
A Coleção Pensamento Político e Social da editora Hucitec foi criada por Elide Rugai Bastos (Unicamp), Gabriela Nunes Ferreira (Unifesp) e André Botelho (UFRJ) em 2010. Maurício Hoelz (UFRRJ) completa o time atual de diretores. A coleção foi idealizada por Gildo Marçal Brandão (USP) no âmbito do Projeto Temático FAPESP Linhagens do Pensamento Político e Social brasileiro, coordenado por ele e Elide entre 2008 e 2012. Gildo planejava a coleção com Flavio Aderaldo e Mariana Nada, atual editora responsável da Hucitec, quando sua morte repentina em 15 de fevereiro de 2010 nos entristeceu. Mas Gildo tem sido uma inspiração permanente para a Coleção.
Nesta nova série da BVPS, vamos retomar títulos publicados, alguns deles já clássicos da área de pesquisa em suas intersecções entre a sociologia e a ciência política, sobretudo, mas também cultura contemporânea. Teremos espaço para reflexões sobre títulos específicos e em conjunto, resenhas, memórias, entrevistas com autores e outras atividades que visam informar leitoras e leitores, em geral, e pesquisadoras e pesquisadores da área, em particular.
Para começar os trabalhos, trazemos resenha do professor Bernardo Ricupero, do Departamento de Ciência Política da USP e presidente do CEDEC – Centro de Estudos de Cultura Contemporânea – sobre o mais recente lançamento da coleção: Fernando Henrique Cardoso, um perfil intelectual de Karim Abdalla Helayel, pós-doutorando no PPGSA/IFCS/UFRJ com apoio do CNPq/FAPERJ.
Boa leitura e acompanhem nossas postagens sobre a Coleção, que está comemorando 14 anos de atuação, com cerca de 20 livros publicados. Conheça mais sobre ela aqui.
Fernando Henrique Cardoso e a criação de uma sociologia histórica a partir da periferia?
Por Bernardo Ricupero (USP)
Fernando Henrique Cardoso: um perfil intelectual (2024), de Karim Abdalla Helayel, realiza uma sugestiva confluência entre trabalhos sobre a tradição sociológica brasileira, que têm sido realizados sobretudo no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e trabalhos sobre Fernando Henrique Cardoso, que ressaltam sua relação com o marxismo.[1]
No caso dos primeiros, costuma-se partir da hipótese formulada por André Botelho (2007) a respeito da existência de uma sequência na sociologia política brasileira, que ressalta o embaralhamento entre público e privado no país; perspectiva que vai de Francisco José de Oliveira Vianna a Maria Sylvia Carvalho Franco, passando por Victor Nunes Leal, Luiz de Aguiar Costa Pinto, Maria Isaura Pereira de Queiroz etc. No caso dos segundos, boa parte dos estudos tomam a obra do cientista social uspiano como um caso bem-sucedido do que, ao tratar de Caio Prado Jr., chamei de “nacionalização do marxismo”, ou seja, a tradução do método marxista para a compreensão de uma formação social específica, a brasileira (Ricupero, 2000).
Refletindo, de certa maneira, a confluência entre essas duas abordagens, Karim pode assumir um caminho original. Não se preocupa tanto com a relação de Fernando Henrique Cardoso com a tradição sociológica brasileira ou com o marxismo, mas toma os principais trabalhos do autor dos anos 1960 e 1970 – Capitalismo e escravidão no Brasil meridional (1962), Empresariado industrial e desenvolvimento econômico no Brasil (1964), Dependência e desenvolvimento na América Latina (1969) e Política e desenvolvimento em sociedades dependentes (1971) – como obras de sociologia histórica. Ao tratar da subárea, Karim destaca, como indicado por Lucas Carvalho, a “equação analítica” – teoria, história e comparação – presente no melhor da sua bibliografia.
De forma instigante, a “equação analítica” está igualmente presente no livro que examinamos. A questão teórica para a qual aponta é como a obra de Fernando Henrique Cardoso, dos anos 1960 e 1970, chama a atenção para a especificidade do Brasil, da América Latina e das variadas sociedades latino-americanas. Isto é, ressalta como estão vinculadas a um quadro maior, o do capitalismo mundial, mas inserem-se nele de maneira diferenciada. A história, por sua vez, aparece na rica contextualização dos quatro trabalhos, relacionados à cadeira de Sociologia I da Universidade de São Paulo (USP), ao Centro de Estudos de Sociologia Industrial e do Trabalho (CESIT), também da USP, à Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) da Organização das Nações Unidas (ONU), ao Instituto Latino-Americano e do Caribe de Planejamento Econômico e Social (ILPES), ligado à CEPAL-ONU, e ao nascimento da ciência política no Brasil.
Last but not least, Karim compara, em quase todos os capítulos, as obras de Cardoso com a de outros cientistas sociais: notadamente, Maria Sylvia Carvalho Franco, Ruy Mauro Marini e Wanderley Guilherme dos Santos. O recurso só não sendo utilizado quando discute a tese de livre docência do sociólogo. O procedimento é muito sugestivo e original; não tanto em razão de comparar autores, mas por comparar um autor com diversos interlocutores que teve ao longo de sua trajetória intelectual. Fica-se assim menos enfurnado numa trajetória intelectual, além de se perceber melhor a dinâmica do seu pensamento, questões decisivas para alguém que dialoga tanto e tão bem com a conjuntura, como é o caso de Cardoso.
Um problema – inevitável – de tal abordagem é que os escritores vão se sucedendo, enquanto o escritor que é tema do livro se mantém. Ou seja, não há propriamente equilíbrio na comparação com Cardoso. Outra questão sobre a qual se poderia indagar diz respeito aos autores que decide confrontar. Mais especificamente, se poderia querer saber se são da mesma estatura ou, usando uma metáfora pugilística, de igual categoria de peso. De qualquer maneira, uma das principais características de nosso boxeador–sociólogo foi ter se batido em tantos ringues, o que trouxe tanto ganhos como perdas para a sua obra.
Uma questão mais substantiva diz respeito a ser ou não a obra de Cardoso, dos anos 1960 e 1970, exemplo de sociologia histórica, o que talvez seja o argumento mais rico e até mais importante do livro. Karim nota, de maneira cuidadosa, que trabalha a relação do seu autor-tema com a sociologia histórica por último, já que dos diferentes vínculos que cultivou ao longo de sua trajetória este é o mais distante. Até porque o professor uspiano não escreveu suas obras, da década de 1960 e 1970, preocupado ou mesmo consciente que estivesse fazendo sociologia histórica. Por sua vez, Reinhard Bendix e Barrington Moore Jr. – os sociólogos históricos que se destacam no livro – tampouco deram maior atenção ao que o sociólogo brasileiro escreveu quando elaboravam paralelamente obras como Construção nacional e cidadania (1964) e Origens sociais da democracia e da ditadura (1966), que ajudaram a criar tal subárea da sociologia. Nesse sentido, pode-se considerar esses empreendimentos sociológicos como paralelos, mas não coincidentes.
Ou, em termos mais fortes, é possível avaliar que é o analista, Karim Abdalla Helayel, que faz dos trabalhos de Cardoso, dos anos 1960 e 1970, sociologia histórica. Para o próprio escritor talvez fosse mais fácil considerar seus livros como de sociologia do desenvolvimento. Em termos ainda mais fortes, é possível defender que enquadrar a obra de um dos autores de Dependência e desenvolvimento na América Latina como sociologia histórica corresponde a uma tentativa de legitimá-la de acordo com os parâmetros da subárea, tais como elaborados no centro. Tal ponto de vista faz com que, quando muito, se possa queixar da não presença de autores originários da periferia no cânone da subárea e em outros cânones, mas se continua a olhar a sociologia histórica e o mundo a partir do centro, como ocorre inclusive com boa parte dos chamados estudos coloniais.
Em compensação, a partir da obra de Cardoso é possível perceber também até que ponto são arbitrárias as divisões e subdivisões disciplinares, o que, entretanto, não faz com que possamos prescindir inteiramente delas. Para aqueles envolvidos com o ILPES fazia sentido se entenderem como “sociólogos do desenvolvimento”, até porque o “desenvolvimento” era a grande questão do segundo pós-guerra latino-americano. No entanto, o desenvolvimento foi, de início, entendido nos termos da teoria da modernização, se acreditando que todas as sociedades deveriam encontrar, no final do caminho, uma organização social similar a dos países do Atlântico Norte. A grande contribuição do sociólogo estudado por Karim e de outros com os quais dialogou, como o economista Celso Furtado, foi precisamente a de indicar a existência de assimetrias entre centro e periferia que tendem a se reproduzir se não forem deliberadamente modificadas.
Nessa referência, se deve “sociologizar” e “historicizar” a própria “sociologia histórica”. Se a sociologia histórica aparece como subárea, nos Estados Unidos dos anos 1960, muito influenciada pela teoria da modernização, ela vai progressivamente se transformando em contato com posições mais críticas (Delanty & Isin, 2003). De maneira significativa, tal trajetória é muito similar à da sociologia do desenvolvimento. Consequentemente, nem a sociologia do desenvolvimento, nem a sociologia histórica, devem ser tomadas como dados, mas como produtos de preocupações de determinados momentos históricos e situações sociais. Talvez seja possível até se estar na presença de algo como uma “forma objetiva”, que aproxima certos trabalhos independente de seus autores terem consciência dela.
É precisamente isso que indica Fernando Henrique Cardoso: um perfil intelectual. O mais importante na sociologia histórica é a “equação analítica” – teoria, história e comparação – subjacente à subárea. Por conta dela, o autor-tema do livro foi e é um bom praticante da sociologia histórica.
Nota
[1] Um bom exemplo dos estudos sobre Fernando Henrique Cardoso é o dossiê “Fernando Henrique Cardoso, cientista social: modos de ler”, do n. 123 (2022) da Novos Estudos CEBRAP, organizado por Karim, Leonardo Belinelli de Britto e Pedro Luiz Lima.
Referências
BOTELHO, André. (2007). Sequências de uma sociologia política brasileira. Dados, v. 50, n. 1.
DELANTY, Gerard & ISIN, Engin. (2003). Handbook of Historical Sociology. London: Sage.
RICUPERO, Bernardo. (2000). Caio Prado Jr. e a nacionalização do marxismo no Brasil. São Paulo: Editora 34.
