Ocupação Mulheres 2025 | Dois fragmentos de “A vida em outro lugar. Crônica de exílio”, novo livro de Angela Leite Lopes

Neste último dia de postagens dos textos reunidos na Ocupação Mulheres 2025, temos a alegria de publicar dois fragmentos do novo livro da professora e dramaturga Angela Leite Lopes (UFRJ), A vida em outro lugar. Crônica de exílio. A obra, que será lançada em breve pela Editora UFRJ, relata a experiência de exílio vivida pela família de Angela durante diferentes momentos da ditadura militar brasileira. Acompanhando seus pais, José Leite Lopes e Maria Laura Mouzinho Leite Lopes, ela passou temporadas em Paris, Pittsburgh e Estrasburgo. Com o receio de um novo exílio em meio às viravoltas da democracia brasileira nos anos recentes, a autora nos conduz por uma narrativa sensível que nos lembra de não esquecer os anos de chumbo.

Não perca, na parte da tarde, mais textos inéditos na Ocupação Mulheres. Confira aqui outros textos já publicados. Boa leitura!


Dois fragmentos de “A vida em outro lugar. Crônica de exílio”

Por Angela Leite Lopes (UFRJ)

Retirado da entrada “Viagens e temporalidades”

“Miguel cara de papel!”, lá vinha eu saltitando pela ala de brinquedos do antigo aeroporto Galeão, para onde tia Regina tinha me levado, a mim e minhas primas, porque o voo da Panair que levaria minha mãe e eu para Paris, e meus irmãos Sergio e Sylvio e nossa vó Marieta para Recife, estava muito atrasado e ela quis nos distrair. Essa área de lazer ficava numa varanda, no último andar do aeroporto, ao ar livre, afastada, e o alto-falante com os anúncios relativos aos voos não era ouvido por lá. A última chamada para nosso voo já tinha sido anunciada e… nada de eu aparecer. Foi um dos amigos do Sergio que foi correndo até lá me buscar. Tia Regina, ainda solteira, era a tia que gostava de levar os sobrinhos para passear, se divertir, e tinha resolvido me entreter naquela espera demorada pelo embarque. Mal sabia ela que estava selando ali a marca de nossas partidas para deixar o Brasil: a do sobressalto. 

São as viagens que dão contorno a minhas lembranças, inserindo as noções de antes, depois e onde. 

Minha primeira ida para a França coincide com a alfabetização, concluída no final do ano letivo de 1964 no colégio ASCB – Associação dos Servidores Civis do Brasil –, que ficava no amplo terreno da UFRJ onde pouco tempo depois foi construído o Canecão. É a partir daí que se estabelece para mim a noção de temporalidade e seus registros passam a estar totalmente incorporados ao dia a dia. As cartas iam e vinham regularmente com desenhos e, no meu caso, as primeiras palavras escritas. Como toda correspondência, elas se tornaram verdadeiros diários de bordo, documentos. Há os resultados dos torneios de futebol. Há os testemunhos da burocracia pesada à qual era submetido esse exílio voluntário dos meus pais. Há crônicas da situação política da época. Mas há, principalmente, a criação de um vínculo com a língua, com a cultura, com as características do país, imprescindível em relação a mim, dos meus seis anos, quase sete, aos nove anos. Se eu tinha sido alfabetizada em português e logo em seguida em francês, foi nesta última língua que comecei a soltar a imaginação. O português, entretanto, permanecia como a língua do afeto e das trocas familiares. E era por ali, pelas cartas, que grande parte dos conhecimentos que vão formando a visão e a experiência do mundo chegava para mim. É como se houvesse quase uma inversão… não são os sabores, as cores, a luz, os cheiros que acionariam a memória, mas sua transmissão. Isso acarretou para mim uma experiência muito genuína de saudade: sentimento que remetia a alguma coisa da qual eu não tinha uma vivência, senão pelos relatos.

Retirado da entrada “Exílio”

Até que veio o AI-5 em dezembro de 1968 e, em abril de 1969, a aposentadoria compulsória dos meus pais da UFRJ.

A repercussão da aposentadoria dos professores da UFRJ e de outras universidades públicas do país teve logo grande repercussão e causou indignação internacional, como mostra o telegrama que o prêmio Nobel de Física, C. N. Yang, enviou para o então presidente Costa e Silva. Diz ele no telegrama de 5 de junho de 1969:

“Presidente Costa e Silva
Residência Presidencial
Brasília, Brasil


Permita-me fazer respeitosamente um apelo para que o senhor reverta a aposentadoria compulsória dos professores José Leite Lopes e Jayme Tiomno. Os professores Tiomno e Lopes são físicos teóricos distintos de renome internacional. Eles construíram com muita eficiência a reputação internacional da pesquisa física brasileira e representaram o Brasil com devoção e patriotismo em reuniões internacionais. A aposentadoria forçada desses dois professores vai provavelmente significar o fim da pesquisa em física teórica no Brasil e sufocar a aspiração de milhares de jovens estudantes brasileiros.


C. N. Yang
Cátedra Albert Einstein de Física
Diretor do Instituto de Física Teórica
Universidade do Estado de Nova Iorque
Stony Brook, Nova Iorque”

Lembro bem do dia em que saiu a lista dos professores punidos. Meus pais iam receber convidados para o jantar. Minha mãe estava pegando louça e outros apetrechos num armário que ficava no corredor. Meu pai estava na rede, no jardim de inverno, onde gostava de descansar, ouvindo a “Hora do Brasil”. A lista estava sendo divulgada naquele momento e o nome de vários de seus amigos e colegas estavam sendo anunciados ali. Meu pai se levanta, vai até minha mãe e aponta para o rádio. Nesse momento, a voz do speaker diz: “José Leite Lopes”. Ele então vai voltando para rede, mas logo volta e avisa: “Você também!”. Alvoroço! Eu me aproximo para saber o que estava acontecendo e me dizem que meus pais “foram aposentados”. Minha reação é de alegria: “Minha mãe vai ficar mais tempo em casa!”. Só aos poucos, passada a comoção, vão me explicando o que aquilo tudo significava. Inclusive e, principalmente, que, em algum momento, iríamos de novo embora do Brasil.

Não consigo situar com precisão se foi antes ou depois desse anúncio que houve uma “batida” policial lá em casa. Estávamos minha vó, minha mãe e eu. Os oficiais da polícia tocaram, se apresentaram e perguntaram se havia algum menor em casa, que era para retirá-lo, para que não se alegasse que tinha havido qualquer tipo de coação. Minha mãe então desceu comigo até a papelaria. Quando voltamos, eles ainda estavam lá na sala, sentados, tomando um cafezinho. Tinham revistado as estantes ao alcance da altura deles – e eram mais para baixinhos, diga-se de passagem. Minha mãe perguntou se não queriam uma escada, pois se fôssemos esconder alguma coisa, seria lá no alto, não estaria dando sopa assim. Eles declinaram…

Outra “batida” que aconteceu, esta sim com certeza depois da aposentadoria dos meus pais, foi a dos alunos da minha mãe do Instituto de Matemática da UFRJ. Fui eu que atendi à porta. Um grupo de representantes dos estudantes trazia um abaixo-assinado em solidariedade por seu afastamento compulsório e arbitrário.

Nossa vida foi ficando mais atribulada. Havia um carro suspeito estacionado na esquina da nossa rua. Algumas vezes, meus pais não iam dormir em casa, temendo perseguição. A saída era mesmo ir embora do país.


Sobre a autora

Angela Lopes Leite é doutora em Filosofia pela Universidade Paris 1, pesquisadora do teatro, tradutora e professora titular aposentada da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde lecionou entre 1998 e 2018. É autora dos livros Nelson Rodrigues, trágico, então moderno (1993); Traduzindo Novarina – Cena, pintura e pensamento (2017); Primeiros escritos, em parceria com Fátima Saadi (2022) e organizadora, com Ana Kfouri e Bruno Netto dos Reys, de Novarina em cena (2011).