Resenha | Palavras possíveis, mundos intraduzíveis, por Verônica Filíppovna

Após uma intensa semana de postagens com a Ocupação Mulheres 2025, voltamos com uma resenha de Verônica Filíppovna, pós-doutoranda em Filosofia na UFRJ, sobre o segundo volume do Dicionário dos intraduzíveis: um vocabulário das filosofias, lançado em 2024 pela Editora Autêntica.

A obra é uma adaptação brasileira do célebre Vocabulaire européen des philosophies, coordenada por Barbara Cassin, Fernando Santoro e Luisa Buarque, que amplia o projeto original não apenas ao traduzi-lo para o português, mas também ao criar novos verbetes, menos centrados no contexto europeu.

Desafiando a ideia de tradução como simples busca por equivalências exatas, o dicionário propõe o intraduzível como território de trânsito e multiplicidade de sentidos. Segundo Filíppovna, trata-se de um “convite à aventura da palavra, ao redescobrimento dos caminhos do pensamento a partir da língua”.

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Palavras possíveis, mundos intraduzíveis

Por Verônica Filíppovna (UFRJ)

O segundo volume do Dicionário dos intraduzíveis: direito, ética, política, publicado pela editora Autêntica em 2024, é uma tradução para o português e uma adaptação ao contexto brasileiro do Vocabulaire européen des philosophiesVEP, dirigido por Barbara Cassin e publicado pela Du Seuil/ Le Robert em 2004. O projeto inicial do VEP reuniu uma equipe multilíngue e transdisciplinar que, ao longo de quinze anos, dedicou-se à reflexão de problemas da tradução de filosofia em 15 línguas europeias. Em diversas entrevistas, Barbara Cassin tem ressaltado que o Vocabulário das instituições indo-europeias, de Émile Benveniste, serviu como base metodológica inspiradora para a pesquisa. Rapidamente, a obra tornou-se conhecida por Dicionário dos intraduzíveis e já foi ou está sendo traduzida, adaptada e ampliada para diversos idiomas: inglês, espanhol, italiano, português, árabe, persa, romeno, russo, ucraniano e wolof.[1] Versões em chinês e hebraico estão em fase de preparação.

Ao contrário dos dicionários de filosofia, que procuram explicar os conceitos e/ou definir as palavras, o VEP busca mapear sintomas das diferenças entre as línguas a partir da dificuldade de tradução de termos filosóficos. A tradução e adaptação brasileira, sob coordenação de Barbara Cassin, Fernando Santoro e Luisa Buarque, busca expandir o trabalho do original não apenas inserindo o português como língua-meta, mas também propondo novos verbetes, um pouco menos centrados no universo europeu.

No primeiro volume, Dicionário dos intraduzíveis: um vocabulário das filosofias (2018), estão reunidos 17 ensaios, que debatem as transformações sincrônicas e diacrônicas das línguas. Dentre os textos, destacam-se “Brasil de muitas línguas”, de Bruna Franchetto, que considera o vocábulo “língua” um exemplo de intraduzível e, a partir de um desdobramento crítico acerca da multiplicidade de línguas existentes em nosso país, afirma que “o Brasil é, ainda, multilíngue” (Franchetto, 2018: 77); e “Intradução”, de Fernando Santoro, em que a filosofia é um exemplo de intraduzível e sua tradução se aproxima de uma experiência correlata à tradução poética.

Já no segundo volume, Dicionário dos intraduzíveis: direito, ética, política, encontramos diversas mudanças. A filósofa Judith Butler, por exemplo, acrescentou o comentário “Gender and gender trouble” ao verbete “Gender”, que foi incorporado na edição brasileira, traduzido direto do inglês. Na versão árabe, editada no Marrocos, foi criado o verbete o “Xaria”, que foi incluído na edição francesa de 2019 como apêndice, e na brasileira como verbete. Outro exemplo de ampliação do vocabulário original especificamente europeu, foi o verbete “Ubuntu”, que introduz noções do mundo sociopolítico da África Meridional e sua diáspora, redigido por Victor Galdino. Grande parte dos tradutores acrescentou informações novas aos termos traduzidos e adaptados, tornando-se também autores. Rafael Haddock-Lobo, por exemplo, inseriu um comentário crítico ao fim do verbete “Animal”. Como o leitor pode perceber, “buscou-se um entrecruzamento com as traduções e adaptações estrangeiras que trouxeram inovações desde a publicação francesa de 2004” (Santoro & Buarque, 2024: 5).

Ainda nas palavras dos editores, “o Dicionário dos intraduzíveis pretende ser uma obra de espírito antropofágico” (Santoro & Buarque, 2024: 8), isto é, uma obra que amiúde transforma o original ao retomar e recriar suas diferenças em reflexões filosóficas autênticas. Com a heterogeneidade de línguas e culturas, o francês deixou de ser a metalíngua do projeto ao perceber ­outros termos intraduzíveis nas traduções de filosofia. Tal como nas traduções poéticas, a tradução de filosofia sepulta a ideia de equivalência linguística e potencializa a experiência transcriativa na própria língua materna.

O original francês do VEP procura chamar a atenção para o multilinguismo que caracteriza a Europa. Por outro lado, sua tradição e adaptação brasileira empenha-se em dar um passo “além do eurocentrismo” (Santoro & Buarque, 2024: 6), à medida que transforma e reconfigura conceitos filosóficos em uma língua não europeia, não dominante, frequentemente considerada periférica. A tradução rompe fronteiras, aproxima mundos. Reinventa o próprio mundo, continuamente.

O título Dicionário dos intraduzíveis é bastante sugestivo. Talvez o leitor, em um primeiro contato, pense que o projeto seja mais um compêndio filosófico com vocábulos impossíveis de serem traduzidos para o português do Brasil, mas logo percebe que a obra reúne um conjunto de termos e expressões considerados intraduzíveis por serem, na verdade, sintomas de diferenças entre as línguas. “O intraduzível — conforme destaca Bárbara Cassin — não é o que não é ou não pode ser traduzido, mas antes o que se não cessa de (não) traduzir” (Cassin, 2018, p. 17); é o que apresenta uma capacidade de se traduzir de diferentes maneiras, revelando possíveis traduções e a tentativa de superar as diferenças entre as línguas.

O prefixo in-, do vocábulo intraduzível, não designa uma negação, tampouco a impossibilidade da tradução. Aponta, pelo contrário, para um movimento de entrada, uma imersão, um convite para perscrutar a palavra e suas possíveis significações. Assim, o intraduzível filosófico é o que manifesta a demanda constante por novas possibilidades de tradução. Lugar de passes e impasses, de trânsito, de passagem, de fluxos de sentidos, de diferenças entre as línguas, o intraduzível é justamente o que pode ser traduzido de diferentes maneiras a cada leitura, interpretação e, particularmente, a cada tradução; é o que lança no cerne, mas não o esgota. A tradução, seguindo este horizonte de pensamento, é a busca pela palavra nas suas pulsações de sentidos; é um processo dinâmico e contínuo. E jamais um ponto final.

A ideia da tradução como processo se move, deste modo, em uma articulação própria, na qual o processo não diz respeito a uma evolução linear e ascendente. A tradução como processo é processar-se, sentido que engendra dinamismo, ação e provoca efeitos transformadores do conceito e/ou da perspectiva filosófica na língua em que foram escritos originalmente.

Estes efeitos transformadores do original assinalam a pluralidade das línguas e apontam não imprecisões, mas uma abundância de significações e interpretações, possíveis leituras, que apresentam marcas de intraduzível. Uma dessas marcas é a equivocidade. A equivocidade não aponta um erro, um desvio, um absurdo e/ou um engano. Sua presença é identificada quando um termo não pode ser simplesmente traduzido/vertido por uma única palavra, e sim por diferentes traduções. A equivocidade não “fecha” os caminhos da tradução; pelo contrário, revela uma encruzilhada de sentidos na qual os caminhos tanto mais se abrem em diferentes direções quanto mais retomam ao mesmo ponto — abrindo outros caminhos, sentidos por vir.

À guisa de exemplos, encontramos no segundo volume do Dicionário dos intraduzíveis os verbetes russos stradanie, que significa tanto “sofrimento” quanto “paixão”; svoboda, que diz “liberdade”, mas também “vontade”; os verbetes alemães Gut, que significa tanto “bem” quanto “bom”; Bildung, que diz “cultura”, “educação”, “civilização”, “liberação de preconceitos”, “refinamento dos costumes”; e o verbete inglês Claim, “clamor”, “demanda” e “reivindicação”. A presença da equivocidade, como sintoma da diferença entre as línguas, abre espaço para a possibilidade de uma perspectiva filosófica fundamental à medida que tanto dá um “nó” no pensamento quanto abre o “leque” de uma diversidade de significações. Dependendo da palavra escolhida, a tradução recoloca o problema filosófico a partir de uma outra perspectiva, convocando o tradutor a um diálogo de pensamento com a própria tradição filosófica.

As diferenças entre as línguas muitas vezes provocam um efeito decisivo sobre as ideias e os conceitos, mormente classificados como universais. A tradução transforma o universal, porque toda língua é singular e plural, dinâmica, e não um bloco monolítico fechado em si mesmo. Uma língua é sempre plus d’une langue, já nos disse Jacques Derrida.

Deste modo, a tradução se realiza como um intercâmbio de diferenças de uma língua à outra, como um sentido sempre em trânsito, que se desvencilha de correspondências linguísticas plenas — analogias absolutas. Entre a língua origem e a língua-meta — uma riqueza de arranjos de sentidos reformulam seja o conceito, seja a obra em tradução. Assim, o tradutor não reproduz, mas opera como um coautor, isto é, como um produtor de pensamentos, sentidos, ideias. Entretanto, “o tradutor é somente um elo da cadeia de meditações que vai desde a decisão de fazer ingressar um texto estrangeiro até que este seja posto em circulação muitas vezes a partir da mediação editorial” (Santoro & Buarque, 2024: 15). O tradutor, amiúde, vê aquilo que tem de mais íntimo e necessário escapar de suas mãos: a palavra.

Antes de finalizar, gostaria de fazer duas observações acerca do segundo volume da edição brasileira do Dicionário dos intraduzíveis: 1) os verbetes sinalizam percursos e itinerários sinuosos, que se conectam uns aos outros de diferentes maneiras, ora como entradas, ora em outros verbetes, entretecendo uma rede hermenêutica de pensamento; 2) foram introduzidos tanto verbetes já existentes no VEP quanto reflexões inéditas. Produz-se, assim, uma crítica ao “universalismo ocidental” (Santoro & Buarque, 2024, 8).

A filosofia, tal como o Dicionário dos intraduzíveis sugere, não se inicia com a reprodução de conceitos nem com a definição daquilo que é ou foi. Eis aí a riqueza e a beleza da filosofia. O conceito cristalizado renuncia à força plástica do pensamento. A filosofia alcança sua potência ao mover-se nos meandros, nas brechas, nas fissuras do saber por vir. É um convite à aventura da palavra, ao redescobrimento dos caminhos do pensamento a partir da língua. A filosofia, tal como as línguas, é um fenômeno, um mundo vasto, irrepetível — intraduzível.


Nota

[1] Um dos idiomas oficiais da República do Senegal, também falado em países limítrofes.

Referências

CASSIN, Barbara & SANTORO, Fernando & BUARQUE, Luisa. (2018). Dicionário dos intraduzíveis: um vocabulário das filosofias. Volume um. Belo Horizonte: Autêntica.

CASSIN, Barbara & SANTORO, Fernando & BUARQUE, Luisa. (2024). Dicionário dos intraduzíveis: um vocabulário das filosofias. Volume dois: direito, ética, política. Belo Horizonte: Autêntica.

CASSIN, Barbara. (2012). Plus d’une langue. Paris: ‎Bayard.

FRANCETTO, Carla. (2018). “Brasil de muitas línguas”. In.: CASSIN, Barbara & SANTORO, Fernando & BUARQUE, Luisa. Dicionário dos intraduzíveis: um vocabulário das filosofias. Belo Horizonte: Autêntica.