Ocupação BVPS Mulheres 2024

A BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres. Organizada pela editora Caroline Tresoldi, doutoranda em Sociologia no PPGSA/IFCS/UFRJ, neste ano de 2024 serão publicados cerca de 35 textos.

São narrativas distintas: ensaios, relatos, cartas, conto, entrevista, resenha. Não por acaso a primeira delas é da artista plástica Lena Bergstein, cujos trabalhos usaremos também como capa dos posts. Convidamos Lena para abrir a Ocupação BVPS Mulheres 2024 porque, em meio a tantos problemas e desafios relativos às questões de gênero e feminilidades, nenhum outro é mais urgente do que a questão das mulheres e meninas palestinas que estão sendo exterminadas em Gaza. São dezenas de milhares de civis mortos, segundo o Conselho de Direitos Humanos da ONU, entre eles mulheres e crianças. São dezenas de milhares de crianças órfãs. O massacre promovido pelo Estado de Israel no território palestino fere todas as convenções internacionais e a ética humanista, que parecem perdidas nos escombros de Gaza. É uma tragédia e uma vergonha para todos nós contemporâneos e para a humanidade. Por esse motivo, embora envolvam temas, reflexões e dados das mais diferentes ordens, a Ocupação Mulheres BVPS deste ano é dedicada, com dor pungente, às mulheres e meninas já mortas e às ainda sobreviventes em Gaza. 

A partir de amanhã, terça-feira, serão cerca de 4 posts diários, sendo a agenda apresentada no primeiro deles pela manhã, às 8h. À Lena Bergstein, Alcida Rita Ramos, Alejandra Josiowicz (e Gabrielle de Oliveira Sá e Milene Santos Couto), Alice de O. Ewbank, Ana Clara Matias Rocha (e Verônica Toste Daflon e Flávio Carvalhaes), Ana Paula Mendes de Miranda (e Andreia Soares Pinto), Andréa Borges Leão (e Mariana Mont’Alverne Barreto Lima), Barbara Goulart, Beatriz Bracher, Bila Sorj, Celi Scalon (e Sávio Nunes), Céli Pinto, Clara Araújo (e Isadora Sento-Sé), Coletivo Bordazul (e Gianinna Bernardes), Deisy de Freitas Lima Ventura (e Rossana Rocha Reis, Bianca de Figueiredo Melo Villas Bôas, Juliana Fonseca Pontes e Cristiane Ribeiro Pereira), Elina Pessanha, Felícia Picanço, Giulia Benincasa, Helena Sampaio, Heloísa Teixeira, Iracema A. de Alencar, Jane Felipe Beltrão, Joana Ribeiro, Julia S. Abdalla, Laura Cabezas, Lia Zanotta Machado, Lilia Moritz Schwarcz, Marcella Araujo, Maria Cristina Paulo Rodrigues, Mariana Chaguri (e Bárbara Luisa Pires), Marília Librandi, Myriam Ávila, Nina Queiroz Kertzman, Patrícia da Silva Santos, Rita Lages Rodrigues e Walquiria Domingues Leão Rego o nosso muito obrigada pelos textos e interlocução para a montagem da Ocupação BVPS Mulheres 2024.

Acompanhe nossas postagens ao longo desta semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. A Ocupação mobiliza a BVPS como um todo, e também estará presente nas colunas Desassossegos, de Alcida Rita Ramos, Primeiros Escritos e Minasmundo.


Impressões de Lena Bergstein sobre arquivos da UNRWA

Fathma

Por Lena Bergstein*

Meu nome é Fathma.

Eu já tive outro nome, mas a situação era tão inumana que resolvi mudar para Fathma. Me senti mais à vontade, esse nome me vestiu melhor, deixei o outro no cabide da entrada de casa, e de repente percebi que o havia esquecido.

Eu seria Fathma. Dei-me conta que não são apenas nossos pais ou familiares que nos fornecem os traços que constituem o que chamamos de herança. Nossos pertencimentos. O que nos constitui vai muito além da história familiar. Terá relação com uma música, um suspiro, uma poesia, uma imagem fugidia, uma história de violência não reconhecida, um trauma não vivido diretamente, uma grande indignação ou uma pequena indignação.

Percebi que vivia para as grandes indignações. Comecei por me perguntar como os beduínos: de onde vens, para onde vais, quem és? E a resposta tem a ver com um itinerário pessoal, interior, que permite a cada um situar seu percurso individual.

Quando deixei Aleppo via acima de minha cabeça uma noite estrelada, a visão de uma abóboda azulada, antigos mapas marinhos, um imaginário antigo feito de jornadas e de travessias plenas de aventuras.

Mas de repente tudo mudou: só via escombros, prédios arrasados, crianças mutiladas, mortos embrulhados em mortalhas brancas.

Se antes eu, quando tinha outro nome, escrevia: pessoas sem teto, prédios pela metade, paredes detonadas, crianças sem um lugar para dormir, passando as noites na praia, detritos da cidade sem um lugar para serem descartados, pescadores sem um lugar para pescar, doentes sem um lugar para serem acolhidos, um só hospital, uma só ambulância, uma só pessoa para retirar e tratar os jovens feridos por bombas. Feridos, doloridos, amputados, sem perna, sem braço. Assim é Gaza. Será que o mundo olha para Gaza? Vê Gaza?

Meu Deus, escrevi isso antes de qualquer novo acontecimento.

E agora Fathma, me perguntei, você ainda tem um coração? Ou um pedaço dele? Rasgaram ele do meu peito. Arrancaram-no de mim. Parece que a única pessoa que me entende, ou que as palavras eu entendo, é Gideon. Agora nesses dias, não sabia mais o que escrever, mais do que já tinha escrito, maior horror ainda, e estupefata comecei a ler as palavras de Gideon:

 “Todas essas crianças, as mortas, as morrendo, as sangrando, gemendo, feridas, incapacitadas, os órfãos, os aterrorizados, os sem casa e sem um tostão, eles têm irmãos e amigos crescendo com eles. Eles são a próxima geração, essas crianças nunca nunca esquecerão”.

“Ninguém pensa sobre o trauma cuja sombra as crianças de Gaza crescerão, sobre o inconcebível sofrimento das dez mil crianças que estão agora andando, desamparadas, perdidas, vagando sem rumo pelas ruas em ruínas. Elas não têm uma proteção antibomba, nem um centro de resiliência, nenhuma ajuda psicológica, nem apenas uma simples casa”.

Agora é o tempo do vento amarelo, da areia soprada pelo vento, o tempo dos caminhões de água na parte norte do Vale do Jordão, caminhões-tanque de água e tratores de água que precisam esperar horas e mais horas até que um soldado venha com uma chave para abrir os portões e deixar os caminhões entrarem. Soldados da Força de Defesa de Israel, IDF, eram supostos de virem horas antes dos caminhões para abrirem os portões de ferro das estradas. Mas os soldados não vieram, nem estão vindo, nem quando são chamados, nem respondendo ao telefone. Nessa região montanhosa, árida, seca, Israel não deixa os residentes palestinos conseguirem uma simples gota de água da rede de abastecimento de água. Os palestinos e suas ovelhas dependem exclusivamente dessa água caríssima transportada nos caminhões-tanque, nos tratores, e também dos motoristas dos caminhões e tratores, e todos completamente dependentes de um soldado e de uma chave.

Que não aparece.

A guerra em Gaza está trazendo outra guerra para os moradores da Cisjordânia, fazendo a vida muito difícil para os palestinos do West Bank. Além dos checkpoints, das estradas fechadas, da falta de água, as plantações de olivas, as oliveiras, estão sendo consideradas uma plantação fora dos limites liberados para os agricultores palestinos. Antes esses agricultores tinham a possibilidade da colheita por uma coordenação combinada com os soldados israelenses.

Mas agora a época da colheita acabou e um terço da plantação continuava nas árvores, impedindo os palestinos do elemento central do seu ganha-pão.  

Akram e Mohammed, dois agricultores palestinos, pela primeira vez, estão impedidos de chegarem até suas oliveiras, mesmo por um dia, mesmo por uma hora, por qualquer curto espaço de tempo para colherem as frutas pelas quais esperaram um ano. Lançam um olhar desesperado para a vista tanto triste como maravilhosa. Se estendessem a mão, teriam a impressão de poderem tocar na copa das árvores, quem sabe até pegarem algumas azeitonas. Mas não conseguem chegar até elas, não conseguem tocá-las nem colhê-las, pois o assentamento dos colonos de Ytzar junto com as forças israelenses transbordam maldade, produzem um inferno do alto do cume das montanhas.

Assim é a vida dos palestinos na Cisjordânia de hoje, assim como cantam Yehuda e Yaakov: “Poderia ser melhor/poderia ser um desastre/um desespero na noite/ uma esperança no boa noite/ quem é o próximo da linha e quem é que está na próxima linha?”

São 35 quilômetros de Jenin até Tul Karm, mas se levam 3 horas e meia para fazer o percurso. Na Cisjordânia, uma pessoa não consegue viajar entre duas cidades próximas. Desde que a guerra de Gaza começou, em cada estrada palestina na Cisjordânia existe um portão trancado, uma porta fechada.

O IDF mudou sua conduta nos territórios ocupados de um modo constrangedor: querem Gaza na Cisjordânia. Nos assentamentos israelenses, os colonos também desejam Gaza na Cisjordânia, assim poderão expulsar todos os palestinos que conseguirem, sempre apoiados pelo exército. Israel deseja uma nova Intifada. Quem sabe até consiga uma. Não poderá somente fingir surpresa quando acontecer.


[*] Lena Bergstein é artista, escritora e professora de arte. Sempre trabalhou na relação da arte e da escrita, tanto na gravura e na pintura quanto nas fotografias e nos livros de artista. Há muito se debruça sobre os escritos do filósofo francês Jacques Derrida, fazendo leituras poéticas e plásticas de seu pensamento. Em 1998, editou um livro criado em parceria com Derrida, Enlouquecer o Subjétil, livro vencedor do prêmio Jabuti em 1999. Foi convidada, em São Paulo, para ministrar cursos sobre a arte e a escrita no Departamento de Arte da Unicamp e no Centro Universitário Maria Antonia, na USP. Apresentou em março de 2018, no Museu Nacional de Belas Artes (RJ), a exposição Ficções. Em abril de 2018 foi convidada para fazer parte de uma exposição de 10 artistas contemporâneos na abertura do Instituto Casa Roberto Marinho (RJ). Desde a pandemia, começou a criar um livro de texto e imagens, Um diário em aberto, que é um livro que conta a história da Palestina, dos palestinos e dos israelenses. Superpõe a seus textos a poesia de poetas e escritores palestinos e historiadores israelenses numa visão humana e filosófica do assunto. As imagens aqui presentes pertencem ao livro Um diário em Aberto.