
Finalizado o primeiro turno das eleições municipais, a série Mitomanias/Mitologias discute hoje os temas Povo unido, Aplicativo de paquera e Juventus na Rua Javari. Céli Pinto, professora emérita da UFRGS, assina o texto “O mito ‘povo unido jamais será vencido’”, no qual reflete sobre uma imagem idealizada que atravessa diferentes momentos políticos da história: o povo unido. Há uma série de questões envolvidas nessa consigna: que povo, qual união e qual vitória estão sendo expressos? Richard Miskolci, por sua vez, é autor do texto “A nova economia do desejo: notas sobre a busca de parceiros online”, que aborda as transformações nas práticas sexuais impulsionadas pelos aplicativos de paquera. Esses meios facilitadores estão imersos em contradições, e os relatos coletados por Miskolci indicam certas tensões internas entre os usuários. Por fim, Wellington de Mendonça assina “Canta ou sai: tradição e moderno no futebol”, no qual analisa as representações em disputa no famoso estádio do Juventus, na Rua Javari, no bairro da Mooca. O autor aponta para as transformações recentes ocorridas nesse ambiente: se antes a Rua Javari simbolizava a resistência do sangue operário, aonde se ia para torcer pelo time, agora há outros interesses comerciais e turísticos em jogo, que colocam em tensão dois polos já bem conhecidos: tradição e modernidade.
A série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.
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A nova economia do desejo: notas sobre a busca de parceiros on-line
Por Richard Miskolci (UNIFESP)
“NÃO SOU A SUA ESCOLHA. VOCÊ É A MINHA.” anuncia um usuário do aplicativo Grindr da cidade de São Paulo. A afirmação indica que a busca por um parceiro nessas plataformas se associa à lógica de consumo, que aloca o usuário na posição de escolha em um mercado. A interface da maioria dos aplicativos tem formato de uma vitrine que incentiva a competição por parceiros. Os perfis exibem corpos que tendem a borrar a diferença entre publicidade e pornografia, entre usuários comuns e garotos de programa e, no limite, fazem com que a economia do desejo das buscas digitais se confunda com a do mercado do sexo.
Na longa pesquisa que resultou em meu livro Desejos Digitais (2017), convivi principalmente com usuários brancos e de classe média profissional que alcançaram a vida adulta entre a década de 1990 e início dos anos 2000. Membros de uma geração moldada pela indústria do entretenimento, pelos jogos eletrônicos e práticas sexuais como o “ficar”, encontraram na internet acesso facilitado à pornografia (Illouz, 2016) e, na década de 2010, aplicativos para celular que se vendem como uma janela de oportunidades para encontrar parceiros do mesmo sexo.
As buscas online promoveram um nunca antes visto nível de agência desejante e autonomia sexual para sujeitos que historicamente viveram com restrições morais às suas preferências eróticas. As plataformas digitais permitem uma individualização das buscas alocando usuários na posição de consumidores de outros porque permite contatos emocionalmente distanciados e potencialmente anônimos, garantindo uma sensação de segurança e controle em relação ao outro e seu entorno social (Illouz, 2007: 7).
A economia de busca de parceiros online é baseada em expectativas predominantemente elusivas. A liberdade e a autonomia anunciadas comercialmente têm limites porque nem todo mundo está online e os sujeitos atraentes não são necessariamente acessíveis, mas – sobretudo – as características físicas e as origens sociais de cada um permanecem online limitando os horizontes de cada um. O sucesso das plataformas depende da ilusão do acesso ampliado a parceiros como descrito no perfil de um usuário no início deste artigo, mas por trás das expectativas, a entrada nos apps descortina um verdadeiro mercado de escassez assentado na competição. Mercado que privilegia jovens de corpos modelares inseridos em um circuito privilegiado de consumo ao mesmo tempo que direciona a maioria à busca de nichos onde possam vir a ter algum sucesso.
A usuários que buscam parceiros do mesmo sexo, as plataformas acenam com a possibilidade de paquerar sem expor seu desejo no espaço público, portanto sem ser reconhecido como homossexual. Combo altamente desejado de realizar desejos mantendo-se distante dos estigmas que nossa sociedade ainda atribui a essas relações. As buscas ocorrem em um contexto (homossexual) que os usuários com quem convivi – educados como heterossexuais – aprenderam a temer e até a desprezar. Assim, a entrada deles em apps gays costuma ocorrer para evitar ser identificado por outros como homossexual e afastar-se de estigmas como o materializado no estereótipo da “bicha”, alguém que seria publicamente identificado e rechaçado como homossexual.
A maioria dos homens com quem interagi tinham vidas que impunham diferentes graus de recusa à homossexualidade. Durante as entrevistas, era comum que mencionassem viver com seus pais ou, mesmo quando viviam sozinhos, serem próximos à família ao ponto de viverem em uma contínua negociação da visibilidade de sua orientação sexual. Fato que ajuda a compreender porque seu principal critério de busca de um parceiro era a habilidade dele passar por hetero (ao menos como apresentado na mídia voltada a homossexuais).
A busca de parceiros em contextos metropolitanos nos anos 1970 gravitava em torno do ideal do “discreto” no imaginário homossexual brasileiro (Ferreira & Miskolci, 2020). A internet comercial chegou em meados da década de 1990 quando a AIDS era uma preocupação e não existia tratamento efetivo contra o vírus HIV, o que incentivou também a busca de parceiros fora do circuito gay de paquera. Esperava-se que, fora do meio homossexual, fosse maior a probabilidade de encontrar parceiros soronegativos e, por isso, as buscas nas primeiras plataformas online começavam com a frase “busco alguém discreto e fora do meio.”
Como seria fisicamente esse parceiro ideal? Data do auge mortal da AIDS a ascensão da então chamada “geração saúde” e a adesão ampliada à prática de musculação. Surgiu assim o “sarado”. Pouco a pouco, ser discreto, fora do meio gay e ser sarado começou a convergir na representação de um parceiro desejável, alguém saudável e que não seria publicamente reconhecido como homossexual.
Online se busca também reconhecimento e aceitação social, os quais nossa sociedade até hoje costuma conferir preferencialmente a sujeitos heterossexuais. As plataformas constituem um serviço comercial que oferece aos usuários formas substitutivas e midiáticas de reconhecimento. Os perfis permitem que eles se apresentem como próximos de valores hegemônicos, o que eventualmente expressam descrevendo negativamente aqueles que desprezam. Assim, mesmo quando não encontram alguém, as interações online permitem que se “limpem” de estigmas transferindo-os a outros e compreendendo a si próprios como melhores. Economia moral similar à dos serviços de rede social, nos quais se costuma chamar tal comportamento de “lacrar”.
Entre as inumeráveis frustrações de meus interlocutores com os aplicativos destacava-se a de não encontrar um homem de verdade. Tal frustração se somava a outros desapontamentos, como descobrir que foram enganados, emocionalmente manipulados ou explorados economicamente. Vários relataram descobrir que os raros parceiros com os quais criaram algum laço contínuo mentiram o nome, local de moradia ou profissão. Quiçá porque mais do que ferramentas para construir relações, as plataformas constituem formas de evitá-las ou gerir graus de envolvimento com alguém que – desde o princípio – é encarado com suspeita.
A reclamação frequente de meus informantes de que era “quase impossível” encontrar o parceiro que buscavam online torna-se mais compreensível quando reconhecemos a lógica que dirige o uso das plataformas e que tende mais a individualizar desejos do que a criar relações. Talvez esse discurso de “nunca estar satisfeito” possa ser associado ao alto capitalismo e a compulsão a consumir incessantemente, mas certamente justifica o uso continuado dos aplicativos por objetivos que excedem a busca de um parceiro.
Desde fins da década de 2010, alguns usuários de apps especializados como o Grindr passaram a considerá-los ineficientes e migraram para outros mais abertos à pornografia, como o X, enquanto outros que os julgavam negativamente por serem espaços apenas para interação homossexual migraram para outros como o Tinder (que serve a todas as orientações sexuais e, portanto, não é automaticamente associado à homossexualidade) ou para redes sociais vistas como hetero ou familiares, como o Instagram. A migração revela a continuidade e o reforço do desejo que levou online esse último perfil de usuários: encontrar um parceiro fora de contextos homossexuais.
O uso mais comum das plataformas que identifiquei na pesquisa envolvia a compreensão da homossexualidade como um segredo a ser gerido e a expectativa de que a escolha da plataforma correta resolveria as dificuldades em encontrar um parceiro. Tal uso revela uma contradição insolúvel: o desejo de manter uma vida heterossexual (efetiva ou presumida) e ter relações homossexuais. Como consumidores em um mercado, buscavam por alguém que só trouxesse benefícios e nenhum prejuízo a eles. Mas a própria agência sexual online só pode durar tornando relacionamentos inviáveis, portanto em um roteiro em que descartar o outro é inevitável, quando não um pressuposto.
Desde a emergência da internet comercial até hoje, uma geração de homens paulistanos que buscam parceiros do mesmo sexo foi atraída online pela promessa de uma solução tecnológica e individual para desigualdades e injustiças como preconceito e discriminação. Entre meus interlocutores, o medo de ser classificado como gay era indissociável do temor de serem rejeitados pelos pais ou perderem o emprego. Daí manterem-se em uma luta contínua para não perder o status heterossexual ao qual associavam o afeto familiar e a segurança econômica.
Uma constante no campo foi a tendência a recusar laços emocionais com parceiros do mesmo sexo quando pudessem ameaçar a aceitação social e familiar, atitude “masculinizante” já que superar afetos em favor de uma escolha “racional” é algo que aprenderam como o que se espera de um homem. Assim, a persistência histórica da associação entre amor homossexual e irracionalidade pode ainda contribuir a manter os contatos circunscritos ao sexual e recreativo. A maioria das relações que acompanhei durante a pesquisa foram classificadas por meus interlocutores como curtas e terminaram justamente quando se aproximaram do compromisso.
A maioria dos usuários que conheci durante a pesquisa tinha um perfil social e geracional que moldava suas visões de mundo e formas de agência. Entre eles, o mais comum foi priorizar manter-se na busca do que tentar construir um relacionamento. Depois de cada insucesso, voltavam às plataformas online em busca de um parceiro que não ameaçasse sua aceitação social, ou modificasse sua imagem na família ou no trabalho. Assim, continuaram a usar as tecnologias tentando manter-se o mais próximo possível dos privilégios e dos prazeres da normalidade que nossa sociedade, a despeito de todas as mudanças, ainda considera sinônimo de ser ou se comportar como um homem heterossexual.
Referências
FERREIRA, João Paulo & MISKOLCI, Richard. (2020). O desejo homossexual após a AIDS: uma análise sobre os critérios acionados por homens na busca por parceiros do mesmo sexo. Ciência & Saúde Coletiva, v. 25, n. 3, p.999-1010.
ILLOUZ, Eva. (2007). Intimidades congeladas: las emociones en el capitalismo. Buenos Aires: Katz.
ILLOUZ, Eva. (2016). No coração pulsante da cultura – Entrevista com Eva Illouz. Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar. São Carlos: Departamento e Programa de Pós-Graduação em Sociologia-UFSCar.
MISKOLCI, Richard. (2017). Desejos digitais: uma análise sociológica da busca de parceiros on-line. Belo Horizonte: Autêntica.
Sobre o autor
Richard Miskolci é Professor Titular de Sociologia da UNIFESP, pesquisador do CNPq e coordenador do Quereres – Núcleo de Pesquisa em Diferenças, Direitos Humanos e Saúde (https://quereres.unifesp.br). Fundador do GT Sociologia Digital da SBS, Miskolci atualmente se dedica à pesquisa sobre desinformação.
