
É Dia de Reis, e Mário de Andrade se lança às ruas de Natal para acompanhar as danças dramáticas nordestinas. Se em outras crônicas relatou a Chegança e o Pastoril, nesta o turista aprendiz versa sobre o Bumba meu Boi, festa nascida no Nordeste do século XVIII. A tradição popular é exaltada. Mas, como é também costumeiro em suas crônicas de viagem, Mário não se exime de colocar o dedo em certas feridas.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não deixe de conferir texto de Bernardo Ricupero para a série! Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (6 de janeiro, 22 horas)
Hoje é dia “dos Santos Reis” que nem inda se diz por aqui, segundo dia grande prás danças dramaticas nordestinas. Pelo Natal sairam a Chegança e o Pastoril. Pelos Reis sái o Bumba meu Boi. No Norte, o Boi tem como data pra sair o dia de S. João. No Nordeste sai pelos reis e si no dia 30 de dezembro passado pude assistir ao Boi do municipio de S. Gonçalo, isso foi excepção, honraria pra quem vos escreve estas notas de turista aprendiz. Tambem já estou popular aqui. Vivo dum lado pra outro em busca de quanta festa, quanta Chegança, quanto Boi se ensaia, quanto coco se dança, levando pra casa quanto cantador encontro… Outro dia eu passava, um homem-do-povo cotucou o parceiro, me mostrando:
— Esse é o dôto de S. Paulo que veio studá Boi…
Se riram.
Hoje o Boi, do Alecrim, saiu prá rua e está dançando pros natalenses. Os coitados estão inteiramente ás nossas ordens só porquê Luiz da Camara Cascudo, e eu de embrulho, conseguimos que pudessem dançar na rua sem pagar a licença na Policia. Infelizmente é assim, sim. Civilisação brasileira consiste em impeciliar as tradições vivas que possuimos de mais nossas. Que a Policia obrigue os blocos a tirarem licença muito que bem, pra controlar as bagunças e os chinfrins, mas que faça essa gente pobrissima, alem dos sacrificios que já faz pra enscenar a dança, pagar licença, não entendo. Seria justo mas é que protegessem os blocos, Prefeitura, Estado: construissem palanques especiais nas praças publicas centrais, instituissem premios em dinheiro dados em concurso. Duzentos milreis é nada prá Prefeitura. Pra essa gente seria, alem do gôzo da vitoria, uma fortuna. O Boi de S. Gonçalo outro dia marchou de pénoareão varias horas de Sol pra chegar na Redinha e ganhar quarenta paus! é horroroso.
Agora é a vez do Gigante.
— Quantos anos você tem, Gigante?
— Cem anos!
— Como é seu nome, Gigante?
— O capitão José Trindade.
É um bicharoco lindo que nem um idolo antropomorfo mexicano. Exatamente. O risco dos olhos, da boca, o triangulo em papelão encarnado, do nariz. Mexicano. Aliás mais marajoara… E a cabeçona traz uma cabeleira de algodão “Mocó”.
— Onde você mora, Gigante?
— Em terra estrangeira!
E o danado dança ao som duma cantiga maravilhosa. Urros surdos. A dança pesa como si fosse de gigante mesmo. Tregeitos acrobaticos magistrais. Está enquisilado. É casado lá na terra dele porêm quer casar de novo aqui.
— Gigante quando vieste
Da tua terra estrangeira
Devias ter trazido
Tua amada companheira!
Casa com brasileira e vai-se embora satisfeito. Entra o Boi, êh bumba! É advinho, sarapintado de azul. Na anca direita um vaso de flor e a nossa data: 1929.
MÁRIO DE ANDRADE
