
Chegamos ao início de dezembro. No Rio, Mário de Andrade se detém na figura da mulher carioca. Parte dela para tecer uma crítica ao eurocentrismo e valorizar traços de brasilidade e cosmopolitismo – um cosmopolitismo que nasce da acomodação criadora da nação que elas representam. Na contramão de quem chamava o Brasil de bárbaro por seu contraste com a Europa, Mario enxerga justamente nas cariocas o reflexo de um país novo na América: à brasileira.
Com lançamentos sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Rio de Janeiro (1 de Dezembro, 16 horas)
Moças cariocas, cariocas vivas, que falta de distinção…
A mulher carioca é uma transposição humana da arquitetura de Copacabana. A diferença é que o que esta possui de horrorosa, a carioca possui de brasileira.
Lá na minha São Paulo monotona as mulheres passam desaparecidas, numa igualdade tão gemea que a gente não consegue distinguir umas das outras pela boniteza, pela elegancia ou pela graça. É só o desejo sensual que consegue estabelecer nossa preferencia. Gosto de ti porquê gosto.
A carioca não é apagada assim não. Tem uma fantasia semostradeira no vestido e na carne, uma mau-gosto de oficleide que chama a atenção. As cariocas em tudo são uma por uma. As paulistas são em geral.
E inda por cima o geral da paulista é um geral de importação, muito europeu na discreção do gesto e do traje.
A carioca refugou essa boa-educação européia. Não se póde dizer que ela seja maleducada porêm ela inventou pelas circumstancias da terra e da psicologia uma outra boa-educação. Isso é que torna a carioca com vezes mais brasileira que a paulista. A mulher de S. Paulo apesar da descendencia ítalo-hispano-bandeirante é um tipo raçado, cultivado numa tradição genealogica fatal. A carioca, muito mais uniforme na genealogia, é no entanto muito mais cosmopolita. Esse cosmopolitismo sei bem que deriva da coexistencia do mar que falta prá paulista, porêm o cosmopolitismo da carioca não provêm apenas da Cosmopolis em que para. Provêm muito mais duma acomodação criadora com a nação que ela representa.
Da mesma forma com que os ianques são bem-educados á norteamericana, a carioca é uma boa-educação nova, á brasileira. Por mais que ela se cubra está sempre nua. Não discuto a pureza dela porquê a pureza não depende do mundo exterior e a colocação dela em certas partes do corpo não passa duma simbologia escravocrata que o patriarcado inventou. A carioca é tão pura ou impura que nem todas as mulheres dêste mundo. O que ela tem de mais brasileiro é o tropicalismo da nudez. Os norteamericanos com praias-de-banho, lagos artificiais, natações dançantes e esportes tentaram sistematisar a nudez. Não conseguiram. A nudez pra êles continua uma questão de moda, um manequim epidermico. A nudez da carioca é íntima, é, desculpavel o exagêro, psicologica.
E toda essa maravilha semostradeira que é a mulher carioca reflete um paiz novo da America, uma civilisação que andam chamando de barbara porquê contrasta com a civilisação européa. Mas isso a que chamam de barbarie os deserdados da nossa terra, não passa duma reeducação. Sintoma capitoso de Brasil.
MÁRIO DE ANDRADE
