Série Mitomanias/Mitologias | Povo unido, por Céli Pinto

Finalizado o primeiro turno das eleições municipais, a série Mitomanias/Mitologias discute hoje os temas Povo unido, Aplicativo de paquera e Juventus na Rua Javari. Céli Pinto, professora emérita da UFRGS, assina o texto “O mito ‘povo unido jamais será vencido’”, no qual reflete sobre uma imagem idealizada que atravessa diferentes momentos políticos da história: o povo unido. Há uma série de questões envolvidas nessa consigna: que povo, qual união e qual vitória estão sendo expressos? Richard Miskolci, por sua vez, é autor do texto “A nova economia do desejo: notas sobre a busca de parceiros online”, que aborda as transformações nas práticas sexuais impulsionadas pelos aplicativos de paquera. Esses meios facilitadores estão imersos em contradições, e os relatos coletados por Miskolci indicam certas tensões internas entre os usuários. Por fim, Wellington de Mendonça assina “Canta ou sai: tradição e moderno no futebol”, no qual analisa as representações em disputa no famoso estádio do Juventus, na Rua Javari, no bairro da Mooca. O autor aponta para as transformações recentes ocorridas nesse ambiente: se antes a Rua Javari simbolizava a resistência do sangue operário, aonde se ia para torcer pelo time, agora há outros interesses comerciais e turísticos em jogo, que colocam em tensão dois polos já bem conhecidos: tradição e modernidade.

A série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.

Boa leitura e não deixe de acompanhar nosso Instagram!


O mito “povo unido jamais será vencido”

Por Céli Pinto (UFRGS)

“O povo unido jamais será vencido” é uma das consignas mais ouvidas em manifestações populares, em especial as de esquerda. Desenvolverei o argumento de que o mito não está na ideia de vitória que a frase contém, mas na de povo unido ou, mais do que isso, na idealização da noção de povo.[1]

Povo unido é uma imagem poderosa e tem assustado os detentores do poder político ao longo da história. Maquiavel já advertia o príncipe sobre a necessidade de dar conta do povo:

O príncipe deve ainda mostrar-se um amante das virtudes, dando hospitalidade aos homens virtuosos e honrando os que sejam excelentes em alguma arte. (…) Deve ainda, em períodos convenientes do ano, manter o povo ocupado com festas e espetáculos; e, como cada cidade é dividida em corporações e bairros, há que se levar em conta a comunidade, reunir-se como eles de vez em quando, dar exemplo de humanidade e de munificência, sempre mantendo firme a majestade de seu posto (Maquiavel, 2010: 124).

Três séculos depois, no Brasil, o povo também aparece como protagonista, como indica um comentário crítico do jornalista Aristides Lobo, logo após os eventos que marcaram a Proclamação da República: “O povo assistiu bestializado a Proclamação da República, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditavam seriamente estar vendo uma parada” (Diário Popular, 18 nov. 1898).

Estas referências, tão distantes no tempo e nas circunstâncias, dão destaque a duas coincidências que acompanham, de uma forma ou de outra, a discussão contemporânea sobre o conceito de povo. Na primeira, o povo aparece em contraposição àqueles que estão no poder, seja o príncipe, no caso de Maquiavel, sejam os militares que proclamaram a República por meio de um golpe de estado no Brasil. A segunda coincidência refere-se à atribuição de agência ao povo. Quando Maquiavel aconselha o príncipe a manter o povo ocupado, está querendo dizer que um povo desocupado é perigoso. Da mesma forma, Aristides Lobo, ao observar que o povo assistiu abestalhado, não insinuava, como algumas interpretações popularizaram, que o povo era abestalhado, mas criticava o golpe militar inesperado, que instaurou o novo regime de forma tão atabalhoada que até deixou o povo aturdido. Também aqui é atribuída uma agência que não se concretiza pelo inusitado do fato.

Nos dois exemplos, o povo tem um conteúdo bem específico. Não se reduz ao conjunto das pessoas de um principado ou de um país, mas refere um conjunto de pessoas comuns, que estão fora do poder, são diferenciadas da elite. Ao povo é atribuída uma força de reação, conclamada na famosa frase “povo unido jamais será vencido”, que se contrapõe a quem tem poder.

Se nos detivermos à presença do povo tanto na prática política como nos textos de análise contemporâneos, será preciso juntar à noção de povo a de populismo. Assim foi no século XX, assim está sendo no século XXI. Ordinariamente, o povo aparece – no discurso do senso comum e no do jornalismo de pendor menos analítico – como aquele que será manipulado pelo político. Este, por sua vez, ao apelar ao povo ou ao fazer políticas que lhes dê vantagens, é chamado de populista, sejam tais políticas efetivas ou não. A interpretação da relação povo-política pode ser útil para explicações ligeiras, mas não avança no entendimento da existência do povo como agente político, nem no controverso conceito de populismo.

Panizza (2005) coloca como central na caracterização do populismo “a constituição do povo como ator político” e avança em sua definição ao afirmar que

esta perspectiva entende populismo como um discurso contra o status quo que simbolicamente simplifica o espaço político ao dividir a sociedade entre “povo” (os despossuídos) e “os outros”. Desnecessário dizer que a identidade de cada um são construtos, simbolicamente construídos através da relação de antagonismo, no lugar de categorias sociológicas (Panizza, 2005: 3, tradução minha).

Tal perspectiva é particularmente feliz ao abarcar o fenômeno do populismo retirando do povo características de classe ou de população empiricamente dada e ao apontar para uma fluidez em sua constituição. Isso permite compreender o fenômeno como uma forma do fazer político que pode estar presente em diferentes matizes ideológicas.

A despeito disso, duas questões foram pouco enfrentadas pela teoria populista a que se filia Panizza e que tem seu maior expoente no filósofo argentino Ernesto Laclau: uma é a ideia de líder, outra é a consequência da fluidez do povo para a consolidação do poder político institucionalizado. Na teoria, alguém funciona como catalizador das demandas populares, unifica o povo contra o establishment e atende pelo nome de líder (Laclau, 2005). Todos os exemplos históricos de experiências populistas, de direita ou de esquerda, são personificados em um líder: Mussolini, Perón, Vargas, Chaves. Entretanto, não aparece como questão, nesta perspectiva, o desafio destes líderes quando chegam ao poder, que consiste em, ao se colocarem como a negação do sistema, representarem a unidade do povo em um regime democrático, ainda que diferenciado da tradicional democracia liberal representativa. Como este povo concretiza a articulação e unificação de múltiplas demandas, a tendência é haver uma tensão com o líder no governo, já que este tenta manter a unidade frente às demandas diferenciadas. Tanto na chegada do líder ao poder quanto na sua relação como povo, a agência do povo não trabalha obrigatoriamente no sentido de fortalecer a unidade, mas, muito frequentemente, de fragmentá-la em diferentes sujeitos políticos e suas lutas diversificadas.

Neste contexto, há dois tipos de agência do povo: ao eleger o líder e ao ameaçá-lo, tendo em vista sua condição essencial de unidade provisória. Esta agência disruptiva da unidade pode transformar a experiência populista em um governo autoritário, ou mesmo ditatorial, onde o líder (e seu grupo restrito de poder) passa a falar em nome do povo e a nomear qualquer oposição como uma traição ao povo. Esta questão é pouco enfrentada pelos teóricos do populismo do século XXI, principalmente dos entusiastas do modelo. Lynch e Cassimiro (2022: 30), ao tratarem do populismo de direita, são precisos ao observarem que “ações ordinárias ou divergências naturais em um ambiente democrático são transformadas em ameaças à soberania do ‘povo autêntico’”.

No século XX, principalmente a partir da segunda metade, uma expressiva produção no campo das ciências sociais discute a presença de governos populistas na América Latina. Este tipo de arranjo não considera o povo como um construto que envolve uma prática política, nem como povo ameaçador, já presente em Maquiavel, mas como sinônimo de massa manipulada. Tal forma de entender o povo cobre um arco muito amplo. A ciência política funcionalista entendeu o populismo como um momento de transição de regimes oligárquicos para possíveis democracias liberais, que exigiriam um amadurecimento cidadão das populações. O populismo, cujos mais vistosos exemplos são os argentino e brasileiro, foram interpretados como momentos onde lideranças populares, nos casos Perón e Vargas manipulavam o povo (as massas) a favor de seus governos. Também as interpretações de tradição marxista desprezaram a noção de povo, uma vez que ela encobria o conceito de classe, principalmente de classe proletária.

Francisco Weffort, em seu livro Populismo na Política Brasileira (1978), expressou o pensamento marxista da época a respeito de populismo e povo, afirmando que “em qualquer de suas formas, uma traição à massa popular” (Weffort, 1978: 34). Weffort também diferencia o populismo da década de 1950 e o que chama de reformismo nacionalista de 1964. Apesar de ver diferenças, aponta para o equívoco original, centrado na concepção de que o povo corresponde a uma comunidade nacional. E completa:

Importa, porém, observar que nesta ilusão de pura comunidade de povo não há, nem pode haver, contradições antagônicas entre as classes. O povo é concebido essencialmente como um conglomerado de indivíduos que comungam este puro sentimento de ser brasileiro (Weffort, 1978: 38).

Para Weffort, povo é uma construção artificial de populistas e nacionalistas, unidade que não existe per se, mas é uma “invenção” dos líderes políticos que tratam de impedir que as contradições de classe emerjam. Há aqui, quase que ironicamente, um ponto de contato entre o então marxista Weffort e a perspectiva pós-marxista do conceito de povo, que tratei anteriormente, que também não entende povo como um conceito existente a priori. A diferença é a de que, para a última, o povo se constitui na luta política; em Weffort aparece como uma invenção manipulada pelas elites.

A par de suas diferença, no populismo do século XX, tanto a noção marxista quanto a pós-marxista de povo se relacionam estreitamente à noção de trabalhador. O trabalho (urbano, é necessário enfatizar) conformava a identidade do povo, tanto no peronismo como no varguismo. Os sindicatos eram fundamentais e o povo se concentrava ao redor do líder em troca de benefícios sociais. É preciso destacar que, tanto no primeiro governo de Perón, como no período varguista, os trabalhadores tiveram ganhos reais significativos, o que afasta a ideia de “povo manipulado”.

Angela de Castro Gomes (2005) chama a atenção para a centralidade do trabalho e dos sindicatos no pacto varguista, que garantia direitos aos trabalhadores. Segundo ela, no Estado Novo, a relação entre Estado e povo funcionava da seguinte forma:

O povo revelava à autoridade suas necessidades, seu destino, e esta, por sua virtude e sensibilidade, captava e executava este sinal que existia implicitamente. Nesta dinâmica, o povo era o princípio e o resultado da ação do legislador, ou seja, o Estado brasileiro era produto tanto de uma vontade nacional inconsciente (o povo) quanto de uma vontade racional consciente (o legislador) (Gomes, 2005: 229).

A construção de povo como o trabalhador, no populismo argentino e brasileiro, incomoda ao marxismo pelo apagamento da luta de classes. Afinal, ao contrário da classe proletária, ao conceito de povo poderiam ser articulados outros grupos sociais, como realmente aconteceu, tanto no justicialismo quanto no trabalhismo, pela incorporação de setores da classe média e, no Brasil, também setores do campesinato. Em qualquer desses casos, o povo sempre é articulado por uma liderança que se apresenta como de fora do pacto político vigente, para defendê-lo. Nos casos dos populismos históricos latino-americanos, o outro a ser batido era representado pelas oligarquias no poder.

Nas últimas décadas do século XX, o povo perdeu protagonismo como ator político, mesmo nos países latino-americanos que estavam saindo de ditaduras militares. A luta pela redemocratização, que teve momentos com algumas características “populistas”, como a Campanha das Direitas Já, em 1983-4 no Brasil, apontava fortemente para um projeto de democracia liberal representativa. Nela, o povo foi substituído por cidadãos que, quando unidos, formavam a sociedade civil e se expressavam em organizações não governamentais institucionalizadas ou em novos movimentos sociais. Estes últimos fragmentavam a ideia sempre presente, tanto na noção de povo como de classe proletária revolucionária de unidade.

Os movimentos sociais – feministas, antirracistas, pelos direitos LGBTQIAPN+, ambientalistas, dos povos indígenas –, até por necessidade de sobrevivência, necessitavam se diferenciar, construir uma identidade pública para retomar, de forma mais decisiva, já no século XXI, a ideia de interseccionalidade. Por outro lado, o trabalho, que fora fundamental para constituir a noção de povo, no populismo do século XX, tomou formas muito distintas, fragilizando a unificação de demandas e projetos. A precarização do trabalho tornou-se indutora da fragmentação e favoreceu a ideologia do empreendedorismo individual.

No século XXI, a noção de populismo renasce e, como não há populismo sem povo, o povo renasce como ator político, tanto na Onda Rosa na América Latina, como na onda de extrema direita no mundo ocidental. As experiências na Bolívia e na Venezuela são especialmente interessantes, pois permitem acompanhar o processo em seus diferentes momentos. Nelas há líderes (Evo Morales, na Bolívia; Hugo Chaves, na Venezuela) que constituíram governos populares através do antagonismo povo versus sistema opressor. Chegaram ao poder por eleições e fizeram governos voltados para o povo, formado por um conjunto complexo de grupos e demandas diferenciadas. Em qualquer destes países, é possível averiguar políticas contrárias aos princípios da democracia liberal, bem como a presença de novas formas de participação popular que expandem a tomada de decisão política para além das classes dominantes. Também é preciso reconhecer políticas sociais bastante vigorosas, bem como enfrentamentos aos interesses internacionais. O limite destas experiências tem similitudes, claramente expressas na dificuldade dos líderes (no caso da Venezuela, o herdeiro de Chaves, Nicolás Maduro) de manter o povo enquanto tal. A união, que é essencialmente provisória, tende a se desfazer quando os limites impostos pelo próprio ato de governar começa a frustrar diferentes atores contidos no povo. Nesta circunstância, a experiência populista mostra muita dificuldade de incorporar diferenças e, simultaneamente, manter um projeto democrático. O resultado disto é perder as eleições e tentar reconstruir o povo para chegar de novo ao poder, ou manter a ideia de povo e expulsar deste construto aqueles que fazem oposição. Transforma-se a experiência populista, em princípio democrática, em populismo autoritário ou ditatorial, onde o povo existe apenas simbolicamente pela presença do líder.

As experiências populistas de direita dos países europeus seguem a mesma cartilha: constroem o povo como os verdadeiros nacionais (os franceses, os húngaros, os italianos) contra o “outro”, o de fora, o imigrante que ameaça o trabalho do povo e a própria identidade nacional. Nos Estados Unidos, o discurso de Trump coloca o povo contra o imigrante, articulando uma ideia nostálgica na frase exaustivamente repetida “make america great again”. Lynch e Cassemiro (2022) assim definem o populismo de direita:

Populismo que resiste ao avanço da igualdade social em nome de um culturalismo supostamente representado pelo “povo verdadeiro” que justificaria a manutenção ou a restauração de uma ordem caracterizada pela hierarquia no âmbito do trabalho e da vida privada. Essa ideia reacionária de “restauração da ordem” organiza o mundo entre bons nacionalistas conservadores (o povo) e maus cosmopolitas progressistas (o antipovo) (Lynch e Cassemiro. 2022: 21).

Tal qual o populismo de esquerda, a tendência, quando este discurso unificador perde força, é transformar governos democráticos em experiências autoritárias ou totalitárias. A Hungria parece ser o exemplo mais acabado deste processo, mas há outros ensaios vigorosos na Europa. Trump tentou um golpe de estado ao perder as eleições presidenciais em 2020, o que resultou em mortos e feridos numa desastrada invasão do parlamento estadunidense para impedir a proclamação do candidato vitorioso.

Para concluir, voltemos à ideia-título: “o povo unido jamais será vencido”. Será um mito? A resposta é, ao mesmo tempo, negativa e positiva.

Não é um mito porque o povo tem uma realidade histórica, possui uma agência poderosa na luta política, mas sua constituição como tal é frágil e essencialmente provisória. Certamente, enquanto estiver unido, jamais será vencido.

Entretanto, se torna mito por duas razões: primeiro porque, mesmo admitindo que unido jamais será vencido, a união é sempre provisória e frágil. O povo unido é um momentum fundamental da luta política, não é o agente de um projeto político de longo prazo. Além disso, há ainda um segundo aspecto do mito. O povo da canção chilena era progressista, lutava por democracia, por igualdade e, muitas vezes, por socialismo. No século XXI, o povo pode ter estas características, quando for de esquerda, mas pode ser também a negação delas, quando for de direita. Em ambos os casos, a presença do líder, como símbolo da união do povo, e a fragilidade das experiências democráticas nestes cenários, fazem do povo, como agência da transformação, um mito cada vez mais forte.


Nota

[1] A frase el Pueblo unido jamás será vencido é parte de uma canção chilena que teve música composta por Sergio Ortega e texto escrito pelo grupo Ǫuilapayún, em junho de 1973. Foi uma espécie de hino da Unidade Popular que elegeu Allende e, após o golpe militar, tornou-se um hino da resistência. Ainda hoje é símbolo dos movimentos progressistas populares no mundo inteiro.

Referências

GOMES, Angela de Castro. (2005). A Invenção do Trabalhismo. Rio de Janeiro: Editora FGV.

LACLAU, Ernesto. (2005). La Razón Populista. Buenos Aires: Fondo de Cultura.

LYNCH, Christian & CASSIMIRO, Paulo. (2022). O Populismo Reacionário. São Paulo: Contra Corrente.

MAQUIAVEL, Nicolau. (2010). O Príncipe. São Paulo: Penguin; Cia das Letras.

PANIZZA, Francisco. (2005). Populism and the Mirror of Democracy. London: Verso.

WEFFORT, Francisco. (1978). O Populismo na Política Brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra.


Sobre o autora

Céli Regina Jardim Pinto é Professora Emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sua produção científica trata de Teoria Política com ênfase em teoria da democracia e teoria feminista.

Deixe um comentário