
Renato Ortiz publica “Hemingway e a escrita” em sua coluna na BVPS. Neste texto, nossa atenção se volta para o romancista norte-americano, Ernest Hemingway. Os hábitos de escrita, seus locais de estadia, as geografias e as experiências citadinas do escritor são a fina trama que guiam o texto, numa espécie de homenagem reflexiva. Afinal, escrever é sempre um processo circunstancial no tempo e no espaço; mas o resultado da escrita se limita a essas dimensões práticas? Com a palavra, Renato Ortiz.
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Boa leitura!
Hemingway e a escrita
Por Renato Ortiz (Unicamp)
Finca Vigia: a casa fica nos arredores da cidade. Quando Hemingway a comprou, antes da revolução, deveria ser protegida pelo silêncio reinante a sua volta. Hoje o município de São Francisco de Paula é uma zona periférica da capital, o sítio é grande, bem cuidado, nele foi construída a segunda piscina de Havana. O barco, companheiro de aventuras marítimas, foi rebocado das águas até o terreno ao lado. Quando faleceu, a propriedade foi doada pela esposa ao Estado cubano. A casa lembra uma dessas construções brasileiras, amplas, bem ventilada, o chão de cerâmica e as janelas de correr com dobradiças. A sensação de familiaridade reforça-se ao visitar o pomar, limoeiros, laranjais, mangueiras, bananeiras. Nas paredes da sala são exibidos os troféus de caça, cabeças enormes de animais. A mobília é simples, funcional, nada tem de ostentatória. No banheiro encontram-se os traços de um hábito intrigante: Hemingway, no final da vida, doente, anotava na parede, todos os dias, o seu peso. Dizem: exigência médica. Os guias contam ao visitante, com convicção, as histórias que decoraram, insistem nos detalhes para que pareçam verdadeiras. No quarto está a máquina de escrever: Canon. Pequena. Repousa sobre um móvel ao lado da cama. De pé o grande escritor punha-se ao trabalho, antes tirava os sapatos e repousava os pés num pequeno tapete de pelos. Dizia que dele provinha sua energia para a escrita, aí alimentava seus demônios.
Mas ele realmente escrevia de pé, como diz em suas entrevistas. Retomo outro livro do autor, Paris is a moveable feast. Logo no início, na primeira página, a epígrafe capta a atenção do leitor: “If you are lucky enough to have lived in Paris as a young man, then wherever you go for the rest of your life, it stays with you, for Paris is a moveable feast”. Patrick, filho e editor da obra do pai, diz que sua mãe atribuía a frase a uma conversa que ele teve com um amigo. Eu havia lido o livro em minha juventude, ainda em Paris, mas com outro título, Paris is a feast; a edição atual ganhou um vocábulo a mais, “moveable”. Uma festa móvel não possui uma data fixa, a cada ano é celebrada em momentos distintos. Hemingway queria sublinhar essa indeterminação temporal, a maleabilidade do tempo em relação ao espaço, isto é, a possibilidade de retirar a existência de um contexto geográfico determinado. A cidade perderia assim em enraizamento, em densidade, poderíamos carregá-la conosco onde estivéssemos, essa era a sorte. Mas seria ela realmente o objeto principal da frase “lived in Paris as a young man”? Aqui um elemento estranho à ideia de espacialidade é introduzido, a juventude. Sem ela Paris teria a virtude de ser esta festa? O livro é póstumo. Em novembro de 1956 o gerente do hotel Ritz enviou a Hemingway um baú com as coisas que ele havia esquecido em março de 1928. Páginas de ficção, um esboço de The sun also rises, livros, recortes de jornais, roupas velhas, e um conjunto de anotações feitas durante sua estadia. Ele as utilizou para a realização do livro. Vivendo em Cuba, novamente casado, o terminou poucos anos antes de sua morte em 1961. Um velho autor escrevendo a partir de suas lembranças e anotações, e, sabemos, as recordações desconhecem as restrições espaciais ou temporais.
O que ele diz no livro? O primeiro capítulo fala de seu hábito de escrever nos cafés, Hemingway aprecia a multidão, como o flâneur de Benjamin. Chove e faz frio, os quartos e as casas são mal aquecidos, por isso todos se aglomeram nesses lugares em meio à fumaça dos cigarros. Ele descreve primeiro o Café des Armateurs, ao lado da Rue Cardinal Lemoine onde mora, depois caminha em direção ao Quartier Latin e escolhe um simpático lugar para ficar na Place Saint Michel. Pendura o casado e retira do bolso o lápis e o caderno de anotações. Ao seu lado está uma moça, bonita, ele a mira sem perder o fio da escrita, a história se conta a si mesma, jorra em borbotões. A moça se foi, de esguelha ele percebe, mas não se distrai. Hemingway escreve sentado no café, assim o fez durante toda sua estadia parisiense. Entretanto, ao narrar a si mesmo está em pé no quarto de sua “finca” em Havana. Pisa com os pés descalços no pequeno tapete abaixo da cômoda, não escreve a lápis, possui uma Canon, divisa lá fora as bananeiras e as mangueiras. Sabe que aquilo que o cerca é circunstancial, não interfere na história, é apenas um lugar onde enuncia sua fala. Ao embaralhar o tempo e o espaço nos ilude com sua artimanha.