BVPS Edições | Autorais Wander Melo Miranda

Encerramos hoje a série Autorais Wander Melo Miranda com o texto “Os novos”, publicado no livro Saberes, literatura, pela pluralidade de sentidos (2024).

Percorrendo as obras de Geovani Martins, José Falero, Itamar Vieira Junior, José Luiz Passos e Ana Luisa Escorel, o ensaio destaca como essa ficção brasileira contemporânea é marcada por uma abertura narrativa ancorada numa dimensão autoficcional que suplementa o poderoso gesto de acusação de subjetividades historicamente silenciadas. São obras em que a experiência vivida – seja a das periferias urbanas, das comunidades rurais e afro-indígenas ou dos deslocamentos migratórios – transforma-se em potência ética e estética capaz de tensionar o real, compondo um quadro múltiplo que nos convoca a reimaginar os contornos da literatura e da sociedade brasileiras.

Esta edição da série Autorais, curada por Roberto Said, reuniu dez textos emblemáticos da trajetória de Wander Melo Miranda. Agradecemos mais uma vez a Wander por nos permitir compartilhar com as leitoras e os leitores da BVPS uma amostra de seu pensamento instigante e rigoroso, e a Roberto Said por sua curadoria atenta e sensível. Para acessar a série completa, clique aqui.

Boa leitura!


Os Novos

Por Wander Melo Miranda (UFMG)

Um grupo de novos escritores voltados para a dramatização da vida contemporânea têm ativado a cena literária brasileira com contribuições decisivas para a ampliação das múltiplas linguagens que a constituem. Alguns deles, que nos interessam aqui mais de perto, são representativos de novas vias de expressão abertas pela fala de comunidades geralmente periféricas, urbanas ou mesmo rurais, até então mantidas em silêncio.

É o caso do jovem escritor carioca Geovani Martins, que estreia com os contos notáveis de O sol na cabeça (2018) e tem confirmada sua vocação literária em seu segundo livro, o romance Via Ápia, publicado em 2022. Em ambos, o que logo chama a atenção do leitor é a capacidade de criação de um estilo, não algo decorativo ou acessório, mas “o veículo para o intercâmbio entre a impressão imediata dos sentidos e a memória” individual ou cultural, para falar com Susan Sontag.

Não é pouco para quem se propõe fazer da fala das comunidades dos morros cariocas uma linguagem literária, no sentido de torná-la comunicável além de suas fronteiras grupais. O próprio título do livro, ao sobrepor a “rainha das estradas” da Roma antiga, como era considerada a Via Appia, à principal rua comercial da Rocinha que leva o mesmo nome, já indica a via de acesso irônico ao texto e a mobilização de seus significados, “suas palavras e sua melodia”.

Escrito como uma sorte de diário de várias vozes mediadas por um narrador que busca mimetizá-las – uma outra forma de abertura narrativa –, cobre o período de 27 de julho de 2011 a 26 de outubro de 2013, como indica a datação que nomeia cada capítulo do livro, período crucial da ocupação da Rocinha pela UPP, a famigerada Unidade de Polícia Pacificadora.

Narra a vida dos irmãos Washington e Wesley, e dos amigos Murilo, Biel e Douglas, equilibrando-se entre bicos eventuais, empregos precários, tráfico e consumo de drogas. Ao focar ora em um, ora em outro desses personagens a cada capítulo, o narrador empresta ao texto um ritmo acelerado, como se estivesse a escapar sempre do aparato policial que devia proteger sua comunidade, delineando, assim, em rede, os acontecimentos vivenciados e a violência que os constitui.

A condição precária da vida dos personagens, a apontar para a via sem saída da comunidade de excluídos a que pertencem, acentua neles o significado da vida como iminência da morte, que Douglas sente ao subir com os amigos a Pedra da Gávea: “essa coisa estranha, sempre escondida no meio de tanto pra sentir e pra fazer mas que pode aparecer a qualquer momento. Um passo em falso, um tiro, um carro, as pessoas morrem”. Clareza que se confunde, de modo comovente, com a luminosidade do sol nascente no fim da caminhada e a sensação, aparente, de finalmente “ter a cidade do Rio de Janeiro a seus pés” (Martins, 2022) – promessa de felicidade sempre adiada.

Essa movimentação sem sair do lugar numa cidade onde “tudo parecia uma ofensa” demarca o lugar de fala dos personagens e dos narradores nos quais se desdobram, reforça o isolamento a que são submetidos e, ao mesmo tempo, enfatiza a responsabilidade narrativa que a situação demanda. Como percebe Gleyce, que desiste de fazer cinema e ser jornalista, mas age como tal ao destacar seu desconforto diante das notícias sobre a Rocinha: “Ela falou sobre a importância de ter gente de dentro contando aquelas histórias, com o ponto de vista do morador pro que vinha acontecendo”.

Contar de dentro: fazer do presente e das lembranças do passado uma forma narrativa de inserção numa comunidade em que as subjetividades se afirmam na sua singularidade social, cultural e linguística, apesar das atrocidades a que são submetidas a todo momento: “Como numa tatuagem, estavam marcados por tudo aquilo que viveram juntos”. Escrita do corpo, portanto, como a traçar um roteiro de fuga ou enfrentamento individual e coletivo da tragédia ao redor.

Fazer do relato dessas atrocidades uma das perspectivas da história do morro, da cidade e do nosso destino funesto como nação, sem dúvida, mas também abrir caminho para sua superação, como a economia do signo literário deixa supor: narrar é resistir, nos lembra mais uma vez o velho Rosa. Ou no dizer do MC Marcinho, ao subir no palco para delírio de todos no seu canto a capela na Rocinha, livre da UPP: Nem melhor, nem pior, apenas diferente

Ao assumir plenamente a função narrativa que lhe cabe, Geovani Martins dá um forte testemunho da nossa barbárie, sem meias-tintas ou meias-palavras, ciente como tantos de seus jovens colegas de ofício, do estado de emergência em que vivemos e da necessidade de enfrentá-lo. A força literária com que esses escritores têm iluminado nossa cena contemporânea é admirável enquanto documento e, mais do que isso, realização artística original. Poderiam se unir em coro a Carlos Drummond de Andrade (1992: 84): “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos, / mal rompe a manhã”. Pegou a visão, leitor?

Caso semelhante é o de José Falero. De servente de pedreiro a escritor, a travessia vivida pelo jovem gaúcho se imprime em seus textos como traço de estilo e escolha temática. Isso quer dizer que desde seu livro de estreia, os surpreendentes contos de Vila do Sapo (2019), a que se seguiu quase de imediato o romance Os supridores (2020), o autor vem se dedicando à criação de uma linguagem própria, perpassada pelo lugar de fala no qual situa as vicissitudes de personagens da periferia de Porto Alegre, sendo ele mesmo morador da Lomba do Pinheiro, onde também “havia pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração”, para repetir a citação irônica do narrador do romance.

Incentivado, ou melhor, desafiado pela irmã, Falero descobre os livros e o prazer da leitura de tudo que lhe caía nas mãos: romances antigos e de aventura, livros didáticos e, depois, teoria da literatura e gramática. O contato intensivo com a palavra escrita, por certo, suplementou o mundo oral em que vivia, resultando na criação de um modo de escrever que conjuga gíria local e norma culta, dosadas de forma artística peculiar: uma arte abertamente periférica e, por isso mesmo, portadora de outra perspectiva – descentrada – do mundo, diferente da que o sistema literário dominante costuma referendar.

Um novo realismo? Uma autoficção? Uma realização pós-autônoma? Os rótulos dizem e não dizem muita coisa diante da singularidade do livro que demanda um leitor singular, também ele outro, periférico, indisciplinado. A primeira sensação ao ler obras como Os supridores é a de compartilhar uma experiência vivida à beira do abismo que o país das “vilas” gaúchas traduz como “um pedaço de inferno”, com o alto poder de universalização do relato, embora fincado em circunstâncias locais e datado com rigor. Dia, mês e ano das ações são disseminados por todo o texto e lhe dão ares de depoimento prestado à polícia como se ela ouvisse cada um dos personagens. Em coro, formam a tessitura narrativa em que o comentário se junta à ação narrada no momento mesmo em que é vivida.

A trama do romance é arrebatadora, arrojada. Os amigos Pedro e Marques, funcionários de um supermercado, têm a tarefa de suprir as prateleiras dos produtos à venda, trabalho cansativo, tedioso, mal remunerado. Para mudar de vida ante o “espetáculo da desigualdade e da injustiça” do dia a dia, resolvem vender maconha, atividade que vai se ampliar e se mostrar cada vez mais lucrativa, a ponto de terem de recorrer à ajuda e associação dos amigos Luan e Roberto, além da mulher de Marques, ironicamente chamada Angélica, que também faz parte do grupo. À medida que o negócio vai se ampliando, passam a vender a mercadoria às escondidas no supermercado, sob um rígido esquema armado por Pedro, uma sorte de líder intelectualizado do grupo e decerto – mais uma ironia – alter ego do escritor.

A relação hierárquica dos funcionários no supermercado acentua as relações econômicas assimétricas que propiciam o lucro abusivo e, em consequência, a violenta exclusão que cabe a eles, funcionários, ao contrário do que acontece no grupo vendedor de maconha, em que a distribuição do trabalho e do lucro é a mesma para todos os seus participantes. O confronto das duas posturas não é mero pano de fundo da relação dos personagens, mas o que mobiliza sua atuação no desenrolar da trama e a diferencia de demais livros de ficção similares, publicados nos últimos anos e de semelhante proveniência social de seus autores.

O valor da mercadoria – sublinharia Pedro, lembrando Marx – na periferia da periferia do capitalismo avançado estende-se aos diversos níveis do relato e dá a seu título viés generalizador. Suprir, segundo o dicionário, é prover, substituir, remediar e inteirar, acepções a que a narrativa cumpre realizar de modo diverso, com certeiras doses de humor, apesar da consciência proverbial de quem narra: “Sempre que a realidade mete o pé na porta, não há sorriso que não trate de fugir pela janela”.

Realidade: mais uma mercadoria do supermercado, os jovens supridores se impõem a tarefa de pelo comércio ilegal alcançarem um outro estatuto e novo registro de nascimento que apague a origem e, paradoxalmente, a confirme como resistência e insubmissão: “mano, eu sou uma flor que nasceu num lixão! Eu sou foda! A gente é foda! A gente é carne de pescoço!” (Falero, 2020). Enfim, o livro desejado acaba sendo escrito à medida que o leitor vai lendo: “Assim raciocinando, escreveu o seguinte, no alto da primeira folha do caderno: ‘Os supridores’”, conclui o narrador.

O romance de José Falero é antes de tudo um “conto de fadas” no qual se denuncia que a única preocupação – perversa, para dizer o mínimo – da gente que nasce no castelo “são os monstro abominável que vive longe do castelo: monstro como eu e tu”, diz Pedro em conversa com Marques (Falero, 2020). A novidade do livro e sua indiscutível relevância artística vêm da sua capacidade de traduzir pela palavra escrita esse conto de fadas ao avesso e, assim, suprir a literatura atual do que nela vem se afirmando como proposta narrativa desconstrutora e, no caso, firme testemunha de acusação da tragédia brasileira.

Em Doramar ou a odisseia (2021), de Itamar Vieira Junior, todas as personagens, geralmente mulheres, “respiram terra, cheiram terra, são terra”. A força telúrica do livro vem, pois, da simbiose perfeita entre elementos da natureza e do feminino, ligados a uma ancestralidade que o autor faz questão de afirmar na dedicatória do livro às “mulheres, maternas, ancestrais” e na epígrafe tomada de empréstimo ao poeta sírio Adonis, com a qual se identifica: “Nasci numa aldeia/ pequena, reclusa como o útero/ e ainda não saí dela” (Vieira Junior, 2021).

Não se espere, por isso, uma guinada regionalista da narrativa à maneira do romance brasileiro dos anos de 1930, mesmo porque pouquíssimas vezes há localizações geográficas precisas – quase sempre feitas apenas uma só vez: Brasil, Salvador, Dakar – e nenhum apelo a vocabulário e sintaxe locais ou regionais. A aposta de Viera Junior é outra, refinada e inovadora no contexto atual, em que o tema urbano predomina. Vale-se do problema fundiário e da questão escravocrata, que nos assolam desde que o colonizador aqui chegou, para traçar o amplo arco de desolação que acompanha historicamente os deserdados da terra, em geral afrodescendentes e indígenas, fazendo valer uma voz que “atroa na noite da memória”.

Walter Benjamim opõe a História contínua do vencedor (branco, acrescente-se) à tradição descontínua do vencido em busca da sua própria história. Vieira Junior a transforma na narrativa meio épica, meio lírica das vicissitudes de personagens rumo à liberdade perdida na travessia do mar que traz “os nossos para morrer de maus tratos e trabalho”, diz o “nós” que narra “Farol das almas” e outras histórias e faz delas expressão de uma comunidade de destino. Ou então pode ser a voz solitária de Alma, no texto homônimo, escrava que mata os senhores de engenho falidos, foge e se livra de vez da violência extrema sofrida, não sem antes enfrentar obstáculos sem fim, os quais supera com força e persistência incomuns, instigada pelo desejo do “acalanto de um lugar onde exista a liberdade”.

Por sua vez, Doramar, ao sair para a rua se depara com um “cão moribundo encolhido de morte” e se vê lançada – numa identificação inconsciente com o animal – a uma sorte de epifania às avessas das donas-de-casa de Clarice Lispector, escritora presente numa frase do texto. Mas a vez agora não é a da patroa da zona sul carioca, mas a da “empregada doméstica cansada de seu trabalho”. A imagem do cão e seu desamparo, que é também o dela, desencadeia a revisita ao passado miserável que se mistura com o presente e dá à personagem – dor, amar, mar, ar: “cabe um mar inteiro em seu nome” – consciência do seu lugar subalterno na história que se conta e, enfim, a leva “ao encontro consigo mesma”, num final surpreendente, como nos melhores contos clariceanos.

Como toda narrativa épica que se preza – uma épica dos excluídos, vale destacar –, peripécias, acontecimentos singulares, aventuras extraordinárias adquirem um tom fabular e encantatório que não diminui o viés participante dos textos, antes o ressalta, retomando, assim, a natureza ancestral das narrativas orais de onde parecem provir. É o caso, por exemplo, de “O espírito aboni das coisas”, que mistura palavras da língua jarawara com o português, para narrar o périplo de Tokowisa em busca das folhas e frutos da palmeira de abatosi para curar sua mulher Yanice, grávida. Ou então, em “O que queima”, onde Som-de-Pé se sente morrer com as árvores, plantas e bichos.

Apesar das dificuldades que enfrentam ou justamente por conta delas, cada uma das personagens de Vieira Junior é movida pela “vontade de ser livre”, mesmo se essa vontade resulte em condenação à morte, caso do poeta preso na Ilha do Medo, líder de um movimento contra a ordem repressora e que aglutina todos aqueles que fazem “de seus caminhos uma trilha para a libertação dos outros”, como está dito em “A oração do carrasco”. Não é outro o desejo das imigrantes de “Meu mar (fé)”, seja a mulher que vem de Dakar para a Bahia no contêiner de um cargueiro com um filho no ventre e na viagem perde o marido, seja a haitiana que com ela divide o trabalho de vendedora ambulante, vivendo ambas no estreito limite entre “fecundar a América” e “perecer na América”.

Todas essas histórias encontram, enfim, seu desfecho ou suplemento no “manto da apresentação” de Arthur Bispo do Rosário, comovente encerramento do belo livro. A agulha que borda a palavra – do artista, do escritor, do afrodescendente – vem de “tempos imemoriais” e tece “um novo mundo para maravilhar o homem”. Domada como um “cavalo arisco”, ela, a palavra, pulsa viva no livro-manto que lhe devolve o fascínio original e apocalíptico ao anunciar rosianamente “o beco para a liberdade se fazer”.

Para tanto, o romance de José Luiz Passos, Um álbum para Lady Laet (2022) faz da história de Lucineide ou Lucy Inde-Sky uma “história com figuras”, uma volta às origens em que busca recuperar a vida da mãe, uma cantora de MBB – Música Bem Barata. Entre Los Angeles e São Paulo, num entrelugar conflituoso e desconfortável como as quitinetes por onde passa, a narradora-imigrante para viver se desdobra em “hostess, photo shoot, serviço de intérprete e companhia para embelezar hall, salão de festas, feira de games, o que fosse” (Passos, 2022). Está às voltas, ao mesmo tempo, com o projeto de elaboração do álbum que dá título ao livro – Um álbum para Lady Laet –, apresentado por um dos personagens, o boxeador Pablo, no prefácio, ou melhor, no book trailer ironicamente manuscrito que abre a narrativa e busca lhe dar sentido.

O ponto de partida é uma foto emblemática na qual a mãe aparece deitada no colo de vários homens e que, segundo Saboia, o antigo empresário devastado por um câncer terminal, diz muito da personalidade da cantora e de sua filha. Estão postas as perspectivas abertas pelo novo livro de José Luiz Passos, uma novela instigante, que tem precursores ilustres nos romances Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu, e A estrela sobe, de Marques Rebelo. O elemento diferencial é trazer à cena do texto as dificuldades ou impasses que a narradora enfrenta, como filha e imigrante, de dar andamento ao projeto biográfico em terra estrangeira.

O livro que se lê, na verdade, é uma live em que se tem principalmente o depoimento da autora, então de volta a São Paulo, sobre o trabalho já realizado, tornando mais misterioso ainda o que ocorreu com a cantora, como se a vida dela fosse um roman noir cujos bastidores em parte revelados vão sugerindo aos poucos sua derrocada. A mesma sensação que se tem na Los Angeles por onde se move Lucineide e por onde caminha ouvindo músicas da mãe, como no mítico e outrora requintado Sunset Boulevard, hoje dos turistas, “dos antigos cinemas convertidos em igrejas e lojas de bricabraque”. Ou diante do “letreiro chique” de Hollywood, “barragem, triste e linda”, signo mais de exclusão que de entretenimento (Passos, 2022).

A “música barata” visita e conduz narrativa e narradora, ou seja, dá ao texto que se vai ler ou postar uma dicção de “lúmpen-rock”, que esvazia o significado de celebridades hollywoodianas como Marilyn Monroe, espelho em que Lady Laet se mira – e se perde, ao repetir o bordão de ser “a-pior-memória-do-planeta”. Memória também vazia, portanto, como a da filha que luta para dar conta do “assassinato” (a palavra é de Saboia) da carreira da mãe, “Marilyn suburbana”, na biografia planejada, por isso também vazia – ou repleta – de sentidos possíveis. A solução às vezes toma a forma do delírio, como a visão de uma grande enchente imaginária que, a partir do letreiro famoso, tudo inunda e tem Godzilla como o salvador que escolhe quem e o que salvar, à maneira de um filme-catástrofe que não para de se repetir.

Biógrafa e biografada se confundem como se o autor apontasse novas possibilidades de “grafia de vida” – a expressão é de Silviano Santiago – por interposta figura, ao ampliar o alcance do retrato e das subjetividades que aí se mostram na sua superfície e superficialidade. É como se ao falar da mãe a retratista a tirasse do foco principal ou a desfocasse propositalmente, como as imagens plásticas autorais que o livro apresenta borradas, sem traços muito nítidos de diferenciação entre si. Afinal quem é Lady Laet?

Os espaços também se superpõem e Lady Laet aparece, então, “amando LA nas grandes vilas e subúrbios de São Paulo”, o que confirma sua natureza fantasmática, a nos assombrar como promessa de uma vida que não foi nas periferias do mundo, mesmo lá no centro ou aqui nas margens. Estar por dentro e por fora a um só tempo desse mundo disjuntivo parece aludir à situação do artista ou do escritor contemporâneo, que vai paulatinamente se mostrando para nós.

Sua atuação, e nisso o livro de José Luiz Passos é exemplar, parece ser a metáfora multifacetada do enfrentamento do que restou como única forma de fazer arte quando esta parece ter perdido seu valor social e político comunitário. Uma ética do artista, ou melhor, do escritor-artista, assume então o protagonismo nas manifestações verbovisuais do espaço digital da atualidade e das páginas impressas do livro lido e visto. As imagens que dialogam com o texto e o suplementam, sombrias e inusitadas, abrem novas possibilidades de leitura ao exprimirem uma visão “malcomportada” do real que escapa à figuração ao vivo que temos na tela – anagrama de Laet – que o livro se tornou. E que por aí nos dá a dimensão rigorosa do nosso tempo.

Essa dimensão não escapa à escritora Ana Luisa Escorel, que vem construindo sem alarde, mas com força artística persuasiva, uma obra incomum na literatura brasileira das últimas décadas. Premida pela memória e com grande poder de fabulação, herdada com certeza da avó paterna, recria histórias de família com minuciosa atenção ao detalhe aparentemente insignificante, às circunstâncias sociais que ampliam o raio de alcance do vivido individual, tornando-o francamente compartilhável. Leveza e vivacidade dão um tom atilado à reminiscência, que deve muito à menina sensível e destemida que a escrita retoma.

No livro de estreia, O pai, a mãe e a filha (1994), lembranças da infância dialogam com expressivos desenhos da autora quando criança, num projeto editorial que coloca o leitor diante de um originalíssimo texto-instalação, não fosse a autora reconhecida designer. Acontecimentos, personagens, impressões, imagens, tudo converge – fruto da rigorosa economia textual – para a reconquista do tempo perdido, que se mostra então pleno de atualidade autoficcional.

Nos textos presentes em De tudo um pouco (2016), a memória estritamente familiar se alterna com o dia a dia do trabalho intelectual dos pais e colegas de ofício, reevocado com grande poder de síntese, a exemplo do admirável perfil de Rubem Braga que abre o livro. Ou ao abordar o trânsito entre o campo e a cidade, num país ainda acentuadamente rural nas primeiras décadas do século XX, às voltas com a relação, não isenta de conflitos, entre os antigos proprietários de terra e os imigrantes que começavam a demandar visibilidade social.

O gosto pela reconstituição histórica, por sua vez, revela-se por inteiro em Dona Josefa (2019), à semelhança do resgate que Antonio Candido fizera em Teresina etc. (1980), mas sem abrir mão do estofo ficcional que sustenta o relato e o especifica. Ficcionalização que O anel de vidro (2014) também assume ao narrar de distintos pontos de vista, o relacionamento adúltero do Chefe e sua assessora, ocasião para um mergulho dos quatro personagens envolvidos, os maridos e suas respectivas esposas, significativamente não nomeados, numa revisão do passado que é uma desabrida reflexão sobre as relações interpessoais no âmbito da família e do trabalho.

No livro lançado no final de 2022, O fastio do diabo, a escritora muda de rota em relação ao que vinha até então realizando, mas sem desprezar, antes intensificando de propósito, sua alta capacidade de fabulação. A meta agora é exprimir satiricamente, com virulência e desassombro, a tragédia que se abateu sobre o país nos últimos anos, causadora de inveja no próprio senhor das trevas, até então imbatível em promover situações do gênero. Na contramão da maioria dos livros que tratam do tema, em geral limitados ao viés realista, o texto alude de passagem ao Fausto, de Goethe, a Uma estação no inferno, de Rimbaud, e faz lembrar um outro precursor ilustre, o Machado de Assis de “A Igreja do diabo”, exímios em traçar as fronteiras, nem sempre claras, entre o bem e o mal, sem que se abandone, dessa vez, a função social e corretiva própria à sátira.

Entediado em seu reino, deprimido e sujeito à mesmice da cor vermelha e suas repetitivas variações, o diabo recebe a visita do Enviado, que lhe relata as condições de vida num país que, sem ser nomeado, remete ao Brasil, com seus mais de quinhentos anos de injustiças e atrocidades de todo tipo: grilagem de terras, natureza “aviltada”, exclusão de pretos e indígenas, “egoísmo e perversidade das camadas dominantes”, militares “ambiciosos, retrógrados e incultos” – cenário perfeito para a guerra constante de todos contra todos.

Diante dos fatos narrados com perversa satisfação pelo Enviado, o diabo vai aos poucos retomando a alegria e o antigo ânimo – seu projeto, enfim, se realizara à perfeição no país distante, onde as “coisas nunca fizeram muito sentido” –, para alívio dos médicos preocupados com sua depressão. A cada nova informação recebida aumenta a tensão textual ou o adensamento das questões propostas: o diálogo entre o diabo e o Enviado avança e vai abrindo caminho para o desnudamento severo, revestido de humor negro, da origem das mazelas sociais que afligem o país em questão.

Trata-se, enfim, da dramatização do embate entre civilização e barbárie, em que o segundo termo parece sair sempre vitorioso, como na eleição do mandatário brasileiro “imbuído de propósitos infames, vulgares, valores baixos, próximo de grupos com nítida atuação delinquente”, medíocre oficial da reserva, pronto para servir de fantoche aos interesses econômicos e militares dos donos do poder, em tudo alheios às necessidades da população.

A vitória do Mandatário das Trevas afinal se consuma: parte, sem data de volta, ao encontro de seu duplo, para um reino mais afeito a seus propósitos, sintetizado na cidade que fica embaixo dos braços abertos da estátua de seu maior rival, apesar disso a “mais violenta de toda a região”, no dizer do Enviado. A conclusão do texto permanece, pois, em aberto, a repercutir como um alerta persistente na memória do leitor.

De nítida dimensão autoficcional, os textos aqui referidos são múltiplos na sua configuração, permitindo delinear linhas de força dominantes da ficção brasileira contemporânea, sua determinação em dar forma artística convincente àquilo que escapa à linguagem – o real – e é sua razão de ser.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. (1992). Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar.

BENJAMIN, Walter. (1986). Sobre o conceito de história. In: Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, p. 222-243.

ESCOREL, Ana Luisa. (2002). O fastio do diabo. Rio de Janeiro: Ouro sobre o azul.

FALERO, José. (2020). Os supridores. São Paulo: Todavia.

MARTINS, Giovani. (2018). O sol na cabeça: contos. São Paulo: Companhia das letras.

MARTINS, Giovani. (2022). Via Ápia. São Paulo: Companhia das Letras.

VIEIRA JUNIOR, Itamar. (2021). Doramar ou a odisseia. São Paulo: Todavia.

PASSOS, José Luiz Passos. (2022). Um álbum para Lady Laet. Lisboa: Alfaguara.