BVPS Celebra | Elide Rugai Bastos recebe o Prêmio Florestan Fernandes

A BVPS celebra o Prêmio Florestan Fernandes concedido a Elide Rugai Bastos na tarde de hoje, 15 de julho, durante a abertura do 22º Congresso Brasileiro de Sociologia. O prêmio da SBS reconhece a destacada trajetória intelectual da professora emérita da Unicamp, marcada pela contribuição ao pensamento social brasileiro e pelo papel fundamental na formação de gerações de sociólogos e sociólogas.

Neste post, publicamos as palavras de André Botelho (UFRJ), responsável pela apresentação de Elide durante a cerimônia de premiação.

Parabéns, Elide!


A coragem e a coragem da sociologia

Por André Botelho (UFRJ)

Cumprimento o presidente do 22º Congresso Brasileiro de Sociologia, nosso anfitrião, professor Sérgio Adorno. A professora Edna Castro e toda a diretoria da SBS por ela presidida e seu Conselho Científico. É uma grande honra ter sido escolhido por vocês para apresentar a professora Elide Rugai Bastos ao Prêmio Florestan Fernandes. Muito obrigado!

Cumprimento as colegas também agraciadas com o prêmio, professoras Fernanda Sobral e Maria Arminda do Nascimento Arruda, com quem tive a oportunidade de trabalhar em momentos diferentes pela sociologia brasileira.

Anos atrás, em 2017, numa homenagem à Elide na Unicamp, usei a ideia da sociologia como coragem para caracterizá-la. Me deu imensa alegria ver a própria homenageada, anos depois, em 2022, numa mesa na ANPOCS, refletir sobre a expressão — e, claro, o fato de outros colegas também recorrerem a ela para falar sobre a Elide.

“A ‘Sociologia como coragem’ refere-se à necessidade de a sociologia brasileira assumir uma postura crítica e engajada diante dos desafios impostos pela realidade social do país, especialmente em contextos de crise e desigualdade”. 

É o que leio quando busco a expressão no Google. Mas, embora correta, a IA não é precisa. Falta-lhe algo que poderíamos chamar de sentido, aquilo que, de certa forma, Max Weber já identificara como central na orientação das condutas na ação social.

Coragem. Do latim coraticum (cor + -atĭcum): associação entre a palavra cor, que tem como um dos significados a palavra coração, e o sufixo -atĭcum, que é usado para indicar a ação da palavra que o precede. CORATICUM seria, então, literalmente, ação do coração. Isto porque se acreditava que era neste órgão que a coragem se alocava. Eu compartilho dessa crença. Sobretudo no que diz respeito à Elide. Em seu coração está sua coragem. Elide é a pessoa mais corajosa que conheço.

Hoje professora emérita da Unicamp, Elide tem vasta e reconhecida obra publicada e reeditada, sobretudo na área do pensamento social, da qual é uma das pioneiras, com tese de doutorado sobre Gilberto Freyre defendida em 1986. Prestou inúmeros serviços à nossa comunidade — na CAPES, na ANPOCS, na criação do atual Comitê de Pesquisa em Pensamento Social da SBS e, por muitos anos, na FAPESP. Em sua longa e rica trajetória intelectual, dois aspectos se destacam na contribuição de Elide à sociologia: sua constante indagação sobre o sentido dos fenômenos sociais e a maneira como soube transformar essa inquietação em reflexão crítica e aprofundada.

Primeiro, o sentido democratizante das mudanças. Não se trata, por óbvio, de negar que houve mudanças sociais e uma ampliação inaudita das formas de participação nas últimas décadas. A análise das formas de participação social não pode limitar-se, porém, a correlacionar variáveis estruturais e mudanças institucionais, como se a democratização político-institucional levasse necessariamente a um círculo virtuoso de incremento associativo e maior controle democrático. Antes, à medida que as próprias instituições políticas interagem — de maneira tensa ou acomodatícia, a depender das forças sociais em disputa — com o legado de uma sociedade fragmentada, excludente e autocrática, uma perspectiva histórica é fundamental para se entenderem as reviravoltas na espiral de democratização do Brasil contemporâneo.

Segundo, o papel das interpretações dos atores sociais e dos intelectuais no conflito sobre o sentido das mudanças. Pesquisadores da área de pensamento social brasileiro, estamos sempre desafiados a repensar nosso repertório intelectual e analítico ante os desafios do presente. Compreendidas como espaço reflexivo de comunicação entre presente, passado e futuro da sociedade, as interpretações do Brasil nos ajudam justamente, então, a ganhar perspectiva para entender o processo social reflexivo que o nosso presente ainda oculta e, desse modo, quem sabe, consigamos realizar uma crítica consistente do presente.

Não por acaso, esse prêmio, desconfio, terá um sentido muito especial para você, Elide. Há quantas e quantas décadas você se debruça sobre a obra de Florestan Fernandes e sobre a coragem da sociologia crítica a que ele deu vida. Mas não apenas como uma especialista na história da sociologia — o que já seria suficiente —, também como alguém que tem a coragem de testar as ideias de Florestan no nosso próprio tempo. E de assumir limites e defender as potencialidades de sua sociologia na periferia do capitalismo. Aguardem, queridas e queridos colegas, o novo livro de Elide Rugai Bastos, a ser lançado em breve pela Editora Vozes: A máquina das desigualdades: Florestan Fernandes interpreta o Brasil.

Muito obrigado! E parabéns, Elide!

Elide Rugai Bastos (à direita) com os amigos André Botelho e Lilia Schwarcz na cerimônia de premiação da SBS