Lançamento | “A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2020)”, de Mário Augusto Medeiros da Silva

O Blog da BVPS divulga hoje o lançamento da segunda edição do livro A descoberta do insólito: Literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2020), do sociólogo e escritor Mário Augusto Medeiros da Silva, pelo Edições Sesc.

A obra chega às livrarias atualizada e ampliada, abrangendo duas décadas a mais do que a versão anterior, publicada em 2013, e que compreendia de 1960 a 2000. Com isso, a nova edição ganha mais um capítulo, intitulado “Pequena história sociológica de livrarias e editoras negras (1972-2020)”, salientando o poder das mulheres tanto na literatura negra produzida atualmente no país como, principalmente, no manejo de editoras e de livrarias voltadas a esse nicho de produção literária e seu público leitor.

Em A descoberta do insólito, o autor evidencia as barreiras e os apagamentos que as literaturas negra e periférica enfrentaram e ainda enfrentam atualmente, mas igualmente expõe a luta e a resistência de escritores, ativistas e intelectuais negros e periféricos por espaço e valoração. Nomes como Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus, Paulo Lins, Conceição Evaristo, Solano Trindade, Marcelo D’Salete, Ferréz e Sérgio Vaz são celebrados, e a importância histórica de suas obras é destacada. 

Confira abaixo a apresentação do livro, escrita por Elide Rugai Bastos.

Boa leitura!


    A caixa de Pandora

Por Elide Rugai Bastos

É preciso coragem para fazer perguntas, pois perguntar é obrigar-se a buscar respostas. Estas podem provocar novas perguntas, que se colocam como consequências da primeira ou, complexificando o caminho, induzem o retorno a indagações originárias. O mundo de ponta-cabeça: voltar atrás para compreender o agora. Esse é o desafio que Mário Augusto Medeiros da Silva enfrenta em A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil. Uma constatação acionou seu interesse de pesquisa: tanto a literatura negra quanto a periférica são e/ou foram denominadas marginais. Por que alguns escritos ou escritores são somente identificados se adjetivados, como ocorre com o livro Quarto de despejo – o diário de uma favelada – ou Cidade de Deus – um romance etnográfico de um (ex) favelado? Várias questões presentes numa só que impõem muitas respostas, buscadas pelo autor entre escritores e ativistas, atores dos grupos e associações, obras envolvidas com a temática, processo de criação e recepção dos livros, reflexões da sociologia empenhada na explicação da sociedade brasileira e compromissada com a emancipação humana. Mais ainda, o obrigam a colocar novas interrogações.

A arquitetura do livro revela a preocupação de compreender o labirinto que circunda uma incômoda perplexidade: a marginalidade é um bem simbólico. Isto é, funda relações entre parte do mundo intelectual e a população consumidora de literatura. Considerar a marginalidade como tema ou problema os insere no debate do tempo, na discussão das mudanças que se fazem necessárias, promove a exposição na mídia ou, falando dos anos 1960-70, envolve-os na temática do desenvolvimento, então na ordem do dia. A produção literária sobre a marginalidade anima o mercado cultural. Através dela reordenam-se signos presentes na cultura.[1] O é –trata-se mesmo de uma afirmação –, fica por minha conta, pois o autor com competência e argúcia constrói a narrativa de modo a que o próprio leitor se coloque o problema. Desenrola a história, apresenta fatos, situações, livros, entrevistas, depoimentos, coloca perguntas incômodas, arrisca-se a fazer comentários um tanto irreverentes.

Lembro uma passagem significativa relatada por ele que mostra Carolina de Jesus como “uma mulher entre dois mundos, perdendo lastro com ambos”. Consagrada por seu primeiro livro, publicado em 1960, já morando em bairro de classe média, a escritora vivencia plenamente a discriminação em relação à negra, à ex-favelada e à catadora de papéis, relato presente em Casa de alvenaria (1961). No início contente com a mudança de vida, pouco a pouco se torna crítica, não apenas deplorando o comportamento da vizinhança, mas também do público que a acolhe. Convidada a participar de debate após a apresentação da peça teatral sobre Quarto de despejo, diz: “Circulei meu olhar pela plateia, contemplando aquela gente bem vestida, bem nutrida. Ouvindo a palavra fome, abstrata para eles. (…) Percebi que Dona Elite encara o problema da favela com vergonha”.[2] Comentando as intervenções, reconhece que as opiniões nada têm a ver com o sentimento e as razões que a levaram a escrever sobre sua vida. Sente-se desnorteada, fora do lugar. Demonstra a dimensão de seu desencanto com a frase final do livro: “Tomei um taxi e fui para minha casa.”[3]

Talvez não tenha plena consciência, mas Carolina vivencia o sentimento de perceber que os participantes da reunião veem de modo autônomo cada um dos elementos constituintes de sua vida – pobreza, fome, discriminação, profissão, lugar social. Essa visão fragmentada configura o cerne da tragédia, pois denuncia a naturalização dos conflitos por parte da sociedade que, aparentemente, se mobiliza para solucionar um ou outro entre aqueles que define como problema. O conhecimento de que vários trabalhos anteriores, como os de Lino Guedes, Gervásio de Moraes, Solano Trindade, Ruth Guimarães, Eduardo de Oliveira, Oswaldo de Camargo, para citar alguns, colocavam direta ou indiretamente a questão, conduz Mário Augusto Medeiros da Silva a analisar como se dá o encontro entre a pesquisa sociológica e as diferentes associações negras. Primeiramente a investigação patrocinada pela Unesco, em especial o estudo feito em São Paulo, onde a ligação entre Roger Bastide, Florestan Fernandes e essas associações é das mais importantes. Depois, em A Integração do negro na sociedade de classes (1965), encontra a análise que dá conta do conjunto direcionado a dois eixos articulados: a situação do negro e a sociedade envolvente. Não apenas porque Fernandes reflete sobre as razões da emergência das expressões de protesto e movimentos negros – o crescimento da urbanização e a emergência de uma nova ordem – mas porque põe em questão as possibilidades de igualdade de condições de participação na ordem social competitiva.

Elencando como, em relação ao negro, operam em conjunto a precariedade das condições de existência, a discriminação, os limites para uma profissionalização inclusiva, o difícil acesso à educação formal de qualidade, a pobreza, a moradia na periferia urbana, Fernandes opera um salto analítico. Não se limita a descrever a situação; demonstra como esta decorre da herança social, reconstrói os diversos passos dessa história, mostra a reprodução da assimetria nas relações sociais e como a combinação desses elementos resulta na desigualdade frente às condições de competição social. Aqui, segundo ele, encontra-se o principal limite ao exercício de uma cidadania plena.

A proximidade com as associações negras e a participação de seus membros na pesquisa – tanto no momento da Unesco, como no posterior em que a investigação envolve outros professores e alunos da cadeira de sociologia I da USP – permite uma análise sociológica em profundidade. Ao explicitar o caminho da sociologia crítica, Mário, por comparação, faz ressalvas às análises anteriores. Arrisco-me a dizer que mostra que a polifonia analítica alcançada em A integração do negro na sociedade de classes se opõe ao cânon desenvolvido naquelas.[4] Nesse caminho aponta ao leitor o que significa pensar sociologicamente. Se o pluralismo das abordagens teóricas é fundamental para o desenvolvimento da sociologia, é também necessário indagar qual o efeito de cada uma das posições para o encaminhamento dos problemas.

O golpe de 1964 atingiu duramente sociólogos, intelectuais negros e as organizações que os reuniam. Porém, novas associações surgem, intelectuais negros e brancos voltam à discussão da discriminação racial. Em 1978 funda-se o Movimento Negro Unificado, resultado do processo em curso e dos vários projetos tanto no campo da política como da literatura. As reflexões na área de ciências sociais retomam o tema, mesmo no período repressivo.

Volto ao modo pelo qual Mário Augusto Medeiros da Silva constrói sua análise sociológica. Parte prioritariamente da atenção ao “sujeito autorreferenciado negro e periférico como autor e narrador de sua construção artística (…) bem como de sua visão social de mundo, política e culturalmente construída.” Portanto, não se dedica à denúncia política, mas à vivência e à representação de cada sujeito. O passo seguinte é a busca da inscrição da autorreferência e da visão de mundo no quadro geral da formação da sociedade brasileira. A articulação das partes e do todo. A habilidade narrativa com que trilha esse caminho, colocando o leitor a que tire conclusões sobre o procedimento, me traz à memória uma das passagens mais impressionantes do romance latino-americano. Alejo Carpentier, em O reino deste mundo, figura a tragédia do Haiti através da narração das duas visões de mundo desencadeadas pela condenação/morte de Mackandal. Quando o fogo lhe atinge as pernas o mago estica-se no ar, voa e lança-se sobre o mar de negros escravos. Estes, então, compreendem que seu protetor continua no reino deste mundo e se alegram. Comentando a morte do agitador, mantido na fogueira pelos soldados, e a indiferença dos negros ante esse fato, Monsieur de Mezy constata a desigualdade das raças humanas.[5] Duas visões sobre o mundo que não se encontram. A autonomia que cada uma ganha constitui o cenário para a compreensão do drama haitiano.

Mário Augusto Medeiros da Silva compreende a sociologia como a artífice do encontro explicativo das partes e do todo. Assim, indica como subtítulo em um dos capítulos de A descoberta do insólito: Sociologia como Caixa de Pandora. Não porque fosse ela a responsável pelos males do mundo, mas porque torna-se o estojo que guarda a virtude da esperança. Basta saber abri-lo.


Notas:

[1] Pela brevidade do texto deixo de apresentar os elementos que ancoram a concepção de “bens simbólicos”. Remeto às discussões de Pierre Bourdieu sobre o tema, em especial ao livro O poder simbólico, no qual o autor lembra a aplicabilidade da expressão a vários objetos.

[2] Carolina de Jesus. Casa de alvenaria. Citado por Mário Augusto Medeiros da Silva.

[3] Idem.

[4] No cânon cada frase é repetida, mas num descompasso, melhor, cada grupo de cantores chega ao final, mas com um atraso em relação ao primeiro.

[5] Alejo Carpentier. O reino deste mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985, p. 31.

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