Ocupação Mulheres 2025 | Casar ou não casar: direitos e deveres da mulher casada, por Eurídice Figueiredo

A primeira rodada de postagens de hoje traz um ensaio de Eurídice Figueiredo (UFF), uma das curadoras da Ocupação Mulheres deste ano. No século XIX, as mulheres casadas enfrentavam severas restrições legais e econômicas, enquanto as viúvas desfrutavam de maior liberdade para administrar seus negócios e finanças. O ensaio de Eurídice percorre essa complexa trajetória feminina, destacando casos como o das viúvas que revolucionaram a indústria do champagne e personagens literárias de Júlia Lopes de Almeida e Claudia Lage. A autora ressalta a importância da autonomia financeira para a participação efetiva das mulheres na sociedade e o pleno exercício de sua cidadania.

Não perca, na parte da tarde, mais textos inéditos na Ocupação Mulheres. Confira aqui outros textos já publicados. Boa leitura!


Casar ou não casar: direitos e deveres da mulher casada

Por Eurídice Figueiredo (UFF)

Quem quer casar com a dona baratinha
Que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha.

No século XIX, a legislação proibia as mulheres de abrir negócios sem a autorização do pai ou do marido, mas as viúvas não precisavam seguir esta norma, de modo que ser viúva era o melhor dos mundos para as mulheres ricas. Elas se tornavam livres para administrar seus bens e seus amantes, ao contrário das casadas, cujos dotes eram esbanjados pelos maridos.

O papel das viúvas na indústria do champanhe é interessante, como mostrou Radziemski (2023) em matéria da BBC News Brasil, destacando três nomes: Barbe-Nicole Clicquot-Ponsardin, Louise Pommery e Lily Bollinger. Clicquot-Ponsardin ficou viúva aos 27 anos, em 1805, e tomou a decisão incomum de assumir os negócios da família. Como a companhia estava à beira do desastre, ela tomou dinheiro emprestado do seu sogro, o equivalente hoje a cerca de 4,5 milhões de reais. A marca passou a ostentar “Veuve” antes do nome, o que teria dado maior respeitabilidade à bebida que era então associada às festas devassas das cortes. O sucesso induziu outras marcas a fazerem o mesmo.

Os negócios da viúva Clicquot passaram por grave crise devido às guerras napoleônicas, o que a levou a fazer uma jogada e apostar no mercado russo, furando o bloqueio e contrabandeando suas garrafas para a Rússia a fim de enfrentar a concorrente, Jean-Rémy Moët, que dominava, até então, o fornecimento àquele país. Após o fim do bloqueio, seu champanhe já tinha conquistado o gosto da corte do czar. Ela criou o método do remuage, que consiste em colocar as garrafas de cabeça para baixo a fim de retirar a borra da levedura.

A segunda viúva a revolucionar a indústria do champanhe foi Louise Pommery. De educação refinada, visto que sua mãe a enviou à Inglaterra para prosseguir seus estudos, se casou com Alexandre Pommery, tendo assumido a empresa do marido após sua morte, em 1858. Louise investiu no mercado inglês fornecendo-lhe uma bebida mais seca do que a então existente, excessivamente doce, criando o champanhe brut, que chegou ao mercado em 1874 e conquistou o paladar dos ingleses.

Lilly Bollinger assumiu a companhia após a morte do marido Jacques Bollinger, em 1941, época em que os direitos das mulheres ainda eram limitados, uma vez que elas só conquistariam o pleno direito aos serviços bancários e à gestão dos negócios em 1965. Lilly inovou na técnica de produção, envelhecendo a garrafa com a borra, a levedura morta e a casca das uvas e retirando o sedimento manualmente; sua bebida conquistou o mercado dos Estados Unidos.

Além da ousadia em assumir os negócios da família numa época em que às mulheres competia participar da vida social e se divertir, essas viúvas aprimoraram a fabricação da bebida e souberam vencer obstáculos para aumentar suas vendas e suas exportações. Porém, em comum, elas têm, sobretudo, o fato de não sucumbirem à tentação de novos casamentos, o que as levaria a ter de dividir os negócios com seus cônjuges.

No entanto, se os maridos estavam arruinados, as viúvas ficavam reduzidas à miséria, como acontece com algumas personagens de romances de Júlia Lopes de Almeida, como A falência e Memórias de Marta (1901). A falência, cuja intriga se passa em 1891, foi publicado originalmente dez anos depois. O patriarca da família é Francisco Teodoro, imigrante português que enriqueceu no comércio do café e se casou com uma bela jovem, Camila. O casal, que mora em um palacete de Botafogo, teve um filho, Mário, e três filhas, Ruth e as gêmeas Raquel e Lia. No sistema patriarcal, o herdeiro tem função primordial: assegurar a continuidade do nome e da firma. Todavia, esse sonho burguês de transmissão da riqueza não se realiza porque, atiçado pela inveja, Francisco Teodoro ousa especular na Bolsa, domínio de finanças que não conhece, perde tudo e suicida na desonra. O filho Mário também não corresponde ao modelo paterno: vadio, só se safa porque consegue fazer um bom casamento com uma mulher rica e dominadora que refreia seus gastos.

Enquanto dura o casamento, Camila, muito bonita e ainda jovem, é amante do Dr. Gervásio; passado o período de luto, decide se casar com Gervásio, mas descobre, só então, que ele já era casado (e separado da mulher). Pobres, Camila, as filhas, sua sobrinha Nina (filha natural de seu irmão Joca) e a criada Noca, “mulata” muito ativa e esperta, verdadeira controladora da casa, vão viver de seu trabalho. O fim do romance, nessa casa de mulheres, sem a presença masculina, afirma uma ética do trabalho, em oposição ao estilo de vida que a família levava antes, baseado no luxo e na riqueza. Como diria o Cândido, de Voltaire, no final do conto que leva seu nome, “é preciso cultivar nosso jardim”. Camila, acostumada ao luxo, tem de fazer um triplo luto: pela perda do marido, do amante e do dinheiro.

Em vários romances de Júlia Lopes de Almeida, a penúria das mulheres provém da má administração dos negócios pelos maridos, que deixam as finanças em frangalhos, obrigando as viúvas e as filhas não só a trabalharem como a se conformarem com o rebaixamento social. O resultado é sempre sofrido, porém, edificante: as mulheres são capazes de se manter dignamente com os frutos de seu labor. Em Memórias de Marta (1889), primeiro romance da autora, a história começa com a narrativa da infância feliz em que a família mora numa casa modesta, porém correta, na Cidade Nova, com quintal em que se destaca uma árvore, a casuarina.

Com a morte do pai de febre amarela, Marta e a mãe, arruinadas, são obrigadas a se mudar para um cortiço na rua de São Cristóvão, onde a mãe vai sobreviver engomando a roupa de famílias burguesas. É através da educação que Marta pode ascender socialmente. Aos poucos, com a ajuda de uma professora, ela desenvolve o gosto pelos estudos, torna-se sua ajudante, começa a ganhar o dinheiro necessário para sair do cortiço e alugar uma casa. Desiludida com o amor, professora formada, independente, decide ficar solteira, mas a mãe a convence a se casar porque “a reputação da mulher é essencialmente melindrosa. Como o cristal puro, o mínimo sopro a enturva” (Almeida, 2007: 150). Diante disso, ela aceita o pedido de Miranda, homem uns 40 anos mais velho do que ela.

Como já pontuava a escritora Ercília Cobra (1996), as mulheres precisam aprender uma profissão para se tornarem autônomas; do contrário, o único caminho que lhes resta é a prostituição. Marta encontra um dia uma antiga colega de escola, muito bem-vestida e em companhia de alguns homens. Ela fica impressionada porque a outra parece-lhe linda e feliz, mas ao fim do encontro o leitor percebe que se trata de uma prostituta, que diz a Marta que não merece sua amizade. O contraste entre a esforçada e honesta professora e a bela e fútil prostituta reforça a percepção dessa ética do trabalho na obra de Júlia Lopes de Almeida: se a mulher é educada e tem caráter, ela pode se sustentar, não precisa depender de pai, marido ou amante.

A mulher casada é a grande personagem do romance burguês do século XIX. Em O pai Goriot, de Honoré de Balzac,o personagem-título é, no início do romance, um velho pobre que mora numa pensão burguesa, a pensão Vauquer. Através do recurso do flashback, o leitor conhece sua história pregressa: tendo-se enriquecido durante os anos da Revolução, ele conseguiu casar suas duas filhas com aristocratas empobrecidos, que viviam à caça dos dotes das moças plebeias. Assim, as jovens Goriot tornaram-se Anastasie de Restaud e Delphine de Nucingen. Viúvo, Goriot concentrou todo seu amor às filhas, às quais cedeu a riqueza acumulada. Anastasie e Delphine recorriam ao pai, querendo sempre mais dinheiro, porque viviam na penúria, relegadas pelos maridos. Este é o lado dramático da vida de casadas para grande parte das mulheres da aristocracia e da alta burguesia. Essas mulheres têm liberdade para ter amantes, mas elas precisam de muito dinheiro para mantê-los.

A mulher solteira que se recusa a fazer um casamento tradicional é tema de Mundos de Eufrásia, romance de Claudia Lage, publicado há 15 anos e que ganhou nova edição, revista e aumentada, em 2024. Em Mundos de Eufrásia, ela conta a história amorosa de duas pessoas reais: a rica herdeira de Vassouras (RJ), Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930), e o escritor, político e diplomata, Joaquim Nabuco (1849-1910). Após a morte dos pais, Eufrásia e sua irmã Francisca decidiram ir para Paris a fim de fugir de casamentos impostos pelo tio Cristóvão, que se sentia no direito de tutelar as sobrinhas. E Joaquim Nabuco, ao saber que a sua amada tomaria o navio, fez o mesmo. É no navio que os dois realizam sua lua de mel.

Claudia Lage insere pelo menos duas referências a personagens de O pai Goriot, de Balzac. Em Paris, ao lermos que o casal vai a uma festa na casa do Barão de Nucingen, temos a impressão de penetrar no ambiente dos romances de Balzac. Em outro momento, Francisca, depois de uma briga, se refugiou na pensão da Madame Vauquer, que é descrita de maneira menos austera do que em Balzac, já que ela cuidou de Francisca, em crise depressiva. A partir dessas piscadelas da autora, podemos procurar alguns paralelos entre os dois romances.

 No romance de Lage, o patriarca Joaquim Teixeira Leite é um rico proprietário e investidor, cuja maior frustração foi a morte do único filho, deixando-o sem herdeiro do sexo masculino. Para fazer frente a tal problema, ele investe na educação das duas meninas: Francisca não vai longe, mas Eufrásia é muito inteligente e interessada em aprender. E ela aprende rápido e age com desenvoltura. A esposa de Joaquim, Ana Esméria, morre prematuramente e Joaquim acaba falecendo, também, um ano depois, deixando as duas órfãs. Antes de morrer, Joaquim as fez prometer que nunca se casariam. A questão que aguça minha curiosidade é: por que Joaquim não queria que as filhas se casassem? Se o filho fosse vivo, ele agiria da mesma maneira? Os negócios não poderiam ser administrados pelos maridos de forma competente? Ou haveria um certo ciúme de suas filhas, um amor possessivo, como o de Goriot?

Para Philippe Berthier, haveria um amor incestuoso da parte de Goriot; após a morte da esposa, ele transferiu o seu amor excessivo para as filhas, mimando-as sem limites. Seu comportamento fetichista e masoquista extrapola todas as convenções. Berthier considera que ele falhou como pai porque não representou uma referência sólida da Lei, que, por sua vez, teria viabilizado uma formação adequada para suas filhas se constituírem como sujeitos de maneira saudável.

Ainda que esse caráter incestuoso não fique explicitado no romance de Claudia Lage, o comportamento despótico do pai em relação ao casamento das filhas levanta suspeitas. Quando Nabuco foi pedir a mão de Eufrásia, Joaquim Teixeira Leite reagiu de forma violenta, agressiva, em princípio devido às diferenças ideológicas. E, apesar de sua visão modernizadora em relação ao estatuto das mulheres, sobretudo na França, em nenhum momento ele mostrou a Eufrásia que existia a possibilidade de se fazer um casamento com separação de bens.

O romance, como o título indica, gira em torno dessa mulher independente que se tornaria, em Paris, hábil financista. Porém, Eufrásia é também uma mulher apaixonada e ela cai de amores por Nabuco. A liaison de Eufrásia e Nabuco durou cerca de 14 anos, com idas e vindas, interrupções, rupturas e voltas, até que Nabuco rompeu definitivamente com ela e se casou com Evelina Torres Soares Ribeiro, mulher que lhe daria cinco filhos. Eufrásia queria se casar com separação de bens, o que o orgulhoso Nabuco não aceitou. Ela sabia que ele não tinha fortuna e pressentia que ele não saberia, como ela, administrar seus investimentos, até porque seus interesses eram outros. No romance, lemos que Nabuco investiu o dote da esposa em ações atreladas ao comércio de gado da Argentina e perdeu tudo. Ironicamente, isso comprova que Nabuco não tinha tino para os negócios.

Claudia Lage fez uma imensa pesquisa para poder escrever um romance que se passa no século XIX, cujas personagens são inspiradas em pessoas reais; no caso de Nabuco, trata-se de uma figura importante da história, da literatura, da diplomacia, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, amigo de Machado de Assis, autor de livros fundamentais como O abolicionismo (1883) e Minha formação (1900). Embora Eufrásia não tenha a mesma relevância na história do Brasil, sua vida é um exemplo de liberdade sexual, de autonomia e perseverança em suas convicções. Apesar de querer se casar com Nabuco, ela não fez concessões, vivendo discretamente e um pouco isolada em Paris.

Enquanto durou a relação dos dois, a imprensa brasileira da época foi implacável no modo sórdido com que a retratou, o que lhes dificultou a vida. Eufrásia morreu aos 80 anos no Rio de Janeiro, para onde voltou já no fim da vida. Deixou em testamento sua imensa fortuna para instituições de Vassouras com instruções visando a criação de escolas para meninas e meninos carentes e de um hospital. A casa da família, Chácara de Hera, bem conservada, é um museu que pode ser visitado.

A vida profissional de sucesso de Eufrásia pode ser comparada à das viúvas donas de vinícolas. Tanto esses romances quanto a reportagem sobre as viúvas do champanhe nos fazem pensar sobre o papel do casamento em sociedades patriarcais. No Brasil, foi só a partir de 1962 que as mulheres puderam abrir conta bancária independente de pais ou maridos. E se torna evidente como as mudanças societais afetaram a vida das mulheres no último século. Minha geração foi a primeira a poder ter essa autonomia financeira. Eu abri conta em banco em 1965, para receber salário de professora primária. Não me parecia nada extraordinário, tudo estava por vir. Fazia então o curso de Letras, concluído em 1968. Olhava para o futuro, não tinha consciência de que minha geração estava fazendo uma revolução nos costumes. A pílula anticoncepcional abrira a porta para uma liberdade sexual jamais sonhada por nós. E a participação no mundo do trabalho, na cena pública, inclusive na política, só era possível graças à autonomia financeira.


Referências

ALMEIDA, Júlia Lopes de. (2003). A falência. Florianópolis: Editora Mulheres.

ALMEIDA, Júlia Lopes de. (2007). Memórias de Marta. Florianópolis: Editora Mulheres.

BALZAC, Honoré de. (2002). O pai Goriot. São Paulo: Estação Liberdade.

COBRA, Ercília Nogueira & BITTENCOURT, Adalzira. (1996). Visões do passado, previsões do futuro. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

LAGE, Claudia. Mundos de Eufrásia. (2024). Rio de Janeiro: Record.

RADZIEMSKI, Lily. (2023). Como 3 viúvas mudaram a história do champanhe. BBC News Brasil. 18/março. Disponível aqui.

Sobre a autora

Eurídice Figueiredo é doutora em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professora do Programa de Pós-graduação em Estudos de Literatura da Universidade Federal Fluminense e autora de Mulheres contra a ditadura (2024), Por uma crítica feminista (2020), ambos publicados pela Editora Zouk e A literatura como arquivo da ditadura brasileira (2017), publicado pela Editora 7letras.