Coluna Primeiros Escritos | Resenha | Os substitutos: romance sem identidades, por João Arthur Macieira


Os substitutos (2023), do escritor Bernardo Carvalho, é resenhado por João Arthur Macieira (IESP-UERJ) na Coluna Primeiros Escritos. Estruturado em forma de fragmentos e com uma temporalidade assíncrona, o romance reconstitui a relação entre um menino de classe alta do Sudeste e seu pai. Para Macieira, trata-se de uma obra que não busca afirmar posições políticas ou identitárias, como é comum em boa parte da literatura contemporânea, seja brasileira ou estrangeira. Em vez disso, o livro procura provocar um “estranhamento produtivo”, desafiando o leitor a interpretar cada fragmento sem oferecer respostas prontas sobre heróis e vilões.

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Os substitutos: romance sem identidades

Por João Arthur Macieira (IESP-UERJ)

A literatura contemporânea, brasileira e estrangeira, tem buscado se ancorar na representatividade enquanto motor de vendas e de produção artística. Se for nesse espírito, o leitor vai se decepcionar com Os substitutos, romance de Bernardo Carvalho, publicado pela Companhia das Letras no ano passado. Ainda que as editoras façam parecer que o bom romance deve ser potente e poderoso por representar determinadas coletividades com maior ou menor autoridade, ainda há muitos bons escritores que não produzem esse tipo de texto. É o caso do romance em questão.

Livro composto de forma fragmentária – o que já é mais uma tendência atual do que uma postura disruptiva –, narra a história de um menino de classe alta do Sudeste, que reconstrói sua relação com o pai a partir de uma temporalidade assíncrona. A assincronicidade dos eventos centrais da narrativa, ou os deslocamentos espaciais, não são invenções contemporâneas, apesar de terem recebido um tratamento especial por autores que só agora se tornaram muito importantes, como W. G. Sebald. Sobre isso, Jacques Rancière escreveu um primoroso ensaio, contido em As Margens da Ficção (2021). Ainda assim, devido à capacidade adquirida pelos romances do início do século XX de influenciar nosso imaginário estético, espera-se que, nas boas narrativas, a rememoração passe por um trabalho de elaboração sensorial, cujo resultado é a condensação de estados de espírito ao redor de uma imagem simples, ao estilo proustiano.

Os substitutos é um romance muito mais “superficial”. A superficialidade nos romances tampouco é novidade, mas pode sempre constituir um defeito ou um trunfo. Levemos em consideração que os romances se tornaram objetos de prazer e de reflexão individual e silenciosa durante a modernidade. Graças ao desenvolvimento de técnicas narrativas como as de Virginia Woolf e Marcel Proust, momentos da realidade cotidiana antes desconsiderados, tornaram-se centrais para o desenvolvimento e temporalização do romance. Portanto, as narrativas se transformaram também em mimésis de uma vida mais próxima das que a maioria dos leitores vai atravessar. No Brasil, os resultados disso foram comentados por Silviano Santiago.     

Entretanto, pode-se dizer que há duas possibilidades: atravessar a leitura em busca de emoções que apenas reforçam posições subjetivas prévias ou atravessar leituras que, apesar de muito próximas, são capazes de causar um estranhamento produtivo. Quem procurar Os substitutos como uma leitura para reafirmar, em seu próprio coração, que está do lado certo da história do Brasil, provavelmente não ficará satisfeito.

Não há tentativa por parte do autor de redenção nas rememorações que o menino faz sobre o pai, mesmo que esse mesmo menino venha a se tornar um antropólogo homossexual no tempo futuro e seu pai só apareça enquanto uma figura detestável, covarde, decadente e trágica: um lacaio bem pago do pior tipo de capitalismo subdesenvolvido brasileiro. O pai, o Brasil e a cultura da qual eles fazem parte não são elementos distantes do narrador, ainda que deles seja preciso sentir asco e fazer trolha. As experiências narradas, cujo único resultado possível é a vergonha, são todas coletivas e constituem a memória de pai e filho. Não há nada que abra espaço para superioridades intelectuais ou morais; não há um “Brasil de verdade”, onde vivem os antropólogos inteligentes e de esquerda e o Brasil “do mal”, em que habitam os empresários corruptos e os assassinos – eles são a mesma família, a mesma matéria brasileira.

A obscenidade do pai é extremamente interessante. Ele está disposto a estragar sua imagem perante o filho. Além do pouco tempo que tem para passar com o menino, separa parte dele para encontrar suas amantes; além de mentir para a mãe do menino; chantageá-la usando seu filho; a fazer negócios obscuros e corruptos; a ser humilhado por homens esdrúxulos de poder regional, assassinos sem coração ou complexidade intelectual. Tudo isso é apreendido pelo filho e depois rememorado sem julgamentos morais ou soberba. Há, ao mesmo tempo, a certeza de que o pai é vulgar e eticamente falho e a existência de um amor inquebrantável que impede que o menino desista dele, senão em vida, ao menos em suas memórias.

O pai representa a extrema direita que emergiu neste século? Representa o agronegócio? Representa a ditadura e/ou os resquícios dela? O menino representa a resistência de esquerda contra isso tudo? Representa as classes médias intelectualizadas contrárias ao assassinato de povos nativos e à destruição do meio ambiente? A resposta pode ser sim ou não para todas essas perguntas, sem constituir um demérito para o livro.

A memória assume um papel crucial nessa construção, que também é explorada a partir dos fragmentos de um livro de ficção científica que o menino lê durante o romance. Mais uma vez, o “certo” seria esperar algo bastante distinto: num romance de formação, por exemplo, o sentido da vida dos personagens seria alimentado pelo(s) livro(s) que acompanham o protagonista através de sua vida. Para início de conversa, trata-se de uma ficção científica, que está longe de ser reconhecido como um gênero da grande literatura. Em segundo lugar, em um romance de formação, essas duas histórias se encontrariam numa apoteose que confirmaria o poder da literatura de transformar subjetivamente os sujeitos para que eles ajam com maior pertinência e objetividade no mundo. Essa foi a teorização clássica de Lukács a respeito do romance moderno francês (Balzac) e alemão (Goethe).

Mas é justamente o oposto que se dá: muitos anos depois, o menino, agora professor universitário, encontra num sebo uma pequena biografia dedicada ao autor daquele livro de ficção científica. Chega, então, à conclusão de que ele era um ingênuo, que era alguém que acreditava que a leitura de seu livro teria uma lição, uma função pedagógica. Ao contrário do processo de formação, que, em sua gênese, atuaria tanto no interior do indivíduo quanto num âmbito nacional e, em largo alcance, num escopo universal, está ausente. A literatura não tem nenhuma função pedagógica pré-definida e as lições intencionadas pelos autores são nulas. Pode parecer muito pessimista, mas também pode servir de metáfora à rala capacidade de agirmos em relação a esse Pai-País vulgar e antiético com o qual convivemos no século XXI.

O livro de ficção científica lido pelo protagonista conta a história da ocupação de um planeta alternativo, encontrado após notícias da possível extinção da vida terrestre. Naves espaciais são enviadas ao planeta, mas antes de habitá-lo, os humanos utilizaram clones produzidos artificialmente como cobaias. Além disso, nessas cobaias foram implantadas memórias artificiais, a fim de enganá-los sobre seu passado na Terra: eles viveram vidas normais em famílias nucleares, de quem sentiam muita saudade. O protagonista da ficção científica, porém, não possui memórias. Por um erro no sistema, proposital ou não, o menino não reconhece os pais fictícios assim que eles desembarcam da espaçonave que os trouxe. Desprovido de memórias, o menino enxerga melhor o presente do que os outros. Ele reconhece que tudo não passou de um plano, no qual eles seriam escravos dessas famílias recém-chegadas.

Essa história paralela, quando atinge seu ápice, mistura-se à relação que o menino tem com os “índios” locais onde seu pai comprou um novo terreno. Mais tarde, o pai, junto aos seus capangas que atuam como “administradores” do terreno, irão massacrá-los. A aproximação entre o protagonista e os indígenas é muito mais imaginária do que real, o que não significa que ela não é efetiva; eles ingressam em sua imaginação, mais tarde se tornando tema de sua primeira monografia etnográfica na faculdade. Também conhece a história do filho do administrador da fazenda (cujo tamanho é de um município) que seu pai está adquirindo na região: ele foi “adotado” pelo administrador, mas, na verdade, nasceu na aldeia junto aos indígenas.

À primeira vista, tudo está interligado, mas a verdade é que não é possível estabelecer uma relação direta entre o livro lido pelo menino dentro do romance e o próprio romance que nós, leitores, temos em mãos. Não temos acesso àquela lição pedagógica do romance de formação, na qual o livro lido pelo protagonista o ensinaria distinguir o certo do errado, a mentira da verdade. Quem são os indígenas no livro de ficção científica? São as cobaias do experimento? Então, quem se rebela contra os terráqueos? E quanto ao menino, leitor da história de ficção científica, não seria ele a figura idêntica ao protagonista do livro? A verdade é que, se é possível encontrar analogias entre as duas coisas, não há nenhuma relação de identidade entre as narrativas.

Portanto, aquilo que os historiadores chamam de campo de experiência não serve de maneira direta para a construção de um horizonte de expectativas. Contudo, isso nem de longe quer dizer que a leitura do livro de ficção é inútil ao personagem. Ela possui um efeito concreto no seu desenvolvimento, ainda que esse desenvolvimento não possa ser reduzido a nenhuma lição pré-moldada. 

O efeito “pedagógico” de Os substitutos, acredito eu, é similar: ele não ensina sobre a ação correta no plano prático da vida, nem sobre ancestralidades fictícias ou reais, muito menos sobre o uso adequado da linguagem na identificação de sujeitos sociais ou individuais, mas ele contém uma perspectiva que está longe de ser descartável: nós sabemos diferenciar muito claramente os vilões nessa história, ainda que o herói (protagonista) que emerge aí não seja constituído da maneira como se poderia esperar.

 A não-identidade constitui o potencial criativo do romance – assim como dos efeitos da leitura do romance de ficção científica pelo protagonista de Os substitutos. Um grau de estranhamento se sobrepõe ao outro, sem garantias nem de identificação de inimigos claros, nem de problemas sociais, nem de identidades fixas pelas quais lutaremos. Ainda assim, esse estranhamento é capaz de incitar uma reflexão intrigante. Em determinado momento do romance, o menino narra da seguinte maneira uma ida ao cinema com o pai:

Uma dúzia de espectadores se espalhava pela sala, em cadeiras que já não formavam filas mas que correspondiam à desorganização das vontades individuais. Pai e filho se sentaram no fundo, perto das portas, e em poucos minutos o pai adormeceu, embalado pela vibração dos ventiladores e pelo sussurro de homens abraçados a mulheres que lembraram às índias do filme, só que mais feias. Pareciam indiferentes ao que acontecia na tela e ao zumbido dos ventiladores. Num movimento lento e progressivo, entretanto, passaram da aparente indiferença a uma manifestação coletiva sincronizada com o aumento da tensão dramática. Um riso aqui, um susto ali seguido de palmas e, por fim, durante os últimos vinte minutos reservados à vingança da dupla de caubóis, uivos de felicidade, enquanto índios eram derrubados, um a um, sob os tiros das Winchesters, e depois esfaqueados e degolados, e foi nessa hora, no ápice da catarse coletiva, em meio a toda empolgação, que o pai despertou e voltou a passar mal, primeiro resistindo em silêncio, para enfim dizer ao filho que precisava voltar à pensão (Carvalho, 2023: 67).

Muitas coisas poderiam ser ditas a respeito da passagem acima. Para mim, há uma clara conexão entre alienação e cinema, frustrando expectativas que emergiram no início do século XX, por exemplo, nos escritos de Walter Benjamin e que deslocam os resultados práticos de um filme western em direção ao niilismo pessimista, não sem toques de masoquismo como bem esperava Theodor Adorno da cultura de massa. Ainda mais falando de Brasil e sociedades periféricas, uma narrativa construída com base em princípios do Indian Removal e da exterminação dos nativos americanos tem, para os que parecem ser justamente os “nativos brasileiros” ou seus descendentes, um efeito inverso ao que o pensamento crítico poderia esperar: eles aplaudem o próprio extermínio quando convertido em manifestação cinematográfica, reforçando a cegueira social no plano concreto diante do extermínio de si, primeiro em suas condições de vida (as próprias condições materiais da cidade e, especialmente, da sala de cinema, numa postura à maneira de Balzac, já indicam isso) e depois no massacre conduzido pelo pai do menino e seus capangas contra os povos originários da região.

A força do livro e da passagem acima não vem da identificação, mas justamente de seu contrário. É disso que acredito que a literatura contemporânea pode se alimentar, num diálogo dissonante com a atual onda identitária. Isso que chamei de “literatura contemporânea” não tem um nome bem definido e não há um consenso entre críticos, historiadores e sociólogos da literatura sobre o que ela é nem o que ela quer. Alguns escritores vêm tomando a missão de torná-la uma “literatura para os que não leem” (como Geovani Martins e Sean Thor Conroe), função teorizada de maneira análoga na obra de Silviano Santiago no século passado. Não me parece ser esse o objetivo de Bernardo Carvalho e, ainda assim, seus livros ingressam como alguns dos mais significativos entre os escritores brasileiros vivos. Sua perspectiva ainda aparece destacadamente no cenário de ficção contemporânea.