sido o mais aberto à diferença que o outro representava, incluindo os parceiros hispano-americanos, em geral tidos na Corte, no Rio de Janeiro, como pouco civilizados, embora pessoas “corteses e trajadas com elegância”, nas suas palavras.
A predominância da visão intimista da guerra, não muito comum em romances que tratam do tema, à exceção do clássico Guerra e paz (1869), de Tolstói, amplia, por um efeito paradoxal próprio à literatura, o horizonte de expectativa do leitor e seu campo de visão do “teatro da guerra”. Para tanto contribui mais o combatente anônimo, geralmente mal preparado ou sem formação militar específica – como os “Voluntários da Pátria” – do que os heróis consagrados pela história oficial, muitas vezes objeto de derrisão em virtude do espaço que ocupam no texto e sua função narrativa. É o que ocorre com o almirante Tamandaré, que, diante “da menor transgressão das formalidades de bordo […] incorria em deploráveis desvios de correção militar, ou praticava excessos de autoridade”, na visão de seu secretário e ajudante de ordens.
Essa concepção descentralizada e desconstrutora que os subcapítulos “os dias” fazem ressaltar, ora pende para a abordagem dos feitos militares no que têm de mais rotineiro, ora para suas consequências no dia a dia dos habitantes e combatentes da região dos conflitos, como os obstáculos que a natureza obriga a enfrentar, a exemplo dos “rigores do inverno excepcionalmente frio de 1865” para os nortistas brasileiros. Sem falar, é claro, dos “horrores que a pena se recusa a escrever e a moral manda calar”, segundo a entrada do diário de Jorge Maia de 5-1-1865; ou dos “hospitais regurgitando de enfermos de moléstias infecciosas, os campos cheios de cadáveres, mal sepultados, nas trincheiras cavalos mortos, e em avançada putrefação”, conforme o dr. Xavier Azevedo – baixas por moléstia chegavam a “cinco mil homens” em 12 de outubro de 1865, segundo Bernardino Bormann. E, ainda, em novembro do mesmo ano, às margens do rio Paraná, a visão assombrosa de “crianças inermes com alguns meses de nascidas, mortas e degoladas a par dos cadáveres de seus pais, irmãos e irmãs!”, diz Azevedo Pimentel.
Um texto de Alfred Taunay, “Formica Leo”, nome de um inseto comum naquela região, funciona como uma sorte de fábula que parece sintetizar a narrativa maior em que se insere. Em pormenores, o autor descreve o trabalho paciente e minucioso da formica leo para construir um modo de atrair outros insetos dos quais se alimenta, até vencê-los: “segurando o cadáver com as mandíbulas, o sacode fora, ou, quando pesado demais, o arrasta para longe”.
Fruto do trabalho paciente e desbravador como o do inseto, o livro cumpre seu papel agenciador de significados, abrindo novas perspectivas de significação a partir do desdobramento da autora em várias personagens. Como vemos na epígrafe de Graciliano Ramos às “Notas”: “Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se as personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só”.
Atravessado pela multiplicidade de vozes que o constituem – “trechos de livros de história, cartas, diários, ofícios, memórias, artigos de jornal, ordens do dia e relatórios” –, no campo de batalha que é o romance, o assombro é sua “matéria vertente”, diria Guimarães Rosa. Dessa batalha que nós, leitores, somos levados a travar – apenas na leitura? –, nada há a “defender ou provar”, insiste Bracher, uma vez que a “verdade, no romance, não tem a ver com a realidade; a verdade é sempre seu objetivo final”. Nesse sentido, a verdade que o romance capta não é o real, pois o real é o que escapa à linguagem para retornar na forma da verdade da linguagem, intransferível, mas compartilhável, como a estruturação do romance demonstra com perícia artística incomum.
Enfim, ao nomear-se apenas Guerra, o romance acentua desde o título sua natureza generalizadora, muito além do contexto que o define. Guerra do Paraguai, sem dúvida, como a história costumou denominá-la, mas também guerra sem fronteiras temporais e espaciais, imagem retrospectiva a lançar luzes sobre o contemporâneo que cabe então desvendar.
