
A Coluna Primeiros Escritos da BVPS, que publica textos de pós-graduandos/as, também está presente na Ocupação Mulheres 2025. Rute Alonso, mestranda em Planejamento e Gestão Territorial na UFABC, apresenta a trajetória do Bloco Carnavalesco Casa da Dona Yayá, criado pela União de Mulheres do Município de São Paulo (UMSP) em 2000. O bloco articula luta feminista, direito à cidade e combate à violência manicomial, além de ser um importante espaço de memória e resistência por meio da música e do carnaval.
Para saber mais sobre a terceira edição da Ocupação Mulheres BVPS, clique aqui. Boa leitura e continue acompanhando nossa intensa programação ao longa desta semana.
Bloco da Dona Yayá: 25 anos de luta, purpurina, confetes e serpentina
Por Rute Alonso (UFABC)
Ô abre alas
Que eu quero passar
Eu sou da luta
Não posso negar
Eu sou do Bloco
Da Dona Yayá[1]
A primeira vez que a União de Mulheres do município de São Paulo (UMSP) botou o bloco na rua foi em 03 de março de 2000. O Bloco Carnavalesco Casa da Dona Yayá ou, simplesmente, Bloco da Dona Yayá[1], saiu às ruas do Bixiga para reivindicar os direitos das mulheres, direito à cidade e se manifestar em favor da luta antimanicomial. Desde então, há 25 anos, todo domingo que antecede o carnaval é dia de acordar cedinho e percorrer as ruas do bairro reivindicando direitos, mas com muita alegria, irreverência, purpurina e serpentina.
Mas, nem só de carnaval vive a história deste bloco, especialmente em relação a tudo o que aconteceu antes de as foliãs tomarem as ruas com suas fantasias. Pois bem, inicialmente, precisamos apresentar a organização feminista onde tudo começou.
A União de Mulheres de São Paulo é uma organização não-governamental feminista criada em dezembro de 1981, a partir de uma assembleia realizada no Sindicato dos Químicos no bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo, na qual participaram mais de 300 mulheres[2], dentre as quais Amelinha Teles, Criméia Almeida, Katia Antunes e Terezinha Gonzaga. Em seu primeiro boletim, a UMSP afirmou que seu objetivo era “lutar pelo direito das mulheres e pelas liberdades democráticas”.
Contudo, as mulheres que fundavam a UMSP já traziam outras bandeiras de luta, como a reivindicação por creches no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Além disso, muitas destas mulheres lutaram contra a ditadura militar no Brasil (1964-1985), como Amelinha Teles[3] e sua irmã Criméia de Almeida[4], ambas presas e torturadas durante o regime militar. As duas também estiveram envolvidas na construção da imprensa feminista. De acordo com Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite (2013):
Os primeiros jornais nacionais dirigidos a mulheres e feitos por mulheres, no período de 1975 a 1980, são o Brasil Mulher e o Nós Mulheres, ambos feministas, com sede em São Paulo. Defenderam ideias e princípios relacionados ao contexto político do movimento nacional feminista pós-luta armada, quando a oposição buscava novos espaços de atuação. Ambos estavam comprometidos com uma nova linguagem e com a difusão de reivindicações e propostas vinculadas diretamente às condições das mulheres e às novas formas de fazer política.
E estas mulheres continuaram fazendo política. Elas organizaram a UMSP e participaram intensamente no processo constituinte, lutando para que fossem garantidos os direitos das mulheres naquela que viria a ser conhecida como a Constituição Cidadã. Para tanto, estiveram envolvidas na elaboração da Carta das Mulheres aos Constituintes, onde elencaram e explicitaram os direitos reivindicados especificamente pelas mulheres aos/às constituintes para que fossem inseridos e garantidos na nova Constituição.
Diante do novo texto constitucional, as mulheres da UMSP tinham a preocupação de conhecer os direitos que estavam garantidos, mas também desejavam que as demais mulheres fossem conhecedoras de seus direitos para que pudessem, assim, reivindicá-los. Neste sentido, segundo a própria Amelinha, que sempre nos fala sobre a força de estar no coletivo e que nosso feminismo não é apenas sobre os direitos individuais, mas o de todas as pessoas:
Feministas são as mulheres, praticantes e estudiosas do feminismo, que lutam no cotidiano pela liberdade de expressão, de organização e de manifestação. São mulheres que se propõem a conhecer o mundo que as rodeia sob a perspectiva crítica relativa às opressões, dominações e explorações. São mulheres que almejam autonomia em suas vidas e nas vidas de todas as pessoas (Teles, 2022: 17).
Assim, em 1992, a UMSP e a ONG Themis (Porto Alegre – RS) participaram de um seminário promovido pelo CLADEM (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres)[5], no qual foram apresentadas experiências de grupos de capacitação legal realizados por mulheres e para mulheres em países como Argentina, Chile e Peru. Amelinha Teles (UMSP) e Denise Dora (Themis) perceberam que o projeto seria um instrumento muito importante na luta feminista, sobretudo naquele momento, pós-constituinte de 1986, em que houve a conquista da Constituição de 1988 e a necessidade de tirar nossos direitos do papel, tornando-os realidade na vida de todas as pessoas, especialmente das mulheres (Augusto & Quintas, 2024).
Em 1994, a UMSP deu início ao projeto de educação jurídica popular com a realização de um seminário de 60 horas de duração, intitulado “Introdução ao Curso de Promotoras Legais Populares”, que contou com a participação de 35 lideranças populares de entidades e sindicatos. Desde então, há 30 anos ininterruptos, a UMSP coordena o projeto de Promotoras Legais Populares (PLP) em São Paulo, envolvendo milhares de mulheres que expandiram a iniciativa para mais de 35 projetos em cidades do Estado, bem como para outros estados. Um exemplo disso é o projeto conduzido pelas professoras Cristiane Brandão e Mariana Trotta na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Hoje, as PLPs se articulam em uma Rede Nacional de PLPs, na qual identificam coletivos de PLPs em quase todos os estados da federação (@plp_rede_nacional, 2024).
Pois bem, com tanta atuação política e tanta luta por direitos, as mulheres da UMSP criaram o Bloco da Dona Yayá com o objetivo de chamar a atenção para a Casa da Dona Yayá e incentivar seu uso pela comunidade. A casa, localizada na região do tradicional bairro do Bixiga, no centro da cidade de São Paulo, era um imóvel que, à época, estava abandonado. Sua proprietária, Sebastiana de Mello Freire, conhecida como Dona Yayá, nasceu em 21 de janeiro de 1887 e foi uma famosa moradora do bairro, filha de uma rica e influente família paulista, marcada por acontecimentos trágicos. Ainda criança, Yayá perdeu duas irmãs pequenas; aos 14 anos, perdeu o pai e a mãe em um intervalo de dois dias; e, aos 18 anos, seu único irmão se suicidou. Devido ao fato de ser mulher e não ter nenhum parente de primeiro grau vivo, Yayá ficou sob a tutela de Manuel Joaquim de Albuquerque Lins, poderoso político paulista (França, 2023).
Apesar do que se impunha às mulheres àquela época, Yayá frequentou a escola, estudou fotografia, dirigia seu automóvel, viajou para a Europa e decidiu não se casar (Figueiredo, 2012). Mas, em 1919, Yayá foi internada em um hospital psiquiátrico, em decorrência de um diagnóstico de instabilidade mental. A partir disso, por indicação médica, ela foi trancada no imóvel localizado na Rua Major Diogo e permaneceu por volta de 40 anos em cárcere privado até sua morte em 04 de setembro de 1961.
Após sua morte e uma longa disputa judicial, os bens de Yayá foram declarados pela justiça como herança vacante e destinados à USP. O imóvel foi desocupado pela família que cuidava de Yayá somente em dezembro de 1980 e permaneceu abandonado por muitos anos, devido às dificuldades da USP em administrar os bens de seu acervo. Em 26 de janeiro de 1998, o conselho do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) aprovou o processo de tombamento da Casa, dada sua importância cultural, histórica e material, explicitando que “procura-se assim manter esta casa como representação de uma das formas da sociedade tratar a loucura no início do século XX” (França, 2023).
No entanto, apenas em 2002 foi criado o Centro de Preservação Cultural — Casa de Dona Yayá (CPC) como um órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo e, ainda assim, a Casa permaneceu fechada ao público até 2004, quando finalmente abriu suas portas. Ao longo destes 25 anos, as mulheres da UMSP participaram da luta para que o Estado destinasse a Casa como espaço de memória do bairro, da luta antimanicomial e dos direitos das mulheres.
Por isso, anualmente, as foliãs e os foliões do Bloco percorrem as ruas do Bixiga cantando canções elaboradas ao longo do ano, em rodas de conversa nas quais se refletem sobre as condições políticas do momento e as reivindicações do movimento de mulheres. Apenas para citar algumas produções do Bloco, há canções que resgatam a história de Dona Yayá, como “Eu vou contar agora” e “Mulheres, cadê Yayá?”, que explicitam como Yayá era uma mulher à frente de seu tempo, mas que foi tratada como louca. Como não poderia faltar em um bloco feminista, há também denúncias da violência contra as mulheres, presentes nas canções “Feminicídio” e “Maria da Penha”.
Além disso, há letras que falam da memória e da resistência da população negra no Bixiga, como “Tia Dita”, “Quem nunca viu um bloco se fazer” e “As lavadeiras do Saracura”. E, apesar de as letras que reivindicam os direitos sexuais e reprodutivos já terem sido cantadas em muitos carnavais, elas, infelizmente, continuam extremamente atuais. Por isso, “Vista sempre” e “Tem que valer nossos direitos” são canções presentes a cada ano.
O cancioneiro do Bloco reúne mais de 20 canções e versões de músicas cujas letras reivindicam os direitos das mulheres, políticas públicas, direito à memória, à vida digna, à cidade, entre outros (@blocodonayaya, 2024). Abaixo, compartilho apenas duas letras das músicas que serão levadas às ruas na saída do Bloco, no dia 23 de fevereiro de 2025:
Maria da Penha
Maria da Penha, uma brasileira.
Numa quarta-feira, Maria da Penha.
Vítima de violência,
teve muita consciência,
lutou feito uma guerreira.
Hoje é uma lei:
Onze mil trezentos e quarenta.
Essa é a Lei Maria da Penha,
que protege as mulheres,
pra todo mundo viver bem.(Márcio Mielle)
Tem que valer nossos direitos
Tem que valer,
tem que valer nossos direitos
com amor e com prazer.
Se a igualdade de direitos
só se encontra no papel,
nossa luta é pra valer,
somos metade do céu.
Este corpo que é nosso,
nós quem vamos decidir,
se a gravidez interrompemos
ou se queremos parir.
Nós quem vamos decidir!(Amelinha Teles)
Em tempos tão sombrios como os que estamos vivendo, precisamos celebrar, pois a celebração faz parte da nossa luta feminista. A alegria é um ato revolucionário, e como precisamos seguir lutando enquanto cuidamos da nossa saúde mental, fica o convite: “vista a fantasia e saia no cordão!”
Notas
[1] Versão do Bloco da Dona Yayá para a música “Ô abre alas” de Chiquinha Gonzaga. Mais informações sobre a história do Bloco da Dona Yayá estão disponíveis aqui e aqui.
[2] Informações disponíveis aqui.
[3] Maria Amélia de Almeida Teles, mais conhecida como Amelinha, nasceu em 6 de outubro de 1944, em Contagem, Minas Gerais. Sua militância política começou em 1960, quando, ainda muito jovem, aderiu ao Partido Comunista Brasileiro por influência de seu pai. Ao lado de sua irmã mais jovem, Criméia, foi presa em 1964, logo após o golpe militar, no Quartel do Barro Preto, em Belo Horizonte, onde permaneceram detidas por duas noites, acusadas de subversão. Em 1968, com o racha interno do PCB, as irmãs, que viviam na clandestinidade desde 1965, decidiram aderir ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), convictas da necessidade da luta armada diante da conjuntura política. Amelinha, então casada com o militante César Teles, passou a atuar na imprensa do partido. Em sua segunda prisão, ocorrida em 1972, Amelinha, César e Carlos Nicolau Danielli, companheiro de militância do casal, foram capturados pela equipe da Operação Bandeirantes (OBAN). Durante sua trajetória carcerária, passou pelo DOI-Codi/SP, Deops/SP, Presídio do Hipódromo e, por fim, pela Casa do Egresso, totalizando aproximadamente 10 meses de reclusão. Após sua soltura, Amelinha continuou sua militância política, com foco no movimento feminista e na busca pelos mortos e desaparecidos políticos. Atualmente, é coordenadora do Projeto Promotoras Legais Populares e integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Também foi assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva e da Comissão da Memória e da Verdade da Prefeitura de São Paulo (CMV). As informações sobre ela podem ser conferidas aqui.
[4] Criméia Alice Schmidt de Almeida, militante e ex-guerrilheira no Araguaia, iniciou sua militância política ainda na escola secundária. Cursou Enfermagem na Faculdade Ana Nery, no Rio de Janeiro, onde foi presidente do diretório estudantil em 1968. Presa durante o Congresso de Ibiúna, entrou para a clandestinidade após o AI-5. Como militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), seguiu para a região onde, posteriormente, teve início a Guerrilha do Araguaia. Grávida, Criméia ficou responsável pela comunicação entre os guerrilheiros e o partido, realizando viagens periódicas. Em uma dessas viagens, foi presa em São Paulo pela Operação Bandeirante (Oban) e levada ao DOI-Codi, junto com sua irmã, Amélia Teles, seu cunhado e seus dois sobrinhos. Foi torturada mesmo estando grávida de sete meses. Em depoimento à Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”, na Assembleia Legislativa de São Paulo, Criméia contou que um suposto médico acompanhava suas torturas: “[Ele dizia:] ela aguenta a tortura nos pés e nas mãos, só não pode espancar a região da barriga.” Depois, foi levada a Brasília, onde continuou sendo torturada até dar à luz, ainda sob constantes ameaças dos militares de que seu filho não sobreviveria. Após o parto, Criméia foi impedida de vê-lo e só pôde recuperá-lo 53 dias depois de seu nascimento, desnutrido e dopado. Em 2005, Criméia e seus familiares moveram uma ação declaratória contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do DOI-Codi naquela época, responsabilizando-o pelas torturas sofridas. Três anos depois, a Justiça de São Paulo acatou a ação, tornando Ustra o primeiro agente da ditadura a ser declarado torturador. Em 2012, seu recurso foi negado. Criméia mantém sua atuação política por meio da Comissão dos Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos. Confira aqui mais informações.
[5] O Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM) é uma rede regional que articula feministas e organizações de direitos humanos da América Latina. Criado em 1987, em San José, na Costa Rica, o CLADEM se institucionalizou em 1989, em Lima, no Peru.
Referências
AUGUSTO, Cristiane Brandão & QUINTAS, Mariana Trotta Dallana (org.). (2024). Amelinha Teles: é na luta que a gente se encontra!. Rio de Janeiro: Vialinguagem.
BLOCO DA DONA YAYÁ. (2024). @blocodonayaya. Instagram, 23 jan. 2024.
CENTRO DE PRESERVAÇÃO CULTURAL DA USP. (2023). Bloco da Dona Yayá – 12/02/2023. YouTube, 14 de fevereiro.
FIGUEIREDO, Ticiane. (2012). Vamos falar de Dona Yayá. Blogueiras Feministas, 16 de fevereiro.
FRANÇA, Mayra Carvalho Ferreira de. (2023). De volta ao mundo: patrimonialização e musealização na Casa de Dona Yayá. Dissertação de Mestrado em Museologia. São Paulo: Universidade de São Paulo.
GARGIULO, Elisa. (2011). 30 Anos de União de Mulheres de São Paulo. YouTube, 20 de outubro.
OLIVEIRA, Julia Glaciela. (2014). Promotoras Legais Populares: construindo pontes para a cidadania feminina. Semina: Ciências Sociais e Humanas, v. 35, n. 1, p. 113-126.
OLIVEIRA, Julia Glaciela. (2024). Dos encontros à união: A formação da União de Mulheres de São Paulo. CLIO – Revista de Pesquisa Histórica, n. 31.2.
PRÓ-REITORIA DE CULTURA E EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA DA USP. (2024). Casa de Dona Yayá recebe foliões no tradicional desfile de carnaval. USP, 02 fev.
TELES, Maria Amélia de Almeida. (2017). Breve história do feminismo no Brasil e outros ensaios. São Paulo: Editora Alameda.
TELES, Maria Amélia de Almeida. (2022). Feminismos: Ações e Histórias de Mulheres. São Paulo: Alameda.
TELES, Maria Amélia de Almeida & LEITE, Rosalina Santa Cruz. (2013). Da guerrilha à imprensa feminista: a construção do feminismo pós-luta armada no Brasil (1975-1980). São Paulo: Intermeios.
TELES, Maria Amélia de Almeida & MATSUDA, Fernanda Emy. (2014). 20 Anos de Promotoras Legais Populares de São Paulo: concebendo a transformação. São Paulo: União das Mulheres de São Paulo.
Sobre a autora
Rute Alonso da Silva é uma feminista lésbica, foliã do Bloco da Dona Yayá, PLP, membra da União de Mulheres do município de São Paulo, advogada e mestranda em Planejamento e Gestão Territorial na Universidade Federal do ABC.
