
Lô Borges, cantor e compositor mineiro, um dos fundadores do lendário Clube da Esquina, faleceu no dia 2 de novembro. Sua obra marcou gerações ao falar de liberdade, amor, ética, diversidade e amizade em tempos governados pelo silêncio da Ditadura Militar. Visionário de sonhos reais, o artista sempre buscou o infinito em suas canções, abolindo fronteiras, preferindo curvas às linhas retas e fazendo da música o lugar do encontro entre o real e o imaginário.
Neste post, publicamos texto de Bruno Viveiros Martins em homenagem a Lô Borges, no qual recorda o modo como, mesmo após sua partida, o artista voltou a reunir pessoas na esquina que o imortalizou, espaço simbólico onde o coletivo e o particular, o ontem e o amanhã, a vida e a arte continuam a se encontrar.
Boa leitura!
Lô Borges e as canções do vento
Por Bruno Viveiros Martins
Meu nome é nuvem
Pó, poeira, movimento
O meu nome é nuvem
Ventania, flor de vento
“Nuvem Cigana”. Lô Borges e Ronaldo Bastos.
Desde o último domingo, 02 de novembro, Dia de Finados, Belo Horizonte está fora dos trilhos. Assim como a cidade das esquinas, a própria história da canção popular brasileira também perdeu, de certo modo, seu rumo. Nessa data, Lô Borges deixou o plano terreno. Se é que um dia ele esteve aqui presente com os dois pés no chão. O cantor e compositor que parecia sempre andar nas nuvens, foi um dos fundadores do Clube da Esquina, encontro de jovens e talentosos amigos que se tornaram artistas, entre sonhos e sons, atrevendo-se em falar de liberdade, amor, ética, diversidade, respeito, encontros e amizade em um tempo governado pelo silêncio e o medo imposto pela Ditadura Militar. Hoje os tempos são outros, mas a música de Lô Borges ainda nos leva por muitos caminhos. Seja como o garoto do tênis velho, o maquinista do trem azul, o apanhador de girassóis, o viajante da Via Láctea, o cavaleiro marginal, o iniciado do vento em busca da nuvem cigana, o visionário de sonhos reais.
Na segunda-feira, a cidade amanheceu triste com as primeiras notícias sobre a passagem de Lô Borges. Aos poucos, diversos meios de comunicação, fãs mais assíduos ou admiradores em geral da música brasileira, em Belo Horizonte, Minas Gerais e em todo o país, passaram a falar do artista, analisar sua obra, ouvir suas canções e refletir sobre seus discos. Foram vinte lançados ainda em vida. Ele deixou mais quatro com composições inéditas para seus ouvintes do futuro. Tantos aqueles de primeira hora, que se acostumaram com sua voz e a sua guitarra desde 1970, quanto os que ainda se tornaram seus fãs, pois suas canções atravessam o tempo e o espaço.
Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, uma movimentação de pessoas começa a chegar na esquina mais famosa da capital mineira: o encontro entre as ruas Paraisópolis e Divinópolis foi o palco para um encontro espontâneo de artistas famosos e anônimos; vizinhos, amigos e parentes; fã, admiradores ou simples curiosos. Todas essas pessoas saíram de suas casas, escolas, oficinas, bares, escritórios, repartições públicas, empresas particulares e de todos os lugares e endereços inimagináveis para cantar, lembrar e reverenciar o artista. Mesmo após a morte, Lô Borges fez da esquina o lugar do encontro, da festa, do desenvolvimento do melhor da humanidade que somente acontece lado a lado com o outro, o diferente, o desconhecido.
Em tempos de redes sociais, conexões virtuais, reuniões digitais, o cantor reinventou a cidade globalizada, devolvendo a ela sua materialidade física. Aquela mesma em que um simples pedaço de calçada, a quina de um meio-fio pode se tornar o início de um namoro de portão, uma história de amor, um pacto de sangue, uma conversa afiada, uma pelada, um jogo de cartas, um assalto à mão armada. Como em muitas de suas canções, Lô Borges fez da esquina a fronteira entre o ontem e o amanhã; o coletivo e o particular; o perto e o longe; o aqui e o agora; o dia e a noite; a realidade e a imaginação.
Dizem que o mais encantador e surpreendente no encontro de duas ruas não é necessariamente o entroncamento formado pelos ângulos formados pelas vias urbanas que se cruzam. É certo que esse é sempre um lugar de acaso, surpresa, imprevistos. Dizem também que existem várias cidades dentro de cada cidade e que as esquinas carregam em si mesmas outros lugares a serem descobertos, histórias a serem conhecidas. Para tanto, é necessário desvendar os segredos e enigmas que cercam essas interseções urbanas. Em Belo Horizonte, outras cidades podem se entrecruzar de maneira fortuita. Entre as várias esquinas da capital, a mais famosa delas seria justamente aquela que entrecruza a “cidade do divino” (Divinópolis) com a cidade do paraíso (Paraisópolis). Seria essa uma senha (espécie de “Abre-te Sésamo”) utilizada por Lô Borges para pisar a esquina famosa, transformando-a em um portal mágico para outras dimensões abertas pela canção?
Verdade ou ficção, sua trajetória musical se assemelha às histórias extraordinárias dignas das mil e uma noites. Afinal, como acreditar que um adolescente com dezoito anos teria suas composições gravadas por Milton Nascimento ainda em 1970 como foi o caso de “Para Lennon e McCartney”, “Alunar” e “Clube da Esquina”. Composições, aliás, criadas em parceria com o próprio Milton, além de Fernando Brant e Márcio Borges. Seria o imponderável presente em qualquer esquina a guiar os passos de Lô Borges a ponto de “Clube da Esquina” passar a nomear o grupo de amigos que alterou os rumos da canção popular brasileira na virada das décadas de 1960 e 1970? Quem, em 1972, poderia apostar que o menino que jogava pelada, bolinha de gude, finca, entre outras brincadeiras de rua, poucos anos antes, naquela mesma esquina, assinaria um disco ao lado do cantor da famosa “Travessia”? Mais do que isso: esse álbum poderia ser considerado aproximadamente cinquenta anos depois como o melhor da música popular brasileira de todos os tempos.
Uma das principais pistas deixadas por Lô Borges para os curiosos em desvendar seus enigmas sonoros foi lançada em forma de disco, também em 1972. O LP leva o nome próprio do artista, mas a história tratou de rebatizá-lo com o título que melhor definiu suas canções estradeiras: o Disco do Tênis. A obra em si mesma é um convite para a viagem anunciada pelos versos da canção “Faça seu jogo”, composta em parceria com Márcio Borges:
Jogue sua vida na estrada
Como quem não quer fazer nada
Ouça bem as vozes do mato
Como quem abriu o seu coração
Eu sonhei outro mundo, meu amor
E a paz morava na nossa casa
Em suas composições, Lô Borges costuma desdenhar de espaços compactos e ordenados, abolindo fronteiras e preferindo curvas à linha reta, sem nem sequer carregar uma bússola. Sua música busca o infinito. Com a mente sempre aberta para várias possibilidades, ele aconselha seus ouvintes a experimentar um mundo de sonhos a ser conhecido na contingência das estradas. Sua postura enquanto artista é busca da liberdade em todas as suas esferas. O “Disco do Tênis” foi gravado com quinze faixas. Um número nada habitual, devido aos limites técnicos da época, que garantiam a qualidade sonora de LP’s com, no máximo, doze faixas.
No entanto, foi a capa a causadora de uma polêmica ainda maior. Enquanto a grande maioria dos discos apresentava a foto do intérprete em close de rosto, Lô Borges opta por estampar um par de tênis na capa, em uma atitude que contrariava qualquer estratégia mercadológica. Por essas e outras razões, a gravadora resolveu não investir em sua divulgação. Sendo assim, o disco não ganhou popularidade, passando despercebido pela maioria do público, tornando-se, até bem pouco tempo atrás, um precioso item na prateleira de poucos colecionadores.
O tênis branco com listras negras de Lô Borges, bem ao gosto da juventude da época, porém velho e encardido, com cadarços surrados e em desalinho, condizia fielmente às propostas do grupo de compositores. Propostas de jovens acostumados a percorrerem distâncias físicas e imaginárias, e que talvez estivessem com malas prontas para mais uma viagem. Nesse disco, a maioria das canções possui pequenas durações que excediam o breve instante de um minuto. A maioria delas porta um tom intimista, criando na maioria das vezes um clima triste, porém insubmisso. As exceções eram os “rock’s”, pautados por melodias agressivas e versos insurgentes.
Esse LP, assim como todos os outros lançados pelo Clube da Esquina, contém várias canções chamadas “estradeiras”, através das quais o grupo dá vazão a temas como: “estrelas no lençol”, “desertos sem nome”, “o fio da navalha”, “o estranho silêncio na rua”, “deixe o mundo virar para sempre”. No início da década de 1970, Lô Borges e seus parceiros convivem, ao mesmo tempo, com o endurecimento do regime militar e o florescimento tardio da contracultura e do movimento hippie no país. Ambíguo e contraditório, nascido durante a década de 1960, nos Estados Unidos, o movimento hippie promoveu a recusa categórica da juventude à cultura vigente, defendida por uma sociedade conservadora e suas instituições mantenedoras da boa ordem e do status quo. Em Belo Horizonte, a palavra hippie dá nome à feira aberta por artistas populares em plena Praça da Liberdade, em 1969.
Na época, a “era de Aquário” inicia-se justamente quando os jovens decidem colocar o “pé na estrada”. Esse é um dos temas prediletos de uma juventude que visava mesclar a resistência cultural e política frente aos ditames do establishment à busca da expansão da consciência por meio de substâncias alucinógenas. No Clube da Esquina, Lô Borges é um dos compositores que traduz essa busca em uma linguagem sonora mais psicodélica. O próprio Milton Nascimento passa a se interessar pelos Beatles, incorporando essa referência sonora que passaria a ser fundamental em sua obra após ser “aplicado” pelo jovem admirador do quarteto de Liverpool, além de outros bandas como Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin, Gênesis, Yes, Emerson, Lake & Palmer, entre outras.
Lô Borges pode ser considerado um visionário em termos musicais até mesmo para Milton Nascimento, que tinha os ouvidos e a mente aberta para qualquer experiência sonora que levasse sua música a cruzar todas as fronteiras. O visionaríssimo seria uma experiência muito antiga, que está presente na matriz da poesia. Nesse sentido, o uso de certas substâncias químicas aumenta o campo de visão para além do mundo físico, através da alteração do estado de consciência do visionário. Em culturas milenares, essa experiência estaria ligada ao cultivo de valores sagrados e transcendentais que levam o sujeito a estar fora do tempo, ou em alguma outra dimensão da realidade.
O visionário seria também aquele que, ao se encontrar entre o sono e a vigília, desperta para uma outra percepção do mundo por meio de seus próprios sonhos. Nessa situação de limiar, ele se vê em uma zona de passagem na qual é possível experimentar uma variedade de estados de consciência. Nesse sentido, tanto a embriaguez quanto o “semi-adormecimento” leva à transmutação do olhar visionário; liberto das amarras racionalistas da vida diurna, vislumbra territórios indefinidos nos quais passado e futuro podem se cruzar, mesmo que em frações de segundo. No disco Nuvem Cigana, Lô Borges e Ronaldo Bastos nos chamam a atenção exatamente para os limiares da consciência aberta por “Uma canção”:
Uma canção é clara e pode penetrar
Negro desvão que um raio de sol
Com a súbita chama faz clarear
Um viajante que se fez perder
Por sua estrela se inicia
Nos mistérios de querer
A lâmina ser de tal precisão
Nessa composição, a dupla mescla música, poesia e transcendência. Como dois visionários, eles veem o invisível e decifram o indivisível, demonstrando seu conhecimento por meio de enigmas. A melodia, o arranjo e a interpretação vocal de Lô Borges nessa gravação de 1982 assumem um tom ritualístico em que o narrador age como um regente que manipula energias e vibrações na própria atmosfera, visando a suspensão do tempo e a evasão do espaço:
Uma canção tem cheiro e pode transportar
Uma fração de um tempo qualquer
Que a gente viveu num outro lugar
É diamante para lapidar
Na pedra bruta segue o veio da beleza
Quando faz soar cristalina revelação
As viagens alucinógenas operam com uma visão mais “lúcida e profana”, totalmente diferenciada da realidade. Viajantes e visionários como Lô Borges se dispõem a esse tipo de experiência, criando uma relação íntima e ambivalente com as drogas, entendidas através do seu significado geral ou tratadas como Phármakon, termo grego que retransmite à droga também o sentido farmacêutico e seu valor enquanto um remédio ou um veneno, ambiguidade que a língua portuguesa também guarda na raiz da palavra. Em ambos os casos, a juventude dos anos 1970 colocava em questão a falência de uma sociedade individualista, massiva, repressora. Com seu comportamento conservador, essa mesma sociedade se colocava contra qualquer experiência que aproximasse as pessoas em torno das bandeiras levantadas pela contracultura: o espírito comunitário promovido a partir do pacifismo, da liberdade, da crítica ao consumo exacerbado, da liberação sexual, do misticismo oriental, do hedonismo naturalista, e, sobretudo, da autodeterminação de sua consciência.
Uma das características mais marcantes adicionadas por Lô Borges na música do Clube da Esquina é a utilização, em suas linguagens musicais, de temas como transformação e mudança, experiências tidas como essenciais para a contracultura. Ele é o principal integrante do grupo a criar canções que lidam com movimentos metamórficos e transmutações perturbadoras em oposição à inércia e contra o imobilismo cristalizado por uma sociedade conservadora, solitária e temerosa marcada pela violação dos diretos humanos imposta pela Ditadura Militar. Espécie de respostas dadas pelo Clube da Esquina a um tempo de turbulências vividas no Brasil. Ao contrário de qualquer fuga ou escapismo, Lô Borges e Ronaldo Bastos, em “Nuvem Cigana”, canção de 1972, conclamam seus ouvintes a deixarem seus “corações baterem sem medo”:
Se você quiser eu danço com você
No pó da estrada
Pó, poeira, ventania
Se você soltar o pé na estrada
Pó, poeira
Eu danço com você o que você dançar
Em sua gravação, “Nuvem Cigana” contou com a regência de Paulo Moura e um belo arranjo de orquestra elaborado por Wagner Tiso, no qual se destaca o conjunto de cordas e sopros entremeados pela guitarra de Lô Borges. A base é formada pela “viola 12 cordas” de Beto Guedes e pelo baixo, executado por Toninho Horta. Os timbres e sonoridades próprios dos instrumentos reunidos no arranjo são responsáveis pela sensação de espontaneidade e liberdade, experiências flagrantes nos versos de Ronaldo Bastos.
Ao desprezar a grandeza das distâncias, as narrativas de Lô Borges revelam relevos e desníveis, levando consigo as fronteiras de um conhecimento que se estende aos lugares por onde passa, incluindo o novo, o distante, o diferente. Seus olhares procuram, provocam, investigam e interrogam; enfim, quebram certezas. A curiosidade seria uma das grandes características presentes em sua visada, mais especificamente na canção “Equatorial”, parceria com Beto Guedes e Márcio Borges, que se define decididamente pela levada musical própria do rock, a atitude do olhar nos remete de imediato à virtude do sujeito que investiga, reflete e pretende iluminar as dobras da paisagem com a devida profundidade.
Vou dizer o que sei
Lugar sem lei
Que me incendeia
Ó você, meu amor
Viveu sem ver
Evidente o espaço eu sei
Nesta noite equatorial
Eu vou sair outra vez
Onde morre a trilha
Do meu silêncio
Vou te buscar
Na noite equatorial, o narrador da canção assume os perigos da viagem. Ele deve estar atento e alerta, pois a estrada fustiga e o desafia. Se a fronteira o atrai e seduz, não se pode, porém, perder de vista a sua rota, o seu ponto de partida. Quem divisa o espaço aberto, fragmentado e descontínuo corre o risco de cair em deriva e caminhar sem rumo próprio. Na indeterminação dos caminhos percorridos, seu olhar se embrenha pelas frestas e desvãos do mundo. Conhecimento que abre sua mente, transformando seu presente em um campo de transcendência, quando não se viaja mais de um aponto ao outro, mas se movimenta em torno de uma sucessão de “agoras” em que se articulam memórias passadas e sonhos futuros. Lô Borges é esse viajante. A música é sua estrada. Por meio dela, ele ampliou seus horizontes, ação que lhe permitiu uma outra percepção do tempo.
Para Ítalo Calvino, “esquecer é o verbo mais terrível que existe”. Esquecer o retorno, independentemente do desafio da viagem, seria uma experiência ainda mais dolorosa, à medida que esse esquecimento leva o viajante a correr o risco de cair em deriva. Quem acaba nessa situação se torna um desterrado, condenado a viver errante por um universo disperso e inacabado. Depois de tantas viagens, o dia do retorno para Lô Borges seria a certeza de que as experiências, adquiridas com os desafios e riscos enfrentados nas estradas, não ficaram perdidas pelo caminho. O artista jogou sua vida e construiu sua obra musical nas estradas, pelas esquinas e encruzilhadas.
Na segunda-feira, dia 03 de novembro, por volta das seis horas da tarde até a meia-noite, enquanto os fãs se encontraram, choraram, riram, se abraçaram e cantaram juntos suas canções no cruzamento das ruas Paraisópolis e Divinópolis, é possível que Lô Borges estivesse ali presente. Não mais em corpo físico. Suas músicas cantadas ao ar livre pelas pessoas naquele momento fizeram da esquina um lugar transcendente. Um limiar entre o espaço e o tempo no qual a morte não é o contrário da vida. Mas sim o esquecimento e junto dele o silêncio. As canções de Lô Borges, porém, são inesquecíveis. E como dizem os versos de “Uma canção”:
Qualquer pessoa pode assoviar
A voz humana se decifra
Quando canta por prazer
De juntos trilharmos uma canção
Sobre o autor
Bruno Viveiros Martins é doutor em História pela UFMG. Professor do Centro Universitário Estácio-BH. Atua também como historiador na Fundação Municipal de Cultura/PBH. Publicou os livros Clube da Esquina – Trajetória Musical (Oca Editorial/ Azougue Press, 2024) e Som Imaginário: a reinvenção da cidade nas canções do Clube da Esquina (Editora UFMG, 2009).
