
Alcida Rita Ramos retorna às páginas da BVPS com Modulações, sua nova coluna. Professora Emérita do DAN/UnB e referência da antropologia e da etnologia brasileira, ela propõe agora ampliar o repertório e surpreender na escrita o gesto radical da inspiração. Após o sucesso de Desassossegos — coluna que nos acompanhou quinzenalmente ao longo de 2024, explorando a prática antropológica por meio de memórias próprias e compartilhadas —, Alcida se lança a novos desafios.
Modulações, cujo título evoca movimentos ondulatórios, passagens e variações, aposta no exercício de transformar inspiração em reflexão. Alcida mobilizará diferentes referenciais como ponto de partida — trechos de biografias, vivências, etnografias, literatura, entrevistas, protestos ou outras manifestações da oralidade — para ampliar e dar consciência crítica às ideias. Assim, neste texto de estreia da coluna, a autora faz da amizade seu objeto de análise, partindo de Bach e da recém-publicada biografia de Heloisa Teixeira, escrita por André Botelho e Caroline Tresoldi. Como declara Alcida, a amizade é um parentesco sem amarras, uma irradiação da empatia, uma plenitude existencial.
Não deixem de conferir esse novo projeto, que conta com a ilustração de Joana Lavôr.
Boa leitura!
Elogio à Amizade
Por Alcida Rita Ramos (UnB)

Modulações investe no exercício de transformar inspiração em reflexão. Ao longo da série, seleciono trechos de biografias, vivências, etnografias, literatura, entrevistas e outras expressões escritas, mas também pensamentos, desabafos, protestos e outras manifestações da oralidade que, de alguma maneira, tocam uma corda no meu ser. São pontos de partida, impulsos que me propelem a examinar e, com sorte, ampliar certas ideias e dar à consciência crítica o sentido que lhe confere Elena Mustakova-Possardt (Critical Consciousness: A Study of Morality in Global, Historical Context, 2003): um modo de ser que une coração e mente.
Começo esta nova série de colunas com uma escolha clara que me permite modular sobre a força da amizade. Destaco o livro recém-publicado Helô Teixeira. Crítica como Vida. É uma homenagem de André Botelho e Caroline Tresoldi à intelectual, figura pública, que encarou ‒ e ainda encara ‒ de tudo na vida: Heloisa Uma-vez-Buarque-de-Hollanda Teixeira. O livro é a proclamação de uma amizade longa e facetada que muito me inspira a encetar uma jornada de modulações ou variações sobre um determinado tema. Ao ler o livro, ou antes, quando soube que seria escrito em três meses (como realmente foi), por solicitação da própria Helô, me veio à mente, como numa sinapse instantânea, a história de Oferenda Musical, o monumento sonoro de J. S. Bach. Ambas as obras são produto de apelo e dádiva, no sentido maussiano. Ambas retornam a cortesia. Ambas são cativantes. Mas as semelhanças param aí.

Em 1747, com Bach já sexagenário, Frederico II da Prússia propôs-lhe um desafio: expandir uma simplória frase melódica de sua autoria ‒ o Thema Regium ‒ que julgava tarefa impossível. Quinze dias depois, Bach devolve o insulto na forma de oferenda (ou sacrifício?), contendo um magnífico labirinto de ricercare, cânones e sonata com duração de quase meia hora. Bach compôs a peça, não exatamente por amizade, mas para retribuir o desafio do rei. Se este nunca acusou o recebimento de tal presente, talvez por despeito, os séculos seguintes foram eternamente gratos.
Como gratos são os leitores de Helô.
Assim como Bach demonstrou com a sublime resposta ao desafio do rei, ouvir Oferenda Musical e ler Helô são ocasiões de expansão cognitiva e sensorial. Bach deflagrou uma torrente de meia hora de harmonia e beleza. André e Caroline revelaram, numa casca de noz (in a nutshell), a trajetória de uma jovem tateando uma vocação para chegar à intelectual madura, crítica, arrojada e muito dona de si.
Não é um festschrift como tradicionalmente o conhecemos, ou seja, uma coleção de autores diversos que podem, ou não, ter a pessoa homenageada como objeto de seus textos. Também não é uma antologia propriamente dita, pois não reúne obras da homenageada. A dupla de autores converge num só propósito e a soma de ambos gerou a obra singular que é Helô. Diz a Wikipédia sobre festschrift: “Na Alemanha, considera-se uma honra ser designado a preparar uma coleção. Se o pesquisador homenageado escolhe uma pessoa para fazer este trabalho, pode também significar que o escolhido é o seu sucessor por vocação”! Como estamos no Brasil, tal escolha vem acolchoada numa terna camada de amizade que vai muito além da apreciação intelectual.
Ou seja, o livro Helô é uma ode à amizade, um dos sentimentos mais nobres e duradouros no nosso mundo e em outros (lembro-me da instituição do amigo formal entre os Krahô e outros povos de língua Gê, tão ou mais importante que o parentesco). É uma oferenda, cujo único sacrifício foi a façanha de a produzir em tempo recorde. Uma oferenda de afeto: André e Caroline brindando Heloisa com Helô, utilizando aquilo que melhor os define, a escrita. Pela via intelectual, os autores atingem o alvo: um hino à amizade e à admiração. Então, por que não um subtítulo do subtítulo?: Crítica como afeto.
É verdade que o objeto-tema-propósito do livro é muito apropriado para um elogio à amizade. Helô-livro e Helô-mulher se confundem e misturam num só elemento na pena de André e Caroline. Cada um a seu modo, fazem Helô-Helô reverberar na vida desta leitora.
Temos muitos exemplos de dedicatórias, como Beethoven em Pour Elise. Ou Jorge Luis Borges numa infinidade de contos. Mas é um privilégio especial ser ao mesmo tempo destinatária e tema de uma obra. Isto é Helô!
Como Heloisa Teixeira, baixei nos Estados Unidos no início dos anos 60. Como ela, vivi aquela alteridade como substância de transformação. Lá aprendi a sair do casulo da primeira juventude, acanhada e ingênua. Já não tinha mais o luxo de me ancorar na inocência e, então, a vida começou para valer. Assisti ao despertar político no campus universitário norte-americano. Não aderi ao feminismo, mas convivi com protestos contra a guerra do Vietnã, com sit-ins, brownbag gatherings, shows de Pete Seeger e Joan Baez, com o movimento free speech e outros atos de rebeldia. Também eu experimentei o “sem chão” que leva a uma carreira cada vez mais independente de ideias recebidas que tolhem a sensibilidade e a visão livre de antolhos.
Assim, leio em Helô aventuras existenciais muito parecidas com as minhas, no processo de amadurecer profissionalmente, sem falar dos atropelos misóginos plantados ao longo do caminho de mulheres com vontade própria.
Aqui não esmiúço o conteúdo do livro à moda de resenha. Ao contrário, focalizo o gesto de fazê-lo, um gesto que inspirou em mim o desejo de me deixar embeber pela sensibilidade e sabedoria alheias, por ideias que, moduladas do meu jeito, me fazem crescer aos meus próprios olhos. De quebra, levanta algumas considerações acadêmicas. Para ser fiel à minha vocação de antropóloga, mudo agora de óculos e examino amizade como vista pela academia.
A secura e aspereza da análise antropológica pode transformar a amizade em sentimento quase espúrio. Ao saltar do pessoal para o social, faz dela um dispositivo de barganha. Vejamos o que diz Eric Wolf. Esse clássico da antropologia norte-americana dedica duas páginas de um capítulo (traduzido por um certo jovem aluno da UnB chamado Ítalo Moriconi) do livro de 1966, The Social Anthropology of Complex Societies. Ali Wolf divide o fenômeno amizade em dois tipos: amizade expressiva ou emocional e amizade instrumental. Passível de tipificação, a amizade transforma-se em recurso social para atingir certos fins. Está estreitamente associada a reciprocidade, um dos conceitos centrais do que dizem ser a “teoria” antropológica. E aí os dois tipos wolfianos se juntam para maior eficácia, pois para a amizade instrumental funcionar, é preciso que seja expressiva ou emocional. Como ele diz, “um elemento mínimo de afeto é sempre importante na relação. Se não está presente, dever ser fingido” (minha ênfase). Mais adiante, “se um favor não é atendido, a relação é rompida e é aberto o caminho para um realinhamento dos laços de amizade… Um desequilíbrio na relação automaticamente a rompe”. Deveras instrumental! Deveras gringamente pragmático! E assim, a sangue-frio, constroem-se etnografias, por vezes tornadas clássicas, sobre o notório Outro (no caso de Wolf, esse Outro eram os indígenas e ladinos de Chinautla, Guatemala).
Em outra frente, nem científica, nem literária, a vulgaridade a que está exposto o vocábulo “amigo” tem seu auge nas redes sociais. A ilusão de ter “um milhão de amigos” rouba desses usuários a rica vivência de uma genuína amizade e faz com que, não sentimentos, mas meras sensações ralas, opacas, insubstanciais, flutuem livremente pelo ciberespaço como zumbis feitos de miragens.
Mudo novamente de óculos e volto a ver, agora com mais nitidez, a amizade como a irradiação da empatia, da plenitude existencial, da solidariedade inconteste, da discordância na concordância que, como um ímã, acaba atraindo novos amigos feitos do mesmo material, ou seja, gente de carne e osso, de coração e mente.
Amizade é como o parentesco sem amarras. Mas não deixa de ter seus próprios esteios, seja numa história de interesses comuns, seja num instantâneo reconhecimento recíproco. Há que alimentar uma amizade, como se alimenta o próprio corpo e qualquer outro organismo vivo. Nutrir uma amizade é alimentar aquele órgão invisível responsável pela capacidade de entrega mútua, simétrica, compassiva. Neste sentido, Helô é um banquete!
Os amigos esperam, dia e noite, os novos amigos.
Vinde! É tempo! É tempo!
Friedrich Nietzsche (Além do Bem e do Mal)
