
Publicamos hoje mais uma resenha na série especial sobre a Coleção Pensamento Político e Social da Hucitec. O livro da vez, resenhado por Eduardo Dimitrov (UnB), é Poema sujo, intérprete do Brasil, de Lucas van Hombeeck, fruto de sua dissertação de mestrado no PPGSA/UFRJ. Lançado em 2022, o livro produz uma fina análise da prosa autobiográfica de Ferreira Gullar. Não se limitando ao conteúdo temático do “Poema sujo”, o livro examina minuciosamente linguagem e forma, demonstrando como esses elementos contribuem para a desconstrução do herói e para a crítica social. Forma estética e conteúdo temático são objetos de análise e contribuem significativamente para a interpretação do autor. Segundo Dimitrov, trata-se de uma obra imprescindível para compreender a poesia de Gullar e refletir, de maneira mais ampla, sobre a cultura brasileira.
A Coleção Pensamento Político e Social, da editora Hucitec, foi criada em 2010 por Elide Rugai Bastos (Unicamp), Gabriela Nunes Ferreira (Unifesp) e André Botelho (UFRJ), com Maurício Hoelz (UFRRJ) completando o time atual de diretores. Nesta série especial da BVPS, temos promovido reflexões sobre títulos específicos da Coleção por meio de resenhas, memórias, entrevistas e outras atividades que buscam informar leitoras e leitores em geral, e pesquisadoras e pesquisadores da área em particular.
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Entre o épico e o lírico: a incompletude da formação do povo brasileiro em Poema sujo, intérprete do Brasil
Por Eduardo Dimitrov (UnB)
Ferreira Gullar é sempre lembrado como um poeta ímpar. Foi também escritor de contos, crônicas, teatro e manifestos estéticos; muito atuante na vida cultural brasileira frente ao CPC (Centro Popular de Cultura) da União Nacional dos Estudantes, na militância contra a Ditadura Militar (1964-1985) e na imprensa até a sua morte em 2016. Menos se associa ao poeta seus ensaios memorialísticos ou aqueles dedicados a refletir sobre sua própria experiência e produção literária.
Essa foi a uma das grandes sacadas de Lucas van Hombeeck em seu livro Poema sujo, intérprete do Brasil. O livro não se resume a ela, longe disso, mas, certamente, é a partir dessa constatação – a atuação de Gullar como um dos principais intermediários na recepção de sua poesia – que Hombeeck consegue romper os limites da fortuna crítica estabelecida e imprimir uma leitura original do Poema sujo, talvez o principal poema de Ferreira Gullar.
Para criar esse distanciamento, permitindo uma análise menos apaixonada e contaminada pelas próprias formulações do autor, Hombeeck realizou um amplo levantamento bibliográfico e o tratou com metodologias quantitativas para bases textuais, permitindo transformar em gráficos as zonas temáticas mais trabalhadas pelos comentadores. Metodologias ainda pouco exploradas nas ciências sociais brasileiras e, como demonstra, com amplo potencial para auxiliar na compreensão de bens simbólicos.
O Poema sujo não foi apreciado apenas por amantes da poesia ou militantes de esquerda. Alguns dos maiores intelectuais e críticos literários brasileiros dedicaram-se a comentá-lo. Manuel Bandeira, João Luiz Lafetá, Sérgio Buarque de Holanda, Alfredo Bosi, Alcides Villaça, Davi Arrigucci são apenas alguns dos nomes. Hombeeck sublinha, no entanto, que mesmo esses experientes críticos acabaram sendo encantados pelos feitiços autobiográficos do poeta. De diferentes maneiras, as balizas interpretativas postas pelo próprio Gullar ecoam em seus comentadores, criando, assim, uma espécie de “contrato tácito” entre crítico e autor. As interpretações do Poema sujo, mesmo aquelas produzidas por alguns dos mais competentes leitores, partiam de formulações controladas pelo próprio Gullar. O poeta conseguiu criar um “pacto autobiográfico”, fazendo as leituras dos comentaristas estarem, efetivamente, mais informadas pelos ensaios e textos autobiográficos do que em aspectos internos retirados de uma análise cerrada aos poemas.
E não foram poucos os textos e ensaios nos quais Ferreira Gullar narra suas experiências ou explicita suas referências e intenções literárias. Hombeeck dedica-se a uma análise crítica da prosa autobiográfica de Gullar, examinando “Em busca da realidade”, capítulo de Cultura Posta em Questão (1963); Sobre Poesia (uma luz do chão) (1978); Rabo de foguete – os anos de exílio (1998) e Autobiografia poética (2015). Nesses textos, Gullar constrói uma imagem de si oscilante entre o herói e o anti-herói; um intelectual engajado, buscando a coerência entre suas escolhas estéticas e políticas, revelando-se, porém, vulnerável e contraditório.
Essa imagem cuidadosamente construída por Gullar informou diretamente a recepção de sua poesia, levando a uma leitura muitas vezes acrítica e superficial do Poema sujo. Ao analisar “Cultura Posta em Questão”, por exemplo, Hombeeck demonstra como Gullar se posiciona em relação à tradição literária brasileira, buscando colocar-se como um ponto de ruptura e continuidade em relação aos modernistas de 1922 e à geração de 45.
Já em Rabo de Foguete, Hombeeck examina a construção da figura do herói como perseguido político, um sobrevivente da Ditadura Militar que narra suas experiências com uma mistura de coragem e fragilidade. Ao analisar a prosa de Gullar, Hombeeck não busca invalidar a força literária desses textos, mas demonstrar como a construção da persona autoral, com suas nuances e contradições, buscou controlar a recepção de sua poesia.
A originalidade da pesquisa de Hombeeck torna-se mais evidente na análise do Poema sujo. A oscilação entre a identificação e a dissolução do herói, expressa na estrutura formal do poema, é uma interpretação criativa da cultura brasileira pelo desencantamento com o heroísmo tradicional.
A “sujeira” do poema, representada pela linguagem crua, pelas imagens escatológicas, pela desconstrução da forma tradicional… evidenciam a crítica de Gullar ao heroísmo romântico e à idealização do povo brasileiro. Essa desconstrução está presente nas referências a figuras heroicas da literatura brasileira, como Olavo Bilac e Gonçalves Dias, ressignificadas e “desencantadas” no poema.
A fragmentação do herói na linguagem poética, segundo Hombeeck, é fundamental para se compreender a crítica social presente no Poema sujo. Ao desconstruir a figura do herói tradicional, Gullar expõe as contradições e as dificuldades de se construir uma identidade nacional unificada em um contexto social e político marcado pela desigualdade, pela violência e pela repressão.
A análise não se limita ao conteúdo temático do Poema sujo. Hombeeck examina minuciosamente linguagem e forma, algo incomum entre cientistas sociais, demonstrando como esses elementos contribuem para a desconstrução do herói e para a crítica social. Forma estética e conteúdo temático, ambos, são objetos de análise e contribuem significativamente para a interpretação.
Hombeeck destaca, por exemplo, elementos da poesia épica e lírica como um dos recursos de Gullar para expressar a ambiguidade do herói moderno. A extensão do poema, incomum para os padrões da poesia brasileira, dialoga com a tradição épica, enquanto a variedade métrica e rímica remete à subjetividade da lírica. Essa fusão de gêneros, no entanto, resulta em uma tensão constante entre a grandiosidade do épico e a fragilidade do lírico, criando a impossibilidade de se construir uma narrativa heroica no contexto brasileiro.
Gullar recorre a um léxico coloquial e a uma sintaxe fragmentada para expressar o caos e a violência do mundo moderno. Essa “sujeira” é um elemento estético cuidadosamente trabalhado para romper com a tradição literária brasileira, marcada pela idealização da linguagem e pela busca por uma beleza formal purificadora. Ao revisitar a “sujeira” do real, Gullar interpela as idealizações e expõe as feridas de um país marcado pela desigualdade e pela injustiça social.
Poema sujo, intérprete do Brasil é uma obra fundamental para a compreensão da poesia de Ferreira Gullar e para a reflexão sobre a cultura brasileira. A análise criativa de Hombeeck do Poema sujo consiste em tratá-lo como uma interpretação do Brasil, enquanto reflete e questiona a impossibilidade de um herói unificador em um contexto social e político marcado pela fragmentação e pela desilusão, pelo desencantamento do mundo, pela sua desmagificação e, ainda, por sua perda de sentido. Metonimicamente, o povo brasileiro também viveria esse impasse entre a desagregação e a perda de um sentido para sua formação. A “sujeira” do poema, torna-se um elemento de crítica social, revelando as contradições e as mazelas de um país em seu processo de modernização conservadora.
Ao mesmo tempo em que evidencia a falta de sentido e o desencantamento do mundo, Poema sujo apresentaria lampejos de esperança e de resistência. A persistência da memória, representada pelas lembranças da infância e pela evocação de figuras históricas, aponta para a possibilidade de se construir uma narrativa a partir dos fragmentos do passado. A força da linguagem, mesmo em sua crueza e fragmentação, demonstra a capacidade da poesia de dar voz às experiências marginalizadas e de resistir à opressão.
