
Trazemos hoje mais uma resenha de A vida em outro lugar. Crônica do exílio, de Angela Leite Lopes, e um convite para o lançamento do livro.
Reconhecendo a importância de obras como A vida em outro lugar, Helena Dória Lucas de Oliveira (UFRGS) celebra a coragem da autora em reabrir os compartimentos traumáticos da infância no exílio, compondo uma narrativa marcada pela duplicidade, que transforma lembranças pessoais em testemunho coletivo. Segundo Oliveira – também exilada quando criança –, o livro de Angela ajuda a dar visibilidade àquilo que tantas vezes se tentou esquecer, contribuindo para a construção de uma memória social da nação.
O lançamento do livro acontece na próxima quinta-feira, 4 de dezembro, às 17h, na Casa da Ciência da UFRJ (Rua Lauro Muller, 3, Botafogo, RJ), e contará com a presença da autora, de Eurídice Figueiredo e de Gilberto Hochman.
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Elevador “sem memória”: pode! sociedade sem memória: não pode!
Testemunhos de crianças brasileiras na construção de memória social.
Por Helena Dória Lucas de Oliveira (UFRGS)
Foi uma menina brasileira, Angela, filha da Maria Laura e do Leite, irmã do Sylvio e do Sergio, quem conheceu um elevador “sem memória”, em um edifício na França. Eis como ela conta esse fato inusitado:
Quando meu pai chegou em Paris em 1964, alugou uma metade de apartamento: de um lado, ficava o consultório de um médico, do outro a nossa casa. Era no bairro chique do 7ème, numa rua sem saída que curiosamente se chamava Avenue Daniel-Lesueur, com prédios antigos e suntuosos, de um apartamento por andar. Morávamos no terceiro andar. Subia-se num daqueles elevadores todo de grade de ferro preto vazado, com aquela porta basculante. Era um elevador “sem memória” – lembro bem dessa definição que minha mãe me deu: de nada adiantava apertar o botão do andar antes que o elevador estivesse pronto para se pôr em marcha. Ainda sinto o cheiro daqueles prédios antigos e desses elevadores….
A lindeza da lembrança escrita está na possibilidade de quase enxergar essa menina e sua mãe, escutar a conversa em frente ao elevador desmemoriado, vê-las entrando nele e imaginar o ruído da porta pantográfica sendo fechada.
Essa descrição está no livro A vida em outro lugar – crônica do exílio, de Angela Leite Lopes. É momento de celebrar a chegada desse livro novo no pedaço e agradecer o esforço e a coragem de escrita da autora. Esforço de escrita porque é penoso acessar e revirar memórias que estão bem guardadas, propositalmente bem guardadas, em espaços de difícil acesso, bem embaixo, bem lá no fundo e num canto escuro de algum compartimento de nossas lembranças. Mexer nas recordações, algumas boas e alegres, outras traumáticas e dolorosas, demanda um trabalho emocional que só vamos perceber no próprio esforço de escrita, na própria demora para escrever, na dor muscular que sentimos depois. Também sou uma mulher que, quando criança, viveu no exílio com sua família. Portanto, reconheço esse esforço. É necessário coragem para empreender esse propósito. Por isso, recebemos com alegria obras como A vida em outro lugar.
O livro de Angela tem uma escrita fluida, fazendo-nos deslizar pelas páginas e ir acompanhando as viagens da família para fora do Brasil, as peripécias da criança e suas passagens por várias escolas, por conta da aposentadoria obrigatória e repentina de seus pais por imposição da ditadura militar que amedrontava o país nas décadas de 1960 e 1970. A leitura pede paradas nos desenhos e nos folhetos e observação atenta nas fotos, cartões postais e cartas que sabiamente estão incluídas entre os relatos. O colorido e a nitidez desses artefatos culturais mostram um cotidiano familiar imerso na intensidade de uma vida de trabalho, de estudo e de resistência; um cotidiano familiar regado com amorosidade e saudades. Ah, quantas saudades!
Livros como A vida em outro lugar são centrais para compor uma literatura de testemunhos que revelam como as crianças foram, também, alvos do terror do Estado, fazendo-as viver longe do país natal, da família estendida, das amizades de infância, da língua materna. Alguém poderia pensar: “Ah, mas você conheceu outros países e aprendeu outros idiomas”. Sim, conhece-se outros países e aprende-se outros idiomas. No entanto, não se trata de viagens turísticas ou de intercâmbio, em que as famílias decidiram e planejaram com antecedência, tendo passagem de volta com data marcada, após não muito tempo longe de casa. Viver fora do país em que nascemos, como exiladas, é viajar de modo compulsório, de uma hora para outra, para a sobrevivência da família e passamos a ser estrangeiras. Exílio não é turismo. Angela, resgatando seus sentimentos de infância, consegue definir como foi o exílio para ela e como ele nos rasga por dentro. “Essa espécie de isolamento, o fato de não se ter a menor ideia de quando seria possível voltar para o Brasil, se seria possível voltar para o Brasil, e todas as notícias terríveis que chegavam: era o exílio, sem sombra de dúvida.”
O encantador da obra de Angela Leite Lopes é que ela nos brinda com uma duplicidade de quem narra a história. Ora é a menina exilada, constituindo-se em sujeito estrangeiro, contando casos de como essas identidades se mesclaram e afetaram sua vida; ora é a mulher adulta, tecendo reflexões e produzindo novos sentidos para aquilo que nos narra. Menciono um desses episódios. Em uma escola de Educação Infantil da França, Angela percebe que, ao final do corredor em que está sua sala de aula, havia uma sala só para crianças imigrantes, entre elas portuguesas e espanholas. Era uma turma desprezada e falavam que as crianças não avançariam na escolarização. Ela, por vezes, se dizia portuguesa, quando a escutavam falando português com a família, mas não estava na turma do final do corredor. Angela, ao final daquele ano letivo, recebe dois prêmios: um pela conclusão da Educação Infantil com ótimo desempenho e outro por ter sido escolhida pela turma como “melhor colega”. A cerimônia teve a presença do prefeito do bairro e de sua mãe, Maria Laura, também, que escuta a diretora comentando para o prefeito que a menina dos prêmios nem francesa era e não soube informar de qual país era a premiada. A criança Angela, mesmo sendo identificada como não sendo francesa igual às crianças da turma do fim do corredor, é premiada, embora o comentário da diretora não seja sobre seu desempenho brilhante. A adulta Angela analisa:
Apesar de ter passado aparentemente incólume, e até com desenvoltura, por toda essa situação, me vêm à lembrança os inúmeros tiques que eu tinha nessa idade! Ou seja, toda essa sensação de pertencimento e de adaptação à vida num país estrangeiro, com a família dividida, não era algo desprovido de tensão. E o esforço que a criança faz para ser igual às outras e se adequar totalmente ao contexto em que está vivendo devia ter no fundo para mim um alto custo emocional.
Não houve o “passar incólume”. Foi uma ilusão, reconhecida pela autora, a menina já adulta.
No livro Crianças e exílio, que organizei junto com Nadejda Marques, descubro-me tendo ciência de algo semelhante ao que Angela menciona e que passei em Cuba, onde vivi 6 anos com minha família, que também precisou sair do Brasil.
Com muito estudo eu já passava despercebida entre professores e colegas. Não deixava rastros de ser estrangeira. Mas em casa, meu português era precário. Certa vez, quando a mãe, brava, me perguntou por que eu não respondia, disse: mas eu não te ovo direito, mãe. Também tinha que esforçar-me para não esquecer meu idioma, senão virava chacota de minhas irmãs e irmão. Não tinha como ser boa no espanhol e no português. Era um esforço que pesava. O peso foi tornando-se natural” (Marques & Oliveira, 2025: 328).
Milhares de crianças viveram essa tensão causada pelo exílio. Milhares de crianças vivem essa sobrecarga emocional provocada também pelas migrações contemporâneas.
A vida em outro lugar é uma obra imprescindível para a composição de testemunhos que dão visibilidade aos modos de vida das infâncias exiladas e produzem uma memória social de uma nação. O que aconteceu no Brasil durante os anos em que fomos submetidos pela ditadura militar precisa ser mais contado, documentado e visibilizado, seja por livros como o de Angela Leite Lopes – iniciativas individuais –; seja com museus e sítios de memórias – políticas públicas estatais.
Livros com narrativas semelhantes são ainda poucos no Brasil. Além do livro Crianças e exílio, conheço outros poucos: Infância Roubada (2014), Direito à memória e à verdade (2009), Memórias de filhos de exilados políticos (2020), 1964: Eu era criança e vivi (2024) e, recentemente lançado, Nenhuma ditadura jamais poupou crianças (2025). Obras como as listadas e a de Angela Leite Lopes fissuram o mercado editorial e apresentam à sociedade o ponto de vista de crianças, o que sentiram, o que lembram, esqueceram, o que escutaram e o que compreenderam daquilo que suas famílias viveram durante a ditadura militar brasileira de 1964 a 1985.
Referências
BOITEUX, Bayard do C. & POSTIGO, Vanuza M. C. (Orgs.). (2020). Memórias de filhos de exilados políticos. Rio de Janeiro: Editora Mourthé.
BRASIL. (2014). Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Infância Roubada: crianças atingidas pela ditadura militar no Brasil. São Paulo: Assembleia Legislativa – ALESP.
BRASIL. (2009). Presidência da República. Direito à memória e à verdade: histórias de meninas e meninos marcados pela ditadura. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos.
MARQUES, Nadejda & OLIVEIRA, Helena D. L. de (Orgs.) (20250. Crianças e exílio: memórias de infâncias marcadas pela ditadura militar. 2. Ed. São Leopoldo: Carta Editora & Comunicação.
ROSSI, Ana. (2025). Nenhuma ditadura jamais poupou crianças. Brasília: Avá.
VIANNA, Márcio & NARDELLI, Rita (Orgs.) (2024). 1964 – Eu era criança e vivi. Ouro Preto: Caravana.
Sobre a autora
Helena Dória Lucas de Oliveira é licenciada em Matemática, doutora em Educação, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisadora em Educação Matemática. Neste ano, organizou, junto com Nadejda Marques, o livro Crianças e exílio: memórias de infâncias marcadas pela ditadura militar, lançado pela Carta Editora. Seu pai foi preso político durante a ditadura militar, e a família precisou deixar o Brasil. Viveu dez anos no exílio, em três países diferentes. É integrante do Coletivo Testemunho e Ação e do Instituto SIG – Psicanálise & Política, em Porto Alegre (RS).
