
Após sua primeira crônica, ainda em São Paulo, Mário de Andrade é recebido por Julieta Telles de Menezes no Rio de Janeiro. Conversam sobre arte, e sua sensibilidade de turista aprendiz o faz notar portas, pratos, a manchinha na parede que Menezes tenta esconder… e se espantar com as “anormalidades normais” da grande cidade carioca. A longa viagem do modernista paulista está apenas começando.
Com lançamentos sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mario de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordeste, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Rio de Janeiro (28 de novembro, 21 horas)

O que o Rio de Janeiro tem de principal pra mostrar que é cidade grande são as anormalidades normais… O que me espanta principalmente são certas escadas. Ás vezes nem é tanto pela angustia do terreno, o terreno dava bem: é mesmo já essa doença da adaptação, do aproveitamento — a maior fôrça propulsora da chamada invenção humana…
É por uma escada assim que entrei na casa da cantora Julieta Telles de Menezes. O ambiente é gostoso e dá bom dia prá gente. Censuro apenas a permanencia inquietante daquelas duas portas gemeas, dando lá pra dentro. Não sei, mas isso prejudica um bocado êsse estado-de-alma de visita em que a gente carece de lembrar a fatalidade familiar, da possibilidade de existencia, por exemplo, da duzia de pratos. Está claro que as portas estavam distintamente fechadas porêm jamais uma porta esteve fechada prá uma sensibilidade aguda. E desconfio que a minha é, porquê aquelas duas portas me inquietaram bem.
Felizmente que Julieta Telles de Menezes recebendo, sabe ter essa finalidade da cesta-de-flor; disfarça a manchinha da parede. Logo principiou vivendo com a alegria morena dela e as portas deixaram de funccionar como factores de nossa vida.
O compositor Luciano Gallet estava tambem, e principiamos estudando os tres. Julieta Telles de Menezes e êle preparam atualmente uma tournée de concêrtos de música brasileira. Os dois programas já organisados são interessantissimos e sinto pena de não estar em S. Paulo prá escuta-los e elogia-los ahi.
Principiamos repassando uma obra nova que Luciano Gallet compoz sobre os versos da minha “Toada do Pai do Mato”. É uma peça muito importante e dos momentos mais felizes e integrais ao compositor. Isso de indicar que o acompanhamento pianistico é muito importante já não tem muita novidade mais. Depois de Schubert,, e já faz um seculo pois, acompanhamento de canção até virou ás vezes mais importante que a propria canção. Porêm o que gostei especialmente na parte pianistica dêste “Pai do Mato” de Luciano Gallet é a maneira com que ela se integralisa na canção prá formar um todo expressivo complexo, á maneiro de certo lieder do proprio Schubert. Lembra mesmo pelo valor e eficiencia dramatica o “Rei dos Olmos”. É mesmo uma criação fortemente dramatica, esta obra nova de Luciano Gallet, atinge uma intensidade fascinadora a que os dois temas amerindios empregados pelo compositor ajuntam uma estranheza melodica admiravel. A terceira estrofe é fortissima.
Mas o que eu estava mais apreciando por dentro era a probidade artistica com que Julieta Telles de Menezes e Luciano Gallet trabalhavam. Não se deixava nada pro acaso. Os acentos, as cores de voz, a nitidez ritmica, a dicção, os elementos constitutivos da obra, tudo era comentado, bem discutido, repetido até alcançar aquela verdade artistica a que o povo no geral chama de ardor. Fulana canta apaixonadamente… Sicrano toca piano com ardor… Não tem dúvida que essas frases são verdadeiras porêm ardor, paixão e outras veemencias irregulares da vida, não estão no que o público pensa. A paixão do artista é pela arte dele. O ardor se manifesta no carinho, na paciencia na piedade com que busca dar pro público a arte que êste chamará de apaixonada. Mas, pro artista verdadeiro o que na manifestação dele o público chama de “paixão” não passa das friezas bem calculadinhas que a paixão conquistadora determina e organisa uma por uma prá conquistas com certeza. Não acredito que vivamos de aparencias apenas porêm a arte de verdade incontestavelmente é o mundo de aparencias mais completo que o homem soube inventar…
Não tenho dúvida que os concêrtos Julieta Telles de Menezes e Luciano Gallet serão admiraveis. O que escutei foi tudo esplendidamente realisado. Mas é quasi uma hora e reachei a indiscreção das duas portas. Torna a aparecer em mim, como convite prá partir, a duzia dos pratos. Mas quebrei todos, descendo esta escada por onde, que nem a minha, juro que todas as sensibilidades provincianas cairão.
MÁRIO DE ANDRADE
