Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Rio de Janeiro (29 de novembro, 10 horas)

Mário de Andrade reencontra no Rio de Janeiro o amigo Cícero Dias. O abraço prometido em cartas sai difícil – influências do cinema norte-americano, ele observa. Mas logo retomam o que realmente importa: a arte. Mário esboça uma leitura crítica da obra de Cícero, feita de misticismo, sarcasmo e sexualidade (tudo, menos ingenuidade). O modernista elogia, filosofa… e se deixa afetar pelo destino de um artista que, segundo ele, “nasceu com trem à vista e passagem comprada”. Ah, essa cidade carioca.

Com lançamentos sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordeste, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Rio de Janeiro (29 de novembro, 10 horas)

Visão Carioca, 1965. Cicero Dias (Fragmento de um painel de 8 metros de comprimento). Acervo do Museu do Ingá. Retirada daqui.

Estava lavando o rosto depois da barba e Cícero Dias entra no meu quarto. Achei graça na timidez dele. “Venha logo pro Rio que preciso dar um grande abraço em você”… Assim êle escrevia repetido em várias cartas. ele estivera repetido em várias cartas. Porêm o abraço nosso foi dificil. A influência do cinema norte-americano sobre o abraço brasileiro é uma coisa muita séria. Séria, e nem sou capaz de determinar si boa ou rúim, porquê de fato o abraço tanto tem de inconveniencias como de prazeres. Mas brasileira gosta de abraçar mesmo e sob êsse ponto-de-vista a ignorancia do abraço camarada que ha nos filmes norteamericanos está desraçando uma expressão da gente. 

Cicero Dias entrou, ficou muito desapontado. Afinal nos abraçamos e retomamos a existencia das nossas cartas. Inteiramente está claro que inda não porquê o Cicero Dias das cartas era um bocado mais magro e mais alto. Lembro-me tambem que sentava duma vez só. Este Cicero Dias sem cartas é diferente sobretudo nisso: anda e senta aos pedaços. Todo êle é aos pedaços aliás, menos a arte. Por enquanto ha mesmo um contraste organico entre a arte e o ser Cicero Dias. É quasi ainda o que a gente chama de “meninão”. Nem sei se passou da casa dos vinte. E como entidade êle exprime bem essa curteza de annos vividos. Mas na arte não. E apresenta essa esperiencia antiga que é a fatalidade individualista. 

A aquarela de Cicero Dias é ingenua como expressão, bem sei. Até a comparam com os desenhos das crianças, comparação que acho falsa. Não tem nada que afaste mais a sensação de infantilidade que a parecença com criança. Aqui mesmo no hotel estão uns anõesinhos incompreensiveis, grande sucesso do dia no quarteirão dos cinemas… E não ha nada menos criança do que êles. Criança é vida, da mesma foram que manga ou ticotico. Anão é “fenomeno” no sentido popular da palavra. É êsse contraste insubstituivel na comoção da gente perversa entre os desenhos de criança e os desenhos de Cicero Dias. Aqueles trazem essa equidade justiceira com que a vida vulgarisa as coisas. Já falei uma feita e repito: Si uma vez por outra a criança desenha uma obra-prima isso é acaso raro. No geral os desenhos infantis sob o ponto-de-vista da arte são perfeitamente idiotas e nos interessam por valores que nada têm de plasticos e esteticos. Ora, Cicero Dias é justamente o contrário disso. Possui uma personalidade surpreendente. Possui uma fatalidade de expressão formidavel cujos valores psicologicos principais são sexualidade, sarcasmo e misticismo. Justamente as coisas que a criança menos possui. 

Mesmo nas obras sem representação nenhuma, puros jogos de valores plasticos, êle não tem nada daquela inquietação assombrada com que a criança treme um risco torto no papel e chama o risco de jacaré. Si é certo que muitos dos desenhos de Cicero Dias já são obras magnificas, o que eu admiro principalmente nesse artista novo é a fatalidade quasi tragica com que se exprime. Ele não possui nada de normal. Essa inquietação com que os artistas vão de evolução em evolução, campeando entre influências e expressões originais, a integralidade deles, o… destino, isso este aquarelista não tem. Que pesquisa nobre comove a gente, seguindo a obra de Tarsila do Amaral, Ismael Neri, Anita Malfatti, Manuel Bandeira, por exemplo… Em Cicero Dias nada disso. Não falo que êle não pesquise que nem os outros, pesquisa sim. Mas na obra dele falta bandeirismo: o longe vago buscado. Nasceu com trem á vista e passagem comprada: vai até, suponhamos, Santa Rita do Passa-Quatro. Entre obras excelentes e outras menos importantes, não existe evolução propriamente. A primeira aquarela que fez na vida já podia ter sido uma obra-prima. E apesar de novo já tem algumas… Saimos do hotel, vamos pela rua sem procurar assunto, amigos… gosando esta compreensão mútua, sublime que não obriga a conversar… Rio de Janeiro sempre foi bom pra mim. 

MÁRIO DE ANDRADE