Desassossegos | Coluna de Alcida Rita Ramos

Na última coluna de Alcida Rita Ramos (UnB) deste ano, ela recebe Estevão Senra (ISA) para refletir sobre o passado, o presente e o futuro da resistência Yanomami. Inaugurada em fevereiro de 2024, esta é a vigésima primeira publicação da bem-sucedida Coluna Desassossegos, que, quinzenalmente, nos presenteia com provocações sobre a prática antropológica e a resistência indígena. Do incêndio, abordado no texto de estreia da coluna, à esperança renovada, Risos e Lágrimas na Floresta Yanomami traça um retrato de reconstrução e luta por direitos fundamentais. Afinal, o céu ainda não caiu. Mas, será que isso indica que a batalha está vencida?

Para ler outros textos de Alcida Rita Ramos publicados em sua coluna, clique aqui. Conheça também o e-book com textos dela, publicado na BVPS Coleção.

Boa leitura e não deixe de acompanhar nosso Instagram!


Risos e Lágrimas na Floresta Yanomami

Por Alcida Rita Ramos (UnB) &

Estêvão Senra (ISA)

Pois é por meio da beleza que os yanomamis afirmam a sua humanidade no mundo. (Dário Yanomami e Estêvão Senra, Folha de S. Paulo, 08/02/2023)

Alcida

Que recursos têm os Yanomami para enfrentar o caos que há anos os acossa, como se todos os dias um pedaço de céu lhes caísse em cima? De onde vem essa estâmina para, como uma formidável Fênix, renascer das cinzas uma, duas, muitas vezes? De onde lhes vem a coragem de continuar vivendo e multiplicando enquanto milhares de garimpeiros invasores lhes tomam tudo de assalto: terra ‒ a floresta ‒, rios, saúde, vidas e até dignidade? Com que armas poderosas que não matam ninguém têm lutado contra o extermínio e o oblívio e, apesar de agredidos, depauperados, lambendo as feridas, levantam a cabeça e veem que, afinal, o céu não caiu? Meia década de desmandos de um governo desgovernado ‒ quando nos chegavam números alarmantes de infanticídios e estupros cometidos por criminosos, de ataques armados a comunidades, da devastação da malária, da fome, do colapso social ‒ que ameaçava arruinar irremediavelmente a tessitura da vida Yanomami, vemos alguma mudança acontecer nesse cenário. Depois de longos períodos entre esperança e desespero, chega-nos uma brisa redentora que confirma que não é por acaso que os povos indígenas habitam o século XXI, depois de meio milênio resistindo a tentativas de extermínio. Os Yanomami não ficam atrás. Estão aqui, entusiasticamente, juntando os cacos espalhados pelo cataclisma do ouro. Estão se erguendo, mais uma vez, das cinzas do desatino dos outros.

Para nos pôr a par dos ânimos que começam a reinar pela Terra Indígena Yanomami, convido Estêvão Senra, geógrafo, pesquisador do Instituto Socioambiental (ISA) e apaixonado por esse povo, cuja magia tem fisgado tantos de nós, a nos brindar com as tão almejadas “boas notícias”, mesmo que temperadas com uma pitada de otimismo, porque, como se diz por aí, ninguém é de ferro.

Estêvão

Minha infância no subúrbio de Belo Horizonte nos anos 1980 e 1990 não foi nada má. Eu me lembro de viver praticamente numa sociedade de crianças, explorando o bairro de bicicleta, descendo ladeiras de rolimã e jogando bola, muita bola, em todos os formatos possíveis (paredão, ranca, golzinho, peru…). Naquela época, contudo, a violência também fazia parte do nosso cotidiano, às vezes, em doses nada infantis, o que nos obrigava a manter as antenas sempre ligadas e também buscar formas coletivas de elaborar tudo aquilo.  

Não eram incomuns brigas entre as “gangues” dos diferentes bairros da zona norte. Ser ameaçado na rua por um pivete com canivete na mão era episódio corriqueiro. Certa vez, um colega foi preso e levado para um reformatório. Depois que voltou para casa, nunca mais foi o mesmo. A Febem o destruiu e as suas ruínas nos assustaram profundamente. Em meio a tais contradições, a solução que encontramos para seguir (brincando e apanhando na rua) foi caprichar nas porções de humor para ler a vida. A gente ria de tudo: do colega apaixonado, das goiabeiras pilhadas no lote do vizinho, e, principalmente, das nossas próprias desgraças.

Quando cheguei aos Yanomami em 2013, fui trabalhar no Ajarani, região onde viviam os sobreviventes da construção da Perimetral Norte, rodovia planejada e executada parcialmente no período militar, que atingiu em cheio o território Ỹaroamë, em 1974, ceifando cerca de 80% da população local, sobretudo pelo sarampo levado pelos operários da Camargo Correia. Havia ali duas comunidades na época: Cachoeirinha e Xikawë, esta última construída nos fundos de uma fazenda em processo de desintrusão (retirada de ocupantes irregulares da já demarcada Terra Indígena Yanomami). Os Ỹaroamë, depois do contato, passaram anos vivendo entre madeireiros e fazendeiros, em relações quase sempre de exploração, que produziram um contexto de muita violência e conflito, com repercussões até os dias de hoje.

Desolação, Ajarani 1974. Foto: Juvenal Pereira.

Nunca consegui me aproximar muito dos moradores de Cachoeirinha, pois, quando cheguei à região, o seu líder acabara de ser assassinado, e a comunidade estava em franco processo de fragmentação. Mas, em Xikawë, consegui fazer bons amigos. E o que possibilitou essa conexão foi, justamente, o humor e a capacidade de autozombaria diante de uma miríade de infortúnios.

Tenho memórias muito boas do meu convívio com os Yanomami, mas uma que não me sai da cabeça é a de um episódio muito simples, quando navegávamos pelo rio Apiaú, para onde o pessoal de Xikawë se mudara depois de um conflito. Nosso motor quebrou enquanto seguíamos na contracorrente. Sem remos, todos tiveram que ajudar de alguma forma. Alguns calçaram as mãos com suas sandálias para aumentar a eficiência da remada braçal. Imediatamente, os que não tinham havaianas começaram o gracejo, argumentando que não tinham condições de ajudar porque careciam de instrumentos, ironizando a própria indigência. Então, subitamente, um dos remadores teve suas sandálias sugadas pelo rio e a canoa quase emborcou sob as gargalhadas dos demais. Mal acabávamos de recuperar o fôlego, um relâmpago anunciava uma chuva torrencial, e todos nos demos conta que a coisa ainda podia piorar. Chegamos ao porto horas depois, encharcados e com a barriga doendo de tanto rir.

O humor e a descontração, porém, não são características exclusivas dos Ỹaroamë. Acredito que isso é realmente um traço cultural dos Yanomami, assim como são o tabaco e os rituais fúnebres. Rir é uma virtude, cultivada e celebrada por esse povo, que gosta de rir, principalmente, de maneira coletiva (ĩkãmayou). Essa deve ser a principal razão do imenso carinho que tenho por eles. A minha história com os Yanomami foi de humor à primeira vista!

Paradoxalmente, a maior parte do meu trabalho consiste em monitorar e compilar informações, não sobre as belezas e virtudes desse povo, mas sobre as desgraças que a nossa sociedade lhes impõe, particularmente, através do garimpo. Confesso que, quando comecei o trabalho em 2013, não imaginava que a história se repetiria como tragédia na mesma escala – de fato, pior − da primeira corrida do ouro em 1987-1992. E, quando percebi que isso poderia acontecer, busquei na experiência dos meus colegas da velha guarda (que inclui a querida Alcida) os dispositivos necessários para auxiliar meus amigos nas denúncias desse processo.

Como pesquisador, sabia que a minha contribuição aos Yanomami seria pelo emprego de técnicas de produção e organização de dados que pudessem dar materialidade, no sentido jurídico, às denúncias das comunidades, e foi isso que fizemos. Preparamos uma documentação que costura imagens de satélite, dados epidemiológicos, reportagens e depoimentos locais para contar a história que precisava ser contada. Naturalmente, o bom humor não tinha espaço nesse tipo de material, então nos valemos de outra característica Yanomami, que é a imensa capacidade de expressão dramática. Acredito que o resultado é digno de orgulho. Esse material ainda hoje é utilizado pelas organizações indígenas como uma importante ferramenta de defesa dos seus direitos.

Outro dia, depois de ler a última publicação que fizemos sobre o tema, uma colega me perguntou como eu conseguia viver, lidando com todas aquelas tragédias quase diariamente sem precisar recorrer a remédios ou a intervenção psicoterapêutica regular. Para ela, tudo era extremante deprimente. Como alguém poderia gostar de trabalhar com um povo que passava por tais condições? Ao que eu respondi que, para mim, os Yanomami jamais estiveram associados à tristeza ou ao desespero, mas sempre à esperança e ao bom humor. Foi o que eles me ensinaram. É por isso que, faça chuva ou faça sol, é sempre um prazer seguir remando ao lado deles.

Encontro de xamãs no Ajarani, 2013. Foto: Estêvão Senra.

***

Em outubro passado, fiz um sobrevoo de monitoramento pela Terra Indígena Yanomami. Preparamos uma visita às regiões mais afetadas pelo garimpo nos últimos anos, priorizando pistas de pouso clandestinas, antigos hubs logísticos e cavas com algum sinal de alteração recente nas imagens de satélite. Encontrei um cenário totalmente diferente daquele registrado no período Bolsonaro, quando aviões e helicópteros Robinson se apinhavam nos aeródromos, em meio a sacos de cassiterita enfileirados e barracões com mesas de bilhar e toalhas de plástico com florezinhas. Hoje, vêm-se ali, sobretudo, desoladas crateras e esqueletos de acampamentos e maquinários incinerados, como num filme de ficção científica. Depois de anos denunciando a escalada da invasão garimpeira na Terra Indígena Yanomami, é a primeira vez que tenho a sensação de ver alguma luz no fim do túnel!

Antes de entrar no avião, encontrei um Yanomami da região do Parima no hangar da empresa de frete aéreo. Aproveitei a morosidade do atendimento para puxar um papo com o rapaz, que tinha o nome de um artilheiro da seleção argentina da década de 1990, o que capturou a minha simpatia de imediato. Ele fez um relato tocante sobre a recuperação dos rios e a retomada da pesca na sua comunidade. Disse que, depois de anos, o rio deixou de ser um corredor de lama. Contou que, quando a água se fez translúcida novamente, eles se lançaram ao rio para buscar comida. Mas, inicialmente, os peixes maiores e preferidos, os grandalhões de couro, ainda tinham o ventre cheio de lama e eram descartados. Somente agora é que a fauna aquática aparenta saúde e é propícia para saciar a fome dos seus filhos. Vendo que eu me entusiasmava com a conversa, ele logo começou a falar dos planos e das expectativas da sua comunidade. Listou nada mais nada menos do que direitos sociais básicos: saúde, educação, segurança, alimentação…. Sonhamos juntos.

Finalmente, os Yanomami vislumbram um futuro diferente do horror imposto pela dominação garimpeira e isso é emocionante. Estamos vencendo. E precisa ser dito, pois, desde que essa contenda começou, houve quem argumentasse que se tratava de uma campanha perdida, um desperdício de recursos públicos e de tempo, e que somente a regularização da atividade mineral em Terras Indígenas poderia ser uma solução viável para o problema. Alguns políticos chegaram a ensaiar essa narrativa no início do ano, apelando para uma solução privatista para a segurança do território indígena, que, em última análise, é também a segurança da fronteira nacional. Sabemos todos, porém, que tal prosa nada mais é do que uma armadilha para, mais uma vez, rifar os direitos territoriais dos povos originários.

Por outro lado, não devemos nos enganar com os resultados momentâneos. O que foi conquistado ainda precisa ser consolidado. Novas bases de proteção precisam ser construídas, o controle do espaço aéreo e o bloqueio dos rios deve ser reforçado, e a regularidade das fiscalizações e ações de repressão deve ser mantida. Uma desmobilização abrupta no fim do ano seria um verdadeiro presente de Natal para o crime. Da mesma forma, o Estado precisa se fazer presente de outras maneiras. A malária precisa ser controlada (até agosto, já se somavam mais de 20 mil casos positivos), escolas devem ser reconstruídas e soluções para a segurança alimentar têm que ser implementadas. Como enfatizou meu companheiro do Parima, a polícia não pode ser a única face do governo no território.

Poder saber pensar! Poder saber sentir! (O Livro do Desassossego)


A imagem que abre o post é de Joana Lavôr e a foto de Alcida Rita Ramos é de autoria de André Aquere

3 comentários

  1. Que alegria conhecer essa história e esse trabalho! Valor, amor, determinação, cuidado, respeito. Tudo se vê aqui. Acada dificuldade uma superação. A cada contratempo um fôlego para seguir adiante. Como seria tão melhor o mundo se todos nos importassemos uns com os outros, ajudando, sendo ajudados, ensinando e aprendendo! Plantando e colhendo! Parabéns à coluna! Parabéns Ao Estevão! Excelente publicação!

  2. Excelente material. Texto jornalístico, emocionante e necessário. Gostaria de divulgá-lo na Revista Ecológico e indicá-lo ao Prêmio Hugo Werneck 2024.

    Hiram Firmino editor da Revista Ecológico

Deixe uma resposta