
Publicamos na Coluna Palavra Crítica texto de Godofredo de Oliveira Neto, professor de literatura da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), sobre os modernistas e a literatura brasileira contemporânea.
O autor, que é uma das vozes de proa da literatura brasileira atual, nos lembra que o trabalho com a linguagem está presente nas principais obras modernistas, ainda que atravessadas pela busca de justiça social e engajamento político. A forma literária, assim, não é mero artifício ou experimentalismo estéril. Ela funciona como condição para a realização da obra artística, considerando sua própria natureza revolucionária.
Mário de Andrade, em sua famosa conferência de 1942, advertira que eles, os modernistas, não serviam de exemplo a ninguém, mas poderiam “servir de lição”. O texto de Godofredo reforça, como em uma conversa com o autor de Macunaíma, que, apesar dos avanços, não podemos esquecer da capacidade mobilizadora das lições do passado e da força revolucionária da criação artística.
Boa leitura!
Os modernistas da Semana de 22 e a literatura contemporânea – visão de escritor
Por Godofredo de Oliveira Neto (UFRJ e ABL)
Afora os clichês arquiconhecidos, como a experimentação, a fixação da identidade nacional e da cultura, a aproximação entre língua falada e língua escrita na prosa e nos versos livres da poesia, tudo o que já se vinha fazendo na Europa, a Semana de Arte Moderna não promoveu, nem tentou promover, uma efetiva transformação social da nação brasileira via uma literatura panfletária de cunho social. Não foi esse o caminho, apesar de trabalhos importantes na linha estrita e claramente política como a obra da Pagu, entre outros. A sua influência na literatura brasileira foi forte na parte estética, uma mudança na noção do Belo que acabaria alterando o status quo social. O transformar o mundo, de Marx, ou o mudar a vida, de Rimbaud, seriam batalhas da mesma guerra. Mas já antes escritores batiam nessa tecla, como Augusto dos Anjos ou Lima Barreto.
Ficou mais claro para a arte literária então a lição extraída de Brás Cubas, do Machado. A língua já é significante antes de o texto ser escrito. A literatura cria um segundo sistema de significações e ela se refere à linguagem e não ao real, como analisam os semiólogos.
Os modernistas nos legaram um monumento literário, Macunaíma, do Mário, e O rei da vela, do Oswald, por exemplo, que teve uma genial montagem teatral do Zé Celso Martinez lá pelos anos 60, para citar dois exemplos. Vejo Mário e Oswald como dois expoentes fundamentais da nossa história literária. A influência desses autores vai se dar com clareza em Drummond, Bandeira, João Cabral. Clarice também reivindica a influência modernista, conforme análises recentes. Sem falar da Tropicália e do movimento Concretista, experimentado, no início, por Bandeira.
Na literatura recente esse viés estético se dissipou bastante. A literatura brasileira contemporânea tenta “curar” (termo dos pesquisadores) a injusta estrutura social do Brasil, como se vê na literatura afro-brasileira, indígena, de autoria feminina ou LGBT. Em relação à língua portuguesa a que me referi acima, a influência da língua da internet também deve ser considerada na literatura contemporânea.
Essa maior conscientização da mudança social também através da estética teve influência na minha geração e na minha obra. Geração artística super politizada. O texto não pode fugir de sua relação com o mundo. A criação artística é também prática social e produção ideológica. Tento construir nos romances um equilíbrio entre um modelo estetizante, predomínio da estética, e um com forte preocupação conteudística. De um lado saiu A Ficcionista, o Menino oculto e o recente O desenho extraviado de Hieronymus Bosch (Esquisse, na versão publicada em francês); do outro, O Bruxo do Contestado, Marcelino e Amores exilados. Mas nos dois casos busco a primazia da linguagem, senão não é literatura.
A Semana, cujos atores e atrizes principais vinham da classe alta paulistana no geral, continuou a preocupação dos Românticos de uma certa maneira, José de Alencar à frente. Digo de uma certa maneira porque Mário de Andrade chamou José de Alencar de “Alencar, meu irmão”!! em artigo num jornal de São Paulo. Irmão em qual luta? A da fixação da nacionalidade mas também ao tratar da língua portuguesa do Brasil. Alencar, imitando os românticos franceses como Victor Hugo, transpôs para a modalidade escrita construções gramaticais da variante brasileira da língua portuguesa. Sem dúvida o fez timidamente, nada comparado à ruptura dos modernistas. Lembremo-nos que Mário de Andrade iniciou a elaboração do que ele denominou Gramatiquinha da fala brasileira, projeto, aliás, interrompido. O “Instinto de Nacionalidade”, do Machado, entrou na roda, imagina-se. Mas agora o mote era ruptura e independência cultural, exatamente um século após a Independência de 1822.
Mas a arte proclamada não contribuiu, objetivamente, como disse, para a inclusão da população indígena ou negra, a maioria da nação. Pensava fazê-lo indiretamente pelos costumes e pelo gosto artístico? Essa estratégia para transformação social sempre alimentou a discussão entre o Partido Comunista, forte no meio intelectual da época da Semana, e as correntes que pregavam, e pregam hoje como partidos, uma revolução social pelos costumes, sem atentar diretamente para o conflito de classes. Acaba de vir à luz um texto de Oswald de Andrade dos anos 20 com viés racista. Não foi então apenas Monteiro Lobato que, aliás, criticou duramente a Semana.
Penso que se nos ativermos apenas ao aspecto social, a fama de revolucionária da Semana é algo exagerada. O movimento era artístico. A arte não é o real, a arte concorre com o real, ela ultrapassa a ideia de morte e de estreiteza da condição humana diante do mundo, já disseram. Aí sim ela faz tremer as bases da estrutura social. O Graciliano, autor particularmente politizado, membro do PCB, escreveu numa entrevista que achava aquilo (a Semana) uma tapeação desonesta. Para ele a preocupação estética não pode dificultar a verdadeira função da arte, a de contribuir para uma justiça social no país. Mas sem perder a noção do que seja arte literária. Daí a grandeza do Velho Graça. Ele conseguiu equilibrar esses dois lados com habilidade. No S. Bernardo, o personagem Paulo Honório ordena a alguns empregados letrados da fazenda que escrevam trechos da sua vida. O fiasco foi total, Paulo Honório rasgou o texto! Literatura sob encomenda não funciona, parece a lição. Literatura é arte. E isso em pleno Realismo Socialista. Penso que a tentativa de encontrar esse ponto de equilíbrio é que alimenta o debate acalorado de hoje a respeito da Semana.
A Semana de Arte Moderna não foi trazida à cena iluminada pela ditadura militar de 64/68, fique bem claro.
A Semana teve desavenças internas, como é sabido. A atual justa valorização do nosso poeta simbolista Cruz e Sousa – cuja poesia exerceu influência em autores do início do século passado até a contemporaneidade – contrasta com a solene rejeição e desprezo, dos modernistas da época, pelos versos do autor do magistral Emparedado. Cruz e Sousa era negro. E também autor do implacável Consciência tranquila, o mais violento texto literário de toda a história da literatura brasileira contra a escravidão. Não há nenhum igual. O Navio Negreiro, de Castro Alves, é compassivo, se comparado, apesar de grande beleza na arte poética. Já houve casos de alunos, na UFRJ, saírem de sala de aula para vomitar e pedirem que interrompesse a leitura, tal a violência e a crueldade contida nos versos. Li o poema recentemente na Sorbonne Paris III, e o desconforto da turma foi visível. A discussão que se seguiu provou essa perplexidade. Falou-se em sadismo. Nenhuma Universidade analisa esse texto. Nem consta de manuais de literatura. Por quê?
A arte pode ser revolucionária quando dá voz a quem não tem, houve um pouco isso em 22, está bem, mas não muito.
Mas a literatura brasileira foi outra depois da Semana, esse legado é inquestionável. Estudiosos já escreveram que pintores contemporâneos dialogam com as pinturas rupestres sem o saber: o famoso Museu Imaginário. E a literatura de todos os séculos dialoga com Platão: a Biblioteca Universal. Mais perto de nós, a literatura contemporânea brasileira dialoga profundamente com os modernistas, mesmo que não tenha disso consciência. No momento atual, ela se aproxima mais de uma literatura ativista a la Vidas Secas, também sem perder a qualidade artística, como o premiado Torto arado e as premiações do Jabuti e outras. Mas, no movimento de gangorra da arte, uma obra a la Serafim Ponte Grande virá se postar ao lado desses romances qualquer hora dessas. Não há arte revolucionária sem forma revolucionária, lembrando Maiakovsky.
Texto publicado em março de 2022, atualizado pelo autor.
O texto de abertura é de Rodrigo Jorge Neves, curador da coluna, e a imagem que abre o post é de Evando Nascimento: Os arquigrafismos & “O futuro ancestral”: A dança II – Capoeira.