Desassossegos | Coluna de Alcida Rita Ramos

Publicamos hoje o texto “Saindo da Castália” de Alcida Rita Ramos (UnB) na coluna Desassossegos. Inspirando-se na obra O Jogo das Contas de Vidro de Hermann Hesse, Alcida propõe uma analogia entre a fictícia Castália e a antropologia, refletindo sobre sua jornada como antropóloga e sobre a relação da disciplina com a realidade prática. O texto nos provoca para a importância de descer da “montanha” acadêmica para enfrentar os desafios reais, convertendo conhecimentos assim adquiridos em ações concretas, seja em aldeias, seja em favelas, seja em cortiços, seja no Congresso Nacional. Com postura crítica e experiência de causa, Alcida vem a público defender uma antropologia engajada e implicada na realidade social e política do Brasil. Como ela diz, mais do que um privilégio, é um compromisso! Não deixe de conferir.

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Boa leitura!




Saindo da Castália

Por Alcida Rita Ramos (UnB)

A inspiração de Hermann Hesse talvez tenha chegado ao ápice com Magister Ludi ou O Jogo das Contas de Vidro. Lá está a Castália, Anno Domini 2200. Erguida no topo de alguma montanha não nomeada, Castália é uma abstração. Como abstração, pode ser associada a qualquer contexto em qualquer momento e, assim, autoriza-me a aplicá-la como quiser. Aqui, brinco com a ideia de que a antropologia é, metaforicamente, uma Castália.

A Castália original é habitada por uma comunidade cem por cento masculina, dedicada em tempo integral a produzir ciência e arte ‒ música, astronomia, matemática ‒ utilizando contas de vidro. É uma atividade lúdica complexa e requintada, “último avatar de uma cultura”, como diz o anúncio promocional do livro. Sustentada pela sociedade civil que lhe está aos pés, na planície, esse olimpo humano esmera-se em retribuir o seu sustento com festivais periódicos, exibindo obras de beleza hipnotizante para deleite dos patronos. Sua utilidade é nula, mas enche os sentidos dos leigos.

Até onde posso esticar a semelhança entre a Castália e a Antropologia? A partir do momento em que o personagem central, Josef Knecht, Magister Ludi, o Mestre dos Jogos, cai na real e decide abandonar as amenidades intelectuais daquela utopia estática que vinga nos sonhos de não pouca gente. Atormentado por dúvidas existenciais, desce a montanha e se alista na guerra que grassava lá embaixo.

Mais inspiração estilística do que modelo para análise, Castália me serve para ponderar sobre a minha visão do que é ser antropóloga no mundo real. Minha fase Castália prosperou enquanto me formava. Mergulhei nas entranhas da antropologia com a avidez de um náufrago que se agarra ao primeiro objeto que boia. Invejei a destreza literária de Evans-Pritchard, suspirei com as filigranas de Lévi-Strauss, encantei-me pela plácida escrita paternal de Mauss. Encantou-me por inteiro, porque o que eu lia não era um objeto qualquer. Era um suporte praticamente ilimitado para pensar e viver e nele me agarrei com unhas e dentes. O impulso inicial foi a franca descoberta da alteridade como ferramenta de autoconhecimento. Mas, uma vez seduzida, caí nas garras da antropologia como um inseto fisgado pelos doces tentáculos de uma planta carnívora. Nunca mais me desprendi. E não me arrependo. Porque, pela mão da antropologia, cheguei ao mundo indígena. E esse mundo, que esbanja uma riqueza humana só exposta a quem tem a sensibilidade e os olhos treinados para ver, acabou me empurrando para fora da Castália. Curiosamente, as contas de vidro que a alimentam também fascinam muitos indígenas, para quem miçangas das boas, tchecas, “valem mais do que ouro!” na avaliação de uma jovem mãe Ye’kwana de Roraima, também ela Magister em antropologia.

Alcida entrevistando um casal Terena. Campo Grande, 1960
Foto: Roberto DaMatta

Muito cedo na vida profissional, escolhi a etnologia indígena como meio de exercer a antropologia. Mas acredito que não se mergulha numa outra realidade sem ser moldado por ela, tanto existencial, como intelectualmente. Os ensinamentos do convívio com indígenas, especificamente Yanomami, tanto quanto o aprendizado de antropologia, forjaram-me um Bildung que tem um pé na Castália, outro na aldeia. Não há nada romântico nisso. Tanto a aldeia quanto a academia me mostraram que o lado escuro da Lua não está só na Lua e que experiências cruéis também nos fazem crescer.

Assim como os monges da Castália, a antropologia já produziu jogos vistosos, como o barroco estruturalismo e seus derivados rococó. Foram picos de popularidade, incomum na academia, que se espalharam pela planície social, serviram para explicar de tudo, mas, como a atenção pública é volúvel, acabaram se recolhendo à sua dimensão justa ou até esquecidos. Este, aliás, é o destino de certos conceitos que, com sua obsolescência programada, entram em voga e, assim como entram, saem do radar. Há mais de 80 anos, a filósofa Susanne Langer, em Philosophy in a New Key, já apontava esse fenômeno da obsolescência que corre pela academia. Vale a pena ver o ela disse em 1941:

Há, pelo menos, 50 anos, vemos todos os sintomas característicos que marcam o fim de uma época ‒ a absorção do pensamento em “ismos” cada vez mais variegados, o clamor de seus respectivos seguidores …, o aumento de congressos e simpósios, a barragem de críticas de textos, levantamentos, popularizações e estudos comparativos (p. 9).

Será que isto que vemos na antropologia, e não apenas no Brasil, é o “último avatar de uma cultura”? Os sintomas podem não ser exatamente os mesmos do passado, mas um mal-estar crescente aproxima várias antropologias nacionais. Este assunto, espinhoso e melancólico, merece mais espaço e fôlego do que tenho aqui e agora. Por ora, mantenho-me na trilha da antropologia intra e extra-muros.

A longa preparação acadêmica em antropologia tem por meta neutralizar as ideias recebidas próprias do nosso processo de socialização, de modo a desarmar a mente ao máximo e abri-la para outras realidades quase sempre complexas e ocultas por trás de uma aparente simplicidade. Missão virtualmente impossível, mas tem ao menos o mérito de gerar nos pesquisadores o germe da surpresa, da suspeita, da inquietação.

Tão importante quanto o adestramento disciplinar por décadas a fio no recôndito espaço universitário é a capacidade e disposição de inverter os conhecimentos assim adquiridos em ações concretas, seja em aldeias, seja em favelas, seja em cortiços, seja no Congresso Nacional. É quando a antropologia suja as mãos na realidade e se torna, de fato, atraente. Isso a maioria dos antropólogos brasileiros aprendeu a fazer desde a institucionalização da carreira. Na contramão da queixa do norueguês Thomas Hyland Eriksen que, em seu livro Engaging anthropology, the case for a public presence, lamenta a ausência de voz pública da antropologia no seu país, no Brasil, a opção pela torre de marfim é vista de esguelha e poucos gostariam de ser identificados como meramente “acadêmicos”. Espera-se que o custo da formação acadêmica seja pago em parcelas de conhecimento distribuídas ao público. É a expectativa da planície sobre o monte da sabedoria.

A tendência de países “desenvolvidos” de confinar seus antropólogos em claustros castálicos não se repete, por exemplo, na América Latina. Volta e meia, ao sabor de massacres, desmandos inimagináveis ou ameaças legislativas, a impressa procura os antropólogos para darem entrevistas, ou redigirem textos que possam esclarecer a opinião pública sobre ações raramente entendidas pelo senso comum. O pico mais recente que me atingiu foi o genocídio dos Yanomami programado pelo governo federal de 2018 a 2022 e por gatunos (in)civis. Pus-me à disposição de uma dezena de jornalistas, mas sempre com a exigência de responder às perguntas por escrito. Foram publicadas. Mudei o contexto? Certamente, não. Mas mudaria ainda menos se me negasse a atender à demanda pública pela expertise dos antropólogos, cuja ausência tanto angustia Eriksen. Optei por agir, quanto mais não fosse para manter viva a imagem do antropólogo como ator político.

Alcida Rita Ramos (e malária), aldeia Sanumá, Auaris, 1973. Foto: Ken Taylor

Credibilidade profissional constrói-se ao longo do tempo, com constantes demonstrações de seriedade acadêmica e compromisso social. Não se improvisa, apostando que o leitor sabe menos do que nós. Não se “panfleta” com frases de efeito vazias na esperança de se tornarem memes. Quem se atreve a vaticinar o destino dos povos indígenas com base em sinais tênues vindos de equívocos herdados da conquista arrisca-se ao ridículo. Afinal, nenhuma ciência social, muito menos a antropologia, alcançou a capacidade de previsão, como ficou patente na notória queda dupla do século 20: da União Soviética e do Muro de Berlim, apesar de todos os sinais que, em retrospecto, se escancaravam. Um exemplo talvez esclareça o que quero dizer.

O antropólogo das multidões, Darcy Ribeiro, ousou criar um bordão e se retratou. Lá por meados do século 20, previu e afirmou que, em 50 anos, não haveria mais etnias indígenas no Brasil, apenas “o índio genérico”, aquela figura despida de identidade, vagando sem rumo pela história até o oblívio total. A frase pegou, fosse contra ou a favor. Enquanto isso, a visibilidade política dos indígenas só crescia, culminando com sua presença maciça no Congresso Nacional por ocasião da Assembleia Nacional Constituinte de 1987, aumentando também o reconhecimento étnico: Caiapó em peso na Praça dos Três Poderes, mais Xavante, Terena, Xukuru, todos ostentando sua identidade singular. Darcy Ribeiro teve a grandeza de se retratar publicamente durante um evento na Universidade de Gainesville, na Flórida: “Eu estava errado! ”

No entanto, no livro O Povo Brasileiro de 1995, aclamado como seu magnum opus, voltou a pontificar sobre o que não estava antropológica nem empiricamente autorizado a dizer: “… os brasileiros se integram em uma única etnia nacional, constituindo assim um só povo incorporado em uma nação unificada, num Estado uni-étnico. A única exceção são as múltiplas microetnias tribais, tão imponderáveis que sua existência não afeta o destino nacional” (p. 22). Numa mesma frase é capaz de ofender gregos e troianos, sob o manto de sua estatura como celebridade nacional. Tal leviandade não apenas ofende o manancial de etnias distintas do país ‒ como confirma o excelente antropólogo Alfredo Wagner ‒ mas demonstra que algo falhou na formação antropológica do autor e que sua convivência com os povos indígenas que conheceu na juventude não atingiu a profundidade, confiança e cumplicidade capazes de gerar a compreensão íntima do mundo indígena e evitar armadilhas como essa de confundir quantidade com qualidade.

Um contraexemplo serve de antídoto. Em 1978, um trio determinado a defender os direitos territoriais do povo Yanomami reuniu-se em São Paulo: a fotógrafa plurinacional Claudia Andujar, o missionário italiano Carlo Zacquini e o antropólogo francês Bruce Albert. Com a meticulosidade de um ourives, redigiram uma das várias propostas para a demarcação da Terra Indígena Yanomami (TIY), que inclui as aldeias brasileiras dos Ye’kwana, por sinal, o povo que, excluindo o registro arqueológico, primeiro colonizou aquela região de fronteira no estado de Roraima. Meses de trabalho dedicado a consultar fontes, produzir documentos e apresentar razões irrefutáveis para dotar esses povos com os nove milhões e meio de hectares de que precisam para manter sua autonomia e saúde social culminaram numa proposta que, com poucos ajustes, foi encampada pelo Estado e resultou na demarcação oficial da TIY 13 anos depois. O sólido treinamento acadêmico de Bruce Albert foi crucial para convencer as autoridades brasileiras mais esclarecidas a respeitar o imperativo de um território adequado para sustentar essa sociedade ‒ aplicada igualmente aos Ye’kwana ‒ que levou séculos, senão milênios para criar uma cultura que se esmera em preservar os recursos naturais e os seus valores humanos. Da convivência prolongada com os Yanomami e da tarefa de proteger seus direitos ameaçados, Bruce Albert desenvolveu a noção de antropologia implicada, uma espécie de tributo ao que assimilou no seu alentado mergulho na antropologia brasileira.

Voltando à Castália. Antropólogos no Brasil, em especial aqueles dedicados à etnologia indígena, ao seguir os passos do Magister Ludi Josef Knecht, transformam (ou espera-se que transformem) a antropologia-Castália, com seus encantadores jogos intelectuais, em campo de treinamento para descer à planície e enfrentar as guerras não declaradas e constantes que assolam a cidadania e suas inúmeras etnias. Não é apenas um privilégio. É um compromisso. Uma obrigação de manter vivo o espírito alerta da sensatez e ética profissionais. No estado atual da arte, pergunto-me: esta nossa Castália tradicional chegará incólume ao Anno Domini 2200?

Mas isso são outros 500.         

A imagem que abre o post é de Joana Lavôr e a foto de Alcida Rita Ramos é de autoria de André Aquere

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