BVPS Coletâneas | Mário de Andrade: 130 anos esta noite

Mário de Andrade faz 130 anos hoje! Festejamos o modernista cuja juventude sobressai em seu pensamento aberto e inacabado, que sempre exige a presença ativa do outro para se realizar. Sua juventude está também em suas escolhas e apostas radicais, nem sempre a favor, mas também contra o seu tempo e as injustiças da cultura brasileira. Serão mais três postagens ao longo desta semana, com textos que resistiram ao tempo lado a lado com novas interpretações.

Hoje vocês conhecem o sumário e uma entrevista inédita com a Professora Telê Ancona Lopez (IEB/USP), além da apresentação do organizador da coletânea, Maurício Hoelz (UFRRJ).

Iniciar o experimento BVPS Coletâneas por Mário de Andrade, cujo amor e obsessão pelo Brasil o levaram a forjar uma forma aberta de chamado às futuras gerações é uma homenagem. E também um agradecimento. Mário de Andrade transdisciplinar e contemporâneo. Parabéns, Mário!


Mário de Andrade: 130 anos esta noite

Organização de Maurício Hoelz (UFRRJ)

Mário de Andrade faz 130 anos esta noite. Efemérides são datas feitas para lembrar, mas seu significado está sempre em disputa. E nelas, tão revelador quanto o que se lembra, é o que se esquece (as amnésias, como diria Benedict Anderson). Quando avaliamos as discussões do ano passado em torno do centenário da Semana de Arte Moderna, marco simbólico mais consagrado do modernismo – num momento em que confluíram o bicentenário da Independência política do Brasil e eleições nacionais que ameaçavam ser um ponto de não retorno para a democracia brasileira – chama a atenção uma espécie de sonegação do legado modernista por seu suposto elitismo eurocêntrico. Ninguém negará a essa altura que a Semana foi um evento da alta, restrito a vips, e que projetos outros de modernidade vogavam nas margens das ruas, fora dos salões. Na contramão dessa tendência revisionista – e, em certo sentido, negacionista – do fenômeno, gostaríamos aqui não de apontar seus eloquentes silêncios e tudo o que ele certamente deixou de fora, mas sobretudo os conflitos e contradições históricas que o movimento modernista, sob a liderança de Mário de Andrade, carregou para dentro da arena pública, alargando a estrutura de oportunidades políticas, expandindo suas fronteiras e redefinindo sua agenda – em suma, o aprendizado social que ele ensejou. E para debatê-lo, neste aniversário de Mário de Andrade, a BVPS inaugura um novo formato de publicação, uma coletânea digital.

Como assinala o sociólogo Klaus Eder, aprendizado não é sinônimo de evolução cultural, não é intrinsecamente virtuoso e não necessariamente muda o mundo, mas fornece os elementos para mudá-lo; promove um incremento de variação, aumentando o escopo de possibilidades de mudança. “Por que, a despeito de todos os aprendizados, é tão difícil mudar o mundo?” E por que nem sempre as sociedades fazem uso do que elas aprenderam? O conceito de aprendizado social, a nosso ver, contribui para neutralizar a carga voluntarista e normativa (idealizada sempre para melhor) da noção convencional de mudança social com que as ciências sociais tradicionalmente operam, conferindo centralidade à reflexividade (outra categoria-chave) da cultura nas ambiguidades e contradições da vida social. Adaptando a máxima de Marx no seu livro menos voluntarista, mas também menos determinista, poderíamos dizer que as sociedades mudam, mas não como querem – dada a alta improbabilidade e contingência da comunicação nas relações sociais. Citando novamente Klaus Eder, “o que importa não é o que as pessoas têm em mente, mas o que elas compartilham”. Assim talvez consigamos perceber que o modernismo, ao desrecalcar e ressignificar a diferença e postular o seu reconhecimento social (não sozinho, obviamente), propiciou um aprendizado social que ampliou o repertório de reivindicações sobre as identidades e suas representatividades, o que permitiu no longo prazo – temporalidade em que, aliás, a aposta do movimento sempre se fez – questionar os seus próprios limites nesses termos – foi isso que deu o tom da efeméride no ano passado.

A vasta fortuna crítica do modernismo o tem tratado, principalmente, como um movimento artístico de vanguarda voltado para o combate da estética parnasiana, então hegemônica, e para a renovação da poesia, da literatura e das artes plásticas brasileiras, especialmente. Essa massa crítica produziu um verdadeiro “consenso ortodoxo” que domesticou o debate a partir de paradigmas hoje teoricamente quase obsoletos como identidade nacional, nacionalismo e brasilidade. Não estamos negando que em grande medida o modernismo foi isso mesmo. Mas, articulando ideais de cultura, modernidade e sociedade mais amplos implicados nas suas propostas vanguardistas de ruptura com a tradição, o modernismo se constituiu, sociologicamente, como um movimento cultural, ou seja, uma forma de ação coletiva intergeracional – da ordem do processo e não do evento – de luta permanente pela mudança cultural da sociedade brasileira, que se projetava utopicamente para o futuro. Seu projeto para o Brasil era o de combater as duradouras desigualdades sociais através da cultura, agenciada não como recurso de conciliação e consenso, mas como um campo aberto de conflito democrático pelo controle dos significados e afetos a partir dos quais a sociedade se pensa, se organiza, se (re)produz e modifica suas práticas de sentido. O que está em jogo, lembrando Max Weber, é criar condições para que valores e comportamentos novos possam adquirir legitimidade e persistência ao longo do tempo, tornando-se princípios de orientação – capazes de ditar a iniciativa, conduzir a vida e dotá-la de sentido – para o maior número de pessoas e grupos sociais.

Como qualquer movimento com grupos em competição, porém, é quase um clichê dizer que o modernismo foi plural, e isso mesmo entre os paulistas, que venceram o jogo das narrativas sobre o próprio movimento até aqui. No entanto, é curioso (e talvez um sintoma social a ser interpretado) que as reivindicações por modernismos plurais em torno da efeméride tenham feito tabula rasa justamente da pluralidade do modernismo no seu próprio contexto, aplainado como um bloco homogêneo quase estamental. Quando pensamos nesses 100 anos que, nesta viagem de volta para o futuro, nos separam e também nos aproximam da Semana de Arte Moderna ocorrida em São Paulo, não sem a participação decisiva de artistas e intelectuais estabelecidos no Rio de Janeiro (que era então a capital federal), duas vertentes concorrem pelo monopólio da nossa economia simbólica. De um lado, os nativistas do Movimento Verde-Amarelo – útero do nosso fascismo à brasileira, o integralismo – parecem talhados para contar a história autoritária que acabamos por viver em boa parte do século XX no Brasil e que há poucos meses estava literalmente marchando em transe nas ruas (e porventura numa realidade paralela) e bloqueando caminhos, pronta a golpear a democracia. De outro lado, está a antropofagia de Oswald de Andrade, cujo discurso triunfalista de inversão da colonialidade prosperou entre as vanguardas que se sucederam no Brasil, do concretismo ao tropicalismo, passando pelo Teatro Oficina.

Nesse senso comum do modernismo – totalmente rotinizado em currículos escolares e universitários, vale notar – seu líder Mário de Andrade acabou equivocadamente  sintetizado – ai dele, que via na síntese sociológica uma tentativa tola de salvar rapidamente o Brasil – nessas duas outras vertentes paulistas que acabaram por se impor ao conjunto do imaginário modernista. Assim, as tensões e ambiguidades constitutivas de suas ideias e seu sentido crítico e subversivo em relação aos temas dominantes de seu tempo foram fiscalizadas e apagadas nos últimos 100 anos. De modo que o líder modernista pôde, então, ser canonizado como uma matriz oficial ou um patriarca mítico da cultura brasileira (cuja autoridade não se pode questionar, daí mesmo os silêncios e tabus que o cercam). Por esse mesmo motivo, ele vem sofrendo com uma espécie de palmatória, sendo-lhe anacronicamente cobradas, no banco dos réus antepassados, violências simbólicas que seriam sociologicamente inverossímeis numa sociedade conservadora e hierárquica como a brasileira dos anos 1920-30. Ora, se houvesse espaço para uma participação direta mais plural em termos de classes sociais, raça e gênero na Semana de 1922, será que a gente precisaria ainda hoje lutar por direitos civis básicos dessa agenda? O risco maior desse tipo de anacronismo é o de perdermos os significados daquilo que de fato nossos “ancestrais” fizeram no seu contexto próprio, e o sentido contingente que essas suas ações, prenhes de consequências impremeditadas, realizaram no processo histórico para o presente que hoje habitamos, como se a vida social recomeçasse sempre do zero, a cada nova geração.

Sabemos que também os sujeitos fazem a história, mas não a fazem como querem, sob circunstâncias de sua escolha. Mário de Andrade fracassou em seu projeto de redenção do abismo social através da cultura. Pois suas aspirações foram fagocitadas pelas estruturas autocráticas e autoritárias do Estado Novo. E aí é que estão os (e estamos) nós. Como entender que a consagração de um autor não significa necessariamente a realização das suas ideias e menos ainda do seu projeto de Brasil? Que aprendizado social extrair desse aparente paradoxo de um autor-monumento fracassado, que encarnava dilacerado as profundas contradições desta ex-colônia patriarcal e escravista na periferia do Ocidente capitalista? Não custa lembrar que Mário de Andrade era católico de uma família de classe média ilustrada, mas moralmente conservadora e sem fortuna financeira numa cidade enriquecida pelo café e em modernização frenética, mas ainda provinciana; professor de música, carreira tipicamente feminina, que dependia de seu trabalho para viver e não podia contar com as prerrogativas dos jovens herdeiros dos círculos oligárquicos, companheiros seus de geração, para arranjar posições de prestígio na política e na burocracia do Estado; “mulato” (na terminologia da época) no mundo pós-abolição em que até então a mestiçagem era sinônimo de degeneração e as políticas científicas postulavam, em nome do progresso, o branqueamento da população e o “saneamento social”; além de bastante desencaixado dos padrões heteronormativos de gênero dominantes – a masculinidade hegemônica. Mário de Andrade viveu, sobreviveu e lutou contra uma sociedade racista, classista e homofóbica. E contra todas as probabilidades e poderosos marcadores sociais de diferença, tornou-se líder de um movimento tão inovador e combativo e inicialmente tão atacado pelo status quo artístico e cultural.

O projeto de democratização da cultura a que ele deu vida buscou incluir o “povo”, em sua multiplicidade, no mapa “desgeograficado” de um Brasil “abrasileirado”, provocando uma ruptura radical e indelével com o significado até então eurocêntrico e pretensamente erudito de “cultura” e “cultura brasileira”. Num gesto cosmopolita de abertura para a alteridade, Mário de Andrade procurou reconhecer visibilidade, voz e agência aos diferentes, cultivando uma “empatia” que desrecalcava o “popular” racializado, até então visto preconceituosamente como causa do nosso atraso e inferioridade, sem, no entanto, fetichizar (exotizando) sua autenticidade.

Por meio de suas viagens pelo Brasil, da construção de um verdadeiro ecossistema de comunicação por cartas e do compromisso democrático com a aproximação da linguagem falada da norma escrita, Mário furou sua bolha, como diríamos hoje, e penetrou a sociedade. Não só valorizou o saber subalterno ancestral historicamente apagado pelas nossas elites senhoriais europeizadas, buscando criar diálogos entre erudito e popular, mas também promoveu uma política de reconhecimento da dignidade dos portadores sociais da cultura popular como ponta de lança de um projeto plural e inclusivo, mas não populista e tutelar, de nação, o que numa sociedade tão desigual e pouco democrática como a brasileira mesmo hoje continua atual e nada trivial. É importante lembrar essas realizações em face dos ataques genéricos ao elitismo do modernismo.

Recorrendo ao sociólogo Jeffrey Alexander, podemos dizer que o sucesso das performances sociais é contingente, pois não está garantido de antemão pelo mero compartilhamento de estruturas simbólicas. Como movimento cultural de longa duração, nos parece, o modernismo conseguiu encenar com êxito um script diante de suas variadas audiências, transmitindo-lhes a impressão de “verossimilhança” e “autenticidade” e gerando ao mesmo tempo extensão cultural e identificação psicológica. Assim, logrou inverter, não sem se haver com muitas contraperformances, a posição ocupada pelo “popular” na sociedade – de inimigo a ser segregado a cidadão a ser incluído (façanha inclusive consumada pelo Estado Novo) – ao codificar as práticas discriminatórias e estigmatizantes como profanas nos termos da metalinguagem civil. E a criação dessa nova narrativa cultural possibilitou uma profunda ligação emocional e simbólica com amplas audiências, para além do contexto temporal de suas lutas. Essa relativa “fusão” dos elementos da performance alcançada pelo movimento cultural pode ser considerada explicativa de sua força – mais simbólica que material ou institucional – nos últimos cem anos. O modernismo pelo qual Mário de Andrade lutou, portanto, ampliou o campo do conflito social democrático e alterou as formas básicas por meio das quais a sociedade brasileira se auto-observa. Isso é aprendizado social. E talvez fique ainda para o presente movimento modernista, Mário de Andrade, nosso irmão. É isso que gostaríamos de celebrar, convidando nossas leitoras e leitores, nesse aniversário de 130 anos do “nosso modernista favorito”, para fazer coro com o rapper Emicida.

Gostaríamos de agradecer a todas/os as/os colegas que gentil e prontamente aceitaram nosso convite para participar desta festa em forma de coletânea, cujo sumário pode ser conferido a seguir e que se estenderá, como um carnaval carioca, por toda a semana e além, abrindo hoje com uma entrevista, que tanto nos honra e alegra, com a professora Telê Porto Ancona Lopez, que pioneiramente reconheceu o dom da eterna juventude de Mário de Andrade para as futuras gerações.

BVPS coletâneas propõe-se como uma nova oportunidade de reler textos que resistem ao tempo e conhecer novas interpretações não apenas lado a lado, mas formando um novo conjunto atravessado por questões perenes da cultura, da política e da sociedade brasileira. Perenes porque expressam tanto a reiteração de problemas que se decantam em dilemas persistentes, e até obsessivos, quanto o exercício de reescritura como forma intelectual e dispositivo de comunicação entre temporalidades e pontos de vista diferentes. Iniciar esse experimento por Mário de Andrade, cujo amor e obsessão pelo Brasil o levaram a forjar uma forma aberta de chamado às futuras gerações é uma homenagem. E também um agradecimento. Parabéns, Mário de Andrade!

Sumário

Mário de Andrade: 130 anos esta noite

“Como vai passando o tempo para Mário de Andrade?” Entrevista com Telê Porto Ancona Lopez – André Botelho e Maurício Hoelz

Democratização da cultura

Cabeça de Cristo, Paulicéia desvairada: dispositivos de automodelagem sacrificial modernista – André Botelho e Maurício Hoelz

Mário de Andrade e as falas brasileiras: entrevista com Eduardo Coelho

“Artimanhas da oralidade”: conversa com Flora Thomson-DeVeaux – André Botelho e Pedro Meira Monteiro

Mário contra o Romantismo – Alexandre de Bastos Pereira

Aprendizados amazônicos

Dó-Mi-Sol do Norte – José Miguel Wisnik

Macunaíma, máquina de preguiça – Eliane Robert Moraes

Voyages des voyeurs – Raúl Antelo

‘…o homem que tirou fotografia da gente…’: Mário de Andrade e a Amazônia – Pedro Fragelli

Passado-futuro

A inteligência do coletivo: ordem e religião em Mário de Andrade, passando por Sérgio Buarque de Holanda e Alceu Amoroso Lima – Pedro Meira Monteiro

Mário de Andrade e Pedro Nava: percursos e lições epistolares – Rodrigo Jorge Ribeiro Neves

Considerações sobre o Losango Negro, no pensamento de Mário de Andrade – Angela Teodoro Grillo

Andaimes, massa corrida, Joaquim Nabuco, Anitta: assistir um curso sobre Mário de Andrade no centenário da Semana de Arte Moderna – Lucas van Hombeeck


“Como vai passando o tempo para Mário de Andrade?” Entrevista com Telê Porto Ancona Lopez

Por André Botelho (UFRJ) e Maurício Hoelz (UFRRJ)

André Botelho e Maurício Hoelz. 130 anos de Mário de Andrade. Como Mário está envelhecendo, bem?

Telê Ancona Lopez. “Envelhecendo bem”… Se fosse vinho, seria arriscado responder… Eu mudo um pouco a pergunta: “Como vai passando o tempo para Mário de Andrade?” Como nós – os estudiosos cujo trabalho nasceu em um outro século – e vocês, estes que já começaram trabalhando no mundo informatizado, de fronteiras rasgadas concretizando utopias, veem Mário de Andrade hoje? Digo por mim e acompanho Ítalo Calvino. Mário polímata tornou-se um clássico e textos seus de artista ou de ensaísta, estudioso e descobridor assim o classificam não apenas porque pedem a leitura sem intermédio ou porque continuam em nosso pensamento e em nosso coração. Ou: não apenas pela coerência nos projetos ou porque abrem caminhos. Também porque, no historiar, na crítica ou na exposição teórica, são palavra! Palavra disposta com precisão semântica e graça, sabor, beleza. Porque possuem verdadeiramente um estilo, em que a precisão passa longe do carimbo, da fantasia narcisista de calar no leitor porque repete, ecoa vozes costumeiras. Mário passa bem: lido, traduzido, recriado, acrescentado. Suscita pesquisas e reflexões que podem hoje se alimentar das conquistas incomensuráveis da revolução da máquina, equivalente à descoberta da roda. Cabe também pensar a rapsódia Macunaíma como obra-prima inserida na produção artística atual que, simultaneamente, devora e rejuvenesce as obras-primas, se recorremos às “Aporias da vanguarda” de Enzensenberger.

André Botelho e Maurício Hoelz. Estamos entre duas celebrações importantes para a história do modernismo: o centenário da Semana de Arte Moderna, ano passado, e o centenário da viagem modernista a Minas Gerais, ano que vem. Como a senhora viu o centenário da Semana? O que foi ressaltado? Ficou algo pelo caminho?

Telê Ancona Lopez. O IEB-USP, no evento A Semana de 22 e o Modernismo: modos de herdar lançou esta provocação: “Como fazer vibrar os mais candentes debates do Brasil de hoje nas comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922? Como fazer com que a Semana e o legado do Modernismo respondam aos dilemas sociais e ambientais da atualidade brasileira? Como aí articular lugares de fala e fala de lugares?”.

Pretendeu discutir aquilo que, na prática, corresponde à distinção moderno e modernista, traçada por Henri Lefebvre, considerando o distanciamento histórico e também os graus de consciência. Em 2022, estudiosos renovados e jovens pesquisadores, no meio universitário ou fora dele, analisaram e interpretaram documentos para “fazer a história”, como Mário de Andrade “previra” em 1944. Livros, artigos, exposições, apresentações musicais multiplicaram-se. Em 1976, explorando matéria jornalística, a tese de doutoramento de Roselis Oliveira de Napoli, 1922-1972: A Semana permanece, mostrou, no cinquentenário, uma acanhada repercussão. E hoje, as cogitações alastraram-se. Prosseguem. Contamos com uma riqueza imensa de abordagens, em muitas áreas, consolidando a conclusão de Mário de Andrade em 1942, relativa “à convulsão profundíssima” desferida sobre a realidade brasileira. Vale a citação: “O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs é, a meu ver, a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística brasileira; e a estabilização de uma consciência criadora nacional”, visando um “todo orgânico da consciência coletiva.” (grifei, na conferência “O movimento modernista”). Estabilização, de fato, da necessidade de interrogar, sem descanso, os acontecimentos, no presente vivido no Brasil na relação arte e sociedade, ambicionando transformar democraticamente a sociedade. Esse anseio/proposta de movimento amplo marca Mário de Andrade moderno, em nosso tempo, na compreensão de que a modernidade é a própria dúvida (Lefebvre) e de que a tarefa de questionar é premente e sem trégua para a sociedade.

Ah! A sua pergunta “Ficou algo pelo caminho?”. Esse caminho me lembra a intrincada copa das amoreiras, na qual cada rama emite outra e esta, pela vez dela, mais uma; vai daí! Estudos e descobertas continuam! Eu gostaria de assistir, algum dia, uma performance em que a orquestra se atirasse, firme, na Sinfonia em sol menor, de 1893, do nosso Alberto Nepomuceno, onde brilha o tema folclórico do sapo cururu. Para, em seguida, ou sobreposto (sei lá!) trazer o poema de Manuel Bandeira, “Os sapos”, declamado na Semana de Arte Moderna. Esse enlace o festival de 1922 não pôde fazer. Amigo do compositor norueguês Grieg que, no diálogo com Ibsen, reconhecia a importância do folclore para abraçar a nacionalidade na criação erudita, Nepomuceno (1864-1920), chegou, pioneiro, às margens brasileiras do sapo cururu. Também escandalizou a crítica.

O centenário da viagem modernista a Minas Gerais, focalizada com argúcia por Alexandre Eulálio e Carlos Augusto Calil, motivará, certamente, novos e importantes “aprendimentos” quanto à multiplicidade de dimensões que essa viagem irradia.

André Botelho e Maurício Hoelz. “Eu creio que os modernistas da Semana de Arte Moderna não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição!”. Como esse recado de Mário de Andrade para a juventude de 1942 chega até nós hoje?

Telê Ancona Lopez. Mário de Andrade constatara/ alertara em 1922, na premissa estética presente no fragmento ou aforismo 51 da poética “Prefácio interessantíssimo”, em Pauliceia desvairada, marco no modernismo brasileiro: “O passado é lição para se meditar, não para reproduzir.”. Em 1942, no tecido da análise severa do modernismo, materializada na conferência aos estudantes, a constatação alarga-se e se atualiza: é importante evitar o dogmatismo, a absorção tácita, o delírio no wishful thinking. Nada está concluído! Viva a interrogação, o questionamento, a dúvida!

André Botelho e Maurício Hoelz. O enlace entre as gerações é central para o movimento cultural pela mudança da sociedade liderado por Mário de Andrade. Qual escrito dele a senhora, que foi pioneira no estudo da obra do modernista, destacaria para as novas gerações começarem a lê-lo? E por quê?

Telê Ancona Lopez. É verdade! Eu me pergunto… Para despertar aqueles que pouco leem, eu começaria pelo conto “Piá não sofre? Sofre.” E “O poço”, “Briga das pastoras”. São narrativas de forte atualidade. Para todos, eu sugiro Macunaíma, obra aberta, moderna. Rapsódia e canto “na fala impura”. Na poesia, todos merecem conhecer os “Dois poemas acreanos”, compreendendo “Descobrimento” e o “Acalanto do seringueiro”, assim como os “Poemas da negra”, “O carro da Miséria”. E mergulhar fundo n’ “A meditação sobre o Tietê”. No ensaio, as análises do Aleijadinho ou sobre o negro. Também “O maior músico” e “Atualidade de Chopin”. O começo pode ser, também, pela correspondência – uma delícia ler Mário e seus interlocutores! Ou pelos caminhos do viajante, n’O Turista Aprendiz, que bem percebe contradições do Brasil e que se associa à experiência do fotógrafo. O livro e o álbum de fotografias Mário de Andrade: Viagem ao Nordeste brasileiro 1928-29, organizado por Luiz Bargmann, estão na internet. Mas, por que esses destaques? As razões, que declino na minha resposta à primeira pergunta, juntam-se a esta, mais simples: porque Mário é um sagaz e sensível contemporâneo nosso. Ele nos surpreende.

São Paulo, outubro de 2023

Telê Ancona Lopez é Professora Emérita do IEB-USP.

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