Ocupação BVPS Mulheres 2024 | Paralelos da correspondência: Berta Gleizer Ribeiro e Gilda Rocha de Mello e Souza, por Alice de O. Ewbank

Na última atualização do dia, publicamos texto de Alice de O. Ewbank (NEPS/UFRJ). Partindo das correspondências que as intelectuais brasileiras Berta Gleizer Ribeiro e Gilda Rocha de Mello e Souza trocaram com o crítico uruguaio Ángel Rama, a autora provoca uma reflexão sobre os “lugares anexos” onde frequentemente as mulheres intelectuais são colocadas.

Na semana do 8M, a BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres, reunindo ensaios, relatos, cartas, conto, entrevista e resenhas que abordam temas, reflexões e dados das mais diferentes ordens sobre mulheres.

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Boa leitura!


Paralelos da correspondência: Berta Gleizer Ribeiro e Gilda Rocha de Mello e Souza

Por Alice de O. Ewbank (NEPS/UFRJ)

15 de junho de 1976:

Não consegui ainda que me devolvam o contrato assinado para Grande Sertão: Veredas, que José Olympio tem consigo há um mês e meio; não consegui obter notícias dos herdeiros de Mário de Andrade para saber se podemos fazer uma antologia das suas obras em espanhol, incluindo Macunaíma; não tenho notícias de Antonio Candido, que era ‘our man in São Paulo’ há mais ou menos três meses e não sei se Gilda Mello realmente vai fazer o prólogo para o Mário de Andrade. Tudo isso Darcy se encarregou de ver para nós. Lembre-o disso também (Rama apud Coelho & Rocca, 2015: 125)

No trecho que pertence a uma carta de Ángel Rama a Berta Ribeiro, uma das que integram a correspondência dos dois amigos e parceiros de trabalho, destaca-se o papel editorial de Ángel Rama, então à frente da Biblioteca Ayacucho e responsável pelo planejamento e a concretização da importante coleção. Para a proposta que desenho aqui, destaco outros dois detalhes. O primeiro, o caráter de notícia e desabafo sobre o andamento das publicações da seção brasileira da Ayacucho, que vai pior do que o esperado, e que desembocam em um dos responsáveis por garantir o avanço: Darcy Ribeiro. A apresentação da situação e o apontar do sujeito denotam também o pedido-tarefa do recado dado a Berta, recentemente separada de seu companheiro de 26 anos: de que lembrasse Darcy do que devia a Ángel Rama. O segundo detalhe é a citação de Gilda de Mello e Souza, uma das autoras contratadas para a produção do prefácio, organização e cronologia dos volumes da Biblioteca Ayacucho, especificamente o que homenageia Mario de Andrade, e cuja introdução para o volume do modernista brasileiro contará com nada menos que o ensaio “O tupi e o alaúde”, escrito especialmente para a coleção. O primeiro detalhe nos leva a Berta Gleizer Ribeiro (1924-1997), antropóloga e editora, e o segundo, a Gilda de Mello e Souza (1919-2005), crítica de arte e professora de Estética. Ambos se articulam a partir de um elo comum: o crítico de literatura e editor uruguaio Ángel Rama (1926-1983), em cuja correspondência reunida nos volumes Diálogos latino-americanos: correspondência entre Ángel Rama, Berta e Darcy Ribeiro (2015) e Conversa cortada: a correspondência entre Antonio Candido e Ángel Rama, o esboço de um projeto latino-americano (1960-1983) (2018) vislumbramos a parceria intelectual, a relação editor-autor, os laços de amizade e afeto. Mas, sobretudo, e é a isso que este texto se propõe, as presenças de duas mulheres que não cabem em apêndices epistolográficos.

O primeiro volume, organizado por Haydée Ribeiro Coelho e Pablo Rocca, reúne a correspondência de Ángel Rama e Berta Ribeiro em pé de igualdade com a do crítico uruguaio e Darcy Ribeiro, embora a inclusão de Berta no volume pareça se dever a uma concepção centrada no casal – o casal Ribeiro –, condição que a definiu durante grande parte da sua vida, como inclusive se denota do subtítulo: “Correspondência entre Ángel Rama, Berta e Darcy Ribeiro”, na qual Berta aparece somente com o prenome, como se inserida no marido/casal. Já no segundo volume, o foco é na correspondência entre Ángel Rama e Antonio Candido, mas Pablo Rocca, organizador do volume, entendeu por bem incluir em um anexo a correspondência entre Ángel Rama e Gilda de Mello e Souza, esposa de Antonio Candido, incidindo sobre a mesma concepção centrada no casal – o casal Mello e Souza –, que sujeita a mulher à preponderância do marido[1].

Enquanto o primeiro volume se dedica às trocas entre os “três eminentes intelectuais” em torno, basicamente, do projeto da Biblioteca Ayacucho (Coelho, 2015: 19), e confere agência à Berta em posição equivalente a de Darcy no que se refere à correspondência com Ángel Rama[2], o segundo volume obedece a uma ordenação distinta em relação ao lugar da mulher que é incluída na correspondência. Como o título já antecipa, o volume organizado por Pablo Rocca visa apresentar a construção do projeto latino-americano de Ángel Rama, o qual se apresenta como uma construção compartilhada com os intelectuais do continente, em particular, com Antonio Candido, cujas formulações sobre o sistema literário e a autonomia da literatura brasileira serão incorporados pelo crítico uruguaio em sua visão-projeto para a América Latina. O propósito do livro passa, portanto, por dois pressupostos básicos, sendo um o da análise sobre o projeto latino-americano de Rama, e o outro o do ineditismo da correspondência entre os autores. O que justificaria então a inclusão da correspondência de Gilda de Mello e Souza no mesmo volume, nos perguntamos? No estudo introdutório que abre o livro como prólogo há uma única menção à autora[3], na qual se indica a inclusão da sua correspondência como apêndice, apontando-se como nela é possível perceber o zelo de Rama na organização dos volumes que integraram a Biblioteca Ayacucho (Rocca, 2018: 23-24). Ou seja, além de ausente no título do livro e de escanteada no miolo como apêndice da correspondência entre o seu marido e o seu editor, a incorporação da sua correspondência no volume visa exemplificar o trabalho editorial de Ángel Rama à frente da Ayacucho, e não o papel colaborativo e autoral de Gilda como uma das autoras que viabilizou a parte brasileira do projeto da biblioteca.

Ainda sobre a forma como constam os nomes de Berta Ribeiro e de Gilda de Mello e Souza nos livros mencionados, vale lembrar que no registro civil os sobrenomes da mulher em geral se apagam em função dos sobrenomes do marido adquiridos com o casamento, quando, na composição do nome, a mulher sai do seu círculo familiar (a perda dos sobrenomes de família) e ingressa na família do marido (incorporando o nome de casada). O fato de assumir a nova identidade de mulher casada (equivalente ao apagamento da identidade de mulher sem marido) é ainda mais significativo quando o esposo é do mesmo círculo intelectual e/ou compartilha uma formação comum, sendo ainda intelectual renomado na sua área. Quando isso ocorre, os sobrenomes adquiridos do marido com o casamento passam a operar como indicador, referência e, muitas vezes, lastro de que aquela mulher é a mulher de tal “personalidade” (Corrêa, 2003). Pode-se lembrar de Dina Lévi-Strauss, Edith Turner e Helen Pierson na geração que antecede a de Gilda de Mello e Souza e de Berta Ribeiro, todas as quais, a despeito das trajetórias díspares, têm em comum a vinculação que interna ou externamente, em menor ou maior grau, dificilmente as dissocia de seus maridos.

Em uma entrevista concedida em 1984, alguns anos depois da correspondência trocada com Ángel Rama (1976-1978), ao refletir sobre a sua formação intelectual na Faculdade de Filosofia de São Paulo, Gilda discorre sobre a condição da mulher naquele tempo e distingue três opções possíveis para aquelas que, como ela, ousavam ingressar em um mundo majoritariamente masculino como era a universidade de então. O ponto de partida comum a essas mulheres seria a tentativa de “inventar para si um novo destino”, o que, segundo a autora, se realizou de acordo com três esquemas básicos:

O primeiro, mais radical – teria arrebanhado as mais afirmativas e talvez mais corajosas –, foi apagar da memória o velho modelo feminino, que ainda vigorava nas famílias, substituindo-o pelo modelo masculino. Por outras palavras, consistiu em assumir integralmente a carreira intelectual, com todos os sacrifícios afetivos que isso implicava. O segundo, cauteloso, foi tentar um compromisso entre o novo e o velho, optando pela carreira, mas sem radicalismo, quer dizer, procurando preservar alguns traços do modelo convencional, como a realização afetiva e as obrigações familiares dela decorrentes. Era uma solução harmoniosa do ponto de vista humano, mas lenta e incompleta como realização profissional. E o terceiro, conservador, foi voltar à antiga dependência, mas convertendo o papel de prisioneira do lar em secretária dedicada: aquela que localiza as obras na estante, ficha os assuntos, ajuda em pequenas pesquisas, discute as ideias, passa os originais a máquina e se realiza modestamente, delegando à cabeça do casal as glórias finais (Mello e Souza apud Galvão, 2014: 53).

Gilda de Mello e Souza

Como intelectual que se realizou plenamente, em um arco profissional que vai da fundação da revista Clima ao lado de Antonio Candido, Ruy Coelho, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes e Lourival Machado, passa pela cadeira de Sociologia 1 como assistente de Roger Bastide, se define pela tese de doutorado A moda no século XIX: ensaio de sociologia estética[4], e culmina na fundação da disciplina de Estética da Faculdade de Filosofia, Gilda pertenceria ao primeiro esquema. Inclusive, como afirma na mesma entrevista, preferiu se realizar como homem, recusando o destino da mulher em seu tempo, que era o de ser esposa e mãe de família.

Já Berta se enquadraria durante a maior parte da sua vida no terceiro esquema, formando-se como etnógrafa nas viagens de campo ao lado de Darcy, e reunindo as qualidades que caracterizariam a secretária dedicada que foi até o fim da vida, mesmo após a separação. No entanto, é possível dizer que com a separação de Darcy, quando Berta contava 50 anos de idade, soube refazer uma trajetória até ali tecida à sombra do seu companheiro. Empregada como editora na Paz e Terra, realizando o seu doutorado em Antropologia na USP, vinculada ao Museu Nacional como bolsista de pesquisa e dando os primeiros passos na consolidação de uma carreira independente como antropóloga indígena, fato marcado pela publicação de Antes o mundo não existia: mitologia dos antigos Desana-Kehíripõrã, Berta refaz a costura de uma vida até ali entrelaçada à trajetória intelectual e política de seu ex-marido. Progressivamente migra do campo editorial para a Antropologia, onde se consagraria no estudo dos indígenas brasileiros.

Berta no Parque do Xingu, década 1980. Disponível aqui.

Na metade da década de 1970, período no qual coincidem as correspondências trocadas por Ángel Rama com Berta Ribeiro (1969 a 1983) e Gilda de Mello e Souza (1976 a 1978) dado o momento inicial de materialização do projeto da Biblioteca Ayacucho, as duas autoras se encontram em fases diferentes de suas trajetórias profissionais. Berta, conforme dito, está recomeçando a sua vida, e embora carregasse a bagagem dos anos sedimentados até ali ao lado de Darcy, está de certa forma dando os primeiros passos como pesquisadora independente na direção da construção do seu nome e do seu lugar. Em muitos trechos da correspondência se nota o afã desse recomeço, expresso no trabalho incansável com as demandas da editora, com a pesquisa para o doutorado e outros muitos projetos de antropologia indígena, além da permanência do papel de secretária e administradora de seu ex-marido, função que exerce com prazer pois foi, até o fim da sua vida, apaixonada por Darcy. Diz ela em carta de 9 de outubro de 1976:

Cheguei à perfeição de trabalhar, nas últimas semanas, até dezenove horas por dia, para entregar meu relatório ao conselho de pesquisas. Não é possível dormir tantas horas, nem comer, nem fazer amor por tanto tempo, não é mesmo? Trabalhar, sim, é possível (Ribeiro apud Coelho & Rocca, 2015: 140).

Apesar da fragilidade que caracteriza os começos, é possível perceber o quanto a atividade de Berta nesse momento revela um fazer maduro, compromissado e denso, embora, como argumentarei, muito pouco seguro de si. Em comparação, nesse mesmo período Gilda está se aposentando, tendo exercido durante duas décadas a docência na disciplina de Estética que fundara no Departamento de Filosofia da USP, tendo dirigido o departamento que integrava, e tendo fundado a revista Discurso, que se tornaria referência nos estudos de Filosofia no Brasil (Miceli & Mattos, 2007). Longe de encerrar a sua atuação, segue trabalhando também incansavelmente, como bem demonstram a sua correspondência e a de Antonio Candido com Ángel Rama. Como Antonio Candido esteve envolvido na concepção da seção brasileira da Biblioteca, e participou simultaneamente como autor prologuista no volume dedicado a Manuel Antônio de Almeida, nas suas cartas com Rama é muito presente o seu papel de organizador e de ponte com os brasileiros. Como Rama bem define, ele era “our man in São Paulo”. Por conta disso e por ser marido de Gilda, que integra a Biblioteca também como autora prologuista, volta e meia Antonio Candido dá notícias sobre o andamento do trabalho de Gilda, ou sobre pormenores de contrato e entregas que acompanha na esfera doméstica. Quando, em março de 1977, Rama cobra novamente o estudo introdutório de Gilda para o volume de Mário de Andrade, Antonio Candido fornece o seguinte frame:

5. Gilda está trabalhando como uma insensata na introdução a Mário… Há meses, faz e refaz, tem taquicardias, perde o sono, toma tranquilizantes, entre o ardor e o desespero – como sempre acontece quando se empenha numa tarefa. O desgaste é enorme, mas o resultado é sempre de primeira ordem. Creio que está chegando a conclusões revolucionárias sobre a estrutura e a gênese de Macunaíma, em correlação com o conjunto da obra de Mário e as suas concepções estéticas, folclóricas etc. (Candido apud Rocca, 2018: 138).

Um ano depois, em março de 1978, é a vez da autora dar notícias a Rama sobre a evolução do trabalho contratado:

Gostaria agora de dar a você uma satisfação sobre o meu atraso. De fato, no final do ano passado ali pela altura de dezembro, havia terminado a tarefa no tocante à introdução. Passei 15 dias sozinha no Rio, trabalhando muito, o esforço rendeu, consegui chegar ao fim. Mandei tudo para Antonio Candido em São Paulo e fiquei esperando o resultado, com o coração na mão. No dia seguinte ele telefonou, estava ótimo etc. etc., mas… talvez aqui e ali precisasse ainda um pequeno reparo. Esfriei. Estou acostumada a esses pequenos reparos dele que me lançam em geral num parafuso vertiginoso de angústia e sentimento de fracasso. Acho que não preciso lhe contar o que passei nesses dois meses, sobretudo a paralização que sofri; do dia para a noite emburrei, eram três ou quatro páginas que tinha de refazer ou mudar de lugar, não conseguia resolver mais nenhum problema. Bem, deixemos isso para lá, agora acabei. Está bom? Está ruim? Está adequado à edição e ao que você queria? Já não sei mais nada, meu caro Rama; só posso lhe garantir que fiz o trabalho com a dedicação de quem gostaria de ter feito a melhor coisa de que é capaz (Mello e Souza apud Rocca, 2018: 210-211).

Se por um lado o ardor e o desespero revelam um nível de excelência e cobrança que Gilda tinha consigo mesma em seu trabalho intelectual, é muito expressivo o afundamento resultante dos comentários feitos por Antonio Candido após a leitura da versão final do ensaio sobre Mário de Andrade. O mas desencadeia um efeito avassalador sobre a sua autoconfiança, revelando uma personalidade insegura diante da leitura feita pelo outro. Se a insegurança é apenas em relação às leituras feitas pelo seu marido, afinal, reconhecido como o grande crítico literário paulista, ou se é um sentimento mais generalizado, não sabemos dizer. O que se extrai disso, porém, é uma certa condição feminina que a insegurança revela, pois não é sintoma isolado da personalidade de Gilda, e de uma forma mais geral pode ser atribuído à difícil realização da mulher em uma sociedade profundamente masculina. A insegurança que pode ser confidenciada nos relatos mais pessoais ou íntimos dessas mulheres contrasta com a qualidade de seus textos críticos, que passam longe de qualquer estigmatização acerca de uma autoria intelectual frágil ou fraca.

O mesmo traço de insegurança transparece na correspondência muito mais íntima de Rama com Berta, onde a conversa de editores se mistura à conversa de amigos próximos, dando margem a externalização de sentimentos e questões que conferem um tom bastante pessoal às missivas. Acompanhando o processo de recomeço que faz Berta em sua vida pessoal, e também acompanhando com interesse sincero a evolução das suas pesquisas etnográficas, Rama reconhece no livro Antes o mundo não existia uma revelação. Segundo ele, ao conceder aos dois indígenas Desana a autoria do livro, assumindo o papel de colaboradora na tradução e edição do relato sobre a cosmologia e a cultura, o livro revela o estrato interior mais profundo das literaturas latino-americanas e expressa o movimento transculturador que as caracterizam. É também como revelação que Rama recebe o ensaio de Gilda para o volume de Mário de Andrade (Cf. Rama apud Rocca, 2018: 150).

Diante do traço compartilhado de insegurança em Gilda e em Berta (aliás, também Rama um homem inseguro em sua condição de exilado), duas respostas de acordo com o grau de intimidade que tinha com as intelectuais:

O prólogo é esplêndido, sutil e original na pesquisa, equilibrado e destro na indagação e admiravelmente bem escrito. Uma joia. Havia me preocupado por se dedicar basicamente a Macunaíma, mas se justifica (Rama apud Rocca, 2018: 214).

Mas o tempo é um gentilhombre e ajuda a acalmar os sofrimentos. Mais até que o trabalho, minha querida Berta, porque tampouco é uma questão de ir perdendo a cor, mas de conceder à própria vida aquilo que ela merece e reclama, sua dignidade, sua importância, seu valor. O dia em que eu vir você escrevendo seus livros com coragem e decisão, saberei que o tempo fez o seu trabalho e você vai poder olhar com outros olhos para o passado. Para isso, é preciso aprender a se amar, mais do que o que você faz consigo mesma, saber qual é o valor que se tem e reconhecer esse valor na afeição dos amigos e na admiração daqueles que nos rodeiam. Não é fácil. Entretanto, esse é o caminho (Rama apud Coelho & Rocca, 2015: 146).

Não se trata de dar a Rama a palavra final, mas talvez de sugerir pela correspondência posta em paralelo como duas mulheres intelectuais do porte de Gilda de Mello e Souza e Berta Ribeiro permitem a combinação desigual entre apagamento e assunção[5], seja em suas próprias intimidades, seja na bibliografia que as condiciona a lugares secundários. E também, encerrando o texto com as respostas de Rama, de perceber como a questão da identidade se constrói de forma situacional e contrastiva e encerra tanto luta quanto estratégia de diferenças, para usar as palavras de Manuela Carneiro da Cunha ao ser citada por Mariza Corrêa (2003). Se a insegurança pode ser relacionada à condição desigual de ser mulher em um mundo de homens, o que mais ela nos diz sociologicamente? Os lugares anexos onde não raro são colocadas as mulheres nos faz indagar sobre o desigual valor atribuído ao seu pensamento, ao seu trabalho, à sua inserção no cânone. Nas desigualdades, o quanto de estratégia de diferença terá sido apagada?


Notas

[1] Sobre como a mulher com frequência é subsumida à categoria do casal, conferir Corrêa (2003).

[2] O volume é dividido em três partes: a primeira dedicada aos ensaios dos organizadores sobre a correspondência reunida, a segunda composta pela correspondência de Ángel Rama e Darcy Ribeiro (1964 a 1981), e a terceira composta pela correspondência de Ángel Rama e Berta Ribeiro (1969 a 1983).

[3] Há uma segunda e também única menção a Gilda no texto curto dos Critérios da Edição, onde Rocca menciona que a correspondência entre Gilda e Rama foi enviada por Antonio Candido a ele para que integrasse o arquivo pessoal de Ángel Rama, organizado por sua filha, Amparo Rama (Rocca, 2018: 42). O que se sugere é que a iniciativa de incluir a correspondência de Gilda com Rama como parte também importante do acervo do crítico uruguaio foi de Antonio Candido. Os usos posteriores dessa correspondência, á claro, não lhe cabem.

[4] A tese seria publicada em livro anos mais tarde como O espírito das roupas: a moda no século XIX.

[5] Apenas a título de esclarecimento, refiro-me ao ato de assumir, e não à elevação católica de Maria aos céus.

Referências

CALLADO, Ana Arruda. (2016). Berta Ribeiro: aos índios, com amor: uma biografia. Rio de Janeiro: Batel.

COELHO, Haydée Ribeiro & ROCCA, Pablo (Orgs.). (2015). Diálogos latino-americanos: correspondência entre Ángel Rama, Berta e Darcy Ribeiro. São Paulo: Global.

CORRÊA, Mariza. (2003). Antropólogas e antropologia. Belo Horizonte: Ed. UFMG.

FUNDAÇÃO DARCY RIBEIRO. (2009). Fazimentos, caderno 7. Rio de Janeiro, abril de 2009.

GALVÃO, Walnice Nogueira. (Org.). (2014). A palavra afiada: Gilda de Mello e Souza. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul.

GOLDENBERG, Mirian. (2021). Berta Gleizer Ribeiro: muito mais do que ‘a mulher de Darcy Ribeiro’. In: BOMENY, Helena et al. Darcy Ribeiro em Maricá: a utopia á aqui. Maricá, Rio de Janeiro: Casa Darcy Ribeiro, Acasa Gringo Cardia.

MICELI, Sérgio & MATTOS, Franklin de (Orgs.). (2017). Gilda: a paixão pela forma. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul.

ROCCA, Pablo (Org.). (2018). Conversa cortada: a correspondência entre Antonio Candido e Ángel Rama, o esboço de um projeto latino-americano (1960-1983). Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul.

A imagem que abre o post é da artista plástica Lena Bergstein.