
É com grande satisfação que chegamos à sexta semana da Série Mitomanias/Mitologias, dedicada a explorar tramas intersubjetivas de nossas práticas sociais. Nesta semana, discutiremos os temas Jão, cachorros e filmes infantis. No ensaio “A canção de Diadorim”, Silviano Santiago reflete sobre a performance de um astro em ascensão na música brasileira, examinando a dialética entre clipe e show na atuação de Jão. Fica a pergunta: Jão é autêntico? Dayana Façanha, por sua vez, assina o texto “Cachorro”, no qual investiga as transformações nas relações contemporâneas entre humanos e cães. O que pode parecer uma relação trivial entre duas espécies distintas revela, na verdade, contornos simbólicos significativos, a partir do qual o cachorro diz muito sobre nós e sobre a cultura em movimento. Já Emílio Maciel apresenta “Filmes infantis (ou Austen com Tocqueville)”, relacionando o multiculturalismo neoliberal com as produções infantis dos últimos vinte anos. Tanto adultos quanto crianças assistem a esses filmes, onde novas heroínas e heróis, condutas modulares, valores e expectativas são transmitidos — seja nas salas de cinema ou nas telas de casa. A questão a se verificar é: quais são esses códigos comunicados?
Ademais, a BVPS aproveita para reforçar o convite para o lançamento do novo livro de Silviano Santiago, O grande relógio: A que hora o mundo recomeça (Editora Nós), que ocorrerá hoje, às 19 horas na Travessa Ipanema, Rio de Janeiro.
A série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.
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Filmes infantis (ou: Austen com Tocqueville)
Por Emílio Maciel (UFOP)
Lançado no ano/marco inicial da geração millennials, Toy Story, da Pixar, foi a primeiro filme de animação inteiramente feito no computador, angariando inúmeras loas e prêmios de público e crítica. Indicado já em 1995 para o Oscar de melhor roteiro original, proeza inédita entre filmes do gênero, e selecionado uma década depois para o cânone da Library of Congress, sua trama gira em torno das angústias e agruras do boneco cowboy Woody, que, de brinquedo favorito do menino Andy, começa a ter sua primazia ameaçada com a chegada do astronauta Buzz LightYear, artefato de última geração que insiste em ignorar sua condição de boneco. Comprando rapidamente a antipatia de todos os outros brinquedos, Buzz torna-se, a partir daí, o termo-pivô de uma série de trepidantes peripécias, até ser forçado pela própria necessidade a desenvolver o senso cooperativo que o salvará, naquela que é também a virada mais perigosa da trama, quando todos se descobrem às voltas com o mini-vilão Sid, o garoto perverso da casa ao lado, cujo hobby é desmontar e remontar brinquedos. Até que tudo volte ao normal, porém, e a turma possa chegar em segurança à nova casa do dono, uma pequena dança de cadeiras emocional – deflagrada primeiro pela expectativa de degola latente numa festa de aniversário antecipada, mas tendo seu ápice quando Buzz é por um triz quase jogado pelos ares pelo pequeno malvado –, acabará consolidando de vez a primazia de liderança de Woody enquanto macho alpha benigno, desaguando num final onde, forçados a formar uma frente ampla para se safar do menino Sid, os bonecos reconhecem no velho adágio do ajudai-uns-aos-outros uma condição sine qua non de sobrevivência. Funcionando assim como um bem-vindo alívio cômico para o tom sufocante da história, é uma pausa cujo tom meliorista, no fim das contas, será, no entanto, leve mas incisivamente perturbado pelo acachapante plot twist da cena final, quando Woody e Buzz trocam risos amarelos diante da chegada do novo presente de Andy, um adorável cachorrinho de carne e osso, que ameaça escantear de vez todos os brinquedos.
Elevado a tópica mais ou menos recursiva em vários filmes americanos pós-2008, de Eastwood à série Cavaleiro das Trevas, esse olhar de cumplicidade face o perigo – cifra muitas vezes para a consciência da própria fragilidade da ordem social e simbólica – reaparece em Toy Story quase como um modelo miniaturizado de inovação disruptiva, capaz de condenar de um só golpe à total obsolescência vastos setores de atividade econômica, e chancelar, de permeio, a derradeira pá de cal na utopia keynesiana do Pleno Emprego. Repaginado com o peculiar antiantropocentrismo dos primeiros tempos da Pixar, com seus filmes onde os humanos são apenas o pano de fundo para as aventuras de animais, monstros ou seres de plástico e madeira, é curioso perceber, ainda, como o que teima aqui em dar as cartas, mesmo em agentes não-humanos, é quase sempre a ideia de átomos movidos pela moeda corrente do autointeresse, tornado, entretanto, progressivamente mais esclarecido à medida que incorpora aos poucos o instinto da ajuda mútua, convertido, aliás, em ativo essencial para enfrentar as seguidas rodadas eliminatórias em que hoje parece resumir-se a vida no Capitalismo Tardio, sob o jugo implacável da Malvada Rainha T.I.N.A (“There’s no alternative”). Acomodado muito significativamente na rubrica “infantil e família”, não há dúvida que, para além de todo apuro técnico e inegável esplendor visual, as insinuações e ressonâncias nada suaves desse jogo-de-soma-zero conseguem tocar, com mão leve, uma tecla sensível do Espírito da Época, não só colocando no centro de tudo a sombra da caducidade programada, como, na mesma tacada, tentando, como podem, desacelerar um pouco o relógio da história, ao esboçar uma precária zona de equilíbrio capaz de relativizar/atenuar minimamente o desfecho do perde-ganha. E aí está o ponto: que isso ocorra no filme seminal da Pixar ao ônus de uma reconciliação in extremis, e não mais que provisória – cuja precariedade força a cena final a reinstaurar, do modo mais ladino possível, a sensação de asfixia – talvez ajude a explicar como, com sua linguagem bífida e elusiva, repleta de piscadas de olhos para os desassossegos parentais, Toy story se mantenha, na conta final, tanto como um signo de referência quanto como um ponto fora da curva, fadado, muito apropriadamente, a poucos anos depois ceder vez à nova safra de princesas empoderadas do conúbio Disney/Pixar, vertido nos últimos 15 anos em filão hegemônico da produtora fundada por Steve Jobs.
Sinal dos tempos: damos adeus ao estudado e cerebrino dead-pan do misantropo-mor Randy Newman e abrimos o coração para power ballads catapultadas por saltos modulatórios melodramáticos, elevados a cartão de visitas das novas heroínas da Disney, versão digital, que certamente já não ficarão mais esperando, em estado comatoso, pelo beijo do príncipe. Pelo contrário: como turbinadas variantes modernas do Ulisses de Dante, a quem o far niente da Ítaca só consegue causar comichões de tédio e ansiedade, personagens como Moana, Merida e Elza & Ana de Arandel, têm, não por acaso, no dar-de-ombros diante da autoridade sua marca registrada, desenhando périplos que, se de um lado constituem uma nada disfarçada reatualização da boa e velha jornada do herói – perfazendo um encontro voluntário e bem-sucedido com um perigo alquimicamente convertido em bem comunitário (num arco que cobre desde a prosperidade da ilha até o direito das moças de permanecer solteiras e/ou viver sozinhas…) – de outro, pouco fazem para disfarçar certo viés autocongratulatório sub-reptício, variantes que são daquela atávica compulsão do espírito ocidental de ir além de si mesmo – sobretudo quando se depara com um aviso de “No trespassing”. E o que é melhor: conseguir também voltar para contar a história, ao contrário do herói de Dante. Surfando como um peixe na água na maré do multiculturalismo neoliberal, com seu franco e desabalado louvor a esses raros seres de exceção capazes de pegar pelos chifres seus próprios destinos (e de quebra, quem sabe, também entortar um pouco para melhor o curso de sua respectiva comunidade), é possível que o grande ponto cego desses novos filmes-de-mulher, versão kids, seja a flagrante condição de excepcionalidade de suas protagonistas, promovendo por isso mesmo quase ao status de feito heroico prerrogativas que deveriam, em tese, ser dadas como certas, ao menos desde os fins do XVIII – quando, salvo engano, com a emergência e consolidação da família nuclear burguesa, o casamento passa a visar, como diria Frederico, o grande, a “autorrealização moral de duas pessoas que se amam”. O que, desnecessário dizer, traz implicada também a sua necessária ilegitimidade sempre que tal condição não se cumpra. No universo das novas princesas da Disney, porém, o fato de que, até onde se saiba, nenhuma delas ter lido Blumenberg ou Koselleck, nem parecer estar especialmente ávida para encontrar logo um noivo, não é incompatível com o forte travo de apologia implícita no “plus ultra”, em moto contínuo, a que esses filmes conclamam, descrevendo, em seu arco narrativo, o próprio processo pelo qual uma transgressão se erige, em canto e fala, em nova lei fundadora. E isso em que pese, claro – vendo a coisa agora no ponto de vista dos adultos na sala, assistindo às audácias e estrepolias de Moana e sua turma – os não poucos paradoxos pragmáticos ativados por essas novas figuras modelares, fornecendo às crianças todo o álibi de que precisam para não levar mais a sério as proibições do “papai” – retratado, aliás, muito convenientemente, como autoridade em declínio, em 9 entre 10 desses filmes.
Padrão interessante demais para ser só arbitrário, seu escopo vale, por isso mesmo, quase como uma sinopse ad usum delfini, dos famigerados “impasses do Ocidente”, de Homero em diante, ressalvado o modo como, não raro, o inevitável “instruir e deleitar” dessas histórias para criança volta saturado de fora a fora pelas tais piscadas de olho; um tique bastante evidente, por exemplo – para citar um caso que é por si só um pequeno tour de force de sutileza narrativa – quando, ao melhor estilo das fadas sensatas da senhorita Austen, a Garbo platinada Elza de Arendel faz soar todos os sinais de alerta quando descobre o plano da irmã caçula de se casar com o rapaz bonitão que acabara de conhecer. Descontado, é claro, o rompante à Carrie, a estranha que daí se segue, com todo o reino de Arendel condenado pela ira de Ana a um inverno sem fim, um ponto que permanecerá sem resposta, mesmo depois que as pontas se juntam, diz respeito à sustentação à longo prazo da aposta não-hetero-normativa dessa e de outras heroínas, cujos desenlaces soam, quase sempre, como variações diferidas da sequência final de “Rainha Cristina” (Mamoulian, 1933). Mas não nos precipitemos: se chegam por vezes a até dar de barato o modelo da família nuclear, é certo também que, como contrapeso esperado e quase necessário a tais linhas de fuga, está a própria compleição de divas hollywoodianas dessas lindas e longilíneas heroínas; traço que gera, de pronto, também algumas dissonâncias apreciáveis com a nova safra de galãs feios das produtoras concorrentes, Dreamworks e Ilumination, a primeira com o cultuado ogro Shrek e a segunda com o indefectível arquivilão Gru (Despicable Me, 2010), hoje caminhando para o sexto spin-off de uma lucrativa franquia.
Não se trata propriamente de uma oposição: indo bem na esteira da valorização multiculturalista de tipos não convencionais e/ou (ex?)-marginalizados, com direito até a citação de Joyce no clip de abertura de Shrek, é possível que o dado mais intrigante desse veio, no caso de Gru, seja o modo nada disfarçado como, com sua coleção de traumas, vexames e ressentimentos mal digeridos, nosso astro soa por vezes como uma espécie de sobrevida mitigada dos imprevisíveis anti-heróis da hoje finada Nova Hollywood – mas só até ser devida (e spielbergianamente) calibrado com uma generosa injeção de sentimentalismo, capaz de converter em gente-com-a-gente um tipo que gosta de estourar balões de crianças. Ou isso, ao que tudo indica, é o que parece se dar quando, já no primeiro filme da série, esse avatar de Vidocq, com físico de lutador de telecatch e sotaque de Bela Lugosi, se vê transformado, em pouco menos de hora e meia, no devotado e desajeitado pai de um irresistível trio de órfãs, que precisarão, porém, esperar até o filme seguinte para encontrar a mamãe-helicóptero que merecem. A milhas de distância, portanto, da primeira Pixar – cujo incisivo subtexto político, para bons entendedores, operava quase como uma infiltração insidiosa no (falso) naufrágio-com-espectador da sala de TV –, é possível que boa parte do encanto narrativo dessas divertidas torções – de negativo a positivo, de potencial homem-bomba a papai coruja –, passe também pelo incontornável esgar de canto de boca que tende a acompanhar sua previsibilidade, feita sob medida, entre outras coisas, para garantir também um generoso estoque de cutucões cúmplices entre os adultos na sala, aqui e ali pontuados de leve por algum suspiro ansioso. Nada a espantar: afinal, num mundo em que, como já bem advertira um de seus mais lúcidos profetas, “filhos e amigos” constituem para muitos “a própria totalidade da espécie humana”, difícil subestimar o potencial de desafogo desses aparentes recuos táticos ao aconchego do lar, selando o necessário (e para Tocqueville, perigosíssimo) quiproquó final de “família” e “humanidade”, com todas as fartas doses de apatia moral que sempre vem no seu bojo. No contrapelo dos efeitos V trombeteados pelo Barthes dos anos 1950, são recuos, não há dúvida, que passando ao largo do inquietante riso amarelo do boneco Woody, podem até valer como uma distração defensável para pais que sequer tem certeza se estarão empregados no próximo semestre, e para os quais itens como compaixão e empatia, portanto – assim como todo o considerável gasto energético que daí advém –, tornam-se como bem mostra o agente Gru, recursos tão mais valiosos quão mais escassos e hiper-seletivos se provam – na mesma e exata medida em que, sob o pano de fundo de um Novo Normal ora pautado/ritmado por sucessivas rodadas eliminatórias, é o próprio telos e modus operandi da classe média, tão caro à velha Disney, que começa a se parecer cada vez mais com um imenso cemitério de brinquedos.
Sobre o autor
Emilio Maciel é professor associado no Departamento de Letras da UFOP. Atua principalmente nas seguintes áreas: literatura comparada, teoria da literatura, teorias do romance, lírica moderna, cinema, desconstrução e música popular.
