
A BVPS Edições dá início hoje à Ocupação Orgulho LGBTQIAPN+ com textos de Maximiliano Torres (UERJ) e Cleverson Fleming (PPGSA/UFRJ).
Torres aborda o romance A palavra que resta (2021), do escritor Stênio Gardel, que, em sua superfície, trata da homossexualidade e do amor impossível entre dois rapazes. Em profundidade, no entanto, revela, por meio das memórias de um protagonista gay, idoso, pobre e analfabeto, um retrato das múltiplas faltas que marcam a sociedade brasileira. Fleming, ao analisar o livro Coisa feita – Dois Preto apaixonado na cama (2024), de Felipe Jordan, evidencia como a obra articula amor, desejo, sexualidade e crítica social a partir das vivências de pessoas pretas no Brasil, e, nesse movimento, sua leitura crítica também revela como ao longo da tradição literária, raça, classe e gênero orientaram a inscrição de corpos e desejos na sociedade, com ciências e letras reforçando tais codificações.
Para saber mais sobre a Ocupação Orgulho LGBTQIAPN+, confira a apresentação aqui. Não perca as novas postagens, que serão publicadas ao longo do final de semana.
Boa leitura!
Coisa feita: elogio a uma poética no “corpus das diferenças”
Por Cleverson Fleming (PPGSA/IFCS/UFRJ)
cabeceira: quando dois homens pretos se amam, o argumento que nos mata morre no susto. esse tipo de amor que existe nas quebradas, do curuzu ao Vidigal, existia nas senzalas mais constrangidas e nos quilombos mais corajosos. e, no entanto, não é representado nas exposições do masp, nem na literatura clássica, nem na lista das mais ouvidas da billboard. este livro vem prestar contas desta profunda unidade (Felipe Jordan, 2024: 11).
As palavras da epígrafe introduzem a sequência de poemas reunidos no livro Coisa feita – Dois Preto apaixonado na cama (2024), de Felipe Jordan. Agraciado com o prêmio Caio Fernando Abreu de Literatura em 2023, pela mesma obra, Jordan é natural de Camaçari (BA), com circulação na América Latina e em outros contextos internacionais. Atualmente, mora em São Paulo (SP) e atua como poeta, dramaturgo e compositor.
A coletânea reúne quarenta e um de seus poemas, além de um posfácio, intitulado “O som do beijo de dois homens pretos”, escrito pelo também poeta Marcelo Ricardo (2024: 119-122). Nela, a partir de suas singularidades, Jordan compartilha experiências sociais que abordam amor, desejo, sexo, (homo)sexualidades, sonhos, inquietações, dilemas e olhares críticos sobre o passado, o presente e os projetos de futuro concernentes, sobretudo, às existências das pessoas pretas no Brasil.
Enquanto homem cisgênero, gay, morador de periferia e sociólogo dedicado ao estudo das figurações de masculinidades e dos homoerotismos constitutivos da história das ideações sobre o Brasil e suas populações, ao apreciar os poemas de Felipe Jordan, foi inevitável rememorar meu primeiro contato com Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, publicado em 1895 – um encontro um tanto desgostoso, ocorrido em 2006, durante as aulas de literatura no ensino médio. Aqui, partilho e atualizo essa memória:
[…] passo quase toda a tarde com a leitura, sentado no pátio da escola, aos pés da “minha árvore”. Ao terminar, estou indignado. “QUE ÓDIO!”. Alguém me pergunta: “O que aconteceu?” e eu respondo: “sempre destroem a nossa história! Ou nos suicidamos, ou somos assassinados, ou terminamos doentes. Enfim… esse aqui se superou! Destruiu nosso amor: fez de um, um aproveitador barato; do outro, um monstrengo louco, alcoólatra, abusador e criminoso passional. Desisto de procurar algo legal sobre nós nessas estórias de filmes e livros”.
Aqui, reconsidero aquela percepção. Certas leituras não puderam ser descartadas, afinal, concluir o ensino médio dependeu dos aprendizados – que, ainda hoje, elas seguem oferecendo – sobre as dinâmicas socioculturais do país. Ainda assim, após a indignação provocada por Bom-Crioulo, consolidou-se uma postura crítica diante de estórias e registros que abordam nossas experiências sem considerar o que – de modo mais legítimo – elas por si mesmas têm a dizer.
Foi a partir dessa desconfiança que se realizaram, por exemplo, as leituras posteriores de O Ateneu (Raul Pompeia, 1888) – que, pelos mesmos motivos, também causaram-me certa frustração – assim como a observação das enigmáticas relações de camaradagem entre “Bentinho” e “Escobar”, em Dom Casmurro (Machado de Assis, 1899) – essas que, por sinal, embora não tenham sido comentadas pelo professor, nos entretinham, a meus amigos e eu, nas conversas das horas vagas, enquanto afinávamos nossos “gaydars”[1].
Hoje, munido com os repertórios das Ciências Sociais e de certo letramento racial constituído tanto por elas quanto pelo que, experimentalmente, venho chamando de corpus das diferenças[2], ao retomar essas primeiras impressões, creio apreender, em certa medida, alguns dos sentidos mas amplos – porque também sociológicos – implicados naquelas palavras iniciais destacadas do livro de Jordan.
Por meio delas, o autor nos conduz, ao longo de toda a coletânea, a uma experiência estética cujos efeitos – se posso me valer dos termos de seu amigo Ricardo (2024: 121-122) – agem “como caixas de som estrondando os estribilhos dos canônicos”, um “ruído negro do passe quicado, que percute sempre-já deslizando som” em uma “fricção capaz de despencar a história do vencedor que alvejou nossa oralidade” e certas particularidades pelas quais expressamos nossas versões corporificadas do mundo.
Isso porque, ao nos embalar num suingue de mirada sankofa[3], convida-nos a retornar a veredas, caminhos e encruzilhadas constitutivos da história social brasileira e, de forma crítica, “acertar contas” com determinadas lógicas de biopolítica (Foucault, 1999: 289-292) que, não é segredo, por meio de dispositivos específicos de sujeição e subjetivação – individuais e coletivos, envolvendo gênero, raça-cor-etnia, classe social e sexualidade –, ainda hoje nos interpelam ao reproduzirem inúmeras desigualdades, sobretudo aquelas relacionadas à subalternização das pessoas pretas, seus corpos, cosmologias e subjetividades.
[…] o único lugar onde o homem preto
é fartamente apresentado
e minuciosamente exibido
é na lista dos vídeos mais assistidos
do pornohub e do xvídeos
pra eles somos burros,
não temos crises existenciais,
somos umas bestas
quantas vezes, me digam,
quantas aparecemos sensíveis e humanizados
nos livros da companhia das letras?
[…]
hoje
nós homens pretos
Somos piada e fetiche
pro mundo moderno
mas podem anotar:
eu e os meus amigos
vamos mudar isso
com borracha, caneta e caderno (Jordan, 2024: 106-107).
Não por acaso, a partir de Dois preto apaixonado na cama, retorno às leituras de Bom-Crioulo e de alguns romances que lhe foram contemporâneos. Com a mirada sankofa jordaniana – isto é, voltando-se ao passado com os pés firmemente plantados no presente e os corpos inclinando-se ao futuro –, após nos deleitarmos com esses textos e compararmos seus conteúdos, seja do ponto de vista da experiência estética, seja de seus pressupostos críticos, torna-se inevitável empunhar “borracha, caderno e caneta” para redesenhar, desde o agora, os caminhos de uma história marcada por exclusões. Trata-se de rever narrativas que, por muito tempo, contribuíram para legitimar violências simbólicas e normativas que, de modos bem concretos – para não dizer letais – ainda nos atravessam.
Partindo dessas premissas, ao retornarmos a “Amaro”, o primeiro protagonista efetivamente homossexual – no sentido foucaultiano (2023) – da literatura brasileira, não causa surpresa que se trate da figuração de um homem negro. Afinal, do ponto de vista sociológico, tal escolha não parece ter sido fortuita: na gramática da universalidade pós-colonial tupiniquim, essa marcação é carregada de sentido. Isso se evidencia, sobretudo, quando examinamos esses romances por meio de leituras analítico-contextuais (por exemplo: Araújo Correa, 2023; Braga-Pinto, 2018; Miskolci, 2012).
Seguindo nessa direção, vale lembrar que o romance de Adolfo Caminha foi publicado em 1895, portanto, em um momento em que – retomando aquelas preleções de Foucault (2023) – o dispositivo da sexualidade, engendrado na Europa desde o século XVIII, consolidava-se ao longo do XIX e se expandia pelas demais regiões do Ocidente. No Brasil, esse processo de aclimatação teve como principais portadores sociais homens brancos, ou socialmente brancos, pertencentes às elites econômicas, intelectuais e políticas do país.
Averiguando-se o contexto de transformações e dilemas colocados aos meninos e homens pertencentes a essas elites na época, é possível compreender certas finalidades imbricadas a um corpus literário e “científico” direcionado às suas formações e que, em menor ou maior grau – a partir de pressupostos bem peculiares (classistas, racistas, sexistas, etaristas, homofóbicos e capacitistas) –, passou a atinar para a problemática da sexualidade e suas “perversões”. Considerando-se, então, os modos como a homossexualidade, os demais homoerotismos e camaradagens, colocadas sob suspeita, foram tratados em certos romances contemporâneos ao Bom-Crioulo – como, por exemplo, em O homem gasto (Ferreira Leal, 1885) e nos já citados O Ateneu (1888) e Dom Casmurro (1899) –, ao se cotejá-los, percebem-se alguns dos motivos daquele meu apontamento sobre a peculiaridade do “protagonismo” de Amaro.
De modo que, se em todas as narrativas daqueles romances a homossexualidade e seus correlatos são abordados de forma pejorativa – ora como delitos contra a natureza, ora como sinônimos de doença ou degeneração –, é apenas em Bom-Crioulo, mais precisamente na figura do protagonista Amaro, que ela é fixada como uma identidade supostamente natural e, simultaneamente, como exemplo das masculinidades abjetas. Já as expressões de afetividade erótica observadas tanto na personagem Aleixo – grumete por quem Amaro se apaixona – quanto nos demais protagonistas e personagens homoafetivos dos outros romances – todos brancos, ou brancos à brasileira – são tratadas, no entanto, como mero “prurido de passividade…” (Caminha, 2013: 48). Isto é, como um “desvio” que, embora demandasse correções conforme as mentalidades da época, era compreendido como uma prática relativamente comum entre certos jovens – perspectiva que também reaparece, décadas mais tarde, nas figurações propostas, em artigo de 1921, pelo autor de Casa-grande & senzala (1933). Gilberto Freyre as descreve, implicitamente, como um “byronismo de juventude”: espécie de “tributo” pago “entre os dezessete e os vinte e dois anos”, por “certas naturezas delicadas, sensitivas, intensamente intelectuais”, cuja “angústia” se pacificaria com o tempo e o domínio mais amplo de si mesmos (Freyre, 2016: 105).
Essa diferença de tratamento é sintomática. Enquanto a homossexualidade de Amaro é racializada e patologizada como traço essencial de sua identidade – ligando-a à figura do desvio perigoso e à masculinidade estigmatizada –, nos demais casos ela se apresenta como etapa transitória, quase ritualística, no processo de amadurecimento dos jovens brancos pertencentes às elites. Essa dualidade evidencia um duplo padrão que associa a homossexualidade negra à perversão irredimível, ao passo que a homoafetividade branca, quando admitida, é suavizada como uma fase passageira, compatível com a sensibilidade e a intelectualidade “excessiva” daquela juventude projetada como portadora dos ideais de cidadania então emergentes em nosso meio.
Nesse sentido, a leitura crítica desses componentes do nosso corpus literário revela como os marcadores raciais, de classe e de gênero operaram – sob novos moldes – a constituição de camadas sobrepostas, orientando a forma como certos corpos e desejos foram inscritos em nossas tessituras sociais. Contribuindo ativamente nesses processos, as ciências e as letras não deixaram de operar as suas codificações, ao modulá-los ora como tragédia inevitável, ora como leve desvio redimido com o tempo.
Creio não ser necessário, neste momento, tecer comentários sobre o desfecho de Bom-Crioulo. As reflexões a seu respeito – assim como sobre as demais narrativas de Ferreira Leal e de Pompeia, que, para além dos propósitos delimitados nestas notas, também merecem leitura atenta – ficam reservadas para outra ocasião. Destaco apenas que, em perspectiva comparada, seus exames permitem entrever as profundas contradições sociais engendradas pela branquitude[4] tupiniquim, especialmente no que diz respeito à codificação das expressões de sexualidade e a determinadas estratégias político-discursivas. Por longo tempo, tais estratégias, voltadas à preservação de interesses e poderes de mando, atuaram biopoliticamente, comprimindo corpos e subjetividades – reduzindo-os à abjeção – e, ao mesmo tempo, sufocando as possibilidades de avanço dos valores, das institucionalidades e das relações democráticas no país (Fleming dos Santos, 2023; Miskolci, 2012).
Daí este meu elogio a Dois preto apaixonado na cama. Reitero que a experiência estética por ele proporcionada persuade de que os “argumentos” e ações “que nos mata morre de susto” – sobretudo porque, quando amamos, como no poema “SÍSIFO” (Jordan, 2024: 21-20), nossas experiências corporificadas subvertem e resistem às potências mais contingentes. “IMAGINEM VOCÊS”: mesmo quando condenados, somos capazes de inverter os agentes, as gramáticas, as estéticas e as institucionalidades coloniais e pós-coloniais. Ao contrário daquele e de outros, figurados por terceiros, os nossos Amaros – ainda que a contrapelo – aprendem e (re)aprendem “todos os dias”, ou melhor, “a cada 23 minutos”, a driblar a morte (Jordan, 2024). E fazem isso abraçando plenamente suas sexualidades – não como identidades totalizantes, redutoras de si ou de suas alteridades. Muito menos, para satisfazer os desejos, glosas ou narcisismos da branquitude.
Nossas formas de amar não cabem nos grilhões do dispositivo heterossexista compulsório. Afinal, “Você já viu alguém amarrar o amor / numa camisa de força? / se alguém pensa que pode fazer isso. / tenha certeza que essa sim é uma pessoa doida!” (Jordan, 2024: 65). Nossos protagonistas não têm medo de vivenciar o amor e o sexo abertamente e os compreendem, de suas próprias maneiras, enquanto aspectos da vida consubstanciados. Pois, “quando um homem preto se apaixona” (Jordan, 2024: 23-24), ele “sente que está vivo”, “ele sonha”, “ele luta”, “ele senta na cadeira do barbeiro” e “o mano saca que tem alguma coisa diferente”. Olhando “o mundo da janela do busão, ele percebe que / dignidade é uma parada que vai além de ter casa e / comida no prato, isso é necessidade básica e dever / constitucional” (Jordan, 2024: 24). E, como essa paixão não se dá num vazio de relações sociais, igualmente lhe cerceiam algumas das mesmas inquietações compartilhadas pelas outras masculinidades:
[…] será que o cara que ele ama também está na mesma fita?
e se ele contar pros parceiros
mas e se os parceiros sair espalhando pra geral que ele é
emocionado?
todo mundo tá ligado que não faz dois meses ele tava
na mesma brisa – só que com outra pessoa.
foda-se. senta que lá vem podcast no grupo (Jordan, 2024: 23-24).
Se decide escrever sobre esses seus amores, paixões e experiências, é
[…] com a mão no pau, fazendo o corpo pensar por inteiro. Ele exibe, longamente, como um beijo de dois que atravessa stories somente para os close friends. Num destacar de lascas de pau, em um despir escultórico, que põe em riste o ogó de Èsù, que está posto desde já na entrada do seu livro (Ricardo, 2024: 120-121).
Por isso mesmo, não é ingênuo, seja nas expressões escritas, nas oralidades, nas ações, comportamentos, pensamentos, emoções, amores e desejos; sabe que as diferenças, complexidades e mesmo contradições dessas corporificações de suas experiências, sempre-já, só puderam se afirmar porque, há muito, tiveram de se fazer valer nas tanto tensas quanto emaranhadas teias de poder-saber constitutivas das relações sociais. Não obstante, também por meio de redes comunicativas, assentando acordos e firmando laços de solidariedade como quem, à moda de Felipe Jordan, sai plantando baobás pelo mundo.
E, se tanto é preciso quanto ainda há muito a ser feito para se prestar contas com a profunda biopolítica que nos matou e nos mata, física e subjetivamente, todos os dias pelo Brasil afora – objetivando, de modo fanático e letal, certas presunções de “verdade” e de “universalidade” –, felizmente, podemos contar com os agenciamentos das artes, das ciências, das micropolíticas e das encantarias dos muitos que, assim como o nosso poeta, afastam Ikú[5] nas horas que não são nossas. São eles que nos inspiram a reinventar os modos de habitar nossos próprios corpos, subjetividades, experiências, relações e territórios. E, nesse gesto, seguimos desobedecendo, fabulando e existindo – apesar de tudo.
Afinal, sem as nossas diferenças, não há universalidade que se sustente!
Notas
[1] Gíria comum entre pessoas homoafetivas, em certos contextos brasileiros, para designar tácitos reconhecimentos mútuos.
[2] Forjo o termo embasando-o nas concepções críticas de Michel Foucault (1986: 244-245), sobre a noção de “dispositivo”. Com ele, minha intenção é endossar as gramáticas, institucionalidades e práticas sociais agenciadas pelos atores das diferenças, apoiadas em valores democráticos; na promoção dos direitos dos sujeitos historicamente vilipendiados nos processos de consolidação dos Estados-nação; e, também, numa específica modalidade de cosmopolitismo emergente no contemporâneo (Santiago, 2013: 251-258; 2004: 54-63). Em síntese, ao mobilizá-lo estou me referindo a um conjunto de agenciamentos que, ao forjarem novos modos de corporificação de subjetividades individuais e coletivas, passam a assentar as diversidades de experiências socioculturais como possibilidade de (re)escritura crítica do passado, reinventar o presente e projetar futuros – isso, tendo em vista a mitigação das inúmeras desigualdades, especialmente, as que interseccionam classe, raça-cor-etnia, gênero e sexualidades.
[3] Símbolo representado como um pássaro mítico que voa para frente, tendo a cabeça voltada para trás, carregando um ovo com o bico. Tem origem entre os povos de língua Akan, da África Ocidental e, conforme um provérbio de suas tradições, “se wo were fi na wosan kofa a yenki” [se você está com raiva e retira o que disse, não ouvimos], pode ser entendido como “não é tabu voltar atrás e buscar o que se esqueceu”. Ou, ainda, tal como é mobilizado por alguns integrantes dos movimentos negros, no Brasil, “voltar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”.
[4] Refiro-me a uma forma muito particular de racismo e de corporificação social das desigualdades que, historicamente, no Brasil, constituíra-se tanto pelo “colorismo” (Devulsky, 2021) ou “preconceito de marca” (Nogueira, 2006) quanto por expectativas de enquadramento moral que aproximam ou distanciam pessoas ao valorizar, sobretudo – mas não somente –, ideações da masculinidade hegemônica branca – ou socialmente branca – perseguidas por determinados homens pertencentes às nossas classes dirigentes nas esferas intelectuais, artísticas, políticas e econômicas, mesmo que, paradoxalmente, inseguros de seu status “racial”. Ideações essas, também, constitutivas de certos laços de cumplicidades entre dominadores e dominados, e que, portanto, (in)consequentemente, implicam na (re)produção de hierarquias e desigualdades.
[5] Nas liturgias e preceitos das religiões brasileiras de matrizes africanas, como o Candomblé, Ikú se refere à morte.
Referências
BRAGA-PINTO, César. (2018). A violência das letras: amizade e inimizade na literatura brasileira (1888-1940). Rio de Janeiro: EdUERJ.
CAMINHA, Adolfo. (2013). Bom-Crioulo. São Paulo: Martin Claret.
DEVULSKY, Alessandra. (2021). Colorismo. São Paulo: Jandaíra.
FOUCAULT, Michel. (2023) História da sexualidade (1 vol.). Rio de Janeiro: Paz & Terra.
FOUCAULT, Michel. (1999). Aula de 17 de março de 1976. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes.
FOUCAULT, Michel. (1986). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal.
FREYRE. Gilberto. (2016). Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor (1918-1926). São Paulo: Global.
FLEMING DOS SANTOS, Cleverson. (2023). Cotejando o gênero: figuras de masculinidades na obra de Gilberto Freyre. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1S9U8PSsHSStYECZD8HOQxps5F1jxucDz/view
JORDAN, Felipe. (2024). Coisa feita – Dois preto apaixonado na cama. São Paulo: Reformatório.
MISKOLCI, Richard. (2012). O desejo da nação: masculinidade e branquitude no Brasil de fins do XIX. São Paulo: Annablume.
NOGUEIRA, Oracy. (2006). “Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem”. Tempo Social, revista de sociologia da USP, São Paulo, v. 19, n. 01, pp. 287-308.
RICARDO, Marcelo. (2024). “O som do beijo de dois homens pretos”. Posfácio. JORDAN, Felipe. Coisa feita – Dois preto apaixonado na cama. São Paulo: Reformatório.
SANTIAGO, Silviano. (2013). Aos sábados pela manhã: sobre autores e livros. Rio de Janeiro: Rocco.
SANTIAGO, Silviano. (2004). O Cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte: Editora UFMG.
Cleverson Fleming é doutorando em Sociologia (PPGSA/UFRJ). Mestre em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ). Especialista em ensino de sociologia na Educação básica (CESPEB/UFRJ). Licenciado em Ciências Sociais (UFRJ). Desde 2016, é professor de sociologia e filosofia na Rede Estadual de ensino do Rio de Janeiro (SEEDUC/RJ). Dedica-se a estudos nas áreas de Teoria Sociológica, Pensamento Social Brasileiro, Estudos Interdisciplinares de Gênero e Ensino de Sociologia na educação básica.
