
A BVPS Edições tem a alegria e a honra de apresentar mais uma edição da série Autorais, com a publicação de textos de Wander Melo Miranda, um dos mais importantes críticos literários e culturais brasileiros contemporâneos.
Professor Emérito de Teoria Literária e Literatura Comparada da UFMG – onde construiu um sólido legado também na direção da Editora UFMG (2000-2015), alçando-a à protagonista no circuito editorial universitário, e na coordenação do projeto de pesquisa Acervo de Escritores Mineiros –, e membro da Academia Mineira de Letras desde 2019, Wander deu contribuições decisivas para redefinir os horizontes da crítica literária e ampliar os modos de compreensão da cultura no presente.
Com curadoria de Roberto Said, professor da FALE/UFMG e seu ex-orientando, a série reúne dez textos que recolocam em cena uma amostra da fecunda trajetória de Wander, retomando problemas teóricos formulados ao longo de sua obra, bem como algumas de suas obsessões críticas. Para abrir a série, Said escreveu o “Glossário de bolso de W.M.M.”
Os eixos desse glossário – Arquivo, Contemporâneo, Editor, Graciliano Ramos e Nação – oferecem um preciso mapa em miniatura para compreender a obra de Wander: o arquivo como espaço de desejo e não apenas de memória; a crítica do contemporâneo como gesto de confronto com a literatura viva; o papel de editor como projeto intelectual que redesenhou o campo editorial universitário brasileiro; a leitura original de Graciliano Ramos como chave para pensar literatura, política e cultura; e, por fim, a reflexão sobre a nação e suas temporalidades tardias, sempre atenta às encruzilhadas latino-americanas.
Agradecemos a Wander Melo Miranda por nos permitir compartilhar com as leitoras e os leitores da BVPS uma amostra de seu pensamento instigante e rigoroso, e a Roberto Said por sua curadoria atenta e sensível. Revisitar o pensamento de Wander é também reafirmar o valor da literatura e da crítica como espaços de reflexão ética e criativa em tempos tão conturbados quanto os que correm.
Não perca, semanalmente, sempre às segundas-feiras, essa nova edição da série Autorais.
Glossário de bolso de W.M.M
Por Roberto Said (UFMG)
A: Arquivo
Imagino o que ocorre, a cada noite, no terceiro andar da Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Aproveitando o sono dos vigias, fantasmas se reúnem em secreto e intemporal colóquio. Voltam às suas mesas de trabalho para revirar um volumoso conjunto de livros, documentos, cartas, manuscritos e antigos objetos pessoais. Praticam leituras silenciosas, mas também conversam, discutem, desentendem-se com frequência. Escritores não são fáceis.
Cyro dos Anjos e Autran Dourado revivem intimidades palacianas e desenvolvimentistas, Murilo segue alinhado, com seus ternos e encadernações impecáveis; vaidoso, exibe suas fotos e admira seu retrato de juventude na tela pintada pela prima Aurélia Rubião. Lúcia Machado de Almeida diz preferir o seu retrato, desenhado sob o fundo de uma capela colonial brasileira, no quadro de Ismailovitch. Fernando Sabino ri em surdina dos vestidos de Henriqueta, enquanto escuta seu jazz e pole os pratos de sua bateria. O teclado de velhas Olivettis parece ecoar no silêncio. Ainda dá tempo, pensam os fantasmas, de emendar alguns textos, fazer cortes, melhorar os inéditos. Escritores não são fáceis. Adão Ventura pergunta a José Murilo de Carvalho se agora ele é um Ghost-Writer?
O Acervo de escritores mineiros, hoje rebatizado como Centro de estudos literários e culturais, foi criado na década de 1990 como projeto de pesquisa e órgão complementar. Ao lado de seus colegas do então Departamento de Semiótica e Teoria da Literatura, Wander Melo Miranda desempenhou papel decisivo para o sucesso do projeto e para a consolidação de um hoje expressivo grupo de pesquisa. Sob sua coordenação e liderança, o Centro recebeu novos fundos documentais e se firmou com uma instituição híbrida, misto de biblioteca, arquivo e museu. Isto porque, além da catalogação e do tratamento dos fundos documentais, que concentram mais de 70 mil títulos e 60 mil documentos, foram recriados os ambientes de trabalho dos escritores com a mostra de seus objetos pessoais, suas coleções de arte e móveis. Re-fabulado, o laboratório do escritor ganha uma sobrevida no Centro.
De lá pra cá, “o mal de arquivo”, para valer-me de expressão de Jacques Derrida, se disseminou contagiando professores e alunos da Faculdade de Letras. Pesquisadores de iniciação científica, mestrado e doutorado frequentam há três décadas as mesas do Centro, consultam seus arquivos, preparam e catalogam suas pastas, zelam e cultivam as obras raras ali depositadas. Como resultado, uma série numerosa de teses e dissertações concernentes às pesquisas documentais foram defendidas no POSLIT. Wander, ao lado do acervo que ajudou a criar, estabeleceu-se como referência nos estudos acerca da memória literária, tornou-se consultor e editor da coleção internacional Archives.
É fundamental destacar, para além do aparato espacial e técnico de guarda, preservação e de consulta aos documentos, gradualmente instituído, a dimensão conceitual que rege o Centro de Estudos. Embora ele se destine primeiramente ao emprego de diferentes modalidades de filologia, ao trabalho com fontes primárias e a todo o universo descortinado com a crítica genética, o Centro se apresenta fundamentalmente como um projeto teórico, a partir do qual um conjunto de problemas de ordem literária e cultural pode ser formulado. Foi idealizado, antes de tudo, como um “espaço crítico” em que o saber sobre o literário se vale de uma heterogênea trama de disciplinas e se vê atravessado por imbricadas linhas de poder.
A criação do Acervo não se limita, portanto, a um “dever de memória”, tão necessário em nosso país, mas se posiciona como um “desejo de memória” capaz de mobilizar questões de natureza teórica e com elas estabelecer entrelaces significativos entre experiências públicas e privadas, entre vida e arte, estética e política, memória individual e memória coletiva. Nesses termos, o Centro seria menos uma instituição que uma estância, no sentido dado pelos poetas do século XIII de “uma morada capaz e receptáculo” de toda a arte, que conserva o núcleo essencial de sua poesia e dá acesso ao que se torna problemático. A estância, ensina Giorgio Agamben (2002), recolhe em seu regaço toda a arte, mas dela se mantém apartada, mantendo-a como objeto que não pode ser tomado senão em sua condição fantasmática.
Não deixa de ser curioso, a partir das transformações por que passam a literatura e o saber instituído sobre ela, que o futuro do literário esteja indissoluvelmente atrelado ao destino de suas imagens midiáticas e virtuais, que turvam as noções de presença, tempo e espaço; que os escritores circulem também fora de um corpus escrito; que suas obras sejam primeiro conhecidas nas redes sociais ou, antes ainda, que suas biografias e micro histórias privadas despertem interesse e acionem novas modalidades de consumo, a ponto de reconfigurar a natureza fantasmagórica de sua prática, a condição de simulacro – como antecipara Platão (mal sabia, o filósofo) – de sua existência. A literatura hoje, a despeito de sua perda de prestígio no mundo da imagem desmaterializada em que tudo se apresenta como ficção, apresenta-se com paradoxal contemporaneidade, com seu universo de simulacros, de imagens que não são nem verdadeiras nem falsas, mas que assombram as verdades instituídas com seu cortejo de fantasmas.
Como se sabe, nossa faculdade da memória é falha, vivemos esquecendo, esquecemos para lembrar, mas a História não existiria não fosse nosso desejo de memória – mas não seriam sempre fantasmáticos os nossos desejos?
C: Contemporâneo
A verdadeira leitura é uma luta entre subjetividades que afirmam e não abrem mão do que afirmam, sem as cores da intransigência. O conflito romanesco é, em forma de intriga, uma cópia do conflito da leitura. Ficção só existe quando há conflito, quando forças diferentes digladiam-se no interior do livro e no processo da sua circulação pela sociedade. (Silviano Santiago, 1981).
Há no trabalho crítico de Wander uma verdadeira obsessão em lidar com a produção literária brasileira contemporânea. Pode-se ver seu resultado, em veio mais explícito, nos ensaios de cunho historiográfico voltados ao presente, como “Moderno, pós-moderno e a nova expressão da narrativa brasileira” (1999) e “Moderno, pós-moderno e a nova poesia brasileira” (1999), este último elaborado em parceria com Antonio Sérgio Bueno, mas também em recortes menores como “Ficção virtual” (1995), “Ficção-Passaporte para o século XXI” (2005); “Ficção brasileira 2.0” (2011) e “Os novos” (2024), sem mencionar a fecunda atividade de resenhista exercida de modo intermitente durante décadas nos cadernos e suplementos literários brasileiros. O exercício do corpo a corpo crítico com a “última” literatura, entrevista no calor do momento, sem o distanciamento temporal requerido para investigação meditada, realiza-se a partir de uma mirada comparatista que instaura zonas de fricção entre escritas e linguagens, consideradas pelo crítico para além dos nichos específicos de recepção criados pelo mercado editorial e seus horizontes de expectativa. Isto porque o procedimento analítico dá visibilidade, a cada nova empreitada, tanto ao desconforto quanto ao deslocamento criativo da atividade propriamente crítica que, destituída dos parâmetros legitimadores de seu poder e autoridade, já não é a única instância a exercer nas sociedades contemporâneas a mediação entre o produto-livro-literário e o leitor-consumidor.
Nesse movimento, a cartografia do resenhista do tempo presente visaria menos a um registro instantâneo da “atualidade” ou a um retrato da geração em pauta do que ao exame dos problemas então lançados à “partilha do sensível” – para me valer do conceito de Jacques Rancière caro a Wander – estabelecida em uma dada comunidade de leitores. O que de fato lhe interessa não é a aferição estética das obras em questão definida com os repertórios de valor e sentido do especialista, mas o contato com o infamiliar, com a mobilidade perturbadora que corrói a autonomia do objeto literário, resultante dos modos de enunciação e endereçamento que impelem à experiência sensível alheia e contingente, de maneira a definir a leitura como uma espécie de deixar-se escrever pelo outro.
Essa relação com o próprio tempo não se deixa levar pelo fascínio do atual, pois, na busca do contemporâneo, vale mais a obra em dessincronia com sua época, o ponto de não coincidência ou de não espelhamento do agora; valem mais os problemas colocados aos atos vigentes de escrita, que discutem o ato de escrever; os restos que não se deixam capturar em sínteses pacificadoras; a consciência da dimensão relacional dos valores. Ao se confrontar com as obras recém-saídas do prelo, o crítico erige caminhos possíveis para que possa tomar posição em relação ao seu presente.
Nesse arquivo aberto do tempo presente elaborado por Wander, destaca-se o modo como seu trabalho crítico acompanha passo a passo a numerosa e profícua produção de Silviano Santiago, desdobrada em diferentes gêneros, e dela se nutre para montar e desmontar, para seus próprios fins, modos de inteligibilidade do texto literário capazes de descortinar o campo conflitivo que a literatura dá a ver “em sua circulação pela sociedade”, isto é, o movimento a partir do qual as formas se revelam forças. Desde Em liberdade (1981) até os Cadernos em andamento (2024), há um gesto que procura avaliar como se inscreve, na ficção, na poesia ou no ensaio de Silviano, os jogos ambivalentes de desidentificação de si e apropriação do outro com os quais o escritor questiona, pelo viés da différance, as microestruturas de dominação políticas e estéticas manifestas sobretudo nas formas consentidas de interpretação e escrita de nossa arte e cultura. Como se as estratégias de “domesticação”, identificadas por ele não se limitassem à fortuna crítica de Grande Sertão: Veredas, mas se estendessem como modus operandi à historiografia literária brasileira com suas lentes modernistas.
Na base da ficção teórica de Silviano Santiago, tramada pela via de um cosmopolitismo subalterno, encontra-se antes de tudo uma relação com o tempo, tomado no plural, em divergência com sua concepção metafísica: o tempo da dominação metropolitana, a memória como rasura da história e da origem, a heterogeneidade constitutiva dos objetos da cultura.
E: Editor
Cito um trecho de Inimigos da esperança, obra do prestigiado editor da Havard University Press, Lindsay Waters (2006: 11):
Entre os administradores acadêmicos norte-americanos surgiu a ideia de que as editoras universitárias deveriam se transformar em centros lucrativos e contribuir para o orçamento geral da universidade. Em que se basearam? A ideia é péssima. Desde Gutemberg temos registros financeiros contínuos sobre as publicações no Ocidente, e está provado que os livros são um negócio ruim. As novidades mecânicas e eletrônicas foram, e sempre serão, uma aposta melhor.
Em 2016, a empresa GSD venceu a licitação para contabilizar o estoque de livros da Editora UFMG: era preciso acertar os dados, alimentar o novo sistema operacional e reorganizar os dois andares de almoxarifado ocupados no espaçoso prédio, onde atualmente se localiza a Editora. Naquele ano de grave crise financeira e institucional, em que as universidades brasileiras se equilibravam com os doze avos sempre incompletos de um orçamento contingenciado, a Editora exibia, segundo o relatório exibido, um vultuoso patrimônio, com mais de 40 mil livros. Encerrava-se um ciclo de 16 anos durante os quais Wander esteve na direção da Editora e o ciclo se encerrava com diferentes modalidades de saldo, entre os quais a comemoração do milésimo título publicado, com a obra Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa.
Mas nos anos de sua gestão, a despeito de os livros não se revelarem “um negócio ruim”, nunca se tratou prioritariamente de números na Editora. A questão nunca passou por argumentos ou balanços quantitativos. Sob a direção de Wander, a Editora UFMG transformou-se na mais respeitada editora universitária brasileira. Para dizer nas generosas, mas sensatas palavras de um de nossos colegas, que cumpriu função análoga em outra instituição, a UFMG alterou significativamente os parâmetros da Edição universitária no país, lançou-a em outro patamar.
De fato, presenciei o processo de profissionalização editorial da UFMG, com a formação e a qualificação de servidores administrativos para postos e tarefas que não constavam no quadro do funcionalismo federal, com a criação, na contracorrente da burocracia, de um sistema de distribuição em todo território nacional; o treinamento de uma equipe de revisores, formatadores e capistas; a aquisição de softwares administrativos e editoriais; a abertura de livrarias próprias; a montagem de setores de contabilidade e de direitos autorais; a elaboração de documentos e contratos jurídicos concernentes à autoria, tradução, direitos de imagens, coedição, consignação e distribuição, sob a intransigente supervisão da procuradoria da universidade. Criou-se um ambiente de trabalho com elevada produtividade. Nos anos de vacas gordas, embora com orçamentos oficiais magros, a Editora ultrapassava a marca de cem títulos anuais.
O catálogo da Editora UFMG, e esse é seu mais valioso bem, foi pensado a partir das demandas de produção de conhecimento na contemporaneidade, sobretudo no campo das Humanidades. Às coleções se conferiu projetos gráficos específicos, cuja elaboração estética equiparava-se a das melhores editoras brasileiras, sendo capazes de oferecer significações suplementares ao conteúdo da obra publicada.
Na condição de leitor crítico e transdisciplinar, Wander delineou um projeto editorial com linhas convergentes em relação à sua multifacetada trajetória intelectual, que não se prendeu particularmente a uma escola ou a uma linha de pensamento teórico. Formado em Letras em 1974 sob a égide do estruturalismo, defendeu sua dissertação de mestrado sobre o escritor Cornélio Pena em 1977, balizado criticamente pela psicanálise. Enveredou-se na sequência pelos estudos memorialísticos ligados à biografia e à autobiografia, acerca dos quais se tornou uma referência entre nós, num percurso que resulta em sua tese de doutorado, sobre as obras de Graciliano Ramos e Silviano Santiago, defendida na USP em 1987. Na década de 1990, seu olhar se desloca para os estudos comparatistas e para a crítica cultural, com destaque para o tema da nação que, talvez, constitua a sua contribuição mais original para os estudos literários realizados no Brasil. Na encruzilhada desses interesses, deve ser lembrada sua participação ativa na Fundação da Abralic, cuja origem remonta aos simpósios de Literatura comparada organizados na FALE no final dos anos de 1980.
A Editora UFMG, valendo-se desse lastro intelectual, cumpriu o papel de divulgar no Brasil textos seminais dos Estudos Culturais, com a tradução de autores influentesem edições que se tornaram verdadeiros sucessos editoriais. Tornou-se porta de entrada no país de pensadores decisivos da contemporaneidade, no campo das humanidades. O catálogo da Editora exibe as principais figuras da crítica literária brasileira, além de diferentes tradições de nosso pensamento social e histórico, entabulando também diálogos com o ensaísmo latino-americano. Cito, a título de exemplo, a publicação de Passagens, obra monumental de Walter Benjamin que marcou época nos meios acadêmicos e editoriais brasileiros. E, vale notar, o conjunto dessa produção foi realizada, para voltar a Waters, “com os bárbaros à nossa porta”. Seu legado, além de inspirar outras empreitadas editoriais acadêmicas, revela-se ainda fundamental neste momento em que as Humanidades sofrem novo assalto e veem mais uma vez ameaçada sua sobrevivência ou mesmo sua dignidade institucional nas universidades públicas brasileiras.
G: Graciliano Ramos
Recupero uma passagem decisiva para a trama de Memórias do Cárcere. Ao ser transferido para a Colônia correcional de Ilha Grande, Graciliano resolve desfazer-se das anotações que reunira desde que chegara à prisão. A cena é assim descrita:
Em meio do caminho ouvi um grito e, levantando a cabeça, distingui o soldado preto a acenar-me. Subi ao convés, recebi vários maços de cigarros e caixas de fósforos. Ao metê-los nos bolsos, encontrei as folhas de papel cobertas de letras miúdas e joguei-as na água. Representavam meses de esforço, nenhuma composição me fora tão desigual e custosa, mas naquele momento experimentei uma sensação de alívio. Não me ocorreu o prejuízo. O certo era que as notas significavam culpa, e se fossem descobertas isto me renderia aborrecimentos (Ramos, 2008: 401).
Na adaptação fílmica da obra, realizada por Nelson Pereira dos Santos, a cena é alterada: na iminência de perder suas notas, Graciliano as esconde atrás de si, no movimento infantil que reúne as mãos nas costas, para escapar da revista. Imediatamente os companheiros de prisão, em fila, se apropriam dos papéis amassados, passando-os de mão em mãos, como numa corrente, até que pudessem estar a salvo.
No segundo semestre de 1998, na condição de aluno do Mestrado, matriculei-me na disciplina “Seminário de teorias da narrativa: Graciliano Ramos”, conduzida por Wander Melo Miranda. A experiência, realizada junto a um pequeno grupo de alunos, foi reveladora, e não apenas porque empreendia pela primeira vez, de forma sistemática, a leitura de toda a obra do escritor alagoano – escritor definitivamente incorporado em meu panteão portátil – mas, sobretudo, porque a perspectiva de leitura ali proposta se apresentava como a justa medida entre o que se pode nomear crítica e teoria literárias. Toda a fundamentação teórica contemporânea era convocada e, ao mesmo tempo, submetida, ao texto literário, de modo que, por fim, a ficção se tornava a própria instância de produção e formulação da teoria.
Autor dos livros Corpus escritos (1992) e Graciliano Ramos (2004), este último da coleção Folha explica, e atualmente empenhado na elaboração de uma biografia do escritor, encomendada pela Companhia das Letras, Wander tornou-se referência na fortuna crítica de Graça, ao deslocar as interpretações ideológicas e biográficas de seu texto, para ressaltar a dimensão política da obra em suas injunções históricas e culturais.
Em seus seminários sobre o escritor alagoano, para além das análises e julgamentos empreendidos, construía-se uma estratégia, por excelência teórica, de aproximação-afastamento do texto literário. Uma espécie de for-da freudiano da leitura crítica, em cujos interstícios se entrecruzam em significativa tensão cultura e política. Tensão a partir do qual muitos de seus alunos e orientandos inscreveram e desdobraram suas próprias leituras. Fio a partir do qual eu mesmo conduzi o desejo de construir uma enunciação crítica e teórica acerca da literatura brasileira. Sou, entre tantos, certamente atravessado por esse trabalho. Mas seria possível constituir uma identidade de pesquisador sem se deixar tomar por um outro? A primeira influência não seria sempre uma primeira cópia? Não desencadearia ela também uma primeira traição? Um desvio necessário? Não nos formamos como pesquisadores a partir da apropriação e da traição do pensamento do outro, nesse impreciso espaço em que somos falados por esse outro, nos apropriando e rasurando suas leituras, gostos, cânones? Não seria essa a condição imprescindível para a produção de conhecimento no âmbito da universidade pública brasileira, ultimamente tão dispersa e dividida por vaidades e particularismos narcísicos a fomentar “carreiras-solo”? Não seria necessário cartografar, no espelho sempre fugidio do trabalho alheio, as linhas de força de uma tradição crítica, de um projeto intelectual e profissional que ressoa discursos de gerações precedentes e que recua aos mestres do mestre. Como as anotações salvas pelas mãos alheias, em que as memórias registradas meses a fio pelo escritor, testemunho de uma época, parecem ser compartilhadas entre todos, anônimos, ainda que na condição degradante do cárcere, na bela cena traduzida por Nelson Pereira dos Santos.
N: Nação
Os estudos sobre a nação (e identidade cultural) empreendidos por Wander Melo Miranda realizam com maestria o desejo de toda empreitada teórica: reinventar seu objeto de estudo. E, acrescente-se, seu repertório de objetos investigados compõe-se de um vertiginoso universo de obras modernas e contemporâneas. Sua mirada abarca literatura, cinema, artes visuais e música popular, embaralhando fios que seguem de João Gilberto Noll a Wim Wenders, de Mario Bellatin a Nuno Ramos, de Silviano Santiago ao Rappa, de Guignard a Ary Barroso, passando ainda pela fina tradição literária brasileira representada por Drummond, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Wander construiu, sob fronteiras disciplinares, um engenhoso dispositivo de leitura a fim de analisar o modo pelo qual o texto artístico, entendido como forma liminar de representação cultural, interpela as formações nacionais que dão significado e visibilidade ao campo político da modernidade nos trópicos. Em sua óptica comparatista, textos e imagens examinados, ao articularem experiências que definem os estratos de sentido da temporalidade histórica, parecem cifrar as aporias constitutivas dos processos de identificação da nação e do sujeito modernos.
Ressalto nesse itinerário sobre a nação, a coordenação exercida por Wander do Projeto Modernidades tardias, financiado pela Fundação Rockfeller, que propunha uma reflexão original sobre temporalidades disjuntivas existentes na recepção das culturas modernas hegemônicas pelas periféricas, especialmente na América Latina. A proposta fundava-se no reconhecimento de singularidades múltiplas e divergentes da experiência moderna, opondo-se a ideia de um atraso constitutivo convertido em chave explicativa da diferença cultural. No caso brasileiro, a narrativa moderna encontra um de seus vértices na Belo Horizonte de JK, visto que a construção do conjunto arquitetônico da Pampulha, na década de 1940 – “uma metáfora a mais/no mar a menos de Minas”, conforme equação poética de Affonso Ávila – se apresenta como marco deslocado do moderno. A modernidade na capital mineira pode então ser lida como uma espécie de contrapartida à hegemonia político-cultural dos centros metropolitanos internos e externos, como a expressão da consciência de quem chega tarde na história do progresso e do novo quando o moderno parece já estar consumado.
As hipóteses de trabalho ali lançadas, ainda não de todo exploradas, permanecem fecundas e seguem sendo retomadas em função dos interesses do presente, como se deu no conjunto de pesquisas orquestradas no projeto coletivo MinasMundo. Afinal, a inquirição crítica sobre as imagens e identidades nacionais estão novamente na ordem do dia, diante da imposição de novas/velhas ordens, da sensação de repetição que assombra nossa história, da desorientação, do espanto, das ondas de exílio que cortam o planeta impelidas por violências várias.
Últimas letras: WMM
Os textos reunidos para a série Autorais recolocam em cena uma amostragem da fecunda trajetória intelectual e docente de Wander, com o intento de reunir suas linhas de força, os problemas de ordem cultural por ele formulados, algumas de suas obsessões, sua fina lente interpretativa, enfim, os traços deixados por uma assinatura (W.M.M.), cujo trabalho acompanha e participa ativamente dos movimentos críticos e teóricos que redimensionaram os estudos literários entre nós nas últimas décadas.
Referências
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MIRANDA, Wander Melo. (1999) Moderno, pós-moderno e a nova expressão da narrativa brasileira. In: Sílvio Castro. (Org.). História da literatura Brasileira. 1ª ed. Lisboa: Alfa, v. 3, p. 421-442.
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MIRANDA, Wander Melo. (2024). Os novos. Saberes, literatura, pela pluralidade de sentidos. Campinas: Mercado de Letras, p. 439-442.
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RAMOS, Graciliano. (2008). Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Record.
SANTIAGO, Silviano. (1981). Em liberdade: uma ficção de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
SANTIAGO, Silviano. (2024). O grande relógio: a que hora o mundo recomeça. Caderno em andamento 1. São Paulo: Editora Nós.
WATERS, Lindsay. (2006). Inimigos da esperança: publicar, perecer e o eclipse da erudição. São Paulo: Editora da UNESP.
