
Finalizado o primeiro turno das eleições municipais, a série Mitomanias/Mitologias discute hoje os temas Povo unido, Aplicativo de paquera e Juventus na Rua Javari. Céli Pinto, professora emérita da UFRGS, assina o texto “O mito ‘povo unido jamais será vencido’”, no qual reflete sobre uma imagem idealizada que atravessa diferentes momentos políticos da história: o povo unido. Há uma série de questões envolvidas nessa consigna: que povo, qual união e qual vitória estão sendo expressos? Richard Miskolci, por sua vez, é autor do texto “A nova economia do desejo: notas sobre a busca de parceiros online”, que aborda as transformações nas práticas sexuais impulsionadas pelos aplicativos de paquera. Esses meios facilitadores estão imersos em contradições, e os relatos coletados por Miskolci indicam certas tensões internas entre os usuários. Por fim, Wellington de Mendonça assina “Canta ou sai: tradição e moderno no futebol”, no qual analisa as representações em disputa no famoso estádio do Juventus, na Rua Javari, no bairro da Mooca. O autor aponta para as transformações recentes ocorridas nesse ambiente: se antes a Rua Javari simbolizava a resistência do sangue operário, aonde se ia para torcer pelo time, agora há outros interesses comerciais e turísticos em jogo, que colocam em tensão dois polos já bem conhecidos: tradição e modernidade.
A série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.
Boa leitura e não deixe de acompanhar nosso Instagram!
Canta ou sai: tradição e moderno no futebol
Por Wellington Pascoal de Mendonça (PPGS/USP)
Para o paulistano, é comum ouvir histórias sobre as travessuras do Juventus contra os grandes clubes de São Paulo – eu cresci com meu avô contando várias delas – e, para quem mora na Mooca, ainda que não tenha o time do bairro como sua primeira escolha, assistir a jogos do Moloque Travesso na rua Javari é algo corriqueiro.
Neto de avós que moraram no Brás, bairro vizinho, sempre fui aos jogos (apesar de torcer para outro time). Me sinto bem no estádio acanhado, mas acolhedor, sinto que ali os aspectos lúdicos do futebol, pelos quais me encantei, ainda estão presentes. Às vezes saio de lá, ao final dos jogos, certo de que todos experimentaram a mesma coisa, que a chama do futebol raiz foi reacesa em cada um dos presentes naqueles pouco mais de 90 minutos. Verdade ou não, parece que isso é compartilhado por muitos que vão ao estádio da rua Javari.
No entanto, ao tomar alguma distância dessa atmosfera, fui atentando para pontos de tensão presentes em cada partida, notadamente entre as pessoas que vão aos jogos com propósitos por vezes bastante diversos. Não me parece exagerado dizer que há uma acomodação tensa entre aspectos relacionados à tradição – do clube e mesmo do futebol entendido como autênticos – e a modismos que dizem respeito à dinâmica das redes sociais, onde parece importar mais o click do que a experiência proporcionada pelo jogo.
As histórias que remetem à fundação do Juventus por funcionários de uma indústria têxtil fundada no final do século XIX por imigrantes italianos chegaram e continuam a chegar a mim por meio de diversas personagens. Na infância e adolescência, principalmente por familiares, mais tarde e ainda hoje, por torcedores do clube e pelas muitas pessoas com quem converso em bares nos arredores do estádio, as quais, pelo que contam, foram craques da bola e jogaram pela equipe grená – o que sempre me faz pensar que o Juventus tem o maior e mais qualificado elenco do futebol brasileiro. Tenho a impressão de que toda a Mooca já passou pelo esquadrão grená.
Como se trata de algo comum a outros vários clubes que foram fundados por trabalhadores, num movimento relacionado à popularização do futebol no país, poderia ter sua importância limitada a esse dado histórico, mas há elementos sobre a fábrica e os funcionários que alimentam o imaginário de o Juventus ser um time raiz, portanto, que preserva a essência do jogo em detrimento de fatores financeiros e comerciais que caracterizam o futebol moderno.
Em 1917, a paralisação dos trabalhadores do Cotonifício Rodolfo Crespi deflagou a greve geral em São Paulo, e isso é tão importante para parte de seus torcedores, que no estádio sempre vejo uma bandeira remetendo ao episódio. Nela se lê “Mooca Obrera 1917”. Essa torcida – Setor 2 –, aliás, é quem mais encarna e reclama a tradição operária do Moleque Travesso.
É ela também quem explicita a tensão entre o tradicional e o moderno. Seus cantos, ouvidos do primeiro ao último minuto das partidas, aludem às travessuras do pequeno clube da Mooca contra os grandes times de São Paulo, ao amor pelo Juventus, rivalidades do campo e das arquibancadas e, o que importa aqui, ao clube manter aspectos do futebol raiz, como ter estádio e não arenas – umas das letras até diz, com certa nostalgia, “quem tem arena não vai poder reclamar, já se vendeu”.
Esse é um elemento central, pois parece separar quem manteve a essência do futebol, do jogo mesmo, daqueles que supostamente se venderam, numa clara referência a primazia de elementos exteriores a esse universo, tidos como característicos do futebol moderno. Disso, uma coisa é certa: assistir aos jogos em um estádio, como o da rua Javari, é uma experiência completamente diferente a que se vive nas modernas arenas. Os estádios são mais acessíveis economicamente, os torcedores, em pé, dividem as estreitas fileiras das arquibancadas, condição valorizada por quem reclama a preservação do futebol tradicional.
Outros cantos vão no mesmo sentido – “somos do bairro da Mooca/bairro de luta e tradição”, “o sangue operário nunca vai se secar/e a resistência não desistirá”, “na Mooca ou na Barra Funda sou Juve ou nada”. Canta-se sobre e para o time, mas também sobre e pelo bairro que se embrincam, alimentando o imaginário de lugares de resistência e tradição. Para quem conhece a Mooca, logo identifica nos arredores do estádio reminiscências de um bairro operário e a presença constante de símbolos do centenário Clube Atlético Juventus.
Mas, ao lado de tudo isso, o futebol não parece ser o principal motivo para muitos que vão aos jogos nas tardes de sábado e manhãs de domingo, dias nos quais o estádio (que não tem refletores) recebe mais público. As filas para comprar cannoli, doce italiano, são sempre grandes, mas isso ainda se relaciona à tradição do clube e bairro conhecidos por suas origens italianas. A loja do clube permanece cheia mesmo com a bola rolando, e a todo momento se vê pessoas ostentando suas sacolas de compras. O que mais impressiona e coloca em xeque a reclamada tradição, são as fotos, vídeos e selfis feitas e refeitas o tempo todo. Os registros de si, do cobiçado doce e dos produtos comprados, às vezes de todos eles, que depois irão para as redes sociais, valem mais que a experiência proporcionada pela partida de futebol. Refiro-me aos cantos e reações das torcidas, ao jogo jogado dentro de campo, às provocações, ao êxtase do gol marcado ou frustração do gol sofrido.
A atmosfera do jogo parece não agir sobre quem está ali interessado no click. Isso é bem curioso, e aponta para um aspecto da maior importância acerca da relação entre o tradicional e o moderno: para parte das pessoas que vão ao estádio, e nesse grupo estão os torcedores do clube, trata-se de lutar pela preservação da tradição do time e, mesmo, do futebol tido como autêntico e, para outra parte, o importante é registrar que esteve ali, e esse registro vale muito, como se desse à pessoa a marca de quem está ao lado do futebol raiz. Contradição, uma vez que para esse grupo a vivência que tiveram diz menos sobre a experiência proporcionada pelo futebol, e mais sobre a presença e legitimação que o lugar confere aos que se colocam contra o futebol moderno. Essa é uma marca já reconhecida do Juventus por ser um clube pequeno, de bairro mesmo, mas que consegue se manter em atividade em tempos de globalização do futebol.
Essa tensão é algo relevante e está presente no estádio em dias de jogos. Os trechos das letras de alguns cantos da torcida Setor 2, transcritos antes, mostram isso. É normal ouvir também, e bastante alto, a frase “ódio eterno ao futebol moderno”. Não me parece equivocado colocar ao lado do futebol moderno o comportamento daqueles que se preocupam mais com o click, na medida em que a lógica das redes sociais acaba se sobrepondo à importância da dinâmica própria ao jogo assistido no estádio.
Para quem se coloca ao lado do time, a manutenção da tradição e, dessa maneira, a oposição ao futebol no qual prevalecem aspectos exógenos ao jogo, tomados como modernos – aspectos comerciais, financeiros e midiáticos – não soa estranha a advertência que fazem, sintetizando a tensão que procurei mostrar nesse breve ensaio: numa rede social (sim, numa rede social, pois, no mundo social, as coisas estão em relação e por vezes convivem de maneira tensa), um post com imagens de celular, pau de self e até a antiga câmera fotográfica, diz o seguinte: “Arquibancada é lugar de apoio, alento e cantoria! Evite mal-estar!”
Trata-se de uma clara referência à tensão entre aspectos tradicionais e modernos mal acomodados, presentes nos jogos do clube da Mooca, mas que podem ser observados país afora, quer dizer, em estádios e arenas, índices dos palcos tradicional e moderno das pelejas.
Sobre o autor
Wellington Pascoal de Mendonça é doutorando e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo. Possui bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais pela mesma instituição. É autor de artigos sobre o processo de consagração de Graciliano Ramos.
