
Na nova rodada de postagens da Ocupação Mulheres, publicamos texto de Anna Faedrich, professora de Literatura Brasileira da UFF, que discute a marginalização histórica das escritoras no cânone literário e a importância das editoras feministas na recuperação e difusão de suas obras. A partir do pioneirismo da Editora Mulheres e de outras iniciativas, o ensaio de Faedrich destaca o papel dessas publicações na ampliação do acesso à literatura de autoria feminina e na transformação do cenário literário.
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Esquecidas não mais: o papel das editoras no resgate da autoria feminina
Por Anna Faedrich (UFF)
A história é o que acontece, a sequência dos fatos, das mudanças, das revoluções, das acumulações que tecem o devir das sociedades. Mas é também o relato que se faz disso tudo. Os ingleses distinguem story e history. As mulheres ficaram muito tempo fora desse relato, como se, destinadas à obscuridade de uma inenarrável reprodução, estivessem fora do tempo, ou pelo menos, fora do acontecimento. Confinadas no silêncio de um mar abissal.
Michelle Perrot
O Dia Internacional das Mulheres nos convida a refletir sobre a equidade de gênero, a representatividade feminina na literatura e a necessidade de amplificar vozes frequentemente silenciadas. Embora inúmeras escritoras tenham produzido obras de inestimável valor ao longo dos séculos, suas contribuições foram sistematicamente marginalizadas e excluídas do cânone literário. Para que suas histórias sejam conhecidas e reconhecidas, é essencial que seus livros estejam efetivamente acessíveis ao público, indo além do simples desejo de lê-los. Nesse contexto, editoras comprometidas com o resgate de autoras esquecidas desempenham um papel transformador, promovendo não apenas justiça histórica, mas também enriquecendo o cenário literário com perspectivas fundamentais para uma compreensão mais ampla da experiência humana.
A escassez de livros escritos por mulheres nas prateleiras das livrarias, nas bibliotecas e no ensino de literatura reflete um complexo sistema de exclusões. Por um lado, o mercado editorial historicamente priorizou a produção masculina, relegando as escritoras à invisibilidade; por outro, a construção do cânone e a escrita da história da literatura, tradicionalmente dominadas por homens, funcionaram como mecanismos eficazes de apagamento. Muitas autoras produziram em condições adversas, enfrentando não apenas preconceitos explícitos, mas também barreiras sociais aparentemente intransponíveis que limitavam seu acesso à educação formal, à circulação de ideias e ao reconhecimento intelectual. Apesar disso, legaram ao mundo obras de extraordinário valor estético, histórico e cultural. Paradoxalmente, mesmo com sua inegável relevância, seus trabalhos foram, aos poucos, desaparecendo, vítimas tanto da indiferença do mercado editorial quanto do menosprezo por seu valor nas narrativas oficiais — uma perda incalculável para nosso patrimônio cultural coletivo.
Pioneirismo editorial feminista no Brasil
O compromisso com a preservação e a difusão da literatura de autoria feminina fez da Editora Mulheres um marco pioneiro no Brasil. Fundada em 1995, em Florianópolis (SC), a editora surgiu como um projeto acadêmico e rapidamente se consolidou como um empreendimento de resistência cultural e histórica. Seu objetivo era claro e audacioso: resgatar e reeditar obras de escritoras dos séculos passados, deliberadamente ignoradas pelos historiadores da literatura. Como destacou Zahidé Muzart, uma das fundadoras, “de nada adiantaria apenas revelar os nomes dessas escritoras, os pormenores de suas vidas, relacionar o que escreveram. Era fundamental republicá-las hoje” (Muzart, 2004: 103). O primeiro livro publicado, Mulheres Illustres do Brazil, de Ignez Sabino, marcou o início dessa jornada revolucionária, seguido por obras como A Silveirinha, de Júlia Lopes de Almeida, e D. Narcisa de Villar, de Ana Luísa de Azevedo Castro, permitindo que o público contemporâneo descobrisse autoras relegadas ao esquecimento.
A atuação editorial de Zahidé Muzart, junto a Elvira Sponholz e Susana Funck, não se restringiu à reedição de obras literárias. Expandiu-se para a publicação de ensaios acadêmicos fundamentais, consolidando a crítica feminista no Brasil e ampliando o entendimento sobre gênero e história literária. A série Ensaios tornou-se um dos pilares do catálogo, abordando temas como gênero, memória e história literária com rigor e profundidade intelectual.
Além disso, as idealizadoras, integrantes do Grupo de Trabalho da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL) “A mulher na literatura”, desempenharam uma função primordial ao dar visibilidade à crítica literária universitária produzida por mulheres, muitas vezes subvalorizada. A monumental antologia Escritoras brasileiras do século XIX, publicada em três volumes, trouxe à luz não apenas um conjunto de escritoras alijadas da história da literatura brasileira, mas também inúmeras pesquisadoras dedicadas ao estudo e à valorização dessas autoras.
A importância de iniciativas como a da Mulheres[1]vai além do campo editorial, impactando profundamente a forma como compreendemos nossa história literária e cultural. Ao resgatar obras esquecidas, editoras feministas desafiam a narrativa dominante e abrem espaço para um olhar mais diverso e inclusivo. Um exemplo notável é a recuperação de Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista negra do Brasil, cujo romance Úrsula foi reeditado e, gradualmente, passou a ocupar um lugar de destaque no meio literário. Sem o empenho de pesquisadoras e de editoras como a Mulheres, muitas dessas vozes permaneceriam silenciadas, perpetuando lacunas irreparáveis na compreensão de nossa trajetória cultural. Assim, essas ações não apenas preservam o passado, mas também transformam o presente, redefinindo os paradigmas literários e promovendo um olhar mais plural sobre a literatura.
Antes mesmo do surgimento da Editora Mulheres, a Rosa dos Tempos, criada em 1990 no Rio de Janeiro por Rose Marie Muraro, com o apoio de Alfredo Machado (fundador e editor da Record), já desempenhava um papel central na disseminação da autoria feminina e do pensamento feminista no Brasil. Em um momento de intensificação dos debates sobre os direitos das mulheres, a editora publicou obras de escritoras nacionais e estrangeiras, ampliando discussões sobre gênero, igualdade e justiça social. Também foi pioneira na tradução de textos feministas internacionais, conectando o público brasileiro a debates globais. Seu impacto foi essencial para educar, conscientizar e inspirar gerações de mulheres. Hoje, segue seu caminho como selo do Grupo Editorial Record.
Inspiradas por referências internacionais, como a Des Femmes, na França, e a Virago, na Inglaterra, essas editoras brasileiras demonstraram que é possível aliar qualidade editorial e engajamento político. No entanto, a edição de intelectuais e artistas silenciadas ainda enfrenta desafios consideráveis. A falta de distribuição eficiente, o desinteresse comercial e o preconceito são apenas alguns dos obstáculos que editoras pequenas como a Mulheres precisaram superar. Como Zahidé relatou com perspicácia, “há sempre um sorriso condescendente para com uma microeditora que se chama Mulheres e ainda por cima é dirigida por aposentadas, como se tudo fosse resumido em uma atividade terapêutica de terceira idade” (Muzart, 2004: 103). Ainda assim, a paixão pelo livro e a consciência de seu impacto social mantiveram esses projetos vivos.
Renovação e continuidade: novas editoras, mesmo compromisso
O legado de editoras como Rosa dos Tempos e Mulheres transcende o passado e se torna um convite à ação no presente. Em um cenário editorial desafiado pela digitalização e pela concentração de mercado, editoras independentes continuam essenciais para garantir a pluralidade de vozes. Muitas seguem os passos dessas pioneiras, contribuindo significativamente para a divulgação de obras literárias de mulheres.
No Rio de Janeiro[2], destacam-se projetos inovadores, como a Macabéa Edições — fundada em 2017 como selo editorial e, posteriormente, em 2019, como editora independente — voltada à publicação de obras de mulheres e sobre mulheres, com um catálogo cuidadosamente produzido. A Bazar do Tempo promove o Clube F, um clube de assinatura mensal que amplia o acesso a vozes feministas, criando uma rede de encontros e debates que fortalecem o pensamento crítico e a produção intelectual de mulheres em todo o país. Criada durante a pandemia de 2020, a Janela Amarela dedica-se à recuperação de escritores brasileiros do século XIX, com um instigante catálogo de autoria feminina, que inclui nomes como Nísia Floresta, Francisca Clotilde, Júlia Lopes de Almeida, Chrysanthème e Ignez Sabino. Já a Meia Azul, mais jovem, criada em 2024, surge com uma proposta feminista, fazendo referência às blue stockings (ou bas-bleus) do século XIX, termo usado pejorativamente para designar as “mulheres de letras”.
Em Minas Gerais, a Editora Luas, fundada em 2019, publica exclusivamente mulheres, abrangendo literatura contemporânea, livros de não ficção sob a perspectiva feminista, e a Coleção Precursoras, dedicada a autoras do século XIX e início do XX. Além disso, mantém o selo infantil Lunitas, reforçando seu compromisso com a diversidade desde a infância. Ainda em Minas, a Relicário Edições lançou a Coleção Nos.Otras, voltada para autoras latino-americanas e brasileiras, promovendo o diálogo plural e a visibilidade de projetos literários heterogêneos.
Em São Paulo, a Carambaia destaca-se com publicações como Enervadas, de Chrysanthème, e Nhonhô Rezende, de Iracema Guimarães Vilela, contribuindo para a redescoberta das precursoras. Em Brasília, a Coleção Escritoras do Brasil, proposta da Biblioteca do Senado Federal, enaltece a atuação, a produção e o pensamento femininos na história do país, além de suprir a lacuna editorial na publicação de autoras brasileiras, negligenciadas pela crítica literária. A coleção conta com 11 volumes publicados e evidencia o compromisso contínuo das organizadoras com a difusão da literatura escrita por mulheres. Essas obras podem ser gratuitamente lidas em formato digital, e os exemplares impressos são vendidos a preço de custo, permitindo que um público mais amplo conheça a produção de mulheres brasileiras.
Um movimento em expansão
O impacto positivo dessas iniciativas já se reflete no mercado editorial como um todo. Grandes editoras, como a Companhia das Letras e a Editora 34, passaram a incluir em seus catálogos obras antes ignoradas, como as de Narcisa Amália e Júlia Lopes de Almeida. Esse avanço ganha ainda mais força com ações institucionais como a da FUVEST, que adotou exclusivamente autoras de língua portuguesa em sua lista de leituras obrigatórias para o triênio 2026-2028.
A valorização da literatura escrita por mulheres é um movimento em expansão e essencial para que suas vozes, tanto do passado quanto do presente, alcancem o reconhecimento merecido. Neste 8 de março, marcando os 50 anos da oficialização da data pela ONU, que a reflexão se traduza em ações concretas: apoiar editoras independentes, celebrar escritoras de todas as épocas e incentivar a pesquisa e a redescoberta de suas obras.
Notas
[1] Após o falecimento de Zahidé Muzart em 2015, a Editora Mulheres encerrou suas atividades, deixando como legado uma contribuição essencial para a recuperação da presença feminina na literatura brasileira.
[2] Este texto não pretende mapear exaustivamente as editoras feministas em atividade no Brasil, mas destacar algumas iniciativas relevantes para ilustrar o papel das editoras na recuperação da produção literária de mulheres. Consideramos a existência de outros projetos dedicados à publicação de autoras em diferentes regiões do país, mas optamos por um recorte condizente com o espaço e o propósito deste ensaio. Para um panorama mais abrangente, recomendamos a pesquisa de Cecília Castro, Ana Elisa Ribeiro e Samara Coutinho (2023).
Referências
CASTRO, Cecília & RIBEIRO, Ana Elisa & COUTINHO, Samara (Orgs.). (2023). Mulheres que editam. Verbetes por Alícia Teodoro [et al]. Belo Horizonte: Entretantas.
FAEDRICH, Anna. (2022). Escritoras silenciadas: Narcisa Amália, Julia Lopes de Almeida, Albertina Bertha e as adversidades da escrita literária de mulheres. Rio de Janeiro: Macabéa, Fundação Biblioteca Nacional.
MUZART, Zahidé Lupinacci. (2004). Histórias da Editora Mulheres. Estudos Feministas, n. 12, p. 103-105.
PEREIRA, Maria do Rosário Alves & LUCHESI, Luanna. (2021). Editora Rosa dos Tempos e Editora Mulheres: pioneirismos nas questões de gênero no mercado editorial brasileiro. Vinco – Revista de Estudos de Edição, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 49-66.
PERROT, Michelle. (2019). Minha história das mulheres. Tradução de Angela M. S. Corrêa. São Paulo: Contexto.
RIBEIRO, Ana Elisa & KARAM, Sérgio. (2020). Editora Mulheres, Zahidé Muzart e um caso relevante de edição de livros no Brasil. Letrônica, Porto Alegre, v. 13, n. 1, p. 1-18.
Sobre a autora
Anna Faedrich é professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal Fluminense. Autora de Escritoras silenciadas: Narcisa Amália, Júlia Lopes de Almeida, Albertina Bertha e as adversidades da escrita literária de mulheres (Macabéa e FBN, 2022) e de Teorias da autoficção (EDUERJ, 2022).
