
No dia 5 de julho, a artista plástica Lena Bergstein inaugura sua nova exposição de gravuras e telas na Galeria Gravura Brasileira, em São Paulo. A série escolhida para a mostra é Galáxias, que reúne 12 telas pintadas em acrílico, com algumas intervenções de oxidações.
Lena Bergstein trabalhou com gravura e metal durante muitos anos, transformando a superfície da chapa em uma espécie de arquivo de impressões, inscrições e marcas — textos escritos e apagados, desfeitos e refeitos. Quando passou para a pintura, as palavras e os textos continuaram presentes em sua obra, como podemos notar nos trabalhos desta exposição.
Neste post, reunimos algumas palavras da artista sobre a exposição, intercaladas de algumas telas da série Galáxia que a integram, e um breve comentário de Feres Lourenço Khoury (FAU-USP).
Exposição Lena Bergstein
05 de julho a 23 de agosto
No dia 5 de julho inauguro uma exposição de telas e de gravuras na Galeria Gravura Brasileira, Pinheiros, Rua Ásia, 219, Cerqueira César, São Paulo. A exposição tem meu nome como título: Lena Bergstein.
Galáxias é o nome da série de 12 telas que serão apresentadas na exposição. As telas expostas são todas pintadas em acrílico, com algumas intervenções de oxidações, e são, para mim, como um firmamento que olhamos à noite, com estrelas que resplandecem, brilham, circundadas de uma densa escuridão.

Essas telas possuem uma grande interação, organizando-se em sistemas múltiplos, sistemas de trocas, numa intersecção de estrelas, poeira de estrelas, como se o conjunto fosse um catálogo de objetos difusos.


Nos trabalhos que chamo de gravuras, trabalho com oxidações em folhas de ouro e cobre. O processo das oxidações é aleatório, acontece e surge sem previsão e sem projeto. A oxidação desfaz as folhas de metal, rasga suas bordas, se fragmenta, deixa na superfície do papel um quase nada trabalhado. Ao se repetir o processo, as cores e marcas vão se superpondo e se somando, adensando os traços, os grafismos e a pigmentação com seus esverdeados, dourados, amarronzados.

Os trabalhos expostos são, para mim, como páginas onde a escrita se mostra na sua conjugação com o desenho, trazendo até nós a memória de um tempo de origem, quando desenho e escrita eram uma só coisa. São escritas, riscos, rabiscos, traços, pequenas figuras geométricas, enfatizando sempre o caráter gráfico do trabalho, na superposição de pintura/desenho e escrita.

Sobre a artista
Lena Bergstein é artista plástica e professora de arte. Trabalha com telas, livros de artista, fotografias e vídeos. Uma obra cuja poética é centrada nas questões da escrita, do livro, das relações entre a pintura e a escrita. Em 1998 é editado o livro Enlouquecer o Subjétil, vencedor do prêmio Jabuti em 1999, criado em parceria com Jacques Derrida, com quem trabalhou durante muitos anos. Apresentou no Museu Nacional de Belas Artes, RJ, março de 2018, a exposição Ficções e a exposição 10 artistas contemporâneos, no Instituto Casa Roberto Marinho, abril de 2018, RJ. Em 2023 terminou seu livro Um diário em aberto. Site: www.lenabergstein.com.br
Lena Bergstein
Por Feres Lourenço Khoury (FAU-USP)
Ut pictura poesis. [“Assim como a pintura, a poesia.”]
Horácio, Arte poética
Galáxias
No céu, o firmamento: rutilam palavras, figuras, riscos e rabiscos transmutados em matéria cósmica, poeira luminescente, que brilhantes volteiam etéreas na noite ultramarina. No céu, a presença da passagem dos tempos, onde muitos buscam a origem da potência da Obra.
Adentrando no lusco-fusco anilado saltam poeira e matéria cósmica, modificados num vocabulário de frases, geometrias e inúmeros fragmentos gráficos desenhados na superfície das telas.
A lógica da Obra está no enigma destas passagens: paisagem sem horizonte, ausente de perspectiva, superfície vibrante. Aqui temos distintos elementos sinalizadores de sentido. Lena nos oferece páramos, lugares, caminhos, atalhos, evocando no percurso visual seus escritores preferidos, como Giorgio Agamben, o poeta Mahmud Darwich, Osip Mandelstam e outros, cujas vozes se conectam em suas contradições. Desta forma, seus desenhos, suas colagens, sua pintura e sua escrita, como escolhas técnicas, tecem sua linguagem de artista, conjugada em um pensamento plástico que explora a manifestação poética única e pessoal de sua visão do mundo.
A partir de uma prática artística elaborada e de uma linguagem repleta de sensibilidade, vemos em seus trabalhos “interações de sistemas múltiplos, sistemas de trocas”, segundo Lena, onde cada signo, cada sinal gráfico, objetiva novas significações e assim reescreve a origem, o tempo e o cosmo azul em outros parâmetros de significados. Cabe a nós interpretar os sentidos de sua arte.
O uso da escrita na forma caligráfica com suas aparições fantasmáticas e outros signos repercutem como uma voz constante que celebra a intertextualidade das linguagens.
Palimpsestos
As gravuras apresentadas oferecem palimpsestos, similares aos antigos pergaminhos, onde a matéria metálica é dilacerada pela oxidação. As folhas de ouro e tinta mineral fundem-se e, na aleatoriedade, originam na superfície do papel marcas, registros, palavras avulsas, ferimentos, grafismos; com a pigmentação verdejante, ganham vida poética.
Estamos diante de um processo alquímico de mutações gráficas, de uma experiência química cara aos processos de gravação no metal. Aqui, não no cobre, por exemplo, mas no papel, fibras orgânicas sensíveis que transmutam o ouro e outros elementos num inusitado processo de destruição e de construção no pensamento gráfico.
Rasgam-se as bordas do papel, fragmentam-se suas partes: eis a gravura em uma nova forma.