Sociológicas | O Brasil não é para principiantes, por Adalberto Cardoso

Em nova publicação da série Sociológicas, Adalberto Cardoso (IESP-UERJ) revisita a célebre frase de James Carville – “it’s the economy, stupid” – para mostrar por que, no Brasil, a relação entre crescimento econômico e apoio político nem sempre se cumpre. O autor argumenta que parte da explicação reside no ambiente informacional profundamente distorcido das redes sociais, onde fake news e câmaras de eco moldam percepções políticas de forma contínua. Mas há também algo ainda mais estrutural, que atravessa a experiência de milhões de brasileiros e torna a melhora dos indicadores “intangível” para grande parte da população.

Sociológicas é um espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e para o processo social que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva diferencialmente sociológica. O que tem a sociologia a dizer sobre o contemporâneo, sobre as diversas crises e incertezas que tecem a trama do social e, nela, das subjetividades de indivíduos e grupos, no Brasil e no mundo? Não perca, quinzenalmente, sempre às quintas-feiras!

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O Brasil não é para principiantes

Por Adalberto Cardoso (IESP-UERJ)

É a economia?

Desde que James Carville, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton em 1992, cunhou a frase “it’s the economy, stupid” para explicar por que o democrata defenestrou do poder o combalido Jorge Bush (os Estados Unidos estavam em recessão), a associação positiva entre desempenho econômico e avaliação do incumbente da ocasião tornou-se quase uma lei. 

Mas o Brasil, que não é para principiantes, como disse certa vez o maestro soberano Antônio Carlos Brasileiro Jobim, tem dado mostras de que não é bem assim. Contra todas as expectativas do “mercado” (eufemismo para intelectuais orgânicos da Faria Lima, em geral economistas), o país cresceu 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, quando o tal “mercado” previra 1% ou menos no início de cada um daqueles anos. Em 2025 o crescimento deve ser menor, 2% segundo o “mercado”, por causa da estratosférica taxa de juros, a mais alta do mundo. Mas mesmo assim o desemprego encontrou sua mínima histórica. Desde o surgimento da nova PNAD Contínua em 2012, a taxa nunca tinha descido aos 5,6% registrados em julho de 2025. Em 2023 e 2024, segundo o Ministério do Trabalho, foram gerados quase 3.2 milhões de empregos com carteira assinada. Para completar, a renda média do trabalho vem subindo constantemente, batendo o recorde histórico também em julho de 2025, próximo de R$3.500.

Não deixa de ser espantoso, diante desses números positivos, que o governo Lula tenha sido desaprovado por 54% do eleitorado em maio de 2025, segundo pesquisa da Quaest. Em setembro a desaprovação tinha caído para 51%, ainda superando a aprovação em 5 pontos percentuais, passados dois anos e meio de melhorias econômicas. E isso mesmo considerando a queda recente no preço de produtos essenciais, como arroz, feijão, café e carne bovina, que impactam diretamente a qualidade de vida das pessoas. O Brasil, pois, mostra-se importante exceção à máxima de Carville.

É muito difícil encontrar uma explicação unívoca para essa “anomalia”. Parte dela residirá, imagino, nas bolhas e câmaras de eco das redes sociais. O Brasil é o país de maior proporção de pessoas, no mundo, que dizem se informar principalmente através das redes sociais, incluindo Whatsapp, YouTube e Facebook. Estamos falando de mais de 50% das pessoas. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, da primeira metade de 2024, encontrou que 80% dos brasileiros disseram ter caído na lorota de alguma fake news. Dessas, 62% tratavam de políticas públicas, como vacinação, e 62% falavam de escândalos envolvendo políticos. Sabemos que as direitas dominam amplamente o mundo virtual e as redes sociais, como mostram as pesquisas do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP), coordenado por meu colega João Feres Júnior no IESP-UERJ. Parte da resistência à queda da desaprovação de Lula terá a ver, nessa interpretação, com o modo como os brasileiros, de ambos os sexos, formam sua opinião. Qualquer pessoa que entre no perfil de um bolsonarista no Facebook, no Instagram ou no X pensará que o Brasil está em recessão, que o desemprego e a inflação batem recordes, que a Petrobras está sendo destruída, que o presidente da República é um sósia de Lula, que, na verdade, além de ser o maior ladrão do planeta, está morto, e que Donald Trump está preparando uma invasão do Brasil para salvar Bolsonaro da cadeia.

Mas suspeito que outro tanto da explicação resida na intangibilidade da melhoria dos indicadores econômicos para a maioria da população. Para começar, há a precariedade estrutural dos modos de obtenção de meios de vida. As pessoas circulam com grande desenvoltura pelas posições econômicas existentes, em sua busca por melhores condições de existência. Nesse movimento encontram meios por vezes muito fugazes de se auferir renda, já que em posições sociais sujeitas a transformações profundas em curto espaço de tempo, em razão de crises econômicas ou catástrofes climáticas, cada vez mais comuns e cada vez mais destrutivas. Isso quer dizer que gerações inteiras sonharam seus projetos de vida e os viveram em condições muito precárias de existência. Proporção relevante dos brasileiros já passou da idade de se beneficiar, de forma sustentada e abrangente, das mudanças em curso, incluindo o recente crescimento dos empregos formais e a retomada do crescimento econômico. Esses homens e essas mulheres não estão demandando e não demandarão um trabalho assalariado formal na economia em crescimento, principalmente porque são “velhas” demais ou permaneceram tempo demais em posições por conta própria ou assalariadas informais, o que as “selecionou” para fora da competição por novos (ou velhos) empregos formais. Este é o mundo do trabalho não regulado, ocupado por pessoas em situação, por vezes, de alta vulnerabilidade, pelo que se deve entender instabilidade dos vínculos ocupacionais, condições precárias de trabalho, baixa renda e perspectivas incertas de segurança socioeconômica no futuro.

Resulta que o Brasil precisará se haver, ainda por décadas, com considerável inércia social, econômica e demográfica resultante do longo período de instabilidade econômica, inflação alta, desorganização da estrutura produtiva, baixo crescimento e, principalmente, baixa qualificação da força de trabalho, que afetou gerações sucessivas nos últimos quarenta ou cinquenta anos, criando um novo tipo de dualidade no mercado de trabalho que não costuma ser levado em conta nas análises ou no debate público corrente. Parte substancial dos 40 por cento da população informalmente empregada no país (segundo dados da PNAD Contínua, do IBGE) não são empregáveis no mercado formal de trabalho. Ademais, aspecto em certa medida complementar a este está relacionado ao fato de que a retomada do crescimento do mercado formal de trabalho no governo Lula 3 não tem sido suficiente para acomodar as novas gerações de trabalhadores, que ainda precisam passar por longos períodos de desemprego ou em precárias ocupações não reguladas antes de ser consideradas “aptas” a uma posição formal. E essa posição, uma vez conseguida, é instável para boa parte dos/as trabalhadores/as, representando períodos de relações formais de trabalho intercaladas com informalidade, desemprego ou desalento.

Se as coisas estão muito melhores hoje do que costumavam ser, e para uma parte substancial da força de trabalho, suas estabilidade e sustentabilidade, caso se provem no futuro, não são garantia de melhor posição no mercado de trabalho nem para as gerações mais velhas, nem para os jovens que entram constantemente nesse mercado. As primeiras, porque queimaram as pontes com o mundo das relações formais de emprego, em razão da idade. A literatura sobre isso não deixa dúvidas: as portas das relações formais de trabalho se fecham às pessoas que perdem o emprego perto dos 40 anos. Isso significa, por um lado, que essas gerações dependerão de forma crescente da circulação da riqueza produzida em outras plagas, da qual retirarão seu quinhão via os serviços que prestarem ou os produtos que transformarem ou venderem como trabalhadores por conta própria; e, por outro lado, à medida que envelhecerem, dependerão crescentemente das políticas públicas redistributivas e compensatórias, além do suporte das famílias. Essa inércia demográfica e social deve ser levada em conta em qualquer discussão sobre o futuro do país. No caso dos mais jovens, a baixa educação formal média esconde desigualdades importantes de acesso ao sistema educacional, que parece pouco equipado para gerar, na proporção necessária, os profissionais hoje demandados por segmentos inteiros do mercado de trabalho, muito particularmente os voltados para as inovações tecnológicas. 

As transformações em curso, ainda que na direção da melhoria das condições de vida e trabalho, estão confrontando pesadas heranças do passado. E isso, ao lado da desinformação nas bolhas digitais e de outros determinantes que não posso aprofundar aqui, dificulta a percepção, pelo cidadão comum, de que as coisas estão melhorando. E ajuda a consolidar certo ceticismo, entre os que percebem a melhora, sobre sua sustentabilidade no tempo. O passado recente ensina que esse ceticismo é perfeitamente racional.