Ocupação BVPS Mulheres 2024 | Sofrimento social, pobreza extrema e política democrática, por Walquiria Domingues Leão Rego

Em nova atualização, publicamos texto de Walquiria Domingues Leão Rego (Unicamp) sobre sofrimento social, pobreza e os dilemas da democracia. O texto baseia-se nas pesquisas realizadas pela autora nos últimos anos e apresentadas nos livros Vozes do Bolsa Família (2014) e Vidas Roubadas (no prelo), ambos escritos em parceria com Alessandro Pinzani.

Na semana do 8M, a BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres, reunindo ensaios, relatos, cartas, conto, entrevista e resenhas que abordam temas, reflexões e dados das mais diferentes ordens sobre mulheres.

Para saber mais sobre a Ocupação BVPS Mulheres 2024, dedicada às mulheres e meninas palestinas, clique aqui.

Boa leitura!


Sofrimento social, pobreza extrema e política democrática

Por Walquiria Domingues Leão Rego (Unicamp)

Na Semana da Mulher, é desnecessário dizer que não basta saudar suas histórias de lutas e grandes conquistas sociais e cívicas, algumas delas de grande potência transformadora da sociedade, como o direito de voto. Apesar desta conquista ser mais ou menos recente, sua fruição foi e é plena de ambiguidades e contradições. Falava-se na época que semelhante conquista fundaria uma nova era para as mulheres, marcada então pela experiência de viver um “tempo de liberdade e de autonomia”. Um novo sujeito nascia ali, revestido agora da qualidade de sujeito de direito, que configura a nascença do cidadão, ou seja, um ser que se constitui atestando e ao mesmo tempo contestando o mundo que o exprime e que ele exprime. São essas as promessas que a modernidade capitalista desenhava e projetava no horizonte como pontos alcançáveis pela luta social.

A elaboração da cidadania como cultura e referente decisivo da vida em sociedade gera, paradoxalmente, inclusões e exclusões associadas às condições que presidem a permanência dos mecanismos de exclusão/inclusão simultaneamente. Entretanto, no decorrer do tempo essa contradição tornou-se terreno decisivo para colocar novamente em questão estes mesmos mecanismos. É importante lembrar que semelhantes mecanismos tornaram-se cada vez mais duros e difíceis de se conciliarem com a dimensão universalista e aberta pela própria cultura da cidadania. Um dos seus pontos-chave se refere à qualidade da vida dos sujeitos. A começar pelo direito à vida, ou melhor, o direito à vida boa.

 Vozes do Sofrimento

A necessidade de dar voz ao sofrimento é condição de toda verdade – Theodor Adorno

 

Como ponto de partida de uma reflexão mais ampla e mais profunda sobre a temática posta anteriormente, é necessário considerar uma questão crucial, pois dela deriva outros importantes problemas para as mulheres que vivem em estado de extrema pobreza. No caso brasileiro, é bom ressaltar a magnitude do fenômeno. Trata-se de milhões de mulheres que vivem em situação de extrema pobreza. Antes de tudo, é preciso recordar que a pobreza invade totalmente suas vidas, toma todo o seu ser – ou seja, suas emoções mais profundas e suas relações sociais, tanto privadas como públicas. Seu sofrer é imenso. Influencia imensamente seu modo de sentir o mundo, sua percepção da política e da vida em geral. Muito já se debateu sobre o chamado círculo vicioso da pobreza, mas, no Brasil contemporâneo, apesar de tantas mudanças sociais e de tantas melhorias nas vidas dos pobres em geral, permanece forte a resiliência dos aspectos duros e cruéis de suas vidas, sua precariedade, e, consequentemente, sua enorme vulnerabilidade. Nem precisaria ser dito, mas lembremos que a pandemia da Covid-19 colocou a nu a magnitude e a profundidade das suas fraquezas e debilidades. Foram os pobres e, mais ainda os vitimados pela pobreza extrema, que adoeceram mais do que outros membros da sociedade; são eles que moram mal, comem mal e morreram em quantidade muito maior do que os de grupos sociais de renda e classes mais altas. Em geral, em tempos mais normais – que, é bom que se relembre, sempre foram tempos de carecimentos e insuficiências seculares –, são eles/elas os que têm mais medo da vida, mais incertezas nas suas expectativas vitais. Por tudo isto, são muito mais temerosos do futuro, em especial pelo destino dos seus filhos. Muitas vezes o futuro lhes é suprimido, restando-lhes como forma de vida a repetição da vivência da exiguidade e da dor permanente das múltiplas carências a que são submetidos. Os carecimentos pesam sobre seus ombros dia após dia. Como certa vez me disse uma senhora no sertão de Alagoas, mãe de uma das nossas entrevistadas, que se chegou e se sentou ao lado da filha, e, de repente, lançou ao ar e ao vento uma cortante observação:

Nossa vida, senhora, é carregar pesados sacos de duras pedras nas costas, daqueles que quase quebra a espinha da gente, se não quebra de vez nossa cacunda, deve ser porque somos casca dura. Lembram sempre a dureza da vida, pois o espinhaço dói dia e noite. Tá ali, às vezes, queimando como fogo, essa queimação deve ser pra gente não se esquecer de nosso destino e assim cumprir ele como Deus quer (Povoado da Cruz, Sertão de Alagoas, 2017).

 Muitos autores e muitos romancistas registraram em chaves interpretativas diferentes esta persistente realidade brasileira, isto é, a assombrosa estrutura social que possui mecanismos potentes de concentrar níveis altíssimos de renda e riqueza, e, simultaneamente, lançar na pobreza extrema milhões de nossos concidadãos. Ao lado disto, é importante anotar como se ouve e se vê que a pobreza, no nível discursivo das mulheres pobres, ainda é percebida, falada e adotada pelas próprias vítimas como destino, como natureza. Algo não pensado, inexplicável, irrefletido. De modo geral, semelhante naturalização conforma-se como estilo de vida, atravessado, via de regra, por sistemas de crenças religiosas que se transmudam em maneiras de falar e de agir, tornando-se sentimentos. As religiões mercantis reforçaram muito isto. Parafraseando Pierre Bourdieu, trata-se da vivência dura e crua de processos e relações sociais de dominação responsáveis “(…) pela transformação da história em natureza, do arbitrário cultural (e social) em natural”.

As entrevistadas de nossas pesquisas normalmente se assustam quando são perguntadas sobre suas percepções da miséria vivida como destino. Elas reagem como se fosse um ponto muito estranho da conversa. Olham com perplexidade para o horizonte, dando a impressão de que se sentem quase invadidas em sua subjetividade. Frequentemente surge frases como: “Ah! Não sei, nunca pensei nisto, sempre foi assim!”. A opressão que lhes subjuga em todos os níveis da vida plasma subjetividades oprimidas, tecedoras de formas de consciência que, em princípio, lhes impede ou ao menos obscurece a reflexão sobre si mesmas. A sina vivida se apresenta como desígnio incontornável, sobretudo se ancorado na sempre disponível e operante justificação religiosa. Foi Deus que escolheu assim. O mundo, tal como é, está determinado para todo o sempre. Não há nele espaço para escolhas de uma vida diversa da que se vive. Os fatos da vida social são apresentados como mundos e tempos plenos de ordenamentos e prescrições que se impõem aos sujeitos como mundos e relações externas a qualquer possibilidade de controle volitivo destes sujeitos. No discurso, a voz exposta revela a ambiguidade, inclusive de sentimentos. A voz se torna uma disposição ampla de sentidos, pois seus timbres mudam muito, variam da resignação a certa indignação, como se percebe na voz de algumas delas. Deve-se prestar atenção aos timbres. De modo geral, são reveladores de tensões e de emoções. Contudo, não ocultam nos timbres diversos a manifestação das dores profundas causadas muitas vezes pela presença de sentimento de impotência que invadem seus corpos e almas. “Que posso fazer? O mundo é assim mesmo”. As entrevistadas sentem de alguma maneira que não são donas de seus corpos e de suas almas. Não ousam dizer como Virginia Woolf: “Sou dona da minha alma”. Não podem, parafraseando Clarice Lispector, “… analisar instante por instante, perceber o núcleo de cada coisa feita de tempo ou espaço”.

O sofrer expressado

Nas circunstâncias de pesquisa, a potência expressiva do sofrimento aparece nas expressões faciais, no movimento dos olhos, nos olhares perdidos, sinais estes que às vezes revelam mais os sentimentos de sofrência do que a variedade tonal de suas vozes. Nos movimentos dos corpos são ouvidos suspiros, olhos que se reviram na tentativa de conter as lágrimas que teimam em brotar. Neles, mal conseguem se livrar das ondas de lembranças penosas e da memória triste legada por avós, pela própria mãe, pelas madrinhas que testemunharam ou viveram sofrimentos semelhantes. As vozes passadas e presentes foram ouvidas e sentidas, compreendidas ou não, mas estão lá, compondo-se prosseguindo a tecelagem das subjetividades das filhas, das netas, das afilhadas e, ainda, mais uma vez, enquanto subjetividades oprimidas. Estas são, claro, muito diversas e possuem, como lembrava Jean-Paul Sartre, “sua opacidade própria”.

Perguntada sobre o que pensava sobre a desigualdade entre pobres e ricos, Fatima se expressa assim:

Às vezes, eu fico falando isso na roça, eu me revolto por lá e fico falando isso, sozinha na roça. Outras horas, eu fico pensando: sabe quem tem que nascer rico, já nasce em berço de ouro, já vem dos avós, o avô é rico, aí o pai vai ser rico, aí o neto vai ser rico, os bisnetos também. (Dona Fatima, Serra do Catolé. Sertão do Cariri. Ceará, 2017).

São palavras que expressam o sentido ambíguo, partido, mas revelador de alguma inquietação de espírito. Subjetividade oprimida nunca pode ser entendida como indiferença ao mundo que se vive. Significa, em parte importante de sua estrutura, presença majoritária de sentimento de tristeza e, sobretudo, de impotência. As palavras de Dona Fatima e de Dona Neide expressam essas ambivalências. Ou seja, denotam percepção e, ao mesmo tempo, não percepção. A simultaneidade dos movimentos reflete instantes de iluminação e não mais do que isto.

Dona Neide, 51 anos, moradora no paupérrimo bairro Frei Damião, na periferia da cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, forneceu-nos uma longa resposta, da qual segue apenas um pequeno trecho:

F – Pois é, né. Nem eu sei explicar também, né. Uns com tanto e outro sem nada, né. Eu não sei. Eu não sei explicar.

E – Mas, não acha justo?.

F – Muitos é porque trabalhou, já veio de berço, começou pelas coisas e a gente, meu Deus do céu, começou coisa fraquinha mesmo, já é de família, uns já tem, já tem, porque já vem de família e a gente é porque já nasceu pobre mesmo e assim vai. Mas se Deus quiser, muda a vida da pessoa também, né. A pessoa trabalha, consegue o que quer, porque o que vale é a boa vontade de uma pessoa, se ela trabalhar e dizer: eu vou conseguir, eu vou comprar essa televisão, com o meu suor, eu vou trabalhar e vou comprar. Vai, Deus ajuda que o Senhor consegue. E tem gente que só consegue as coisas com trabalho. Muita gente que consegue as coisas fácil demais também, é coisa toda que vai, é roubo, é droga, essas coisas. Quando vê uma pessoa enricar do dia para a noite, não tem nada e ai vai crescendo, crescendo, muitas vezes é presepada que faz, é vendendo droga, é roubando, matando gente pra roubar.

Para a reflexão proposta, não é demasiado dizer que se trata de imperativo moral, ético e político a remoção do sofrimento social evitável, pois este alcança o coração da democracia como forma de convívio cívico. É possível reiterar que sem a remoção do mundo de carecimentos básicos e da sofrência que isto produz nos sujeitos, a democracia política torna-se muito débil, pois esvaziada de sujeitos afeitos a práticas reflexivas fundamentais no exercício da soberania popular. Assim sendo, pode-se efetivar entre nós a chamada “democracia sem povo”. Isso significa a inevitável transformação do sistema político que passa a ser regido por verdadeiras oligarquias eleitorais. Por isto mesmo, solo fértil para a geração de indivíduos apáticos e indiferentes ao destino dos seus semelhantes. Situação social que, pela sua generalidade, esteriliza o terreno produtor de sentimentos democráticos.

O tamanho da miserabilidade vigente no Brasil foi e permanece sendo uma força ceifadora de potências humanas, e tudo isto está submetido a grande invisibilidade social. São estas mulheres nossos “Los olvidados”, para lembrar do título do filme de Luís Buñuel. A invisibilização produz a mudez social das vítimas. Suas vozes não são ouvidas e, portanto, a sua invisibilização social as destitui de voz pública. A ausência deste elemento produz outra violação: o direito de aparecer. Sabe-se, desde os gregos, que o aparecimento público dos sujeitos é o momento crucial da política democrática. Sem voz pública e sem visibilidade, sua exclusão do corpo político da nação consolida sua vulnerabilidade social e, mais ainda, consolida a “democracia sem povo”. A extrema fragilidade dos muitos pode significar sua exposição a todas as formas de poder manipulatório. A sedução retórica muito facilmente os conquista, em especial, aquele discurso dissolvente dos princípios democráticos. Nos dias correntes, certas religiões e certos pastores usam despudoradamente a religião como instrumento político. Seu poder persuasivo irrompe como um raio fulminante de qualquer verdade da vida. Nas últimas entrevistas que fizemos no sertão do Cariri (CE), em 2019, muitas mulheres adquiriram visões e práticas sociais reforçadoras da obscuridade das consciências sobre si mesmas. Falando sobre o Bolsa Família, uma delas que entrevistávamos pela quarta vez chegou a dizer: “Deus dá para quem merece”. A ideologia do mérito e sua tirania chegou no mundo dos pobres desta maneira, ocultando-se grosseiramente a política pública do programa Bolsa Família.

A imagem que abre o post é da artista plástica Lena Bergstein.