BVPS Efemérides | Centenário de Ángel Rama, por Facundo Gómez

Neste 30 de abril, a BVPS celebra o centenário de nascimento de um dos maiores intelectuais latino-americanos. Crítico literário, editor, professor e articulador de projetos intelectuais decisivos – como a Biblioteca Ayacucho –, Ángel Rama (1926-1983) foi uma figura central na construção de um pensamento latino-americano atento às relações entre literatura, sociedade e política, e profundamente comprometido com a integração do continente.

Reunimos hoje dois textos que revisitam seu percurso e atualizam suas questões. Em “Ángel Rama: crítica e utopia latino-americana”, Facundo Gómez explora a obra do uruguaio para destacar a potência de uma crítica que ultrapassa a especialização acadêmica, constrói redes, promove autores e formula conceitos decisivos para compreender a cultura da região. Já Alice Ewbank, em “Diáspora latino-americana 2.0”, retoma a experiência de deslocamento e exílio de Rama, marcada por tensões entre integração e marginalização, para pensar a diáspora latino-americana em perspectiva de longa duração.

Os textos, publicados simultaneamente em português e espanhol, recolocam em cena a atualidade de um pensamento que nunca deixou de apostar na América Latina como horizonte comum, e que continua a nos desafiar a imaginar formas de crítica e integração à altura dos desafios do nosso tempo.

Boa leitura!


Ángel Rama: crítica e utopia latino-americana

Por Facundo Gómez (Universidad Nacional de Quilmes, Argentina)

Um intelectual latino-americanista

Ao prefaciar o volume de Rubén Darío na Biblioteca Ayacucho, Ángel Rama (1926-1983) iniciava seu ensaio com uma sugestiva pergunta: “Por que ainda está vivo?” A questão colocava em evidência a tensão entre uma estética considerada ultrapassada e uma transcendência artística ainda perceptível na década de 1970. Como aqueles poemas sobre faunos e princesas podiam impactar escritores latino-americanos engajados, em tempos de revolução, Guerra Fria e golpes de Estado?

O crítico encontrava a resposta na realização estética dos versos de Darío, em suas soluções formais e nas operações culturais subjacentes em seus poemas. A sugestiva pergunta convida a um deslocamento. Neste ano, em que se completa os primeiros cem anos do nascimento do grande crítico uruguaio, poderíamos nos fazer uma questão análoga, mas mudando o objeto da interrogação: por que Ángel Rama ainda está vivo? Por que grande parte de seu trabalho e de suas ideias segue vigente? Por que a obra de um intelectual que foi paradigma da crítica literária latino-americana nas décadas de 1960 e 1970 não deixa de gerar revisões, debates e edições?

Uma primeira pista sobre a transcendência de seu trabalho reside em seu caráter heterogêneo, militante, utópico. Ou seja, Rama não pode ser enquadrado na figura do scholar, em suas inflexões tradicionais ou contemporâneas. Basta ler seus primeiros diálogos com Antonio Candido, no início da década de 1960, para perceber a distância entre ambos: um, destacado docente e pesquisador universitário; o outro, jornalista, editor, tradutor, gestor cultural e militante. Ambos tinham interesses políticos e atuavam na esfera pública, mas Rama foi desde sempre algo mais que um especialista. Se naquele momento se tornou um dos principais promotores do novo romance latino-americano e ativista em favor da Revolução Cubana, em etapas posteriores prosseguiu com uma práxis que excedia a especialização acadêmica. Até o último de seus dias, articulou o estudo da literatura com a construção de redes intelectuais e a liderança de projetos de integração; exerceu, de maneira descontínua e em distintas cidades, o ofício jornalístico; destacou-se como polemista e intelectual público que interveio em diversos temas; fundou e dirigiu editoras que expressavam suas ideias e aspirações; traduziu, fez traduzir e colocou em circulação grandes nomes do pensamento contemporâneo e autores imprescindíveis da região na Europa; ministrou aulas por todo o continente e se destacou como um docente capaz de fascinar estudantes, colegas e o público em geral.

Em suma, Ángel Rama foi um autêntico representante do intelectual latino-americano de sua época. Mas a definição estaria incompleta se omitíssemos um elemento-chave de sua figura: a dedicação apaixonada ao estudo da literatura em geral e das letras da região em particular. Parece óbvio, mas não é. Seus ensaios sobre autores e temas literários se destacam dentro de sua obra e constituem uma contribuição viva para a compreensão de nossa cultura. Por isso, podemos pensá-lo como um crítico latino-americanista. O atributo não tem um sentido frouxo: indica uma vontade específica de se desprender de sua literatura nacional e dedicar-se, de maneira progressiva e programática, à leitura e interpretação de textos pertencentes a um amplo corpus literário. Poucos críticos de sua época dedicaram tanto tempo e esforço a descobrir as diferentes áreas culturais que compõem o panorama latino-americano. Poucos, sem dúvida, puderam escrever textos iluminadores sobre autores e sociedades tão diferentes como aquelas exploradas em seus escritos sobre José Martí e o exílio cubano, Mariano Azuela e o romance da revolução mexicana, a obra de José Antonio Ramos Sucre e a poesia venezuelana, José María Arguedas e a sociedade andina, Ariano Suassuna e o teatro nordestino.

Ángel Rama entendeu a literatura como expressão simbólica dos problemas e das utopias de uma sociedade periférica diante das transformações históricas. Por isso, seus trabalhos críticos se dedicaram a explorar os textos de nossa tradição como uma forma de captar problemas e apostas culturais, bem como de valorizar as soluções estéticas que os autores formulavam diante das conjunturas. Inserido na linhagem dos estudos literários atentos à relação entre literatura e sociedade, soube apropriar-se de diversos aportes teóricos para chegar a uma perspectiva própria, articulada em torno das particularidades locais e da reivindicação do intelectual como vanguarda na mudança histórica. Sua concepção de crítica literária, portanto, aponta para um modo de estudar a América Latina e colaborar ativamente com sua transformação. Aqui é preciso acrescentar outro aspecto ao seu perfil: a utopia, como desejo obstinado de tornar realidade um sonho coletivo. Para Rama, esse sonho foi uma região desenvolvida, unida, igualitária, moderna, democrática, criativa, aberta ao mundo e ao futuro.

Por que ainda está vivo? Talvez porque seus textos e intervenções nos interpelam como leitores, estudantes, especialistas e cidadãos. Em todo caso, revisitar algumas instâncias de sua particular aventura intelectual pode nos oferecer pistas para pensar juntos essa questão.

A crítica como construção

Como funcionava essa crítica literária que apostava em ser protagonista da cultura de sua época? Um primeiro exemplo encontramos em uma das passagens mais conhecidas da biografia intelectual de Ángel Rama: a direção das páginas literárias de Marcha, o mítico semanário da esquerda uruguaia. O intelectual coordenou a seção entre 1958 e 1968. Nesse período, transformou o espaço em uma plataforma de difusão e integração da literatura latino-americana. Antes que o “boom” literário fosse conhecido como tal, Rama se propôs a conectar escritores e especialistas da região: viajou a congressos, escreveu cartas, buscou correspondentes e traçou uma aliança estratégica com a Casa de las Américas, a instituição cultural cubana. O montevideano foi um firme defensor da revolução e esteve em contato com a vida política e literária da ilha desde o início dos anos 1960. Mas não se limitou a promover suas iniciativas; aproveitou essa conexão para multiplicar os contatos entre autores e públicos e potencializar sua própria agenda latino-americanista.

Dessa forma, conseguiu fazer com que escritores de diversas partes da região confluíssem em Marcha. De João Guimarães Rosa a José Revueltas, de Ernesto Cardenal a Miguel Ángel Asturias, poetas, narradores e ensaístas se encontravam no semanário. Suas publicações eram acompanhadas por apresentações de Rama, que traçava panoramas e leituras nas quais os aportes eram organizados e compreendidos como partes de um mesmo processo: a expressão literária de um continente em transformação. Seus trabalhos críticos, então, funcionavam como parte substancial dessas tarefas de integração: uniam as buscas, construíam um público e abriam os textos literários às problemáticas do momento. A operação se complementava com outra estratégia: a editora Arca, o selo fundado por Rama, por meio do qual publicava autores nacionais e latino-americanos que apareciam na seção literária da revista.

Esse trabalho convergiu com a ascensão do novo romance. A obra de escritores como Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Augusto Roa Bastos e José Donoso foi resenhada e analisada em Marcha antes do grande marco de vendas do “boom”: a publicação, em 1967, de Cem anos de solidão, que impulsionou a fama do romance latino-americano no mundo. Evidentemente, não se pode dizer que Rama tenha sido um dos criadores do “boom”. É mais preciso indicar uma realização menos grandiloquente, mas mais significativa para o nosso presente: a concepção de uma crítica que vai além da exegese e que se move entre o jornalismo, a política e o mundo editorial para contribuir na construção daquilo que ainda hoje entendemos como “literatura latino-americana”.

A crítica como modernização

O latino-americanismo de Ángel Rama nunca foi telurismo, provincialismo nem cego localismo. Montevidéu de origem, soube ler a literatura latino-americana em amplo diálogo com as transformações das letras e do pensamento universal. Inclusive pode-se afirmar que seus trabalhos não se desprenderam totalmente de certo anseio cosmopolita: inserir a produção regional no marco da literatura ocidental moderna. Nesse sentido, se celebra a obra de José María Arguedas, é porque reconhece em seus textos uma formulação estética sofisticadíssima, menos evidente, porém superior em audácia e significação social à das obras de seus colegas mais consagrados, como Jorge Luis Borges ou Julio Cortázar. Do mesmo modo, quando lê com entusiasmo a poesia gauchesca, não reivindica uma representação ingênua da terra e do homem das planícies, mas sim a operação linguística e política de tomar elementos culturais subalternos para construir um artifício literário de notável eficácia.

Esse anseio modernizador se expressa sobretudo em sua insistência na necessidade de construir um discurso crítico latino-americano que esteja atualizado e que se alimente das contribuições mais renovadoras da teoria, a fim de enriquecer suas perspectivas. Essa tentativa se manifestou de maneira clara na famosa polêmica que travou com Mario Vargas Llosa por volta de 1972, a partir da publicação de um livro do peruano sobre a narrativa de Gabriel García Márquez. Rama questionou fortemente a leitura biográfica, ancorada na abordagem “vida e obra” da tradição crítica hispânica. Maior desconfiança ainda lhe causou a ideia do romancista como sujeito dilacerado que escreve seus textos para exorcizar seus demônios. O uruguaio mostrou-se preocupado com a contradição evidente entre ideias arcaicas em termos de teoria literária do autor, sobretudo por ser este o artífice de uma narrativa ultrasofisticada, que rompia com a tradição literária e se arriscava a operar com procedimentos inspirados nas últimas tendências metropolitanas.

Contemporâneo em seus romances, obsoleto em sua crítica: a leitura de Vargas Llosa foi um chamado de atenção para a falta de atualização metodológica do discurso crítico literário latino-americano no início dos anos 1970. E foi também um fator que justificou uma das tarefas mais importantes de Rama desde então: propor conceitos e olhares sobre as letras regionais que se apropriem das ferramentas de análise contemporâneas, sem deixar de prestar atenção às certezas de sua práxis latino-americanista. Ou seja, apropriar-se de toda teoria, mas a serviço da integração cultural e da transformação social. A partir dessa aposta, podem ser lidas suas noções de “cidade letrada”, “área cultural”, “espessura literária”, “consciência fabuladora coletiva” e, de modo eloquente, seu conceito de transculturação narrativa, que teve grande impacto na consideração da literatura latino-americana e foi estudado de maneira lúcida por Roseli Barros Cunha em um livro que merece ultrapassar as barreiras linguísticas que ainda cercam o campo: Transculturação narrativa: seu percurso na obra crítica de Ángel Rama.

O impulso modernizador atravessa toda a sua produção crítica. Um dos exemplos mais claros dessa inflexão em sua obra são seus sucessivos estudos sobre o movimento modernista latino-americano. Diante de uma bibliografia que ainda sustentava ideias sobre torres de marfim e mundonovismo, Rama inspirou-se precocemente nas ideias de Ernst Fischer e Walter Benjamin para pensar como os poetas modernistas tiveram de lidar com as pressões do mercado e com a inserção das sociedades periféricas no sistema econômico mundial do final do século XIX. Anos depois, em Porto Rico, o crítico revisitou os poemas de temática onírica de Rubén Darío a partir de um diálogo com o pensamento de Sigmund Freud, o que lhe permitiu refletir sobre o desejo e a repressão na poesia do vate nicaraguense. No início dos anos 1980, dialogou com proposições da teoria estruturalista para analisar os Versos sencillos, em uma operação crítica que ainda hoje surpreende por sua minuciosidade formal. Por fim, em Las máscaras democráticas del modernismo, seu livro póstumo, retornou ao movimento literário conjugando uma leitura pessoal dos apontamentos de Friedrich Nietzsche sobre máscaras e disfarces com uma abordagem plenamente inserida na história cultural latino-americana.

A esperança no potencial emancipador da modernização provoca certo estranhamento à percepção contemporânea. A dissonância é justificável: trata-se de uma marca cultural de época, profundamente enraizada no contexto rio-platense e vinculada às ideias do desenvolvimentismo, primeiro, e da teoria da dependência, depois. Certamente, implica uma concepção pouco cautelosa acerca dos novos vocabulários e do caráter de dispositivo de todo saber. Hoje, quando as apostas da teoria se fragmentaram em dezenas de particularismos e se celebra a ruptura do impulso totalizante da modernidade, essa inflexão do trabalho de Rama parece menos luminosa do que outras facetas. No entanto, a perspectiva histórica permite avaliar suas intervenções em seu contexto. Mostra que sua práxis dialogou de maneira constante com seu presente e que todo legado deve ser problematizado: justamente porque sua época não é a nossa, é preciso questionar seu discurso ao mesmo tempo em que se valorizam suas realizações. E isso vale tanto para o tema da modernização quanto para outros pontos cegos e tensões de sua obra.

A crítica como integração

Postular Ángel Rama como crítico latino-americanista também implica destacar algumas diferenças substanciais em relação a certas imagens que circulam sobre sua figura e sua produção. Sua dedicação às letras do subcontinente, sua concepção da literatura como um dos maiores logros da sociedade em termos culturais e estéticos, assim como seus objetos de estudo privilegiados (o modernismo, o romance do século XX, a poesia gauchesca), comprovam toda uma vida consagrada à compreensão da literatura. Desse modo, a etiqueta de “crítico cultural”, frequentemente atribuída à sua figura, merece ser revista. A práxis de Rama não se adequa ao que hoje chamamos de “estudos culturais”: por mais que seu olhar tenha sido sensível ao sentido cultural dos textos, por mais atenção que tenha dedicado ao contexto histórico, não se verifica em seus ensaios uma tentativa de desmontar a centralidade das letras nem de questionar o papel fundamental dos intelectuais na sociedade.

Tampouco é possível situá-lo no interior das tendências desconstrutivistas, subalternas ou decoloniais. Principalmente porque Rama nunca atentou contra a metanarrativa da modernidade nem deixou de pensar em termos dialéticos, históricos e pragmáticos. Pelo contrário: suas práticas intelectuais reivindicam um conjunto de noções transcendentais, que escapam à contingência, ao relativismo e à incerteza do pensamento contemporâneo. Rama acreditou em ideias como a integração da América Latina, a literatura enquanto expressão da sociedade, o papel social dos intelectuais e o valor da modernização e da autonomia no desenvolvimento das sociedades. Mais ainda: a partir da significação que tais ideias adquirem em sua bibliografia, o uruguaio pôde fazer mais do que escrever ensaios memoráveis sobre a história de nossas letras. Ángel Rama dirigiu projetos coletivos que levaram suas convicções à prática.

Vejamos um último exemplo, imprescindível em qualquer revisão de sua trajetória: a Biblioteca Ayacucho, sua grande aventura latino-americanista. A editora venezuelana foi concebida por Rama durante seu exílio em Caracas e conseguiu ser construída graças à colaboração de José Ramón Medina e ao apoio oficial do presidente Carlos Andrés Pérez. O selo buscou editar os clássicos das letras e do pensamento latino-americano como uma forma de compilar e articular as maiores contribuições do subcontinente à cultura universal. O afã de integração regional por meio da cultura é evidente. A seleção dos textos esteve atenta à qualidade das obras e também ao seu caráter representativo dos distintos contextos sociais e históricos. A produção dos volumes reuniu um vasto conjunto de intelectuais latino-americanos que editaram e prefaciaram as obras a partir de perspectivas contemporâneas, atualizando seus sentidos. O catálogo permaneceu aberto e foi elaborado em sucessivas reuniões de especialistas, que deram continuidade ao plano editorial conforme as discussões e consensos sobre os rumos da coleção.

Por fim: toda a iniciativa foi orientada pela convicção de Rama de que era necessário e urgente integrar o âmbito hispano-americano ao brasileiro. Por isso, empenhou-se especialmente em traduzir e editar os grandes livros do Brasil e incluí-los como parte indispensável da coleção. Esses volumes passaram, desde então, a integrar as leituras latino-americanas do público especializado e abriram caminho para um processo mais amplo de intercâmbio cultural entre o grande país sul-americano e seus vizinhos de língua espanhola. Um desejo semelhante impulsionou a inclusão de obras provenientes do Caribe inglês, francês e neerlandês, embora essa linha editorial tenha tido um impulso muito mais limitado e restem apenas alguns vestígios dessa iniciativa no catálogo geral da Biblioteca Ayacucho.

Perfil incompleto, tarefas inconclusas

Para concluir esta revisão de sua obra, é necessário destacar que apenas se tocou em uma parte da trajetória intelectual de Ángel Rama e que as contribuições aqui apresentadas não têm caráter hierarquizador, mas se oferecem como meras ilustrações de empreendimentos mais amplos e complexos. Também é fundamental ressaltar uma circunstância que pode iluminar qualquer percurso sobre sua obra: a consideração do contexto histórico em que lhe coube viver. O uruguaio participou de uma década de 1960 marcada pela modernização e pelas expectativas de mudança; de uma década de 1970 impactada pelos golpes de Estado no Cone Sul, pela perseguição militar e pela derrota dos projetos políticos emancipatórios; e dos primeiros anos de uma década de 1980 em que se percebia o avanço da contrarrevolução neoliberal, o retorno da democracia representativa e a transnacionalização dos estudos latino-americanos. Rama viveu essas transformações a partir do exterior, como professor nos Estados Unidos e pesquisador na França, no que foi seu último exílio. Faleceu em 1983, em um acidente de avião, e por isso não chegou a ver consolidadas as mudanças em curso na época. Isso o situa em uma instância de transição histórica, na qual foi testemunha e protagonista: percebeu e escreveu sobre as transformações de seu tempo, mas não chegou a vivê-las em seus desdobramentos posteriores, o que lhe impediu de dialogar com os colossais desafios que o latino-americanismo enfrentaria nesses anos. Seus colegas, pertencentes à mesma geração e às seguintes, tiveram de dar continuidade a essas tarefas em um mundo muito diferente do seu.

A obra de Ángel Rama, interrompida tragicamente nesse momento de transformações, não chegou a dialogar com a nossa época. Sim com a sua, como vimos. A afirmação, que parece uma obviedade, não o é. Porque nos obriga a pensar o que fazemos hoje com nossa literatura, nossas práticas intelectuais, nossas problemáticas sociais. O intelectual uruguaio apostou fortemente em um projeto latino-americanista: flexível e dinâmico, mas firme e consequente. É possível imaginar um latino-americanismo para o século XXI? É necessário, vale a pena? Neste mundo convulsionado e nesta região ainda violenta e desigual, marcada por guerras e crises… poderemos construir algo juntos que nos resguarde da barbárie? Haverá alguma utopia que não descambe em horizontes distópicos?

Por que ainda está vivo, nos perguntamos no início. Creio que a obra de Ángel Rama persiste porque conseguiu preservar, em tempos também sombrios, a confiança em nossas comunidades e em suas criações. E porque, como crítico e intelectual, apostou a vida em construir, repensar, religar.


Ángel Rama: crítica y utopía latinoamericana

Por Facundo Gómez (Universidad Nacional de Quilmes, Argentina)

Un intelectual latinoamericanista

Al prologar el tomo de Rubén Darío en la Biblioteca Ayacucho, Ángel Rama (1926-1983) iniciaba su ensayo con una sugerente pregunta: “¿Por qué aún está vivo?” La cuestión ponía énfasis en la tensión dada entre una estética que se consideraba oxidada y una trascendencia artística todavía constatable hacia la década del setenta. ¿Cómo aquellos poemas sobre faunos y princesas podían impactar en los comprometidos escritores latinoamericanos, en épocas de revolución, Guerra Fría y golpes de Estado?

El crítico encontraba la respuesta en la realización estética de los versos de Darío, en sus hallazgos formales y las operaciones culturales subyacentes en sus poemas. La sugestiva pregunta invita a un desplazamiento. Este año, en el que se cumplen los primeros cien años del nacimiento del gran crítico uruguayo, nos podríamos hacer una cuestión análoga, pero cambiando el objeto de la interrogación: ¿por qué Ángel Rama aún está vivo? ¿Por qué gran parte de su trabajo y de sus ideas siguen vigentes? ¿Por qué la obra de un intelectual que fue paradigma de la crítica literaria latinoamericana en las décadas del sesenta y el setenta no deja de generar revisiones, debates, y ediciones?

Una primera pista sobre la trascendencia de su trabajo reside en su carácter heterogéneo, militante, utópico. Es decir, Rama no puede ser encasillado en la figura del scholar, en sus inflexiones tradicionales o contemporáneas. Basta leer sus primeros diálogos con Antonio Candido, a principios de la década del sesenta, para percibir la distancia entre ambos: uno, destacado docente e investigador universitario; el otro, periodista, editor, traductor, gestor cultural y militante. Ambos tenían intereses políticos y se desempeñaban en la esfera pública, pero Rama fue desde siempre algo más que un especialista. Si en aquel momento se convirtió en uno de los principales promotores de la nueva novela latinoamericana y activista en favor de la Revolución Cubana, en etapas posteriores prosiguió con una praxis que excedía la especialización académica. Hasta el último de sus días, articuló el estudio de la literatura con el armado de redes intelectuales y el liderazgo de proyectos de integración; ejerció, de manera discontinua y en distintas ciudades, el oficio periodístico; se destacó como polemista e intelectual público que intervino en diversos temas; fundó y dirigió sellos editoriales que expresaban sus ideas y anhelos; tradujo, hizo traducir y puso en circulación grandes nombres del pensamiento contemporáneo y autores imprescindibles de la región en Europa; dictó clases a lo largo de todo el continente y se destacó como un docente que sabía fascinar a estudiantes, colegas y al público en general.

En definitiva: Ángel Rama fue un cabal representante del intelectual latinoamericano de su época. Pero la definición estaría incompleta si omitimos un elemento clave de su figura: la dedicación apasionada al estudio de la literatura en general y de las letras de la región en particular. Parece obvio, pero no lo es. Sus ensayos sobre autores y temas literarios sobresalen dentro de su obra y conforman un vivo aporte a la comprensión de nuestra cultura. Por lo tanto, lo podemos pensar como un crítico latinoamericanista. El atributo no tiene un sentido laxo: indica una voluntad específica de desprenderse de su literatura nacional y dedicarse, de manera progresiva y programática, a leer e interpretar textos pertenecientes a un amplio corpus literario. Pocos críticos de su época dedicaron tanto tiempo y esfuerzo a descubrir las diferentes áreas culturales que conforman el panorama latinoamericano. Pocos, sin duda, pudieron escribir textos iluminadores sobre autores y sociedades tan diferentes como las que aparecen exploradas en sus escritos sobre José Martí y el exilio cubano, Mariano Azuela y la novela de la revolución mexicana, la obra de José Antonio Ramos Sucre y la poesía venezolana, José María Arguedas y la sociedad andina, Ariano Suassuna y el teatro nordestino.

Ángel Rama entendió a la literatura como expresión simbólica de los problemas y las utopías de una sociedad periférica ante las transformaciones históricas. Por lo tanto, sus trabajos críticos se dedicaron a explorar los textos de nuestra tradición como una manera de captar problemas y apuestas culturales, así como también a valorar las soluciones estéticas que los autores formulaban ante las coyunturas. Situado en el linaje de los estudios literarios atentos a la relación entre literatura y sociedad, supo apropiarse de diversos aportes teóricos para llegar a una perspectiva propia, articulada en torno a las particularidades locales y a la reivindicación del intelectual como vanguardia en el cambio histórico. Su concepción de la crítica literaria, entonces, apunta a un modo de estudiar América Latina y colaborar de forma activa con su transformación. Aquí es donde es preciso sumar otro aspecto a su perfil: la utopía, como obstinado deseo por volver realidad un sueño colectivo. Para Rama, ese sueño fue una región desarrollada, unida, igualitaria, moderna, democrática, creativa, abierta al mundo y al futuro.

¿Por qué aún está vivo? Quizás, porque sus textos e intervenciones nos interpelan como lectores, estudiantes, especialistas, y ciudadanos. En todo caso, revisar algunas instancias de su particular aventura intelectual nos puede dar algunas pistas para pensar juntos la cuestión.

La crítica como construcción

¿Cómo funcionaba esta crítica literaria que apostaba a ser protagonista de la cultura de la época? Un primer ejemplo lo tenemos en uno de los pasajes más conocidos de la biografía intelectual de Ángel Rama: la dirección de las páginas literarias de Marcha, el mítico semanario de la izquierda uruguaya. El intelectual coordinó la sección entre 1958 y 1968. En ese período de tiempo, transformó el espacio en una plataforma de difusión e integración de la literatura latinoamericana. Antes de que el “boom” literario se conociera como tal, Rama se propuso conectar a los escritores y especialistas de la región: viajó a congresos, escribió cartas, buscó corresponsales y trazó una alianza estratégica con Casa de las Américas, la institución cultural cubana. El montevideano fue un firme defensor de la revolución, y estuvo en contacto con la vida política y literaria de la isla desde principios de los sesenta. Pero no se limitó a promover sus iniciativas, sino que aprovechó esa conexión para multiplicar los contactos entre autores y públicos y potenciar su propia agenda latinoamericanista.

De esta manera, consiguió que escritores de diversas partes de la región confluyeran en Marcha. Desde João Guimarães Rosa hasta José Revueltas, desde Ernesto Cardenal hasta Miguel Ángel Asturias, poetas, narradores y ensayistas se encontraban en el semanario. Sus publicaciones eran acompañadas por presentaciones de Rama, quien trazaba panoramas y lecturas en los que se ordenaban los aportes y se entendían como partes de un mismo proceso: la expresión literaria de un continente en transformación. Sus trabajos críticos, entonces, funcionaban como parte sustancial de estas tareas de integración: unían las búsquedas, construían un público y abrían los textos literarios a las problemáticas de la hora. La operación se complementaba con otra estrategia: la editorial Arca, el sello fundado por Rama, a través del cual publicaba a los autores nacionales y latinoamericanos que aparecían en la sección literaria de la revista.

Esta labor confluyó con el ascenso de la nueva novela. La obra de escritores como Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Augusto Roa Bastos, y José Donoso fue reseñada y analizada en Marcha antes del gran hito en ventas del “boom”: la publicación en 1967 de Cien años de soledad, que impulsó la fama de la novela latinoamericana en el mundo. Por supuesto, no se puede decir que Rama fue uno de los creadores del “boom”. Es más preciso indicar una realización menos grandilocuente pero más significativa para nuestro presente: la concepción de una crítica que va más allá de la exégesis y que se mueve entre el periodismo, la política y el mundo editorial para contribuir en la construcción de lo que todavía hoy entendemos como “literatura latinoamericana”.

La crítica como modernización

El latinoamericanismo de Ángel Rama nunca fue telurismo, provincialismo ni ciego localismo. Montevideano de ley, supo leer la literatura latinoamericana en amplio diálogo con las transformaciones de las letras y el pensamiento universal. Incluso se puede señalar que sus trabajos no se desprendieron del todo de cierto anhelo cosmopolita: insertar la producción regional en el marco de la literatura occidental moderna. En ese sentido, si celebra la obra de José María Arguedas es porque reconoce en sus textos una formulación estética sofisticadísima, menos evidente pero superior en audacia y significación social a la de las obras de sus colegas más afamados, como Jorge Luis Borges o Julio Cortázar. De la misma manera, cuando lee con entusiasmo la poesía gauchesca no reivindica una representación ingenua de la tierra y el paisano de las llanuras, sino la operación lingüística y política de tomar elementos culturales subalternos para construir un artificio literario de notable eficacia.

Este anhelo modernizador se expresa sobre todo en su insistencia en la necesidad de construir un discurso crítico latinoamericano que esté actualizado y que abreve en las aportaciones más renovadoras de la teoría para enriquecer sus perspectivas. Esta tentativa se expresó de manera clara en la famosa polémica que tuvo con Mario Vargas Llosa hacia 1972, a raíz de la publicación de un libro del peruano sobre la narrativa de Gabriel García Márquez. Rama cuestionó fuertemente la lectura biograficista, anclada en el abordaje “vida y obra” de la tradición crítica hispana. Mayor desconfianza todavía le generó la idea del novelista como sujeto desgarrado que escribe sus textos para exorcizar sus demonios. El uruguayo se mostró preocupado por la contradicción evidente entre las ideas arcaicas en términos de teoría literaria del autor, sobre todo por ser este artífice de una narrativa ultrasofisticada, que rompía con la tradición literaria y se arriesgaba a jugar con procedimientos inspirados en las últimas tendencias metropolitanas.

Contemporáneo en sus novelas, obsoleto en su crítica: la lectura de Vargas Llosa era un llamado de atención sobre la falta de actualización metodológica del discurso crítico literario latinoamericano hacia principios de los setenta. Y fue un factor más que justificó una de las tareas más importantes de Rama desde entonces: proponer conceptos y miradas sobre las letras regionales que se apropien de las herramientas de análisis contemporáneas, sin dejar de prestar atención a las certidumbres de su praxis latinoamericanista. Es decir, apropiarse de toda teoría, pero al servicio de la integración cultural y el cambio social. Desde esta apuesta se pueden leer sus nociones de “ciudad letrada”, “área cultural”, “espesor literario”, “conciencia fabuladora colectiva” y, de manera elocuente, su concepto de transculturación narrativa, que tanto impacto tuvo en la consideración de la literatura latinoamericana y que fue estudiado de una manera lúcida por Roseli Barros Cunha en un libro que merece traspasar las barreras lingüísticas que todavía asedian el campo: Transculturação narrativa: seu percurso na obra crítica de Ángel Rama.

El empuje modernizador atraviesa su entera producción crítica. Uno de los ejemplos más claros de esta inflexión en su obra son sus sucesivos abordajes al movimiento modernista latinoamericano. Ante una bibliografía que sostenía todavía ideas sobre torres de marfil y mundonovismo, Rama se inspiró tempranamente en las ideas de Ernst Fischer y Walter Benjamin para pensar cómo los poetas modernistas debieron lidiar con las presiones del mercado y la inserción en las sociedades periféricas en el sistema económico mundial de finales del siglo XIX. Años más tarde, en Puerto Rico, el crítico revisó los poemas de tema onírico de Rubén Darío a partir de un diálogo con el pensamiento de Sigmund Freud, que le permitió reflexionar sobre el deseo y la represión en la poesía del vate nicaragüense. A principios de los ochenta, jugó con proposiciones de la teoría estructuralista para analizar los Versos sencillos, en una operación crítica que todavía hoy deslumbra por su minuciosidad formal. Finalmente, en Las máscaras democráticas del modernismo, su libro póstumo, volvió sobre el movimiento literario conjugando una lectura personal de los apuntes de Friedrich Nietzsche sobre máscaras y disfraces con un abordaje plenamente inserto en la historia cultural latinoamericana.

La esperanza en el potencial emancipador de la modernización genera cierto ruido a la percepción contemporánea. La disonancia está justificada: se trata de una marca cultural de época, muy arraigada en el contexto rioplatense y anudada a las ideas del desarrollismo, primero, y la teoría de la dependencia, después. Ciertamente, implica una concepción poco cauta acerca de los nuevos vocabularios y el carácter de dispositivo de todo saber. Hoy, cuando las apuestas de la teoría estallaron en decenas de particularismos y se celebra el quiebre del afán totalizador de la modernidad, esta inflexión del trabajo de Rama luce menos luminosa que otras facetas. Sin embargo, la mirada histórica permite ponderar las intervenciones en su contexto. Evidencia que su praxis dialogó con su presente de manera asidua y que todo legado merece ser problematizado: justamente, porque su época no es la nuestra, es preciso cuestionar su discurso a la par que valorar sus realizaciones. Y esto vale tanto para el tópico de la modernización como para otros puntos ciegos y tensiones de su obra.

La crítica como integración

Postular a Ángel Rama como crítico latinoamericanista también implica resaltar algunas diferencias sustanciales con ciertas imágenes que circulan acerca de su figura y su producción. Su dedicación a las letras del subcontinente, su concepción de la literatura como uno de los mayores logros de la sociedad en términos culturales y estéticos, así como también sus objetos de estudio privilegiados (el modernismo, la novela del siglo XX, la poesía gauchesca) comprueban toda una vida consagrada a la comprensión de la literatura. De este modo, la etiqueta de “crítico cultural”, que a menudo se adosa a su figura, merece ser revisada. La praxis de Rama no se adecúa a lo que hoy llamamos “estudios culturales”: por más que su mirada haya sido sensible al sentido cultural de los textos, por más atención que haya puesto al contexto histórico, no se comprueba en sus ensayos una tentativa que apunte a desmontar la centralidad de las letras ni a cuestionar el rol fundamental de los intelectuales en la sociedad.

Tampoco se lo puede leer dentro de las tendencias deconstructivistas, subalternas o decoloniales. Principalmente, porque Rama nunca atentó contra la metanarrativa de la modernidad ni dejó de pensar en términos dialécticos, históricos y pragmáticos. Todo lo contrario: sus prácticas intelectuales reivindican un puñado de nociones trascendentales, que escapan a la contingencia, el relativismo y la incertidumbre del pensamiento contemporáneo. Rama creyó en ideas como la integración de América Latina, la literatura en tanto expresión de la sociedad, el rol social de los intelectuales y el valor de la modernización y la autonomía en el desarrollo de las sociedades. Aún más: a partir de la significación que tales ideas adquieren en su bibliografía, el uruguayo pudo hacer algo más que escribir memorables ensayos sobre la historia de nuestras letras. Ángel Rama dirigió proyectos colectivos que llevaron sus convicciones a la realidad.

Veamos un último ejemplo, imprescindible en cualquier revisión de su trayectoria: la Biblioteca Ayacucho, su gran aventura latinoamericanista. La editorial venezolana fue concebida por Rama en su exilio caraqueño y logró ser construida gracias a la colaboración de José Ramón Medina y el apoyo oficial del presidente Carlos Andrés Pérez. El sello buscó editar los clásicos de las letras y el pensamiento latinoamericano como un modo de compilar y articular las mayores contribuciones del subcontinente a la cultura universal. El afán de integración regional a través de la cultura es evidente. La selección de textos estuvo atenta a la calidad de las obras y también a su carácter representativo de los distintos entornos sociales e históricos. La producción de los volúmenes unió a una vasta cantidad de intelectuales latinoamericanos que editaron y prologaron las obras desde miradas contemporáneas, actualizando sus sentidos. El catálogo estuvo abierto y fue confeccionado en sucesivas reuniones de especialistas, quienes continuaron el plan de edición según las discusiones y consensos sobre el rumbo de la colección.

Por último: la entera iniciativa fue orientada por la convicción de Rama de que era necesario y urgente integrar el ámbito hispanoamericano con el brasileño. Por lo tanto, puso especial empeño en traducir y editar los grandes libros del Brasil e incluirlos como parte indispensable de la colección. Estos volúmenes se sumaron desde entonces a las lecturas latinoamericanas del público especializado y abrieron camino hacia un proceso de mayor intercambio cultural entre el gran país sudamericano y sus vecinos de habla hispana. Un deseo semejante impulsó la inclusión de obras pertenecientes al Caribe inglés, francés y neerlandés, aunque esta línea editorial tuvo un impulso mucho menos fuerte y apenas si quedan señales de la iniciativa en el catálogo general de la Biblioteca Ayacucho.

Perfil incompleto, tareas inconclusas

Para concluir esta revisión de su obra, es menester destacar que apenas se ha rozado una parte de la trayectoria intelectual de Ángel Rama y que las contribuciones reseñadas no tienen un carácter jerarquizador, sino que se ofrecen como meras ilustraciones de empeños más vastos y complejos. También resulta fundamental resaltar una circunstancia que puede iluminar cualquier recorrido sobre su obra: la consideración del contexto histórico en el que le tocó vivir. El uruguayo participó de una década del sesenta marcada por la modernización y las expectativas de cambio; una década del setenta impactada por los golpes de Estado en el Cono Sur, la persecución militar y la derrota de los proyectos políticos emancipadores; y los primeros años de una década del ochenta en la que se percibía el avance de la contrarrevolución neoliberal, el regreso de la democracia representativa y la transnacionalización de los estudios latinoamericanos. Rama vivió estos cambios desde el exterior, como profesor en Estados Unidos e investigador en Francia, en lo que fue su último exilio. Falleció en 1983, en un accidente de avión, por lo que no llegó a ver cuajados los cambios en curso de la época. Esto lo sitúa en una instancia de transición histórica, en la que fue testigo y protagonista: percibió y escribió sobre las transformaciones de su tiempo, pero no llegó a vivirlas en sus siguientes avatares, lo que le impidió dialogar con los colosales desafíos que debió atravesar el latinoamericanismo durante esos años. Sus colegas, pertenecientes a su misma generación y a las siguientes, debieron continuar sus tareas en un mundo muy diferente al suyo.

La obra de Ángel Rama, interrumpida trágicamente en esta etapa de cambios, no alcanzó a dialogar con nuestra época. Sí con la suya, como hemos visto. La afirmación, que parece una obviedad, no lo es. Porque obliga a pensar qué hacemos hoy con nuestra literatura, nuestras prácticas intelectuales, nuestras problemáticas sociales. El intelectual uruguayo apostó fuerte por un proyecto latinoamericanista; dúctil y dinámico, pero firme y consecuente. ¿Es posible imaginar un latinoamericanismo para el siglo XXI? ¿Es necesario, vale la pena? En este mundo convulsionado y en esta región todavía violenta y desigual, plagados de guerras y crisis… ¿podremos construir algo juntos que nos resguarde de la barbarie? ¿Habrá alguna utopía que no desbarranque en horizontes distópicos?

¿Por qué aún está vivo, nos preguntamos al principio. Creo que la obra de Ángel Rama persiste porque logró preservar, en tiempos también oscuros, la confianza en nuestras comunidades y sus creaciones. Y porque, como crítico e intelectual, se jugó la vida en construir, repensar, religar.