Coluna Primeiros Escritos | O abatedouro do Naturalismo, por Onildo Correa

Um movimento literário deveria se confundir com as obras selecionadas por seu cânone? Onde ele começa e onde termina? Essas são as perguntas que guiam o texto publicado hoje na Coluna Primeiros Escritos, assinado por Onildo Correa, que recentemente defendeu sua dissertação em Sociologia pela UFRJ, intitulada Negros no Romance Naturalista: Comparações Literárias e Problemas Sociológicos.

Neste texto, o autor discute, a partir da proposta de uma leitura distante, o problema das historiografias literárias convencionais do Naturalismo brasileiro, fazendo coro à provocação de Franco Moretti de que a história da literatura pode ser, ela mesma, um “abatedouro da literatura”. O trabalho conta ainda com uma cronologia do Naturalismo no Brasil que evidencia o conjunto de obras esquecidas fora do cânone.

Aproveitamos para lembrar que a Coluna Primeiros Escritos se volta para a publicação de textos de estudantes de pós-graduação. Para conhecer mais sobre a iniciativa, clique aqui.

Boa leitura!


O abatedouro do Naturalismo

Por Onildo Correa (PPGSA/UFRJ)

A história da literatura é feita de múltiplos ciclos: períodos em que certos conjuntos de técnicas, tendências e discursos predominam no fazer literário, até gradualmente se tornarem “ultrapassados” e serem substituídos por novidades em disputa. A duração de cada ciclo é variável; começam e terminam sem local ou data marcada, sem a necessidade de grandes acordos e livres da imposição de linearidades teleológicas. Ainda que não aleatórios, os ciclos são, portanto, processos indeterminados de transformação estética e ideológica que ocorrem no interior dos mundos literários e da sociedade.

Evocando Franco Moretti (2013: 18), se a história da literatura mundial tem uma imagem, esta é a de um grande arbusto (não a de uma escada), com seus quase infinitos galhos e ramos a se espalhar em interconectadas direções. Ramos que coexistem e se bifurcam, que se sobrepõem e se obstruem. Cada parte desse arbusto, isto é, cada ciclo literário, surge no presente como um mundo provisório de possibilidades. Um mundo cujo desenrolar é sempre incerto. Essa metáfora desafia as percepções lineares de evolução literária e permite pensar os processos de transformação de modo relacional, em que se considera tanto as dinâmicas nacionais quanto internacionais na fabricação cotidiana da literatura.

Não à toa, nessa perspectiva, a cronografia das letras ser um devir multifacetado de convergências e disputas, no qual o objeto literário transita tanto como produto quanto produtor de realidades sociais. Para Moretti, a literatura é um produto simbólico feito a partir de processos, um objeto que participa do seu momento histórico tentando satisfazer necessidades sociais relativas aos contextos. Sendo que: “é da capacidade que uma forma literária tem de cumprir bem essa função social simbólica, ou seja, de ressoar às emoções mais profundas dos seus leitores e de lhe ofertar respostas, que ela ganha sua sobrevivência” (Farias, 2022: 329).

Partindo dessa noção morettiana, que coloca a produção literária numa geografia de entrecaminhos abertos, começo este texto perguntando: quando começa e termina um movimento literário e quais obras e autores realmente o compõem?

Árvore do conhecimento, em “A literatura vista de longe” (2008), Franco Moretti.

À primeira vista parece uma pergunta simples. Sobre isso encontramos fartas respostas em livros historiográficos. No Brasil, por exemplo, dizemos que o Romantismo nasceu em 1844 com A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo; o Naturalismo em 1881 através d’O Mulato de Aluísio Azevedo; o Modernismo na apoteótica Semana de Arte Moderna de 1922. Esses, alguns dos marcos temporais que balizam a inauguração de um movimento estético. Em relação às obras que os constituem, apontam-se uma variedade de textos emblemáticos que sobreviveram à crítica do tempo ou angariaram certo gosto do público consumidor. A isso chamamos de cânone: o grupo seleto de obras “vencedoras”. Grupo que tende a se confundir com a totalidade do próprio movimento que constitui.

Não é preciso muito esforço. Consultas rápidas a catálogos fornecem respostas “exatas” sobre o início, meio e fim de qualquer movimento literário. Essa pretensa exatidão é um dispositivo didático para delimitar historicamente a literatura, uma forma de, do presente, administrar o passado. O que não está de todo errado. As ciências precisam estabelecer fronteiras para seus objetos de investigação e, diante da vastidão de obras publicadas, parece difícil a historiografia acomodar todas.

Voltando a Moretti, o “problema” desse esquema simplificador reside nas suas consequências teóricas. Ao restringirmos os estudos literários ao recorte dos textos premiados, limitando sua evolução aos grandes marcos, aplicamos contornos rígidos ao complexo da literatura. Sua história, assim, torna-se um canal estreito de margens firmes, cujo fluxo das águas – a transformação dos textos – assume sentido evolutivo linear desprovido de significativos conflitos e nuances internas. A totalidade da literatura passa a se assemelhar à homogeneidade de um rio que se desloca por única e determinante força. Nessa imagem, prevalecem os “vencedores” de cada sucessão, enquanto, para infortúnio dos esquecidos, resta o eterno desaparecimento. Um movimento literário deveria realmente se confundir com seu cânone?

Canal estreito das marés (1911-1912), fotografia, João Stamato.

A resposta do autor é sim e não. Embora a cronologia baseada em cânones seja conveniente a diversos interesses de pesquisa ou consumo, e a leitura cerrada de poucas obras contribua para os estudos literários, esse esquema deve ser complexificado por outras formas de olhar a questão. Um olhar mais distanciado, no qual a literatura é vista em seu complexo e suas transformações lhe confere novos contornos e significados. Um olhar distante, que se volta para as fragmentações mais do que para as unidades, para os matizes mais do que para a pureza dos fenômenos. Como disse o autor italiano: “a história da literatura é o abatedouro da literatura”, ou seja, segundo seu exemplo, “se definirmos o cânone atual de romances britânicos do século XIX em duzentos títulos (o que é um número muito alto), eles ainda representariam apenas cerca de 0,5% de todos os romances publicados. E os outros 99,5%? Essa é a questão” (Moretti, 2013: 66). A questão morettiana sobre o que o oceano do desconhecido tem a dizer acerca da literatura, das suas transformações e sobre a sociedade. O que nos remete à pergunta inicial, cuja resposta – que mais serve para levantar um problema – é que declarar a duração e o corpo de obras de um movimento é mais complicado do que sugerem as convenções. E o mero fato de levantarmos essa discussão já abre margem para importantes reflexões e caminhos (árduos) de pesquisa.

Saindo do exemplo britânico no qual Moretti é exímio especialista, em dissertação defendida recentemente pelo PPGSA-UFRJ, orientado por André Botelho, eu quis ver como essa perspectiva dialogava com o Naturalismo brasileiro, conjunto de romances que dominaram a cena literária na virada para o século XX. Fui, portanto, buscar as fronteiras dessa “ideologia-estética” – nos termos de Flora Süssekind (1984) –, por meio de um extenso levantamento da produção especializada. Tratou-se de um esforço inicial para entender as dimensões do meu objeto de pesquisa e, a partir disso, produzir um estudo sobre a questão do negro nos romances naturalistas (assunto que deixo para discutir em outra oportunidade).

Ao todo, foram consultados 25 intérpretes, do final do século XIX até 2022. Nomes ilustres como os de Silvio Romero, José Veríssimo, Araripe Júnior, Agrippino Grieco, Ronald de Carvalho, Lucia Miguel Pereira, Otto Maria Carpeaux, Werneck Sodré, Afrânio Coutinho, Antonio Candido, entre outros, compuseram a lista. Apesar desse conjunto de autores não esgotar a completude dos trabalhos já produzidos, essa amostragem de interpretações foi suficientemente ampla para traçar uma evolução das interpretações sobre o movimento. Concluí que a leitura sobre o Naturalismo no Brasil foi se transformando. Passou de um movimento visto como simples cópia do referente europeu, cujo valor era quase sempre inferior ao “original”, para uma literatura também portadora de originalidades, capaz de discutir e expressar questões propriamente nacionais (ainda que inspiradas nas obras estrangeiras). 

Umas das perguntas que guiaram minha investigação, e aqui a que mais nos interessa, foi semelhante àquela que fiz há pouco: segundo a bibliografia, quando (e como) começou e terminou o Naturalismo no Brasil e quais obras e autores o constituíram? Para minha surpresa (ou não), apesar das convictas declarações de cada intérprete, pouco consenso existe. Apenas dois escritores são presença unânime entre os historiadores do tema: Aluísio Azevedo, o mais notório dos naturalistas brasileiros, e Júlio Ribeiro, o mais polêmico deles. Quanto aos muitos outros literatos que escreveram no período, todos estão, em alguma catalogação, ausentes.

Algumas listas beiram o absurdo até mesmo para uma perspectiva baseada puramente em cânones. Ronald de Carvalho, por exemplo, que aborda o Naturalismo no capítulo 9 da sua importante Pequena História da literatura Brasileira (1919), não apenas mostra pouca inovação em relação ao que já havia sido escrito por sua principal referência, Silvio Romero, como apresenta um quadro limitado de autores naturalistas, afirmando que “a história do romance naturalista, no Brasil, está feita na obra de quatro escritores: Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro e Raul Pompéia” (Carvalho, 1919: 312). Sendo que, destes, considera apenas Machado de Assis e Raul Pompéia aqueles capazes de superar as influências do meio, mantendo “límpida a personalidade” (Carvalho, 1919: 313 e 319). Dois nomes que, curiosamente, seriam depois retirados do cânone naturalista para integrar o Realismo brasileiro – de ênfase psicológica, no caso do Machado e de ênfase impressionista, no caso de Pompéia.

Outro exemplo similar aparece na Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira (1951) de Otto Maria Carpeaux. Apesar da despretensão do título, chama atenção a convicção com que o ilustre crítico determina a extensão (pequena) do Naturalismo no Brasil. Escreve: “não há discussão quanto aos escritores que integram o grupo: são, conforme os anos de nascimento, Júlio Ribeiro, Domingos Olímpio, Inglês de Sousa, Papi Júnior, Aluísio Azevedo e Adolfo Caminha.” (Carpeaux, 1951: 139).

Perceba que o critério utilizado tanto por Carvalho quanto por Carpeaux é o mesmo: os autores naturalistas são aqueles dignos de serem lembrados, os portadores de qualidades representativas do movimento. Isto é, os “vencedores”.

Encontrei divergências também quanto à periodização do movimento. Para muitos, sua inauguração se deu em 1881 com O Mulato, enquanto outros entendem que antes já circulavam no Brasil romances mais “naturalistas” do que o do maranhense, a exemplo de O Cacaulista (1876) e O Coronel Sangrado (1877), de Inglês de Sousa, e O Cabeleira (1876), de Franklin Távora; ou “pré-naturalistas”, como Inocência (1872), de Visconde de Taunay, O Vaqueano (1873), de Apolinário Porto Alegre, Marabá (1875), de Salvador de Mendonça, e Motta Coqueiro (1877), de José do Patrocínio. Os que adotam essa visão reconhecem, contudo, que, se O Mulato não inaugurou propriamente a estética naturalista no Brasil, é dele o mérito de ser o ponto de partida para uma coalizão. Ou seja, serviu como o estopim de uma moda, a partir do qual bandeiras foram abertamente levantadas em defesa de um novo ideal de literatura: cientificista, polemista e politicamente aguerrida. Lembrando que todos esses elementos vinham vinculados a uma forte pretensão à verossimilhança, como se a literatura fosse “a própria natureza convertida em palavras”. Posição que Silvio Romero (1943: 1639), à época, contestaria com a máxima: “arte e natureza são dois conceitos que se repelem”.

Inúmeros outros exemplos poderiam ser apresentados. Mas isso em muito alongaria este texto. O que quero demarcar aqui é o eixo comum entre quase todos os intérpretes consultados. O que nos leva de volta à discussão morettiana. Se variam quanto à conclusão obtida, ao adicionar um ou outro escritor ao complexo do movimento, concordam em relação à maneira de olhar o problema. O movimento naturalista, assim, se confunde com seu cânone. Posição que seria levemente problematizada por Brito Broca em rara contraposição ao debate.

Em 1949, mesmo ano de publicação do Prosa de ficção de Lucia Miguel Pereira, Brito Broca começaria uma série de publicações sobre a vida literária nos fins de século – em artigos de jornais publicados dos anos 1950 até o falecimento do crítico em 1961, aos 57 anos. Esse grande conjunto de ensaios, críticas e crônicas literárias foram reunidas e publicadas no formato de coletânea em 1991, com o título Naturalistas, Parnasianos e Decadistas. Os textos lá presentes são inovadores para a época em diversos sentidos. Divergiam de certas noções consolidadas, relacionadas a uma tendência de ver o movimento como um fruto mimético de menor qualidade, e discutiam aspectos pouco usuais do tema. Um exemplo está no seu interesse naquilo que chama de “naturalismo de segundo grau”: os tantos romances brasileiros influenciados pela escola e que hoje jazem completamente esquecidos ou praticamente inacessíveis, cuja maior parte permanece ainda hoje inédita ou exclusiva em edições de jornais e revistas da época, acessível apenas via acervos bibliotecários[1].

O ponto, nesse caso, é que esse Naturalismo de “segundo grau” ao qual se refere Brito Broca, embora hoje esquecido quase por completo, nas últimas duas décadas do século XIX atendeu aos interesses de parcela do público leitor brasileiro. Havia um porquê para a existência dessa literatura, uma demanda social a ser atendida; não sendo de se estranhar que folhetins da época mantivessem sempre em circulação um ou dois romances desse gênero, como Clarita, Beatriz, As Sete Noites de Lucréia, Os prazeres de Rosália, Morgadinha das Delícias, As Livres, Elixir do Pajé etc. (Broca, 1991: 111-12). Romances denominados pelo autor “subliteratura pornográfica” com quase nulo valor literário. Brito Broca inovou ao romper com as fronteiras do cânone literário, articulando obras de “segundo grau” à existência de um movimento sociocultural no país.

Parece-nos significativo o fato de encontrarmos em vários números da Gazeta de Notícias, em 1888, um dos anos mais fecundos para o Naturalismo entre nós, quando causava grande escândalo A Carne, de Júlio Ribeiro, um anúncio sobre este título: “leitura para homens”. Em que consistiam tais leituras? Em novelas fesceninas de autores anônimos, algumas decerto adaptadas de outros idiomas, pura obscenidade sem qualquer valor literário (Broca, 1991: 111).

Isto é, mesmo que sejam, de fato, romances sem valor literário, essas obras, expressivas em quantidade, dizem muito sobre o público leitor e sobre o momento literário que vivia o Brasil. O autor segue, argumentando que a literatura brasileira do período pautava-se, em grande medida, pelo polemismo como meio de obter a visibilidade necessária para a conquista de espaços sociais. Esse foi um dos principais aspectos observados por Brito Broca como definidor do romancismo dos fins de século: o quase inconciliável conflito entre querer viver de literatura, obtendo dessa prática reconhecimento social e meios satisfatórios de subsistência, e as impossibilidades colocadas pela realidade material da época. Ou seja, o autor demonstra como a noção de cópia é insuficiente para explicar o fenômeno naturalista, na medida em que as relações materiais contribuíam para a existência do movimento literário. O traço polêmico dos romances, nessa leitura, passa a ser explicado não pela importação apenas, mas por uma necessidade imposta aos literatos pela condição econômica em que viviam.

Como disse Valentim Magalhães (1896: 24) no que se tornou uma emblemática passagem do seu A literatura brasileira (1870 – 1895): “Aluísio Azevedo é talvez o único escritor que ganha o pão exclusivamente à custa da sua pena, mas nota-se que apenas ganha o pão: as letras no Brasil ainda não dão para a manteiga”. O inconformismo, o polemismo e a instrumentalização do discurso científico são, para Brito Broca, uma resposta às configurações desiguais da época, uma arma de mudança para o país e para a condição dos próprios escritores. Grupo de literatos que não se limita ao recorte seleto do cânone, e sim, abarca um conjunto muito maior de sujeitos e interesses.


Cronologia do Naturalismo no Brasil: acontecimentos históricos e obras literárias nas quatro fases do movimento (1867 – 1913).

Período de transição:

1867. A guerra do Paraguai começa a mostrar sua face sangrenta. Na França, Émile Zola inaugura o movimento naturalista com a publicação de Thérèse Raquin.

1868. Surge a “Escola do Recife”. Começa a se firmar no Brasil a crítica literária especializada.

1869. Franklin Távora publica Um Casamento no Arrabalde. Joaquim Manuel de Macedo publica a coletânea de novelas abolicionistas As Vítimas-Algozes.

1870. Em março: tem fim a Guerra do Paraguai. 3 de dezembro: Manifesto Republicano e fundação do “Clube Republicano”. São fundadas a “Sociedade de Libertação” e a “Sociedade Emancipadora do Elemento Servil”. No Ceará, surge a “Fênix Estudantil”. Tavares Bastos publica o estudo A Província, em defesa da federalização do país. Silvio Romero inicia a crítica científica.

1871. 28 de setembro: é promulgada a Lei do Ventre Livre. Taunay publica A Retirada da Laguna.

1872. 1 de agosto: ocorre o primeiro censo demográfico. A Questão Religiosa agita o país. Jovens intelectuais da província nortista fundam a “Academia Francesa” do Ceará. Sai Inocência, melhor romance de Taunay. Apolinário Porto Alegre publica O Vaqueano.

1873. 27 de fevereiro: a redação do jornal A República é depredada no Rio de Janeiro. Revolta dos Muckers. Formação do Partido Republicano Paulista.

1874. 25 de março: a Escola Normal do Rio de Janeiro é criada. Araripe Júnior publica O Ninho do Beija-flor.

1875. Tem fim a Questão Religiosa. Abrem-se revistas e jornais em boa quantidade. Forma-se o “Gabinete de Leitura”. Tobias Barreto escreve o influente Ensaios e Estudos de Filosofia e Crítica. Araripe Júnior publica Jacina, a Marabá. Salvador de Mendonça traz à tona Marabá. Apolinário Porto Alegre publica Paisagens e Bernardo Guimarães, A escrava Isaura. Em Portugal, Eça de Queirós publica O Crime do Padre Amaro.

1876. Benjamin Constant inaugura a “Sociedade Positivista”. É fundada a Revista Ilustrada. Inglês de Sousa estreia no romance com O Cacaulista. Franklin Távora revela O Cabeleira. Na França, Émile Zola publica L’Assommoir.

1877. 29 de novembro: a primeira estação telefônica é inaugurada no Rio de Janeiro. Tem início a Grande Seca do Nordeste. Inglês de Sousa publica O Coronel Sangrado. José do Patrocínio estreia no romance com Motta Coqueiro.

1878. Abrem a “Guerra do Parnaso” pelas colunas do Diário do Rio de Janeiro. Franklin Távora publica Lourenço; Oliveira Bento, Os farrapos. Em Portugal, Eça de Queirós publica O Primo Basílio.

1879. As mulheres conquistam o direito de cursar o Ensino Superior. José do Patrocínio romanceia a Grande Seca do Nordeste com Os Retirantes. Virgílio Brígido publica Cantos do Amanhecer. Morre Celso Magalhães, deixando supostamente incompleto o romance Um Estudo de Temperamento.

1880. É fundada a “Sociedade Brasileira Contra a Escravidão”. Fica proibido o tráfico de escravos entre os estados. Francisco Castelo Branco publica Ataliba, o vaqueiro. Na França, Émile Zola lança Le Roman Experimental.

Período de desenvolvimento:

1881. 9 de janeiro: é sancionada a Lei Saraiva. Aluísio Azevedo oficializa o Naturalismo no Brasil com O Mulato. Machado de Assis ingressa por completo no Realismo com Memórias Póstumas de Brás Cubas.

1882. Ocorre a Exposição Antropológica no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Lúcio de Mendonça publica O Marido da Adúltera. Teófilo Dias publica Fanfarras, talvez o primeiro livro parnasiano brasileiro.

1883. É fundada a “Confederação Abolicionista”. São inauguradas as primeiras usinas termelétrica e hidrelétrica do Brasil. Campos dos Goytacazes (RJ) se torna o primeiro município com energia elétrica.

1884. 25 de março: o Ceará é o primeiro estado a abolir a escravatura. 28 de setembro: promulgada a lei Saraiva-Cotegipe. Aluísio Azevedo dá continuidade ao projeto naturalista com Casa de Pensão.

1885. Começa a Questão Militar. Em 28 de setembro são libertos os escravos maiores de 65 anos. Na França, Émile Zola publica Germinal.

1886. José Veríssimo publica Cenas da Vida Amazônica.

1887. O Clube Militar é fundado no Rio de Janeiro. Aluísio Azevedo publica O Homem, Pardal Mallet estreia no romance naturalista com Hóspede.

O apogeu:

1888. 13 de maio: abolição da escravatura. Olavo Bilac estreia no Parnasianismo com Poesias. Silvio Romero começa a publicar História da Literatura Brasileira. Saem os romances: A Carne, de Júlio Ribeiro; Hortência, de Marques de Carvalho; Lar, de Pardal Mallet; O Ateneu, de Raul Pompeia; O Cromo, de Horácio de Carvalho; A Noiva, de Aderbal de Carvalho.

1889. 15 de novembro: Proclamação da República. 19 de novembro: são regulamentados os símbolos nacionais. Sai em folhetim A Afilhada, de Rodolfo Teófilo.

1890. 7 de janeiro: decretada a separação entre Estado e Igreja. Criação do Banco da República. Aluísio Azevedo publica O Cortiço, principal romance naturalista brasileiro. Rodolfo Teófilo publica A Fome.

1891. Ocorre o Encilhamento. Primeira Revolta da Armada. Promulgada a primeira constituição republicana. Floriano sobe ao poder. Inglês de Sousa se eterniza no Naturalismo com O Missionário. Manuel de Oliveira Paiva escreve Dona Guidinha do Poço.

1892. Ocorre a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul. No Ceará, surge a “Padaria Espiritual”. Faria Neves Sobrinho estreia com O Hidrófobo.

1893. Ocorre a segunda Revolta da Armada. O Partido Republicano Federal é criado. Adolfo Caminha estreia no romance naturalista com A Normalista, Coelho Neto estreia com A Capital Federal e Figueiredo Pimentel estreia com O Aborto.

1894. É realizada a primeira eleição direta. Prudente de Morais é eleito presidente da República. Adolfo Caminha publica No País dos Ianques.

1895. Sai Bom Crioulo, principal romance de Adolfo Caminha. Valentim Magalhães publica Flor de Sangue. Rodolfo Teófilo, Os Brilhantes.

Resquícios naturalistas:

1896. 7 de novembro: insurreição em Canudos. 15 de dezembro: fundada a Academia Brasileira de Letras por iniciativa de Machado de Assis. A primeira sessão de cinema acontece no Rio de Janeiro. Sai o último romance de Adolfo Caminha, Tentação. Carlos Malheiros Dias publica A Mulata.

1897. 5 de outubro: fim da Guerra de Canudos. Rodolfo Teófilo publica Maria Rita. Coelho Neto publica Inverno em Flor.

1898. É criada a política dos governadores. Campos Sales substitui Prudente de Morais. Ocorre o primeiro funding loan nacional. Faria Neves Sobrinho publica Morbus. Papi Júnior, O Simas. Antônio de Oliveira, Sinhá.

1899. Rodolfo Teófilo publica O Paroara.

1900. Fundação do Cinematógrafo Paris em São Paulo. Emanuel Guimarães estreia com Jorge do Barral. Antônio de Oliveira publica O Urso.

1902. Rodrigues Alves eleito quinto presidente. Ocorre a primeira manifestação grevista no Brasil. Saem Canãa, de Graça Aranha; Os Sertões, de Euclides da Cunha; A Todo Transe, de Emanuel Guimarães; e O Caboclo, de Avelino Fóscolo.

1903. Domingos Olímpio estreia com o romance Luzia-homem.

1904. Revolta da Vacina.

1905. Cardoso de Oliveira publica Dois Metros e Cinco.

1907. Sai postumamente O Irreparável, de Emanuel Guimarães. Carmen Dolores, pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo, publica Um Drama na Roça.

1909. Sai em folhetim o romance A luta, de Carmen Dolores e A Emparedada na Rua Nova, de Carneiro Vilela. Canto e Melo publica Alma em Delírio.

1910. Sai O Vil Metal, de Batista Cepelos.

1913. Antônio Sales publica Aves de Arribação. Canto e Melo publica Mana Silvéria.


Nota

[1] Dentre essas tantas obras por muito tempo inéditas, um exemplo interessante ocorreu com o romance Dona Guidinha do Poço, escrito originalmente por volta de 1890-91 pelo cearense Manoel de Oliveira Paiva. Esse romance foi publicado pela primeira vez postumamente em 1952, graças ao árduo trabalho de Lucia Miguel Pereira (1988), que, dizem, encantou-se à primeira vista com a prosa de Paiva quando se deparou com o texto em um folhetim da época durante as pesquisas para o seu Prosa de Ficção. Hoje, Dona Guidinha é considerado, por muitos, como um dos melhores romances já feitos na época.

Referências

BROCA, Brito. (1991). Naturalistas, parnasianos e decadistas: vida literária do realismo ao pré-modernismo. São Paulo: Editora da Unicamp.

CARPEAUX, Otto Maria. (1951) Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira. Rio de Janeiro:Ministério da Educação.

CARVALHO, Ronald de. (1919). Pequena História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Briguiet.

FARIAS, Clarissa Mattos. (2022). O desencantamento da literatura: o romance de formação de Franco Moretti. Topoi (Rio J.), v. 23, n. 49, p. 328-334, jan./abr.

MAGALHÃES, Valentim. (1896). A literatura brasileira (1870 – 1895). Lisboa: A. M. Pereira.

MORETTI, Franco (2013). Distant reading. London: Verso Books.

MORETTI, Franco (2008). A literatura vista de Longe. Porto Alegre: Arquipélago Editorial.

PEREIRA, Lucia Miguel. (1988). História da literatura brasileira: prosa de ficção, de 1870 a 1920. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

ROMERO, Silvio. (1943). História da literatura brasileira. Vol. 5. 3ª edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora.

SÜSSEKIND, Flora. (1984). Tal Brasil, qual romance? Uma ideologia estética e sua história: o naturalismo. Rio de Janeiro: Achiamé.


A arte que abre o post é de Vincent Van Gogh (1885), Os Comedores de Batata (Domínio Público).