
“Talvez o importante é escrever”. O artigo da professora e crítica literária Eurídice Figueiredo, que publicamos hoje na Coluna Palavra Crítica, termina com esta possibilidade de vida e de seu resgate a partir do ensaio da escritora chicana Gloria Anzaldúa. Independentemente das condições e da origem genealógica, a necessidade de escrever se impõe. As histórias de vidas e os modos como elas se entrelaçam tomam forma pelo gesto da escrita, seja pelo papel ou tela, seja pelo que nos contam oralmente. A família é o primeiro espaço onde lemos e criamos histórias, mesmo sem escrevê-las ou contá-las. É nossa primeira relação com a literatura. Ainda que a casa onde nascemos e crescemos não tenha sido cercada de livros em estantes ou que nossos familiares não tenham sequer frequentado o ensino regular, as histórias fazem parte de cada conversa, murmúrio e silêncio que povoam nossos dias do início ao fim de nossa passagem pela terra.
A indagação do título do artigo de Eurídice nos inquieta. O texto não é uma tentativa de resposta, mas a pergunta e o que ela traz se ampliam com as referências que a autora mobiliza para tentar reconstituir, a partir de sua escrita, algo de suas histórias familiares, em um exercício genealógico e crítico de grande força e sensibilidade. Como uma “trânsfuga de classe”, termo cunhado por Bourdieu, Eurídice encontra na literatura, de Albert Camus a Annie Ernaux, ressonâncias de suas histórias familiares e da relação entre ancestralidade e desigualdade social. A autora apresenta também uma bela reflexão sobre os limiares da literatura e os contornos de suas fronteiras, sempre difíceis de determinar quando a vida nelas deságua, e vice-versa. Se a criação de uma árvore genealógica se mostra como privilégio de uns poucos, a literatura é o campo possível onde muitos são capazes de atravessar e alcançar outras realidades.
A Coluna Palavra Crítica tem curadoria de Rodrigo Jorge Neves, que assina esta apresentação. Para conferir outros textos publicados na coluna, clique aqui.
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