Coluna Palavra Crítica | A fala lacônica, por Jean Pierre Chauvin

O Blog da BVPS, na Coluna Palavra Crítica, com curadoria de Rodrigo Jorge Ribeiro Neves (Uerj), publica “A fala lacônica”, de Jean Pierre Chauvin, professor associado da Escola de Comunicação e Artes da USP, onde leciona a disciplina de Cultura e Literatura Brasileira.

Chauvin realiza um exercício ficcional que entrelaça diferentes gêneros literários, como a crônica, o ensaio e a narrativa, mas não de maneira estanque, o que contribui para acentuar ainda mais a carga irônica de seu texto, à maneira machadiana, para tratar criticamente das relações entre discurso e poder. A referência a um dos romances mais representativos do Bruxo do Cosme Velho, Quincas Borba, não é casual, pois, assim como ocorre com Rubião, personagem evocado no texto, a compreensão do laconismo aqui também depende do ponto de vista, afinal, “o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão”.

Boa leitura!


A fala lacônica

Por Jean Pierre Chauvin (USP)

[…] por toda parte, vozes “autorizadas”, que se autorizam a fazer 
ouvir o discurso de todo poder: o discurso da arrogância
(Roland Barthes. Aula, 1977)

Este texto não pretende nada, senão oferecer um modesto diagnóstico sobre as relações assimétricas entre seres estelares e astros sem luz própria, que orbitam a pequena-grande galáxia universitária. 

É provável que em algum momento de sua parca existência, o leitor tenha vivenciado situações em que notou grande descompasso entre a quantidade de palavras que emitiu e o quinhão delas que recebeu. Eventos dessa natureza são recorrentes e podem acontecer durante conversas por telefone, troca de correspondências eletrônicas ou mensagens via aplicativo. Porém, quando o fenômeno transcorre pessoalmente, a experiência pode ser ainda mais perturbadora, em particular se estivermos diante de uma pessoa estelar. 

Laconismo é um termo algo rebuscado, talvez fora de moda, que caracteriza brevidade – por vezes, combinada à fala firme e pouca. Decerto, os motivos para esse comportamento do interlocutor serão muitos e variados: insegurança no trato horizontal com os outros; indisposição para dialogar; presunção de superioridade intelectual etc. Sendo numerosas as razões, sugiro examinarmos a fala lacônica como pressuposto de proeminência, meio para figurar autoridade, com intenção de realçar soberania. 

A fala lacônica é frequente no mundindo acadêmico, pois quase sempre ela se relaciona à (auto)afetação de grande importância. Sendo um fenômeno habitual, a ideia consistiria em averiguar se o comportamento é sintoma de espontaneidade ou fruto de cálculo puro e simples. Em suma, precisaríamos saber se o laconismo verbal expressa um modo introvertido e econômico de ser ou se é empregado conscientemente, quer dizer, como artifício capaz de imprimir autoridade aos breves ditos, negativas e silêncios. 

Embora este pseudocronista atribua grande relevância à matéria, o assunto pode ser inconveniente, até mesmo delicado, para ouvidos dos entes mais iluminados ou luminosos. Evitemos controvérsias desnecessárias. Considerando que: (1) estou minimamente habilitado para analisar e interpretar discursos; (2) julgo-me capaz de prevenir constrangimentos alheios, sugiro que recorramos a personagens fictícias. De quebra, evitaremos soar descorteses com alunos ou colegas de ofício mais suscetíveis e não pareceremos indignos por cobrar maior atenção dos astro-humanoides. 

Assim sendo, examinemos dois caracteres extraídos de um romance oitocentista suficientemente conhecido do grande público. Em certa altura do Quincas Borba, o ex-professor e (inepto) capitalista Rubião recebe a visita de dois pseudoamigos – Freitas e Carlos Maria. A cena ocupa os capítulos XXIX, XXX e XXXI e transcorre nestes termos: 

Rubião passou o resto da manhã alegremente. Era domingo; dois amigos vieram almoçar com ele, um rapaz de vinte e quatro anos, que roía as primeiras aparas dos bens da mãe, e um homem de quarenta e quatro ou quarenta e cinco, que já não tinha que roer.

Carlos Maria chamava-se o primeiro, Freitas o segundo. Rubião gostava de ambos, mas diferentemente; não era só a idade que o ligava mais ao Freitas, eram também a índole deste homem. Freitas elogiava tudo, saudava cada prato e cada vinho com uma frase particular, delicada, e saía de lá com as algibeiras cheias de charutos, provando assim que os preferia a quaisquer outros. […] era vivo, interessante, anedótico, alegre como um homem que tivesse cinquenta contos de renda. 

Queres o avesso disso, leitor curioso? Vê este outro convidado para o almoço, Carlos Maria. Se aquele tem os modos “expansivos e francos” – no bom sentido laudatório – claro é que ele os tem contrários. Assim, não te custará nada vê-lo entrar na sala, lento, frio e superior, ser apresentado ao Freitas, olhando para outra parte. […] Também podes ver por ti mesmo que o nosso Rubião, se gosta mais do Freitas, tem o outro em maior consideração: esperou-o até agora, e esperá-lo-ia até amanhã. Carlos Maria é que não consideração a nenhum deles. Examinai-o bem; é um galhardo rapaz de olhos grandes e plácidos, muito senhor de si, ainda mais senhor dos outros. Olha de cima; não tem o riso jovial, mas escarninho. Agora, ao sentar-se à mesa, ao pegar no talher, ao abrir o guardanapo, em tudo se vê que ele está fazendo um insigne favor ao dono da casa – talvez dois – o de lhe comer o almoço, e o de lhe não chamar pascácio. 

Ora, ora. Vossa mercê mal bateu o olho, detectou o abismo que separa o mui digno e altivo Carlos Maria do bajulador e humilíssimo Freitas. Este esmera-se em transpirar alegria, tecer elogios e tirar máximo proveito à refeição, à bebida e aos charutos; aquele, prima em agir de modo taciturno, desprezar os zelos do anfitrião e fazer pouco caso dos outros. O que explicaria tamanha diferença, tanta distância? 

Um motivo diz respeito à faixa etária: Carlos Maria tem vinte anos menos que Freitas. Outra razão é de natureza pecuniária: Freitas é um sujeito remediado financeiramente, enquanto Carlos Maria é um bon vivant escorado na futura herança da mãe. O terceiro fator consiste na arte machadiana de contrastar personagens que, situadas em extremos, reforçam o entrelugar de Rubião e a posição intermediária que a loucura entre a vida e a morte.

Freitas é afável e falante. Aparentemente entusiasmado, virgula a fala do anfitrião com elogios e enfileira observações óbvias sobre tudo o que experimenta, escuta e vê. Carlos Maria é inacessível e silencioso. Ministra doses de desinteresse e pouco caso pelo anfitrião, sugerindo incapacidade de deslumbramentos. Dirige, quando muito, um olhar de censura ou resignação que, por acaso, inclui Rubião, na antessala da convenção social. 

Retornemos ao tema inicial. 

A julgar pelo que se observa e escuta alhures, temos impressão de que, em certas ocasiões, a arte literária salta das páginas, percorre folha de guarda, lombada e capa, materializando-se em uma criatura bem-posta, mas nem sempre disponível. Para além de cogitar se a postura resulta natural ou artificial, seria produtivo descobrir maneiras de mensurar se o falante lacônico procede assim constantemente ou se apenas o faz durante uma fração de tempo. 

Desconfio que ele agiria com menor parcimônia, caso se dirigisse a pessoas quase tão distintas quanto ele. O fenômeno sugere alguma presunção de si, mergulhado nas cores vibrantes do narcisismo. Decerto, a fala lacônica permite ao tipo estelar compor o seu autorretrato, acrescentando-lhe bela moldura com direito a passe-partout, lâmina de vidro, backing board e pendurador. Eis a imponente gravura ornada com acessórios, afixada nos altos da parede, a engendrar sentenças geniais, só permitidas a quem divide o espaço de atuação com os cometas, asteroides e foguetes. 

Imagem que abre o post: série “Idílios do rei”, de Gustave Doré.

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