Série Nordestes | Os Nordestes de Gilberto Freyre e de Celso Furtado, por Bernardo Ricupero

Bernardo Ricupero (USP) se junta à nova floração da Série Nordestes com texto sobre as possibilidades e os limites de duas das mais repercutidas interpretações de Nordeste do século XX, que significativamente pautaram o entendimento sobre a região.

Em Os Nordestes de Gilberto Freyre e de Celso Furtado, Ricupero compara diferenças e mostra como as ideias desses dois autores, do pernambucano Freyre e do paraibano Furtado, foram capazes de se traduzir em instituições, como a Fundação Joaquim Nabuco e a SUDENE, e articular preocupações e aspirações mais amplas, que transcenderam a região. Parte das diferenças entre suas visões, sugere o autor, derivam justamente da própria complexidade da região, que colocou estes intérpretes diante de perspectivas e experiências muito particulares. Mas, afinal, até que ponto o Nordeste ainda é a região pensada por eles?

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Boa leitura!




Os Nordestes de Gilberto Freyre e de Celso Furtado

Por Bernardo Ricupero (USP)

O “Nordeste” não existia durante o século XIX. Se falava, no Império, nas províncias do “Norte”, tendo sido apenas na República – mais precisamente nas décadas de 1920 e 1930 – que ganhou força a ideia e o nome “Nordeste”.

Para tanto, Gilberto Freyre foi decisivo. Quando jovem, depois de realizar graduação e mestrado nos Estados Unidos, retornou, em 1924, ao seu Recife natal, onde se tornou o principal animador do Movimento Regionalista do Nordeste, em torno do qual se reuniram diversos escritores e artistas. Após a Revolução de 1930, o sociólogo continuou sua pregação regionalista, principalmente em livros, como Casa-Grande & Senzala (1933), Sobrados & Mocambos (1936) e Nordeste (1937), que tiveram enorme impacto na maneira que se entende o Brasil e a região.

O Nordeste de Gilberto Freyre é principalmente o da Zona da Mata de seus ancestrais. Espaço de produção do açúcar a partir do engenho, onde, segundo ele, teria se formado o Brasil. O principal móvel para isso seria a família patriarcal. Nela, se encontrariam senhores e escravos que, numa avaliação conservadora, se complementariam, dando origem a uma verdadeira civilização brasileira.

O Nordeste que emerge em meados da década de 1950 é muito diferente dessa imagem. Em meio a um acelerado crescimento econômico, impulsionado pela industrialização, intensificam-se as diferenças regionais. A antiga região da colonização perde cada vez mais espaço para o Centro-Sul, que se desenvolvera com o café. Ao mesmo tempo, agrava-se a agitação social, cujo grande marco é a criação das Ligas Camponesas.

Para enfrentar a turbulência, preconiza-se, seguindo as crenças da época, o instrumento do planejamento. Nessa orientação, o economista Celso Furtado, recém-chegado de Santiago do Chile, onde trabalhara na Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) da Organização das Nações Unidas (ONU), tem papel de destaque. Defende, no Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN) e depois na Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), a criação de um órgão que coordene esforços. Mais importante, percebe, numa linha reformista, a necessidade de redirecionar a economia nordestina para além do latifúndio monocultor que existira desde a colônia.

Pretendemos neste artigo basicamente explorar esses dois Nordestes, suas possibilidades e limites.

O Nordeste de Gilberto Freyre

Quando Gilberto Freyre nasce, em 1900, em um sobrado no Recife, os dias de glória de sua família, descendentes de senhores de engenho, já estão longe, o pai sendo professor. Mesmo assim, evoca as casas-grandes do passado. Jovem, estuda fora do Brasil, nos EUA, experiência que o marca profundamente.

Enquanto Freyre está no exterior, quase paralelamente vai ganhando força a noção de Nordeste. Ela liga-se, em grande parte, às secas, a grande estiagem de 1877 tendo já anteriormente provocado comoção nacional. A primeira tentativa de se enfrentar institucionalmente a questão é a criação, em 1909, pelo governo federal, da Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS). Depois de outra grande seca, a de 1919, o IOCS, durante a presidência do paraibano Epitácio Pessoa, é renomeado de Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS), sua jurisdição correspondendo inicialmente à área do “Polígono das Secas”, que passa a se entender como correspondendo ao Nordeste: Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e norte de Minas Gerais. A eclosão do cangaço e revoltas messiânicas na região também contribuem para se formar a ideia de Nordeste. Finalmente, o boom da borracha, ocorrido na região amazônica, intensifica a noção que haveria diferença entre o “Norte” e o “Nordeste” (Albuquerque, 2009; Bernardes, 2007; Castro Neves, 2012).

Retornando ao Recife, por boa parte da década de 1920 Freyre se comporta como uma espécie de dandy deslocado, que veste um paletó de tweed mesmo no calor sufocante dos trópicos (Pallares-Burke, 2005). Ao mesmo tempo, é um dos principais formuladores da concepção de Nordeste. É influenciado pela crítica da centralização da monarquista Action Française, de Charles Maurras, e o regionalismo de escritores ingleses, como Thomas Hardy.

Se torna, em especial, um dos animadores do Centro Regionalista do Nordeste, pequena associação que chega a promover o Primeiro Congresso do Nordeste.1 Em torno do sociólogo vai se reunindo um grupo de escritores e artistas, como José Lins do Rego e Cícero Dias, que percebe que “o mundo (…) começava no Recife”.

É possível considerar que, em alguma medida, se desenvolve a partir do grupo o que se pode chamar de um “outro modernismo”, aparecido numa região, diferente de São Paulo, não tão tocada pela industrialização e a urbanização, o que contribui para a valorização da tradição e certa hostilidade pelo cosmopolitismo. Na década de 1930, o romance nordestino estoura nacionalmente. Antes, o jovem dandy organiza, por ocasião do aniversário de cem anos do Diário de Pernambuco, o Livro do Nordeste, para o qual escreve diversos capítulos e traz colaborações, entre outros, de Oliveira Lima e Manuel Bandeira.

Um novo quadro se abre com a Revolução de 1930. Significativamente, uma das motivações do fim da Primeira República é a questão regional, com frações da elite nordestina apoiando a quebra do pacto oligárquico protagonizado pelo Rio Grande do Sul. No novo ambiente que se inaugura com a Revolução – criando-se, por exemplo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Conselho Nacional de Geografia – se elabora, em 1940, o primeiro mapa do Brasil dividido em regiões. Ou seja, é então que o Nordeste se consolida como região, com delimitação oficial, mas significativamente com a ausência do Maranhão, de Sergipe e da Bahia (Bernardes, 2007).

Freyre está, entretanto, entre os derrotados de 1930. Tendo se tornado chefe de gabinete do governador de Pernambuco, Estácio Coimbra, acompanha-o no exílio português. Assim, num certo sentido, seu livro de estreia, Casa-Grande & Senzala, relaciona-se diretamente com a Revolução de 1930. Não só, como indica Antonio Candido (1978), devido ao clima de renovação do país que converge para esse acontecimento, mas também pela própria situação que vive seu autor. Talvez até mais importante, a partir da Revolução de 1930, o mundo, rural e aristocrático que o escritor tenta trazer de volta, nem que seja pela recordação, desaparece definitivamente. Num sentido diferente, é possível considerar, como Elide Rugai Bastos (1985; 2006), que o sociólogo pernambucano, apesar de seu saudosismo aparentemente até antipolítico, é o principal ideólogo da modernização conservadora brasileira, isto é, do processo de transformação social sem ruptura com o passado que ganha força no país desde 1930.

Freyre destaca, em seu primeiro livro, como a casa-grande seria um pequeno mundo autossuficiente, funcionando como “fortaleza, capela, escola, oficina, santa casa, harém, convento de moça, hospedaria, (…) banco” (Freyre, 1963: 15). Seu predomínio permitiria até vincular a experiência colonial ao feudalismo. Ou melhor, o sistema de grande plantação seria misto, convivendo nele elementos capitalistas, relacionados com sua orientação comercial, e formas sociais assimiláveis ao feudalismo, ligadas à sua autossuficiência.

A partir de sua autossuficiência, a casa-grande, complementada pela senzala, teria formado no Brasil uma verdadeira civilização:

todo um sistema econômico, social, político: de produção (a monocultura latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro de boi, o banguê, a rede, o cavalo); de religião (o catolicismo de família, com capelão subordinado ao pater famílias, culto dos mortos, etc.); de vida sexual e de família (o patriarcalismo polígamo); de higiene do corpo e da casa (o ‘tigre’, a touceira de bananeira, o banho de rio, o banho de gamela, o banho de assento, o lava-pés), de política (o compadrismo). (Freyre, 1963: 14)

Pode-se, entretanto, objetar que a caracterização da família patriarcal realizada por Freyre restringe-se à sua região de origem, o Nordeste açucareiro, no qual se concentram os exemplos de Casa-Grande & Senzala. O autor não aceita, todavia, o argumento, lembrando que esse tipo de família reapareceu em outras situações, inclusive na São Paulo do café. Ou seja, o patriarcalismo não seria fenômeno geográfico, mas social, criado pelo latifúndio monocultor e a escravidão. A força desse sistema seria tal que, para além do Brasil, ele surgiria em outros ambientes em que prevaleceu a monocultura latifundiária trabalhada pelo braço escravo, como as Antilhas e o sul dos EUA.

No nosso caso específico, Freyre sugere que o patriarcalismo, existindo de norte a sul, é o que daria unidade ao país. Essa não deixa de ser, porém, uma unidade frágil, já que a solidariedade dos latifúndios se volta para dentro de cada um deles, que como que se bastam. No entanto, chocar-se-ia com a orientação predominante no latifúndio a tendência de grande mobilidade, presente entre paulistas e jesuítas. Apesar dessa tendência trazer um perigo de dispersão, Casa-Grande & Senzala julga que seu efeito foi positivo e, de certa forma, complementar ao latifúndio, contribuindo para a difícil unificação brasileira. De qualquer maneira, o patriarcalismo tornaria possível falar na existência de uma cultura brasileira, não simples prolongamento da europeia, mas algo próprio e distinto, relacionado com o tipo de ambiente que o colonizador encontrou na América.

Em termos espaciais, ocorrem algumas mudanças significativas nos livros sobre o patriarcalismo de Freyre. O autor continua a insistir, no seu segundo livro, Sobrados & Mucambos (1936), que o patriarcalismo seria antes um fenômeno social do que geográfico, que contribuiria para a difícil unidade nacional brasileira. Por outro lado, admite que as transformações pelas quais o Brasil passa, desde o final do século XVIII, transferem o centro econômico e político do país do Norte açucareiro e patriarcal para o Sul cafeeiro e mais burguês, onde seria mais fácil substituir o trabalho escravo pelo do imigrante.

Segundo Freyre, o patriarcalismo, estabelecido durante os séculos de dominação portuguesa, entra em decadência junto com a colônia. Ou melhor, o patriarcalismo vai perdendo força, a partir do final do século XVIII, com a descoberta de minas no Sul do Brasil e especialmente com a chegada, em 1808, da Corte portuguesa no Rio de Janeiro. A partir de então, para além do ambiente rural e doméstico, as cidades e o Estado ganham importância.

Já o livro Nordeste (1937), é dedicado especificamente à região de Freyre. Explicita que procura “traçar a fisionomia daquele Nordeste agrário, hoje decadente, que foi, por algum tempo, o centro da civilização brasileira” (Freyre, 1961: XI). Sua perspectiva é ecológica, procurando entender a interação do homem com o ambiente. Ao tratar da paisagem social, assume uma visão frequentemente crítica, que contrasta com Casa-Grande & Senzala. A animosidade do autor volta-se contra a monocultura latifundiária da cana de açúcar e, principalmente, contra a substituição, a partir do final do século XIX, do engenho pela mais industrial usina de açúcar, que afasta o trabalhador do proprietário de terra e emporcalha a natureza, principalmente os rios.

É verdade que Freyre encomenda também um livro para o sociólogo cearense Djacir de Menezes sobre O outro Nordeste, sertanejo. Este trabalho é publicado, também em 1937, na coleção Documentos Brasileiros, da Livraria José Olympio Editora, que dirige. Em contraste com o latifúndio monocultor e escravocrata da cana de açúcar, nesse Nordeste aparecia a fazenda de criação do semiárido, onde prevaleceria o trabalho livre, mas que também criaria uma civilização, no caso, a do couro e do algodão.

Mais importante, a ideia de Nordeste de Gilberto Freyre vai muito além dele. É especialmente significativo como engaja nela, desde os anos 1920, escritores e artistas, como os já lembrados José Lins do Rego e Cícero Dias. Em termos mais amplos, seu projeto nordestino como que se realiza no “romance de 1930”, movimento do qual faz também participam escritores não tão próximos a Freyre, como José Américo de Almeida e Rachel de Queiroz. Em termos mais profundos, o grande tema do movimento literário, se assim se pode chamá-lo, assim como o do sociólogo pernambucano, é a “decadência da sociedade patriarcal e sua substituição pela sociedade urbano-industrial” (Albuquerque, 2009: 132).

O Nordeste de Celso Furtado

Em contraste com Gilberto Freyre, que é do litoral, Celso Furtado nasce em 1920, no Sertão, em Sobral (PB). Fala, na sua obra autobiográfica, até em incursões de cangaceiros na sua cidade. Mas como o pernambucano, o paraibano tem uma origem social de classe média, seu pai sendo juiz.

Um novo Nordeste vai emergindo a partir da década de 1950, quando Furtado retorna ao Brasil depois de quase uma década. A região, assim como o Brasil e a América Latina, vive no período uma intensa agitação social, cujo grande marco é a Revolução Cubana.

Nos limites do Agreste com a Zona da Mata, no Engenho Galileia, são criadas, em 1955, as Ligas Camponesas. No mesmo ano, é realizado, no Recife, o Congresso para a Salvação do Nordeste, que funciona como uma espécie de frente ampla em defesa de uma nova política para a região. Já nos encontros dos bispos do Nordeste, que ocorrem ao longo da década, a Igreja Católica se coloca ao lado dos trabalhadores do campo. De maneira menos evidente, o Movimento de Educação de Base, ligado à ala progressista do catolicismo, promove a alfabetização de adultos por meio do método Paulo Freire e o Movimento de Cultura Popular do Recife incentiva, durante o governo Miguel Arraes, a educação e a cultura popular (Cohn, 1976; Oliveira, 1993; Vieira, 2019). Tal situação explosiva sensibiliza os EUA, preocupados com a eclosão de um movimento revolucionário na região, que injeta substantivos recursos na região por meio da Aliança para o Progresso.

Em termos institucionais, a criação do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), no segundo governo Getúlio Vargas, indica uma nova maneira de tratar da região, que não se limita ao socorro imediato, mas procura induzir o desenvolvimento. Já no governo Juscelino Kubitschek, se estabelece o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), que deveria realizar um estudo exaustivo da região. Mas é novamente uma grande seca, a de 1958, que impulsiona a realização, com nome com inspiração militar, da Operação Nordeste, a partir da qual se estabelece o Conselho de Desenvolvimento Econômico do Nordeste (CODENO) que, por sua vez, abre caminho para a fundação da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE).

Assim como Freyre, Furtado é marcado pela experiência de viver no exterior. Quando jovem, é “pracinha” na Segunda Guerra Mundial, logo depois do fim do conflito fazendo doutorado na França. Mas são sobretudo seus oito anos na CEPAL que influenciam o economista. Seguirá o secretário-executivo do órgão, Raúl Prebisch, na compreensão da economia a partir da relação entre seu centro industrializado e a periferia subdesenvolvida. Marca os membros de sua geração especialmente os ensinamentos de Karl Mannheim, muitos deles vendo-se como uma intelligentsia situada acima dos grupos que compõem a sociedade e capaz de dotá-la de um rumo que sirva ao bem comum. Não por acaso, o economista está à frente de boa parte das iniciativas que, desde sua volta ao Brasil, dão um novo sentido ao Nordeste.

Já em Formação econômica do Brasil (2009), Furtado falara na criação, durante a colônia, de um complexo econômico nordestino. A partir da economia açucareira, localizada no litoral, se teria ocupado terras próximas, o que contrastaria com a produção de cana na capitania de São Vicente e no Caribe. Esse sistema econômico dependente teria como única produção importante a carne. A disponibilidade de terras seria o principal fator de estímulo da economia criatória, que ocuparia boa parte do interior brasileiro. No entanto, essa seria, em boa medida, uma economia de subsistência.

Com a decadência do açúcar, a partir da segunda metade do século XVII, o setor de subsistência ganharia importância, a economia nordestina se atrofiando. Se teria tido, portanto, um verdadeiro “processo de involução econômica” (Furtado, 2009: 123). As consequências de tal desenvolvimento ainda se fariam sentir quando o economista paraibano escrevia.

Em termos mais amplos, o documento não assinado do GTDN, “Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste”, sintetiza o diagnóstico de Furtado a respeito de sua região. O Nordeste brasileiro, cuja renda per capita era, em 1956, inferior a US$ 100,00, seria uma das zonas menos desenvolvidas do Ocidente, correspondendo à “mais extensa, populosa e miserável área subdesenvolvida das Américas” (Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste, 1959: 14). Contra tal quadro, defende a criação de uma agência que planifique e coordene a atuação dos diferentes órgãos governamentais na região, o que ocorrerá com a criação da SUDENE.

Numa orientação cepalina, que estende o contraste entre centro e periferia de países para as regiões, ressalta as diferenças entre o Centro-Sul industrializado e o Nordeste do Brasil, fundamentalmente agrícola. O documento enfatiza particularmente como “a diferença de grau de desenvolvimento entre o Nordeste e o Centro-Sul supera a que se observa entre essas últimas regiões e a média das nações industrializadas da Europa Ocidental” (Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste, 1959: 7). Em outras palavras, num contexto de industrialização acelerada do país, se intensificaria a distância entre regiões. Ainda mais importante, não havia sinais de que a tendência favorável à disparidade regional se revertesse, o que colocaria em risco a unidade nacional.

Em termos menos evidentes, Furtado assinala que há transferência de renda do Nordeste para o Centro-Sul. Chama a atenção que tal processo ocorre por conta do câmbio, com o Nordeste, cuja balança comercial era superavitária devido à venda de produtos agrícolas, como açúcar, cacau e algodão, tinha déficit com o Centro-Sul, ao comprar suas manufaturas. Se, por um lado, a supervalorização do câmbio valorizava a industrialização por substituição de importações de uma região, por outro lado, favorecia a perpetuação do subdesenvolvimento da outra.

Já na conferência para oficiais das Forças Armadas pronunciada no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), “Operação Nordeste” (1959), Furtado fornece novos instrumentos para se interpretar o problema da seca. Ela é entendida como uma questão econômico-social, que tem sua origem na colônia e que persiste na estrutura fundiária nordestina. Consequentemente, as obras contra as estiagens teriam pouco efeito. Ao contrário, iniciativas, como a construção de açudes e a abertura de frentes de trabalho, apenas reforçariam a dominação tradicional, correspondendo ao que Antônio Callado chamou na época de “indústria da seca”.

O “complexo econômico nordestino” seria constituído, desde a colonização, pela faixa úmida da Zona da Mata, onde se produzia açúcar, e o interior semiárido do Sertão, dedicado à pecuária. Entre elas, apareceria uma zona intermediária, o Agreste, que absorvia população excedente da economia açucareira, sendo constituído especialmente de minifúndios.

O Sertão não poderia ser considerado desértico, já que possuiria uma quantidade relativamente grande de água. O problema maior que a falta de chuva seria o tipo de economia desenvolvida no semiárido. Junto com a pecuária teria se passado, com o tempo, a produzir algodão-mocó. Se teria aberto caminho, assim, para a existência de uma economia monetária, que conviveria com uma economia de subsistência. Essa última teria permitido o aumento da população. O trabalhador, não tendo como se alimentar durante a estiagem, “sai para a estrada, (…) se ‘retira’, em busca de alguma fonte de emprego que lhe permite sobreviver” (Furtado, 1959: 29). Portanto, a gravidade do problema da seca estaria em incidir sobre uma população que não tinha como se defender dela.

Em sentido contrário, a seca deveria ser enfrentada aumentando a produtividade da economia do semiárido nordestino. Ligada à questão, o excedente de mão de obra, relacionada à economia de subsistência, deveria ser remanejado. Furtado pensa, nesse sentido, na colonização do Maranhão. Ela estaria, por sua vez, associada a um projeto mais amplo de desenvolvimento regional. Tal projeto deveria levar especialmente à industrialização, à diversificação da estrutura produtiva, à absorção da mão de obra, à geração de um mercado interno e até à criação, em termos schumpterianos, de um empresariado capitalista dinâmico.

Sinal do reformismo cauteloso de Furtado é que, de início, ele procura evitar o tema da reforma agrária. Até porque sabe das resistências que a iniciativa traz. No debate, impulsionado pela conferência no ISEB, provocado, explica que a divisão de terras não faria sentido no Semiárido da pecuária e no Agreste do minifúndio. No caso da Zona da Mata do latifúndio da cana argumenta que o problema mais sério seria a monocultura, sendo necessário garantir “a disponibilidade da terra para outros fins” (Furtado, 1959: 63). O conferencista se coloca assim como “técnico” e não “político”, afirmando que, caso seja colocada a necessidade da desapropriação da terra, o problema não é econômico, mas político.

Mesmo assim, as oligarquias nordestinas resistem ao projeto de modernização reformista do economista, até porque sabem que ele coloca em risco seu modo de vida. Significativamente, no Congresso a oposição maior à criação da SUDENE parte principalmente de parlamentares da região (Cohn, 1976; Oliveira, 1993; Vieira, 2019).

***

As visões do Nordeste de Gilberto Freyre e de Celso Furtado não são apenas deles. Têm tanta repercussão justamente porque os dois, em momentos muito distintos, foram capazes de articular preocupações e aspirações mais amplas, que transcendem sua região. De maneira significativa, talvez tenham sido os intelectuais brasileiros mais importantes de suas gerações. Suas ideias foram, além do mais, capazes de se traduzir em instituições, como a Fundação Joaquim Nabuco e a SUDENE.

Mas Freyre e Furtado têm perspectivas bastante diferentes de interpretarem suas experiências e o próprio Nordeste. O pernambucano assume, especialmente nos anos 1920 e 1930, o ponto de vista da aristocracia decadente do açúcar, cujo esplendor procura trazer de volta, nem que seja pela memória. Mais que isso, destaca seu papel no que veio a ser o Brasil. Já Furtado, pensa, na década de 1950 e 1960, a partir do Estado, buscando dar um novo rumo, de planejamento democrático, para as políticas públicas e sua região.

Não por acaso, ainda entendemos o Nordeste a partir das ideias do pernambucano e do paraibano. A questão é saber: o Nordeste de hoje ainda é a região pensada por Freyre e Furtado?


Nota

1 No entanto, Freyre escreveu o Manifesto Regionalista apenas em 1952. Segundo o autor, a versão oral do trabalho tendo sido proferida no Congresso.

Referências

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