Série Mitomanias/Mitologias | Cachorro, por Dayana Façanha

É com grande satisfação que chegamos à sexta semana da Série Mitomanias/Mitologias, dedicada a explorar tramas intersubjetivas de nossas práticas sociais. Nesta semana, discutiremos os temas Jão, cachorros e filmes infantis. No ensaio “A canção de Diadorim”, Silviano Santiago reflete sobre a performance de um astro em ascensão na música brasileira, examinando a dialética entre clipe e show na atuação de Jão. Fica a pergunta: Jão é autêntico? Dayana Façanha, por sua vez, assina o texto “Cachorro”, no qual investiga as transformações nas relações contemporâneas entre humanos e cães. O que pode parecer uma relação trivial entre duas espécies distintas revela, na verdade, contornos simbólicos significativos, a partir do qual o cachorro diz muito sobre nós e sobre a cultura em movimento. Já Emílio Maciel apresenta “Filmes infantis (ou Austen com Tocqueville)”, relacionando o multiculturalismo neoliberal com as produções infantis dos últimos vinte anos. Tanto adultos quanto crianças assistem a esses filmes, onde novas heroínas e heróis, condutas modulares, valores e expectativas são transmitidos — seja nas salas de cinema ou nas telas de casa. A questão a se verificar é: quais são esses códigos comunicados?

Ademais, a BVPS aproveita para reforçar o convite para o lançamento do novo livro de Silviano Santiago, O grande relógio: A que hora o mundo recomeça (Editora Nós), que ocorrerá hoje, às 19 horas na Travessa Ipanema, Rio de Janeiro.

série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.

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Cachorro

Por Dayana Façanha

Quando criança eu tinha medo de cachorro. Chegava a ter pesadelos, e uma vez abri o berreiro porque alguém vestiu uma fantasia, de corpo inteiro, de cachorro. Era caramelo ou marrom. Na memória, acho que era minha mãe ao meu lado, tentando me consolar, dizendo alguma frase que não consigo mais decifrar, ou só me ouvindo, não sei. Ele não faz nada, não faz nada, diziam as pessoas que tinham cachorro quando viam criança com medo. Outra coisa comum onde eu morava, nos anos 90, na periferia de uma cidade no interior de São Paulo, era cachorro de rua. Cachorro solto, sem dono, cheirando alguma coisa na esquina, entrando no seu quintal se fosse aberto, correndo na sua direção quando você saía. Avançando era a palavra que usávamos. Ele avança. Avançou em fulana.

Nem todas as casas tinham lixeira na calçada, o que, aliás, era sinal de melhor condição material, e havia a preocupação de que cachorro rasgava lixo. Quantas vezes saíamos de casa e esbarrávamos no lixo rasgado e espalhado em frente ao portão. As pessoas xingavam o cachorro. Era uma vergonha se demorássemos para catar a sujeira. As mães instituíam o horário certo de botar o lixo lá fora, perto de quando o caminhão passava, para evitar os cachorros, e que bronca levávamos se perdêssemos a hora. Às vezes pegávamos o cachorro no pulo: sai, sai, sai, sai, sai, passa!

E se ele avançasse?

Eu costumava acordar do sonho quando ele pulava.

Na época eu só diria que eram cachorros, bichos de quatro patas, rabo, pelos no corpo e aquela coisa, as orelhas. Retomando as memórias, hoje, posso descrever um pouco mais. Os que eu conhecia, geralmente tinham pelo baixo e vinham em poucas cores, preto, marrom, ou manchados de preto e branco. Eram médios ou grandes e também os chamávamos de vira-latas. Adolescente, visitando outro bairro, descobri que havia um tipo felpudo-encaracolado, branco, chamado poodle. Gente um pouco mais remediada, tipo a síndica do prédio da Cohab e a irmã dela, tinham poodles, a pelagem aparada em vários formatos de pompom.

Outras raças de cachorro apareciam nos filmes hollywoodianos da sessão da tarde e então conversávamos sobre o que víamos na TV, são bernardos, labradores e huskies siberianos (na época, sem google, quase ninguém saberia escrever esse nome), dizendo que eram bonitos por causa dos olhos azuis. Cachorro com olho azul! De vez em quando alguém tinha um pastor alemão. Uma colega de escola tinha um par de rottweilers e passei na casa dela para vê-los, à distância. Era começo dos anos 2000 e na periferia começavam a falar muito de rottweilers, pitbulls e focinheiras.

Nos anos 90, ao menos na periferia, cachorro, quando tinha dono (não se falava em tutor) morava no quintal. Alguns tinham casinha de cachorro e coleira. Era comum a ideia de que cachorro podia ficar preso numa corda, que podia ou não ser longa, recebendo ordens do tipo vai deitar! Passa pra lá! O que comiam? Lembro de vizinhos que davam restos da comida de gente, separavam os ossos engordurados do frango. Em algum lugar havia a ideia de ração. Casa de gente que tinha cachorro ou gato cheirava diferente.

Neste começo de século 21, alguma coisa mudou. Em tempos de taxa da natalidade mais baixas, o cachorro virou um tipo de filho da casa. Vivemos pertinho, encostando pele com pelo, dividindo o sofá, o cobertor. Todos os dias levá-los para passear e parar para conversar com outros tutores (não se fala mais dono). Treinar ser sociável. Manter-se na mesma calçada, pelo bem do cachorro que quer brincar, sim, ele dá todos os sinais, e bater papo com o outro tutor, observar os cães se cheirando. O seu é ele ou ela? Que bonitinho. Ele é bonzinho? O meu é medroso. Dorme na cama? E se você não deixa dormir na cama, precisa explicar.

Hoje em dia, os cachorros são de todos os tipos e cores, com pelagens de todos os jeitos e tamanhos. A lista de raças popularizadas é infinita, e mesmo tutores de cachorros adotados sabem os nomes das misturas que compõem seus animais. Existe, em cada esquina, um lugar, uma salinha ou uma casa, que se chama petshop, oferecendo banho e tosa e outros produtos e serviços, entre necessidades e amenidades para cachorros. Às vezes alguém até pensa: trabalhar ali deve ser legal, porque trabalhar é difícil, porém cuidar de cachorro é tranquilo; mas não necessariamente. O que ouvimos dizer é que os salários são baixos, o ambiente de trabalho muitas vezes insalubre – salinhas quentes e apertadas, toda hora um xixi no chão para limpar –, e os tutores exigentes.

Hoje em dia, um cachorro pode ter uma gaveta ou alguns cabides no guarda-roupas das pessoas. Nada de cordas rústicas. Cada cachorro tem sua guia, ajustada a seu tamanho, tipo físico, e preferência por conforto. Tutores assim e assado preferem cachorros atléticos e guias minimalistas que favorecem a performance das articulações e músculos. Isso até foi usado em propaganda na TV, e me ficou na cabeça. Outros, talvez festivos, escolham modelos com bolsos e botões, rendas e estampas de acordo com a época do ano, natal, festas juninas etc. Intelectuais e ativistas dos direitos dos animais, talvez escolham tecidos antialérgicos, biodegradáveis, estampas minimalistas e paleta de cores coerentes. Confesso que escolhi a roupa de frio do meu cachorro com estampa de letrinhas porque em casa gostamos de livros, textos e cultura e pensamos que o cachorro compartilha nossa visão de mundo. O que você acha, pergunto. Ele mexe as orelhas, me encara um segundo, e desvia o olhar.

O cachorro diz sobre nós e sobre a cultura em movimento. Insisto na palavra cachorro, o bicho, quatro patas, rabo, focinho e orelhas comunicativas. Hoje em dia ficou comum dizer pet. Em parte porque “pet” engloba uma categoria mais ampla de bichos de estimação, gato, coelho, passarinho? Sim, mas não só. Pet se tornou segmento de produtos, serviços e nicho de mercado. Itens do dia a dia podem ser: ração de vários tipos, marcas e sabores, frango, carne, mandioquinha; mais barata, mais cara, caríssima, antialérgica, impagável. Temos petiscos, biscoitinhos, antipulgas e carrapatos, suplementos de vitaminas e nutrientes, vacinas obrigatórias e outras eletivas. Tapetes higiênicos, rolos de saquinho para catar o cocô na rua (não que todo mundo pegue), shampoos normais, shampoos especiais, hidratantes para pele seca. Não sei onde foram parar os poodles, mas shih tzus e lhasas estão por toda parte agora e são conhecidos pela pele sensível. É comum que tenham planos de saúde pet. Para tutores ocupados, ou apenas para que tenham um dia livre, existem vários serviços de hotel, creches e passeadores de cachorro. Para além dos itens cotidianos, temos, na categoria do que hoje se costuma chamar premium: cervejas, bolos de aniversário, panetones e biscoitos cuja aparência enganaria crianças, tudo adaptado para o seu pet.

Se nós gostamos, eles também devem gostar. E por que não?

Tá, mas qual o contexto?

Podemos dizer que, do ponto de vista dos direitos dos animais, esse raciocínio empático fez crescer a conscientização sobre a promoção de níveis básicos de bem-estar dos animais, se opondo a maus tratos, criando projetos de adoção consciente, abrigos e serviços de saúde gratuitos ou de baixo custo. E se o cachorro faz parte do seu dia a dia e mora dentro de casa, observe seus horários, cuidado com a comida e as quantidades que oferece; mantenha-o saudável e com qualidade de vida. É um bicho como você, merece bem-estar e saúde. O que não significa que você sabe tudo sobre ele e sobre como ele gostaria de levar a própria vida – o que me parece ser a graça da convivência com o cachorro, dois diferentes em contato, em estado de negociação. Quem é você? Posso me aproximar? Pode me aceitar e me tolerar?

A proposta em torno do pet, entretanto, visa tirá-lo do lugar do estranhamento, do sonho, transformando-o num objeto sobre o qual supostamente sabemos tudo, e decidimos tudo por meio da comparação com nossas próprias necessidades, nem sempre tão indispensáveis, distorcidas por uma bagagem de angústias, lacunas e ideologias. Fazer do pet um consumidor em potencial, necessitado de coisas e mais coisas, sempre uma coleira nova, um potinho diferente, um guarda-ração mais avançado, lançado a cada seis meses, automatizado, produtos alimentícios sazonais, com cheiro e aparência de comida de gente, porque o cachorro também quer. O cachorro quer?

Entende? Começa a ficar confuso, caro, extenso na fatura do cartão de crédito e até na cobrança das expectativas sociais. Uma mulher talvez tenha a oportunidade de pensar e escolher não ser mãe, por motivos delicados e complexos, ou apenas por que não. Mas, se tem cachorro, a indústria pet quer chamá-la de mãe e enviar lembretes e convites para cumprir uma série de rituais, que talvez não interessem, e celebrar o segundo domingo de maio, o que talvez não estivesse nos planos. O problema não está em si em ter um bichinho de estimação e talvez dizer que ele equivale ao seu filhinho, e conversar com ele, compartilhar com ele sua história. Isso é lúdico e compõe a história milenar de curiosidades e intercâmbios entre humanos e outros animais. O problema é o sequestro da brincadeira em favor da massificação de uma experiência dinâmica e variável a fim de metrificar e escalar vendas e lucros, o máximo possível, até explodir a curva, rápido, logo, antes que o mundo acabe.

Minha irmã me ajudou a perder o medo e a conviver com cachorros. Gosto de pensar nele como o bicho com quem optamos por dividir a casa – e sobre quem temos responsabilidade de cuidado –, que cruza o olhar com o meu e me coloca em estado de interrogação e estranhamento: quem exatamente é você e como você veio parar aqui? Amor, você viu que tem um cachorro aqui na sala? Foi você que trouxe? Ele responde: cuidado que ele é bravo! E nós dois rimos. E repetimos a brincadeira uma centena de vezes. Talvez a graça com essas frases venha da vivência distanciada dos anos 90. Se tenho cachorro em casa, então como foi que ele entrou?

Somos parecidos: ele se estica todo de manhã antes de sair da cama, gosta de rotina, toma água quando acorda, tem horários para dormir, comer e passear. Tem um senso de companhia e de rituais: se trabalho de casa e volto para o escritório depois do almoço, ele, que também já comeu, aparece na porta, me envia um olhar inquisitivo, com a cabeça um pouco para o lado, indicando compreensão ou incompreensão com o movimento das orelhas. Às vezes respondo falando, às vezes com os olhos. Ele entra no escritório, olha para a poltrona, olha para mim, eu o ajudo a subir, ele se enrola e dorme, às vezes ronca enquanto dou aulas. E eu olho para ele com vontade de rir.

Às vezes o olhar dele é mais fixo e inquisitivo. Parece um ciclope. Como é que um cachorro pode ser inquisitivo? Este que conheço quase não late, por isso, talvez, eu tenha aprendido a decifrar seus olhares e posturas. Esse olhar é mais duro, com os olhos arregalados. Acho que a postura dele fica mais reta, precisa, sem a cabecinha para o lado, as orelhas coladas para trás. Esse é um olhar demandante, de segunda-feira pós-feriado prolongado, pedindo a rotina e a preguiça da tarde do domingo.

Como é que ele sabe e o que ele pensa? Como definiria prioridades?

Na verdade, como é que ele não entende que não é mais domingo, que nem sempre é possível. Não percebe que está tudo diferente? Hoje não é domingo, eu digo. Ele se mantém rígido.

Às vezes estamos só nós dois em casa e a fixidez do olhar dele é tão forte que tira minha concentração e preciso falar: escuta, estou ocupada, tenho que preparar essas aulas e depois vou dar aulas, tá bom? Você vai ter que esperar. Às vezes ele cede, bufa, e deita perto de mim. Ô bicho! Me faz rir, ganha um carinho.

Somos diferentes e às vezes tento usar os códigos dele. Deito no chão, imito o jeito como ele fareja ou algum barulho que ele faz, o jeito dele de bocejar. Às vezes ele gosta e deita de lado, me dá o pescoço para ganhar carinho, e brinca com as minhas mãos. Às vezes ele não gosta, ou não sei o que é, então levanta e vai embora, muda de lugar e me olha de longe. Me faz rir muito. Pergunto se ele não tem coração. O cachorro nos mantém brincantes.


Sobre a autora

Dayana Façanha é doutora em história social pela Universidade Estadual de Campinas, com pesquisas na intersecção entre história e literatura. Interessa-se por debates contemporâneos e educação de adultos. É mediadora de clubes do livro em inglês.

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