
Carolina Maria de Jesus não entrou no mundo pela sala de visitas, mas pelo quintal. Suas obras indicam o esforço de construção de um self e de uma subjetividade coletiva subterrânea, marcada pela escassez de oportunidades e por desejos não realizados. Apesar das adversidades e da falta de reconhecimento em vida, contudo, agora não restam dúvidas do quanto ela merece ser lembrada. Nesse ensejo, a Coluna Primeiros Escritos publica hoje o ensaio “A tua filha é poetisa: a construção de si nas memórias de Carolina Maria de Jesus”, assinado por Thayla da Silva de Oliveira (PPGSA/UFRJ). O texto é resultado do seu trabalho de curso na disciplina “Brazil como Cópia”, ministrada por André Botelho no PPGSA/UFRJ, no primeiro semestre deste ano.
A tua filha é poetisa propõe uma análise do livro póstumo Diário de Bitita (1986), publicado originalmente na França sob a organização das jornalistas Maryvonne Lapouge e Clélia Pisa. Thayla de Oliveira foca na construção poética da subjetividade individual de Carolina Maria de Jesus através de suas memórias marginais e a influência cosmopolita em sua trajetória de vida, considerando a interseção entre raça, gênero e classe presente em sua narrativa autobiográfica enquanto um eco das vozes uníssonas de detentores dos mesmos marcadores sociais.
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“A tua filha é poetisa”: a construção de si nas memórias de Carolina
Maria de Jesus
Por Thayla da Silva de Oliveira (PPGSA/UFRJ)
Creio que a escolha das palavras certas está relacionada, ou parte mesmo, da subjetividade e também da experiência com a linguagem que a escritora, o escritor têm. A minha linguagem literária é fruto da minha subjetividade, que é formada na vivência, na experiência de várias condições.
Conceição Evaristo
Nascida em 1914 na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus se tornou um grande sucesso na primeira metade da década de 1960 graças à publicação de Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), obra na qual a escritora “narra as dores da miséria a partir de sua própria experiência na favela do Canindé em São Paulo” (Oliveira, 2023: 8). Embora a sua popularidade tenha sido atrelada a registros das angústias experienciadas em sua condição socioeconômica de mulher negra e pobre, Carolina produziu manuscritos que abrangem uma ampla gama de gêneros e estilos, tais como romances, poesias, novelas e canções.
Dentre suas obras, abordaremos aqui seu livro póstumo Diário de Bitita (1986), originalmente publicado na França sob a organização das jornalistas Maryvonne Lapouge e Clélia Pisa no ano de 1982 e traduzido para o português quatro anos depois (Machado, 2018). Partindo dos pressupostos de que a) transmitir memórias através da escrita “é quase sempre recurso de distinção social e poder simbólico, sobretudo numa sociedade em que as práticas letradas costumam ser privilégio de classe” (Botelho, 2021: 707); e b) escrever é “um ato de cuidado de si” (Botelho; Hombeeck, 2022: 39), este ensaio explora a construção poética da subjetividade individual de Carolina Maria de Jesus através de suas memórias marginais e a influência cosmopolita em sua trajetória de vida, considerando a interseção entre raça, gênero e classe presente em sua narrativa autobiográfica enquanto um eco das vozes uníssonas de detentores dos mesmos marcadores sociais.
Importante salientar que aqui as memórias de Carolina de Jesus são consideradas marginais em oposição ao perfil de escritores memorialistas descrito por Botelho (2020), pois, mesmo com a fama e o sucesso de vendas de seu primeiro livro, a autora não ascendeu socialmente. Dessa forma, embora a sua escrita não parta de uma posição privilegiada, ela ressalta “a importância de memórias subterrâneas que, como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas, se opõem à ‘memória oficial’, no caso a memória nacional” (Pollak, 1989: 4).
Bitita: a menina mulher poetisa
Em Diário de Bitita, Carolina de Jesus descreve acontecimentos que vão do início de sua infância até aproximadamente seus 20 anos[1]. Composto por vinte e dois capítulos, o livro contém memórias que tratam majoritariamente das suas percepções acerca da vulnerabilidade socioeconômica na qual viveu e das dinâmicas sociais de diferenciação e discriminação de raça e gênero, além das relações familiares da narradora. A pobreza possui um papel importante na narrativa, pois é uma das principais lentes através das quais Carolina enxergava o mundo.
No entanto, a obra não é apenas uma narração de fatos concretos. Estamos falando de uma escrita na qual ficção e poesia se misturam à realidade, e de um exercício não apenas de contação de histórias, mas de construção de si. Ao revisitar o passado da menina, a mulher inventa a si mesma no curso de sua história. Carolina, a adulta que conhecemos em Quarto de despejo, que possuía uma visão crítica de mundo e se concebia enquanto escritora, tece sua criticidade e artisticidade como características inatas.
Este processo se dá de forma mais clara no capítulo 7, intitulado “A família”, no qual ela escreve:
Quando a minha mãe chegou do trabalho, não me ouvindo chorar, foi averiguar. Eu estava inconsciente. Minha mãe pegou-me e levou-me ao médico espírita, o senhor Eurípedes Barsanulfo. (…) Minha mãe queixou-se que eu chorava o dia e noite. Ele disse-lhe que o meu crânio não tinha espaço suficiente para alojar os miolos, que ficavam comprimidos, e eu sentia dor de cabeça. Explicou-lhe que, até aos vinte e um anos, eu ia viver como se estivesse sonhando, que a minha vida ia ser atabalhoada. Ela vai adorar tudo que é belo! A tua filha é poetisa; pobre Sacramento, do teu seio sai uma poetisa. E sorriu (Jesus, 1986: 64-65).
Ao afirmar que, diagnosticamente, estava fadada a viver imersa em sua imaginação e adorar o belo, a ficção é utilizada como ferramenta central para a construção de um destino de poetisa. Neste fragmento, sua dor física não é apenas um sintoma patológico, mas um prenúncio de seu pensamento artístico-literário, como revelado durante a consulta. Por meio destas palavras podemos inferir que a escritora e poetisa Carolina Maria de Jesus não o era meramente por uma escolha de transpor seus sentimentos e suas criações imagéticas para o papel, mas sim por uma inclinação natural e inevitável; ou seja, por uma característica elementar em sua subjetividade.
Segundo Moreira (2023: 95), “a escrita de si traz esse sentimento de sinceridade e também da realidade. É caracterizada por ser em primeira pessoa e as experiências contadas, ficcionais ou reais, abarcam as mais diversas memórias”. De modo complementar, se, para Botelho e Hombeeck (2022), a escrita é uma forma de autocuidado e de invenção de um self, Carolina elaborou para si um self poeta. Esta construção, contudo, se faz mais clara se nos atentarmos a um pequeno detalhe: as características psíquicas pontuadas pelo senhor Eurípedes Barsanulfo perdurariam até os 20 anos de Carolina, a idade da última memória narrada. Nesta memória final, a autora expressa o seu entusiasmo com uma viagem e mudança definitiva para a cidade de São Paulo em meados dos anos 1930.
Em outros dois capítulos, “As madrinhas” e “A festa”, podemos ver como o self poeta se manifesta em sua percepção da realidade. Em um trecho, ela diz: “Para mim o mundo consistia em comer, crescer e brincar. Eu pensava: o mundo é gostoso para viver nele. Eu nunca hei de morrer para não deixar o mundo” (Jesus, 1986: 17). Em outro, escreve: “Eu achava o mundo feio e triste, quando estava com fome. Depois que almoçava achava o mundo belo” (Jesus, 1986: 25).
A despeito da insegurança alimentar, que entristecia seus dias, Carolina, fadada a adorar tudo aquilo que fosse belo, utilizava de sua imaginação poética para adorar as alegrias de sua vida, marcadas, de um lado, pela leveza e ludicidade da brincadeira infantil, e, de outro, pela seguridade alimentar. Assim, a menina mulher poetisa, conhecida por seus diários de fome, optou por arquitetar para si uma história de juventude na qual o triste e o belo coexistem, sem que o primeiro assumisse o protagonismo, graças à sua habilidade de “viver como se estivesse sonhando”.
“Há sempre algo a escravizar o mundo”: o embate entre indivíduo e sociedade
Ao falar sobre o memorialismo modernista mineiro, exemplificado por autores como Pedro Nava e Murilo Mendes, Botelho (2021) chama a atenção para a representação do conflito entre indivíduo e sociedade evidenciados pelas memórias de Nava. Se tratando das memórias de Carolina de Jesus, este conflito também está presente. Em Diário de Bitita, ele aparece por meio de relatos da identificação primária, marcada pelo sentimento de incompreensão, das desigualdades sociais, como no fragmento abaixo, uma das primeiras observações da autora sobre a população rica de Sacramento:
Embora elas tivessem casas para morar e alugar, roupas bonitas, comida em abundância, automóvel, banheiros com água quente para tomar banho todos os dias. Vivendo com conforto, ainda pediam o auxílio dos santos. Puxa! Será que os ricos não se contentam com o que têm? (Jesus, 1986: 23).
Durante a vida adulta, Carolina usava diários como uma forma de denunciar as desigualdades sociais observadas e sentidas por ela em São Paulo. Trechos como esse evidenciam o olhar crítico da mulher adulta refletido na menina que não entendia o descontentamento dos ricos com a abundância ao passo em que os pobres viviam com escassez, o que é demonstrado nesta outra passagem:
Quando a minha madrinha Matilde não tinha nada em casa para comer, ela pegava um prato vazio e um garfo e ficava de pé na porta principal de sua casa, fingindo que estava comendo e dizendo: Faço isto para os meus vizinhos verem que eu não passo fome, porque sempre existe um vizinho de língua grande (Jesus, 1986: 21).
Em outro momento, Carolina observa que “o homem pobre deveria gerar, nascer, crescer e viver sempre com paciência para suportar as filáucias dos donos do mundo” (Jesus, 1976: 34). Mais adiante, constata que, apesar de criança, “já estava compreendendo que o mundo não é a pétala da rosa[,pois] há sempre algo a escravizá-lo” (Jesus, 1986: 64). Embora pareçam reflexões diacrônicas, ambos os trechos são um vestígio do self construído e de uma ligação entre infância e vida adulta, o que fica evidente com o seguinte fragmento de Quarto de despejo:
13 DE MAIO DE 1958 Choveu, esfriou. E o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos. E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual — a fome! (Jesus, 2014: 26).
Na narrativa construída, a criança nascida poucas décadas após a abolição da escravatura e da Proclamação da República brasileira, a partir de sua vivência, compreendia que algo da estrutura colonial e escravista ainda persistia. De fato, segundo Lilia Schwarcz (2022), a passagem de colônia para nação foi um processo conservador no Brasil, pois a estrutura social da colônia foi mantida. Dessa forma, o que a menina Carolina observou se tratava da manutenção da hierarquia colonial. No entanto, a adulta amadureceu a reflexão e constatou que a fome que assolava a população negra e pobre era o algoz do século XX. Em meio ao seu conflito individual com as estruturas sociais produtoras e reprodutoras de desigualdades, a mulher abre o caminho para a sua maturidade intelectual através das memórias da menina.
“Como eu gostava dos pretos e tinha dó deles”: uma experiência coletiva
Um elemento de extrema valia presente nas memórias de Carolina de Jesus é a experiência coletiva da população negra e pobre refletida em sua narrativa. Com um olhar sensível, crítico e acurado, a autora faz ponderações sobre o racismo, observado, sobretudo, em episódios violência policial, e a interseção entre racismo e sexismo na vida de mulheres negras.
Ao longo da obra, ela compartilha alguns questionamentos, como dúvidas acerca do possível mal causado aos portugueses pela população negra para que eles nutrissem ódio pelos negros, que eram acompanhadas da incompreensão deste sentimento de fúria da população branca e rica para com a população negra e pobre.
A partir da perspectiva da criança, o self da menina mulher poetisa surge novamente para realizar denúncias sobre o racismo no curso da história de forma poética e emotiva. Certo dia, por exemplo, após ser chamada de ladra por uma vizinha branca que a pegou catando algumas mangas em uma árvore de seu quintal, Carolina lhe respondeu que “os brancos também são ladrões porque roubaram os negros da África” (Jesus, 1986: 51). Em seguida, refletiu: “Eu pensava que a África era a mãe dos pretos. Coitadinha da África que, chegando em casa, não encontrou os seus filhos. Deve ter chorado muito” (Jesus,1986: 52).
Em sua história, o racismo vivenciado e presenciado aparece como elemento constituinte de sua subjetividade, porém, os fatos narrados não dizem respeito apenas à sua experiência individual, mas sim a formação da consciência dual do negro, que, segundo William Du Bois (2021: 23), é uma “experiência de sempre enxergar a si mesmo pelos olhos dos outros, de medir a própria alma pela régua de um mundo que se diverte ao encará-lo com desprezo e pena”. Este curso se faz claro nos seguintes fragmentos:
O fato que me horrorizou foi ver um soldado matar um preto. O policial deu-lhe voz de prisão; ele era da roça, saiu correndo. O policial deu-lhe um tiro. A bala penetrou dentro do ouvido. O soldado que deu-lhe o tiro sorria dizendo: — Que pontaria que eu tenho! (Jesus, 1986: 102)
O soldado que matou o nortista era branco. O delegado era branco. E eu fiquei com medo dos brancos e olhei a minha pele preta. Por que será que o branco pode matar o preto? Será que Deus deu o mundo para eles? Eu tinha excesso de imaginação, mas não chegava a nenhuma conclusão nos fatos que presenciava. Estava com seis anos. O único lugar seguro para eu guardar os fatos era dentro da minha cabeça. Minha cabeça é um cofre. Minha mentalidade aclarou-se muito mesmo (Jesus, 1986: 103).
Outra forma de experiência coletiva presente em Diário de Bitita desponta em meio aos relatos do seu cotidiano no trabalho doméstico ao lado de sua mãe. É a violência sexual sofrida por mulheres negras, fruto tanto do racismo quanto do sexismo que “[fazem] das mulheres negras o segmento mais explorado e oprimido da sociedade brasileira” (Gonzalez, 2020: 160). Carolina observa o seguinte:
Se o filho do patrão espancasse o filho da cozinheira, ela não podia reclamar para não perder o emprego. Mas se a cozinheira tinha filha, pobre negrinha! O filho da patroa a utilizaria para o seu noviciado sexual. Meninas que ainda estavam pensando nas bonecas, nas cirandas e cirandinhas eram brutalizadas pelos filhos do senhor Pereira, Moreira, Oliveira, e outros porqueiras que vieram do além-mar.
No fim de nove meses a negrinha era mãe de um mulato, ou pardo. E o povo ficava atribuindo paternidade: — Deve ser filho de Fulano! Deve ser filho de Sicrano. Mas a mãe, negra, inciente e sem cultura, não podia revelar que o seu filho era neto do doutor X, ou Y. Porque a mãe ia perder o emprego. Que luta para aquela mãe criar aquele filho! Quantas mães solteiras se suicidavam, outras morriam tísicas de tanto chorar (Jesus, 1986: 38-39).
No Brasil, conforme Lélia Gonzalez (2020: 50) observou, a “violentação de mulheres negras por parte da minoria branca dominante (senhores de engenho, traficantes de escravos etc.)” foi um fato que deu origem, “na década de 1930, à criação do mito que (…) afirma que o Brasil é uma democracia racial”. Ao abordar as consequências do abuso sexual na vida de mulheres negras, especificamente em termos de trabalho e saúde mental, Carolina de Jesus faz suas vozes ecoarem em suas memórias por meio da escrita, mas também presenteia as Ciências Sociais com uma demonstração de que o mito criador da ideia de harmonia racial no Brasil foi construído em cima da dor, do medo e do sofrimento psíquico de mulheres negras.
“São Paulo é o eixo do Brasil”: quando o cosmopolitismo entra em cena
Após alcançar a maioridade, Carolina realizada uma virada de chave em sua narrativa. Os episódios apresentados deixam de retratar fatos concretos do cotidiano da população residente da cidade de Sacramento. Agora eles exprimem as suas aspirações pela ascensão social, que tem a cidade de São Paulo como o palco ideal. Neste momento, o cosmopolitismo entra em cena.
De acordo com Silviano Santiago (2004), o cosmopolitismo afeta a população pobre da seguinte forma:
Para o camponês miserável e voluntarioso, assim como para os operários desempregados no mundo urbano, a desigualdade social na pátria vem propondo um salto para o mundo milionário e transnacional. Salto meio que enigmático na aparência, mas concreto na realidade. Esse salto é impulsionado pela melhoria econômica e social na própria aldeia e, muitas vezes, nos pequenos centros urbanos do próprio país, como é o caso da região de Governador Valadares, em Minas Gerais. Os desempregados do mundo se unem em Paris, Londres, Roma, Nova Iorque e São Paulo (Santiago, 2004: 52).
Com a Revolução de 1930, Carolina passou a escutar boatos de que São Paulo era um paraíso para os pobres. As pessoas diziam em todos os cantos que não faltava alimento diário e oportunidades de trabalho nas indústrias. Por não visualizar oportunidades de mobilidade social no interior de Minas Gerais, Carolina passou a sonhar com a vida cosmopolita paulista. Seu desejo era o de “ter uma casa, uma vida ajustada” e São Paulo parecia ser uma oportunidade para que isso se tornasse uma realidade.
À época da revolução, a autora estava trabalhando em fazendas e alegava se tratar de uma vida de exploração. Naquele momento, a vida na cidade grande, em meio à modernidade, representava uma possibilidade de transgressão da miséria e um alívio para a fome, assim como descrito por Santiago.
Aos poucos, conhecemos uma narradora mais descontente com sua realidade e cansada de sua “vida estagnada”, sem “um amanhã promissor”. Conforme os elogios à suposta vida alegre levada pelo pobre em São Paulo graças aos bons salários pagos aos operários se tornam mais frequentes, mais insustentável se torna a sua vida em Sacramento.
Diário de Bitita termina com a realização de um sonho: uma oportunidade de emprego em São Paulo e uma viagem só de ida para a metrópole. Ela escreve:
Até que enfim, eu ia conhecer a ínclita cidade de São Paulo! Eu trabalhava cantando, porque todas as pessoas que vão residir na capital do estado de São Paulo rejubilam como se fossem para o céu.
No dia da viagem, não dormi para não perder o horário. O trem saía às sete horas, mas eu cheguei na estação às cinco horas. Que alegria quando embarquei!
Quando cheguei à capital, gostei da cidade porque São Paulo é o eixo do Brasil. E a espinha dorsal do nosso país. Quantos políticos! Que cidade progressista. São Paulo deve ser o figurino para que este país se transforme num bom Brasil para os brasileiros.
Rezava agradecendo a Deus e pedindo-lhe proteção. Quem sabe ia conseguir meios para comprar uma casinha e viver o resto de meus dias com tranquilidade… (Jesus, 1986: 182-183).
Este trecho é uma expressão nítida do cosmopolitismo do pobre descrito por Santiago. Motivada pelo avanço econômico e social da metrópole, Carolina migrou para São Paulo com o coração repleto de sonhos. O desfecho desta viagem, no entanto, é duro e é conhecido em Quarto de despejo. Carolina não alcançou as melhorias almejadas.
De acordo com Silviano Santiago (2020), os pobres que migram para as metrópoles acabavam abrigados “em bairros lastimáveis” destes “grandes centros urbanos”. Para Lélia Gonzalez (2020: 160), a “discriminação de sexo e raça faz das mulheres negras o segmento mais explorado e oprimido da sociedade brasileira, limitando suas possibilidades de ascensão”. Somadas, as duas perspectivas indicam que, embora vislumbrasse uma realidade melhor em meio à vida cosmopolita, a interseção não somente do racismo e do sexismo, mas também da desigualdade econômica, reduziria ainda mais as oportunidades de mobilidade social de Carolina de Jesus.
Considerações finais
Segundo Claudia Born (2001: 243), a “trajetória de vida pode ser descrita como um conjunto de eventos que fundamentam a vida de uma pessoa”. Sendo assim, Diário de Bitita nos fornece acesso aos elementos comuns às experiências selecionadas por Carolina de Jesus para compor as memórias de sua juventude: a pobreza, o racismo e o sexismo, marcadores presentes em todas as suas obras publicadas.
A maior contribuição do livro, no entanto, se partirmos de uma perspectiva sociológica, são as bases para a compreensão da construção de si feita pela autora, que incrementa a ficção e a poesia à sua narrativa de modo a conferir certa graciosidade à sua realidade, a qual era, segundo ela, marcada por “um descontentamento tremendo”.
A escrita de suas memórias é, portanto, um exercício de criação de um self e de uma trajetória dignos de quem – parafraseando a autora – não entrou no mundo pela sala de visitas, mas sim pelo quintal, e cuja narração não se restringe ao plano da subjetividade individual. Suas lembranças, embora digam respeito à sua leitura de mundo e às suas vivências pessoais, transmitem as “memórias subterrâneas” (Pollak, 1989) da população cujas trajetórias também se fundamentam em marcadores de raça, classe e/ou gênero.
Embora tenha se tornado – e ainda seja majoritariamente – conhecida por uma narrativa marcada pelo sofrimento biopsicossocial acarretado pela extrema pobreza, seus manuscritos são uma poderosa ferramenta para a Sociologia da Literatura e para a área do pensamento social brasileiro no que tange os modos de construção de si, a experiência coletiva presente em escritos autobiográficos e os impactos do cosmopolitismo nas subjetividades individual e coletiva.
Nota
[1] A autora nasceu em 1914 e o livro é finalizado com uma passagem de meados da década de 1930, referente ao dia em que Carolina de Jesus migrou para a cidade de São Paulo por causa de uma oportunidade de trabalho.
Referências
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BOTELHO, André & HOMBEEKC, Lucas van. (2022). O balão, o serrote e o indivíduo: cosmopolítica do memorialismo modernista. Revista Brasileira de Sociologia – RBS, v. 10, n. 25.
DU BOIS, William E. B. (2021). As almas do povo negro. São Paulo: Veneta.
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MOREIRA, Ofélia R. B. (2023). A escrita de si como construção da subjetividade da autora Carolina Maria de Jesus. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Universidade Estadual Paulista.
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POLLAK, Michael. (1989). Memória, Esquecimento, Silencio. Estudos Históricos, v. 2, n. 3.
SANTIAGO, Silviano. (2004). O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG.
