Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Natal (23 de dezembro)

Certas experiências ou visões, dessas que chamam a atenção de Mário de Andrade em Natal, já não despertam mais estranhamento nos natalenses. É o crescente acostumar-se ao cotidiano, que, entretanto, não impede o modernista de se deixar afetar pelas paisagens, festas e pessoas. Nessa crônica dos detalhes da vida, Mário se deixa tomar pelos quatro cantos da vista e nos conduz a um lugar que talvez só persista em sua escrita.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não perca resenha de Onildo Correa para a série. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Natal (23 de dezembro)

Foto do Rio Potengi feita a partir da cabine do Zeppelin em Natal/RN, 1930. Fotografia: Fundação Rampa.

Quando a gente chega em Natal, vindo do mar, a atenção faz esquerda-volver. Se penetra a boca do rio Potengy historiada pelo forte dos Reis Magos e logo á esquerda Natal se abana ao vento. Na direita a vista é monotona, mangues, a careca das dunas e um ajuntamento de coqueiros.

Oculta nessa monotonia, da banda do mar fica a Redinha, praia de verão, bairro em que ninguem sonha pela preguiça do pensamento a travessar o rio com êste sol.

A Redinha é protegida por Nossa Senhora dos Navegantes que sai hoje em procissão no Potengy. São dezessete horas. O sol desobediente brinca com fogo nas janelas praieiras da cidade. E em Natal os cáis são curtos, caudas de ruas entre os quarteirões de beira-rio. Todos estão cheinhos de gente esperando a procissão passar. Nas bandas da Redinha as velas florescem batidas de sol, muito brancas. São os pescadores que querem acompanhar Nossa Senhora. Os navios ancorados no porto, dois estão embandeirados. Um hidro-avião faz peraltices enquanto espera para sacudir um punhado de flores sobre a mãi do Mar. É pouco olhado. Natalense não se amola mais com aeroplano. Ontem na representação do “Boi balemba” do bairro areiento do Alecrim, quando o mestre do “Bumba” mandou Berico buscar Matheus pra casar os Galantes e as Damas, o padre de mentira respondeu que não carecia de “areoplano” pra ir no casorio, era perto, ia a pé mesmo. Não causou sensação e a noite cai.

Na cinza do rio surge uma piramide de luzes, que assim na lonjura é uma grande luz só. É o andor da Senhora subindo o rio. De lado e atrás do rebocador que o conduz vêm duas filas de lanchas. A escureza comeu as velas dos pescadores.

— Chapéu! péu!… péu!

Aqui inda obrigam a gente a tirar o chapéu á passagem de santo. O vento quando sinão quando canta uns compassos de dobrado. Intermitentemente o rebocador apita com pigarro, trazendo sensações de perigo no mar. Os fogos-de-bengala abrem-se fecham-se baleando a noite caida. Um rojão estrala perto. Uma ou outra luz se agarra passando nas velas dos pescadores e um triangulo mortiço chapeia o negrume frouxo do ar. Só mesmo o andor da santa relumeia sem parada norteando as rezas e a visão.

MÁRIO DE ANDRADE